10 de outubro de 2014

Enquanto os curdos são massacrados pelo EI em Kobane, os EUA bombardeiam silos de trigo na Síria

Quando liberais vão à guerra

Ajamu Baraka

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os EUA lançaram uma curiosa guerra humanitária contra o Estado Islâmico (EI) na Síria. Enquanto Kobane, o distrito de maioria curda, que fica na fronteira com a Turquia está sendo atacado por forças EI e diante da possibilidade muito real de mortes em massa de civis se chegar a cair, porta-vozes militares dos EUA dizem que estão monitorando a situação e fizeram missões ocasionais de bombardeios, mas que concentram seus esforços contra o Estado Islâmico (EI) em outras partes da Síria. Estes esforços parecem estar bombardeando prédios vazios, escolas, pequenas instalações de bombeamento de óleo, um veículo ocasional e silos de trigo em que os alimentos são armazenados. A Turquia também parece estar observando enquanto os curdos de Kobane lutam até a morte contra o Estado Islâmico (EI).

A preocupaçõe humanitária de funcionários nos EUA com o destino dos curdos no Kobane não poderia ser mais diferente do que ocorreu no Iraque, quando as forças do Estado Islâmico (EI) atacaram território curdo. Enquanto a cidade curda de Erbil foi atacada pelo Estado Islâmico (EI), as forças americanas desencadearam todo o poder da sua força aérea, em coordenação com as forças curdas para expulsá-lo de volta.

Então, qual é a diferença entre as duas situações?

A diferença e o motivo pelo qual os curdos de Kobane são sacrificados se deve a que são o tipo inapropriado de curdos. Massoud Barzani e a burguesia curda do Partido Democrático Curdo (KDP) são os “bons” e os curdos da força dominante entre os curdos do Iraque. Seu controle de cerca de 45% das reservas iraquianas de petróleo e o negócio em expansão em que estiveram envolvidos com as empresas de petróleo dos EUA e Israel desde a sua “libertação” pela invasão americana torna essa população em um ativo valioso para EUA. O mesmo se aplica à Turquia, onde, apesar da opressão histórica dos curdos na Turquia, o governo tem um sólido negócio com os curdos no Iraque.

A situação é completamente diferente nas áreas de auto-governo curdo na Síria. Em Kobane, as principais forças que resistem ao ataque de EI são das Unidades Kurdas de Proteção Popular, ou YPG, que estão ligados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização para a independência curda baseada na Turquia, que EUA e Turquia têm rotulado como “terrorista”. Além disso, o ataque do EI ao território curdo converge claramente com os interesses estratégicos da Turquia. Ambos EUA e Turquia veem o controle do território por militantes curdos como uma ameaça. Turquia, em particular, quer enfraquecer o processo de auto-governo entre curdos, árabes sunitas e cristãos nas áreas de auto-governo e transformar o país em um campo de batalha para roubar território sírio, isolar e atacar os “maus” curdos do PKK.

A Turquia pressionou para conseguir e aparentemente obteve um acordo dos Estados Unidos de não se opor a que se apodere de partes do território da Síria. Para consolidar essa apropriação de terras a Turquia também quer estabelecer uma “zona tampão” ao longo da fronteira sírio-turca. Assim, os porta-vozes do governo dos EUA foram propagando a ideia de uma zona de exclusão aérea no nordeste da Síria nos meios de comunicação estatais e corporativos em seu país. A área está sendo apresentada como necessária para proteger os civis dos ataques das forças sírias, usando novamente o engano humanitário.

No entanto, não haverá intervenção humanitária em favor dos curdos “maus” da Síria como não houve para os palestinos “mau” do Hamas e Gaza.

Para aplacar o governo turco, em troca do aumento de sua cooperação no que se prepara como um esforço final contra Damasco, a população de Kobane será entregue ao EI.

A transparência do plano da Turquia e a colaboração dos EUA no massacre planejado dos combatentes do YPG em Kobane poderia ser facilmente esclarecido nos EUA. Se os leitores das noticias da imprensa corporativa pudessem realmente “ver” o mundo de uma forma mais crítica e, se lhes fosse permitido questionar as narrativa oficialmente aprovados sem correr riscos de perderem seus “cargos”. Por exemplo, a pergunta óbvia a respeito de uma zona de exclusão aérea no nordeste da Síria é se é de fato necessária , já que apenas os civis curdos são atacados nessa área e são atacados pelas forças de Estado Islâmico (EI) que não possuem uma força aérea, pelo menos não ainda.

Mas essas perguntas não são formuladas, muitas vezes, porque elas não se encaixam na narrativa oficial dos EUA que é forçada a agir mais uma vez para salvar o mundo de um inimigo intransigente e que só pode ser derrotado pelo poder militar americano. Isso tudo faz parte do engano imperialista que chegou a convencer grandes segmentos da “esquerda” nos EUA.

No entanto, o não bombardeio do Estado Islâmico (EI) em Kobane e o teatro do bombardeio de determinados edifícios, vazios, confirmam o que deveria ser óbvio a partir do histórico de intervenções americanas, o real propósito da intervenção dos EUA no Iraque e na Síria é a reintrodução do seu poder militar direto na região para garantir o controle permanente dos recursos de petróleo e gás natural da região, enfraquecer o Irã, bloquear a Federação Russa e romper acordos de cooperação econômica e comercial entre os países da Ásia Central e China. Em outras palavras, o objetivo é garantir a hegemônia capitalista/colonial ocidental. Os EUA e seus aliados só precisavam de um pretexto para voltar a se impor sem alienar grande parte da população do interior. O Estado Islâmico (EI) ofereceu o que ataques com gás sarin não puderam conseguir, a aceitação em massa de uma nova guerra do Ocidente, não importa o quão limitada se apresente em sua primeira fase.

Os militaristas do establishment político americano nunca quiseram abandonar os planos de uma presença militar permanente no Iraque, mesmo antes do fato de que, manter esta presença, estava custando ao país um preço enorme em sangue, dinheiro e legitimidade interna. Eles concluíram que o caminho de volta para Bagdá e depois a Teerã passava pela Síria. Uma posição que Obama adotou no início de sua administração, apesar dos informes em contrário. Tudo o que Obama queria era uma negação plausível, durante a primeira fase do plano para desestabilizar a Síria.

A situação atual em Kobane forma parte da farsa cínica que é a luta contra o Estado Islâmico (EI). A Turquia não tem interesse em impedir que Kobane caia nas mãos de Estado Islâmico (EI), se nega aos curdos qualquer coisa parecida com auto determinação, o que corresponde a seus interesses estratégicos. E os EUA não estão interessados em alterar o equilíbrio de forças no terreno na Síria degradando seriamente ao Estado Islâmico (EI) militarmente e enfraquecendo seu principal objetivo a curto prazo de uma mudança de regime na Síria.

Com a criação do Estado Islâmico (EI), os neoconservadores e intervencionistas liberais têm agora a sua guerra e uma parte significativa do público americano dando o seu apoio, pelo menos por agora. Mas esse apoio irá mudar à medida que se torna claro que a elite política voltou a lançar os EUA num atoleiro. A verdadeira vergonha e expressão da contradição da supremacia global, branca, capitalista/ colonial e que até que esta percepção se imponha entre as pessoas que estão no centro do império e se mobilizem para alterar as políticas bélicas dos EUA, milhares de pessoas vão morrer em Kobane e por toda a Síria, Iraque e em todo o mundo.

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