28 de outubro de 2014

O fim de uma era: O petrodólar está sob ameaça?

Andrew Topf

Tradução / Recentes negócios e cooperação a alto nível entre a Rússia e a China fizeram soar o alarme no Ocidente enquanto políticos e executivos do gás e petróleo veem a balança do poder nos mercados globais de energia tender para Oriente.

As razões para um relacionamento mais amistoso entre os dois gigantes têm evidentemente origem na crise da Ucrânia e nas subsequentes sanções ocidentais contra a Rússia, combinadas com a necessidade da China garantir fornecimentos de energia a longo prazo. Mas uma consequência de ligações econômicas mais estreitas entre a Rússia e a China pode indicar também o princípio do fim do domínio do dólar americano, e isso poderá ter um profundo impacto nos mercados da energia.

A rédea do Dólar Americano

Antes do século XX, o valor do dinheiro estava ligado ao ouro. Os bancos que emprestavam dinheiro estavam constrangidos pelo volume das suas reservas de ouro. O Acordo de Bretton Woods de 1944 estabeleceu um sistema de trocas que permitia aos governos vender o seu ouro ao Tesouro dos Estados Unidos. Mas em 1971 o presidente norte-americano Richard Nixon retirou o país do padrão ouro, o que acabou formalmente com a ligação entre as moedas mais fortes do mundo e o ouro.

O dólar americano sofreu depois uma desvalorização maciça, e o petróleo desempenhou um papel crucial na sua recuperação. Nixon negociou um acordo com a Arábia Saudita nos termos do qual os sauditas passariam a fazer todas as suas futuras vendas de petróleo em dólares a troco de armas e proteção. Outros membros da Organization of the Petroleum Exporting Countries (OPEC) fizeram acordos semelhantes, garantindo a procura global pelas notas verdes do dólar. O domínio do petrodólar continua até hoje.

A aproximação entre Rússia e China

Notícias recentes vindas da Rússia sugerem porém que a era do domínio do dólar norte-americano pode estar a findar, devido à crescente competição da segunda maior economia e consumidora primária de commodities, a China.

A China e a Rússia têm vindo freneticamente a assinar acordos de energia que revelam os seus mútuos interesses energéticos. O mais óbvio é o acordo do gás de 456 bilhões que a empresa estatal russa Gasprom assinou com a China em maio, mas este foi apenas o maior numa cadeia de acordos de energia que remonta a 2009. Nesse ano o gigante de petróleo russo Rosneft garantiu um acordo de troca de petróleo com Pequim e no ano passado a Rosneft aceitou duplicar os fornecimentos de petróleo à China num acordo avaliado em 270 mil milhões.

Desde as sanções ocidentais contra a Rússia em reação à anexação da Crimeia pela Rússia e o abate de um avião comercial, Moscou vê cada vez mais no seu anterior rival na guerra-fria um comprador-chave do petróleo russo — a sua exportação mais importante.

Liam Halligan, colunista do Telegraph, afirma que o "perigo real" da aproximação Rússia-China não é um frente a frente entre a China e os Estados Unidos, que poderia ameaçar rotas marítimas cruciais para o envio de carvão e LNG para a China, mas o seu impacto no dólar americano.

"Se a mudança da Rússia para a Ásia resulta em que Moscou e Pequim negaceiam petróleo entre si em outra moeda que não o dólar, isso representará uma modificação de grande escala na forma como a economia global opera e uma significativa perda para os Estados Unidos e seus aliados", afirmou Halligan em maio. "Com a China a ser agora o maior importador de petróleo e os Estados Unidos a intensificarem crescentemente a sua produção doméstica, os dias da energia com preço em dólares, e portanto de domínio do dólar, parecem estar contados."

Ainda que ninguém argumente que isso está prestes a acontecer, uma vez que o dólar continua a ser a moeda de eleição dos bancos centrais, a proposição de Halligan vem ganhando terreno. Em junho a China acordou com o Brasil numa troca de 29 bilhões de dólares num esforço para promover o yuan chinês como moeda de reserva, e anteriormente nesse mês os bancos centrais chineses e russos assinaram um acordo de troca yuans-rublos para duplicar o comércio entre os dois países. Analistas afirmam que o acordo de 150 bilhões, um dos 38 assinados em Moscou, é uma forma de a Rússia se afastar de acordos em que o dólar norte-americano domine.

"Por si só estas ações não significam o fim do dólar como principal moeda de reserva global" declarou à CNBC Jim Rickards, gerente de portfolio no Grupo West Shore e sócio da Tangent Capital Partners. "Mas tomada no contexto de muitas outras ações pelo mundo fora, incluindo a frustração da Arábia Saudita face à política externa dos Estados Unidos para com o Irã, e o voraz apetite da China pelo ouro, estas ações constituem passos significativos no sentido do afastamento progressivo do dólar."

A ascensão do yuan

Não é segredo que Pequim vem procurando promover o yuan como moeda de reserva alternativa. Adquirindo esse estatuto a China teria um acesso barato aos mercados mundiais de capital e custos mais baratos no comércio internacional, para não falar numa influência acrescida de poder econômico na proporção da sua crescente presença no comércio mundial.

Os chineses têm, contudo, um problema nos seus planos para o yuan. O governo ainda não retirou controles de capital que permitiriam uma convertibilidade plena, com receio de desencadear uma torrente de fluxos especulativos que poderiam prejudicar a economia chinesa.

Entretanto, "é claro que a China está a criar os fundamentos para uma maior aceitação do yuan", afirmou Karl Schamotta, um estratega sênior de mercado na Western Union Business Solutions, citado num artigo no International Business Solutions. O IBT assinalava que "mais de dez mil instituições financeiras estão agora a negociar em yuan chinês, quando em junho de 2011 eram 900, enquanto o pool do yuan offshore, há três anos inexistente, está agora em 900 mil milhões (143 bilhões de dólares). E a proporção das exportações e importações da China em yuan aumentou seis vezes em três anos, atingindo quase 12%."

Alerta da Teoria da Conspiração

Colorindo mais vivamente esta história, Marin Katusa, analista de energia na Casey Research, especulou em artigo recente que a morte do CEO da Total Christophe de Margerie, cujo jato particular colidiu com um limpador de neve em Moscou, pode não ter sido um acidente. Em vez disso, Katusa conjectura se as circunstâncias misteriosas que rodearam a morte e as escassas probabilidades de se ser atingido por um limpador de neve num aeroporto, não poderiam ter mais a ver com os interesses de negócios de Margerie na Rússia do que com estar no lugar errado no momento errado.

De acordo com Katusa, Margerie constituía um "risco total" devido ao envolvimento da Total em planos para construir uma fábrica de LNG na Península de Yamal em sociedade com a Novatek. A companhia estava também à procura de financiamento para um projeto de gás na Rússia, apesar das sanções ocidentais.

"Planejava financiar a sua parte de 27 bilhões no Projecto Yamal usando euros, yuan, rublos russos, e qualquer outra moeda exceto dólares americanos". Escreve Katusa, aliciando depois o leitor com isto: "Esta ameaça direta ao petrodólar atraiu contra este 'grande amigo da Rússia' - como Putin chamava a Margerie - alguns inimigos poderosos e perigosos nos poderes fáticos, fosse no governo francês, na UE, ou nos EUA?"

Pode ser uma ideia excessiva, mas a referência de Katusa ao dólar americano mostra que quaisquer desenvolvimentos que se verifiquem no sentido do afastamento em relação ao domínio das "notas verdes" não irão passar despercebidos.

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