16 de outubro de 2014

O governo dos Estados Unidos sanitiza a história da Guerra do Vietnã

Marjorie Cohn

Truthout

Crédito: Wystan.

Por muitos anos os americanos, depois da Guerra do Vietnã, nos beneficiamos da “síndrome do Vietnã”, segundo a qual presidentes dos EUA sempre hesitariam muito antes de lançar ataques substanciais contra outros países, porque temiam oposição forte, semelhante ao poderoso movimento que ajudou a pôr fim à guerra no Vietnã. Mas em 1991, no final da Guerra do Golfo, George H.W. Bush declarou “Por Deus! Afinal nos livramos da síndrome do Vietnã, de uma vez por todas!”.

Com as guerras de George W. Bush contra o Iraque e o Afeganistão, e as guerras de drones de Barack Obama contra sete países de maioria muçulmana, e a escalada que ordenou nas guerras contra Iraque e Síria, aparentemente já andamos bem para trás, para antes da síndrome do Vietnã. Plantando desinformação no campo da opinião pública, o governo dos EUA construiu apoios para ele mesmo para suas novas guerras: exatamente como fez antes da Guerra do Vietnã.

Agora, o Pentágono planeja as comemorações do 50º aniversário da Guerra do Vietnã, lançando um programa de US$ 30 milhões para rescrever e "sanitizar" a história daquela  guerra. A partir de uma fantasiosa e super interativa página na Internet, o esforço visa a ensinar aos estudantes a história revisionista daquela guerra. O programa visa a honrar nossos soldados que lutaram no Vietnã. Mas não se vê naquela página nem sinal de que houve um potente movimento antiguerra, no coração do qual estava o movimento dos próprios soldados que estavam no Vietnã, o GI movement.

Milhares de soldados participaram do movimento antiguerra. Muitos se sentiam traídos pelo governo dos EUA. Criaram cafeterias e jornais underground pelos quais distribuíam informação sobre a resistência. Durante o curso da guerra, 500 mil soldados americanos desertaram. A força da rebelião daqueles “coturnos em solo” forçou os militares a recorrer à guerra aérea. Oficialmente, a guerra custou a vida de 58 mil americanos. Um número incontável ficou ferido e voltou com transtorno de estresse pós-traumático. Em uma estatística surpreendente, mais veteranos do Vietnã cometeram suicídio que foram mortos na guerra.

Milhões de americanos, muitos de nós estudantes nas universidades, marcharam, fizeram manifestações, discursos, cantamos cantos de protesto e nos manifestamos contra a guerra. Milhares foram presos e alguns, na universidade estadual de Kent e na estadual Jackson, foram mortos. O alistamento militar obrigatório e imagens de vietnamitas mortos galvanizaram o movimento. Em 15 de novembro de 1969, no que foi a maior manifestação de protesto daquela época em Washington, DC, 250 mil pessoas marcharam pela a capital do país, exigindo o fim da guerra. No entanto, o site do Pentágono só se refere a ela como um "enorme protesto.".

Mas os americanos não foram os únicos a morrer. Entre 2 e 3 milhões de indochineses – no Vietnã, Laos e Camboja – foram mortos. Crimes de guerra – como o massacre de My Lai – eram frequentes. Em 1968, soldados americanos massacraram 500 velhos, homens e mulheres, e crianças, na aldeia vietnamita de My Lai. No entanto, o site do Pentágono refere-se apenas ao "My Lai Incident", apesar do fato de que é habitualmente referido como um massacre.

Um dos mais vergonhosos legados da Guerra do Vietnã foi o uso, pelos militares americanos, de uma arma química de destruição em massa, o mortal agente desfolhante “Agente Laranja” (dioxina). Os militares americanos pulverizaram toneladas daquele agente químico mortal sobre grande parte da terra agricultável do Vietnã. Estimados 3 milhões de vietnamitas sofrem até hoje o efeito daqueles desfolhantes químicos. Dezenas de milhares de soldados dos EUA também foram afetados. A dioxina causou má formações fetais e em nascituros em centenas de milhares de crianças, no Vietnã e nos EUA. Hoje, ainda segue afetando a segunda e terceira gerações nascidas de pessoas que foram expostas ao Agente Laranja há décadas. Casos de câncer, diabetes, spina bífida e outros defeitos congênitos podem ser rastreados até a exposição direta ao Agente Laranja. E as armas químicas de destruição em massa destruíram grandes áreas do meio ambiente natural do Vietnã. O solo em vários “pontos quentes” próximos a antigas bases militares dos EUA continuam contaminados.

Nos Acordos de Paz de Paris, assinados em 1973, o governo Nixon prometeu contribuir com US$ 3 bilhões para curar as feridas da guerra e para reconstruir o Vietnã pós-guerra. Até hoje, os EUA ainda não cumpriram esse compromisso.

Apesar dos danos provocados pelo Agente Laranja continuar, a página do Pentágono só faz uma rápida referência à "Operation Ranch Hand". Diz que entre 1961 e 1971, os EUA pulverizaram 70 milhões de litros de produtos químicos sobre 20% das selvas naturais do Vietnã do Sul e 36% de suas áreas de mangue. Mas a página do Pentágono nada diz sobre os efeitos devastadores do uso dessa arma química.

A história incompleta contida no site do Pentágono levou mais de 500 veteranos do movimento pela paz nos EUA contra a Guerra do Vietnã a assinar uma petição, dirigida ao tenente-general Claude M. “Mick” Kicklighter. Pedem que a página oficial “inclua pontos de vistas, depoimentos e materiais educativos que representem reflexo real, justo e completo das questões que dividiram os EUA durante a Guerra no Vietnã, Laos e Camboja”. O documento lembra “os muitos milhares de veteranos” que se opuseram à guerra; “os que resistiram ao recrutamento obrigatório, muitos milhares de jovens americanos”, os “milhões que exerceram seus direitos de cidadãos americanos e marcharam, rezaram, organizaram paralisações, escreveram cartas ao Congresso” e “todos que foram acusados e processados pelo governo dos EUA por desobediência civil ou morreram nos protestos”. E, a petição prossegue: “muito importante, não podemos esquecer tampouco os milhões de vítimas da guerra, militares e civis, que morreram no Vietnã, Laos e Camboja, nem os que morreram ou foram feridos depois da guerra, em explosões de minas, munição não explodida, Agente Laranja ou na fuga de refugiados”.

Entre os ativistas antiguerra que assinaram aquela petição estão Tom Hayden e o homem que revelou os “Pentagon Papers”, Daniel Ellsberg. “Todos nós lembramos que o Pentágono nos empurrou para aquela guerra por causa daquela sua versão da verdade” – disse Hayden numa entrevista ao New York Times. “Não se pode admitir que os mesmos que fazem a guerra sejam encarregados de narrá-la” – completou.

Os Veteranos pela Paz estão organizando um evento alternativo para fazer lembrar a Guerra do Vietnã. “Uma das nossas principais preocupações” – disse ao Times Michael McPhearson, diretor dos Veteranos pe Paz – “é que, se não conseguirmos fazer lembrar uma narrativa completa, o governo usará a sua própria narrativa inventada para continuar a inventar guerras pelo mundo: como ferramenta de propaganda”.

De fato, assim como Lyndon B. Johnson usou o fabricado incidente do Golfo de Tonkin como pretexto para aumentar a Guerra do Vietnã, George W. Bush invocou míticas armas de destruição em massa para justificar sua guerra contra o Iraque, e a “guerra ao terror” para justificar a invasão contra o Afeganistão. E Obama justifica sua guerra de drones repetindo considerações de segurança nacional, embora Obama esteja criando mais inimigos para os EUA, quanto mais milhares de civis ele mate e mande matar. EIIL e Corassão (do qual ninguém na Síria tinha ouvido falar até há três semanas) são os novos inimigos Obama está usando para justificar suas guerras no Iraque e na Síria, embora admita que não representam ameaça iminente para os Estados Unidos. A síndrome do Vietnã foi substituída pela "guerra permanente".

Não é senso comum que os que ignorem o passado estão condenados a repeti-lo. A menos que alguém trate de construir um relato honesto da vergonhosa história da guerra dos EUA contra o Vietnã, estaremos cada dia mais mal equipados para protestar contra as guerras atuais e futuras realizadas em nosso nome.

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