26 de outubro de 2014

O mito da imprensa livre

Chris Hedges


Há muito mais verdades sobre o jornalismo estadunidense no filme “Kill the Messenger”, que descortina o que se passa na grande mídia, a partir da campanha nacional de difamação contra o trabalho do jornalista investigativo Gary Webb do que no filme “All the President’s Men”, uma celebração ao trabalho dos repórteres que cobriram o escândalo Watergate.

Os meios de comunicação apoiam cegamente a ideologia do capitalismo corporativo. Louvam e promovem o mito da democracia estadunidense. Deste modo são suprimidas liberdades civis da maioria e o dinheiro substitui o voto. Os meios de comunicação prestam deferência aos líderes de Wall Street e de Washington não importa o quanto os seus crimes possam ser perversos. De modo servil, os meios de comunicação veneram os militares e a aplicação de leis em nome do patriotismo. Os meios de comunicação selecionam especialistas e peritos, quase sempre indicados e sugeridos a partir dos centros de poder, para interpretar a realidade e explicar a política. Em geral divulgam press releases oficiais redigidos pelas corporações para preencher o seu noticiário. E para distrair os leitores, recheiam os furos de notícias com fofocas da vida de celebridades, com notícias triviais ou esportivas e com futilidades. O papel da grande mídia é promover o entretenimento ou se fazer de papagaios repetindo a propaganda oficial para as massas. As corporações, que contratam jornalistas dispostos a serem cortesãos e são proprietárias da imprensa, alugam profissionais para serem benevolentes com as elites e, em contrapartida, os promovem a celebridades. Estes jornalistas cortesãos, que ganham milhares de dólares, são convidados a frequentarem a intimidade dos círculos do poder. Como diz John Ralston Saul, romancista canadense, são hedonistas do poder.

Quando Webb publicou, em 1996, uma série de reportagens no jornal San José Mercury News denunciando a Agência Central de Inteligência (CIA) como cúmplice no contrabando de toneladas de cocaína a ser vendida nos Estados Unidos para financiar a sua operação na luta dos contra da Nicarágua, a mídia se voltou contra ele que passou a ser visto como se fosse um leproso. Ao longo do tempo e das várias gerações de jornalistas, é longa a lista de profissionais leprosos que vai de Ida B. Wells a I.F. Stone e a Julian Assange.

Os ataques contra Webb foram renovados agora, em jornais como o The Washington Post, assim que o filme estreou, há uma semana, em Nova Iorque. Estes ataques são como uma autojustificativa. Uma tentativa da grande mídia de mascarar a sua colaboração com as elites do poder. A grande mídia, assim como todo o establishment liberal, pretende apresentar o verniz de quem, destemidamente, busca a verdade e a justiça. Mas para sustentar este mito precisa destruir a credibilidade de jornalistas como Webb e Assange que procuram jogar uma luz no trabalho sinistro e criminoso do império que é mais preocupado com (esconder) a verdade do que com a notícia.

Os maiores jornais do país, inclusive o The New York Times, escreveu que a história levantada por Webb apresentava “provas escassas”. Funcionaram como cães de guarda para a CIA. Em 1996, assim que a denúncia surgiu, The Washington Post dedicou imediatamente duas páginas inteiras para atacar a argumentação e as provas de Webb. O Los Angeles Times publicou três artigos enlameando a reputação de Webb e procurando destruir a credibilidade da sua história. Foi um repugnante, deplorável, vergonhoso capítulo do jornalismo estadunidense. Não foi o único. Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, em um artigo publicado em 2004, “How the press and the CIA killed Gary Webb’s caree” detalharam a dinâmica da campanha nacional de difamação.

O jornal de Webb, depois de publicar um mea culpa para toda a série de artigos, demitiu-o. Webb não voltaria a conseguir trabalhar novamente como jornalista investigativo e, às vésperas de perder a casa onde morava, suicidou-se em 2004. Sabemos, em boa parte por causa de uma investigação no Senado, conduzida pelo então senador John Kerry, que Webb sempre esteve certo. Mas Webb não foi perseguido por ter ou não ter razão, porque, é claro, os bandidos que perseguiram Webb sempre souberam que ele tinha razão. Webb foi perseguido porque expôs a CIA como bando de bandidos traficantes de armas e de drogas. Ele expôs os meios de comunicação, que dependem de fontes oficiais para a maioria de suas notícias e, portanto, são reféns de tais fontes, como servas covardes do poder. Ele tinha cruzado a linha. E ele pagou por isso.

Se a CIA introduziu centenas de milhões de dólares em drogas nas periferias de grandes cidades do país, para fazer dinheiro para pagar por uma guerra ilegal na Nicarágua, o que dizer da legitimidade de toda essa gigantesca organização clandestina? O que dizer da chamada “guerra às drogas”? O que dizer da dureza e da indiferença do governo do país em relação aos mais pobres, sobretudo os mais pobres, que estão no olho do furacão do crack epidêmico? O que dizer de operações militares clandestinas, realizadas sem que a opinião pública saiba?

Todas essas eram, precisamente, as perguntas que as elites do dinheiro, as elites do poder, e seus serviçais na imprensa, tinham de silenciar a qualquer custo.
Os meios de comunicação são atormentados pela mesma mediocridade, que a academia, os sindicatos, as artes, o Partido Democrata e as instituições religiosas. Penduram-se todos no mesmo mantra de autopromoção, que os apresenta como se fossem imparciais e objetivos, e assim justificam a subserviência ao poder. A imprensa escreve e fala – diferente dos acadêmicos que discursam para eles mesmos, naquele velho jargão de teólogos medievais – para ser ouvida e compreendida pela opinião pública. E por essa razão a imprensa é mais poderosa e mais diretamente controlada pelo Estado. Ela desempenha um papel essencial na difusão de propaganda oficial. Mas, para que essa propaganda tenha eficácia, a imprensa tem de manter para ela mesma a ficção de independência e de integridade. Ele deve esconder as suas verdadeiras intenções.

Os meios de comunicação de massa, como C. Wright Mills apontou, são ferramentas essenciais para manter o conformismo. São eles quem dizem a leitores e telespectadores o que leitores e telespectadores são. São eles quem dizem o que leitores e telespectadores devem aspirar a ser ou a ter. Prometem que ajudarão leitores e telespectadores a “chegar lá”. Oferecem grande variedade de técnicas, conselhos e esquemas que prometem sucesso pessoal e profissional. Os veículos de comunicação de massa, como Wright escreveu, existem, primeiramente, para ajudar os cidadãos a sentirem que são bem-sucedidos e que “chegaram lá”, mesmo que não tenham chegado a lugar algum e continuem muito longe de alcançar as próprias aspirações. Eles usam a linguagem e as imagens para manipular e formar opiniões, não para promover o verdadeiro debate democrático e o diálogo ou para abrir espaço público para a ação política livre e deliberação pública. Somos transformados em espectadores passivos do poder pelos meios de comunicação, que decidem por nós o que é verdadeiro e o que é falso, o que é legítimo e o que não é. A verdade não é algo que descobrimos. Fica decretado pelos meios de comunicação de massa.

O divórcio entre a verdade, para um lado, e o discurso e ação, para o outro lado – a instrumentalização da comunicação – não apenas aumentou a incidência da propaganda; ele também corrompeu a própria ideia de verdade, e, portanto, o sentido pelo qual assumimos nossas posições no mundo está destruído – escreveu James W. Carey em Communication as Culture.

A primeira e principal função dos meios de comunicação massa é superar a enorme diferença que separa as identidades idealizadas – essas que, numa cultura de mercadoria movem-se sempre em torno da aquisição de status, dinheiro, fama e poder, ou, pelo menos, das correspondentes fantasias e ilusões – e as identidades reais. E pode ser muito lucrativo inflar essas identidades idealizadas, amplamente implantadas por anunciantes e pela cultura corporativa. Dão-nos não o que nos faz falta real, mas o que desejamos. Os meios de comunicação de massa nos permite escapar para o viciante mundo do entretenimento e do espetáculo. Acrescenta-se alguma noticia a essa mistura, mas não é a principal preocupação dos meios de comunicação de massa. Não mais do que 15% do espaço de qualquer jornal é devotado a notícias; todo o resto é devotado à mais fútil procura por algo que se chama autoatualização. No rádio e na TV a proporção é ainda mais desequilibrada.

“Essa”, escreveu Mills, “é provavelmente a fórmula psicológica básica dos mass media hoje. Mas, como fórmula, nada tem a ver com o desenvolvimento do ser humano. É só uma fórmula de um pseudo-mundo que a imprensa inventa e mantém”.

At the core of this pseudo-world is the myth that our national institutions, including those of government, the military and finance, are efficient and virtuous, that we can trust them and that their intentions are good. These institutions can be criticized for excesses and abuses, but they cannot be assailed as being hostile to democracy and the common good. They cannot be exposed as criminal enterprises, at least if one hopes to retain a voice in the mass media.

Those who work in the mass media, as I did for two decades, are acutely aware of the collaboration with power and the cynical manipulation of the public by the power elites. It does not mean there is never good journalism and that the subservience to corporate power within the academy always precludes good scholarship, but the internal pressures, hidden from public view, make great journalism and great scholarship very, very difficult. Such work, especially if it is sustained, is usually a career killer. Scholars like Norman Finkelstein and journalists like Webb and Assange who step outside the acceptable parameters of debate and challenge the mythic narrative of power, who question the motives and virtues of established institutions and who name the crimes of empire are always cast out.

A imprensa só ataca grupos dentro da elite do poder, quando acontece de o poder dividir-se e de haver disputas dentro do círculo do poder. Quando Richard Nixon, eleito pelos Republicanos, e que usou métodos ilegais e clandestinos para calar a imprensa alternativa e para perseguir ativistas antiguerra e líderes negros dissidentes radicais, tentou atacar o Partido Democrata, foi quando virou alvo da imprensa. O pecado de Nixon não foi abusar do poder. Nixon viveu anos e anos abusando do poder contra vários grupos de dissidentes, sem que o establishment se incomodasse com isso. O pecado de Nixon foi que abusou do poder contra uma facção dentro da própria elite do poder.

O escândalo Watergate, mitificado como prova de uma imprensa destemida e independente, é ilustrativo do quanto a mídia de massa é limitada quando se trata de investigar centros de poder.

"A história foi generosa conosco e nos ofereceu um 'experimento controlado' para determinar exatamente o que realmente estava em disputa no período Watergate, quando a posição de desafio assumida pela imprensa, nos país, atingiu o pico. A resposta veio clara e precisa: grupos poderosos têm meios para defender-se, eles mesmos, o que não é surpresa para ninguém. Pelos parâmetros da imprensa, só há escândalo quando os direitos da própria imprensa e sua posição de poder são ameaçados", como escreveram Edward S. Herman e Noam Chomsky em Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. "Na direção contrária, enquanto as ilegalidades e violações da ordem democrática ficam confinadas a grupos marginais ou só atinjam dissidentes de ataques militares do país, ou resultam num custo difuso, imposto a toda a população, em todos esses casos, ninguém ouve nem sinal de oposição feita pela imprensa; a imprensa, toda, se mantém então absolutamente muda e distante. Por isso Nixon pôde ir tão longe, amparado num falso senso de segurança precisamente porque o cães de guarda só latiram quando Nixon começou a representar ameaça contra os privilegiados.

Os abolicionistas e os que pregavam respeito aos direitos civis; jornalistas investigativos que enfureceram a Standard Oil e os proprietários dos cercados para gado em Chicago; produções de teatro radical como The Cradle Will Rock, que implodiram os mitos tão caros à classe governante e deram voz a pessoas comuns; os sindicatos de trabalhadores que permitiram que imigrantes, afro-americanos e homens e mulheres trabalhadores encontrassem dignidade e esperança; as grandes universidades públicas que deram a filhos de imigrantes a chance de ter educação de alta qualidade; os Democratas do New Deal que compreendiam que uma democracia jamais estará segura se não garantir aos cidadãos padrões de vida aceitáveis e se não souber impedir que o estado seja sequestrado pelo dinheiro privado, nada disso existe mais no panorama do país contemporâneo. A desgraça de Webb foi trabalhar em tempos em que a imprensa livre já não passa de clichê, como, também, a própria democracia.

The Cradle Will Rock”, como quase todo o trabalho popular que foi gerado no Projeto Federal de Teatro criado por Roosevelt no auge da Grande Depressão, deu voz aos anseios da classe trabalhadora, em vez de só repetir anseios e angústias da elite. E ali, afinal, se expôs a loucura da guerra, a ganância desenfreada e a desenfreada corrupção, a cumplicidade das instituições liberais – especialmente da imprensa – que assegurou proteção à elite no poder e sempre ignorou todos os abusos do capitalismo. Na peça, o personagem Senhor Senhor governa a cidade como uma empresa privada:

"Acredito que jornais são ótimos para modelar as mentes" diz Senhorr Senhor. "Minha indústria de aço é realmente dependente deles."

"Basta o senhor telefonar para a Redação" responde o Editor de Notícias. "Imprimiremos todas as notícias que o senhor nos der. De costa a costa, de fronteira a fronteira."

O Editor de Notícias e o Senhor Senhorr cantam em dueto:

"Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais." 

"Bem me interessaria uma série de matérias sobre esse jovem, Larry Foreman", diz o Senhor Senhor ao Editor de Notícias.
 
"Sei. O tal que anda por aí fazendo agitação e organizando sindicatos", responde o Editor de Notícias. Já ouvimos falar dele. De fato, só ouvimos falar bem. Parece ser muito popular entre os trabalhadores."

"Descubra com quem ele bebe e com quem ele dorme. Vasculhem o passado dele, até achar alguma coisa que o faça parar."

"Mas o sujeito é de briga, é pura dinamite. Precisaremos de um exército para segurá-lo" responde o Editor de Notícias.

"Ótimo! Sendo assim, vai ser fácil segurá-lo", conclui o Senhor Senhor. E o dueto recomeça:

"Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais."

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