1 de abril de 2014

O movimento socialista e a Primeira Guerra Mundial

Herwig Lerouge

Études marxistes

Hoje, isto parece evidente: em toda a Europa capitalista, os partidos socialistas estão estabelecidos. Fornecem os primeiros-ministros, os comissários europeus e mesmo os presidentes da Comissão Europeia. Aliás, dificilmente os podemos qualificar como apóstolos da paz, uma vez que os seus membros, especialmente os partidos socialistas belgas, dirigiram a OTAN e os partidos socialistas apoiam a quase totalidade das guerras conduzidas pelos Estados Unidos e a OTAN: a primeira guerra no Iraque, as guerras na Iugoslávia, na Líbia, no Afeganistão, no Mali... Com estas atitudes, situam-se a anos-luz das suas raízes marxistas e dos seus textos fundadores. No que diz respeito à Bélgica, a declaração de princípios era a Carta de Quaregnon (1894). Em 8 de junho de 2013, o SP renunciou a esta carta, enquanto o Partido Socialista (PS) a manteria em princípio. Mas, desde 5 de agosto de 1914, ela já não tinha o mínimo sentido político prático. A carta exige "o desaparecimento do sistema capitalista" e a sua "transformação num sistema coletivista" e declara solenemente: "os socialistas de todos os países devem ser solidários, pois a emancipação dos trabalhadores não é uma tarefa nacional, mas internacional". Foi sobre estas bases que, em 1889, treze anos depois da liquidação da I Internacional (1876), os socialistas de então criaram uma segunda organização internacional, a "Internacional operária socialista" da qual o dirigente do Partido operário belga, Émile Vandervelde, se tornaria presidente e, um outro socialista belga muito conhecido, Camille Huysmans, secretário[1].

Durante vinte anos, no seio da Internacional, o debate travou-se entre a ala revolucionária e a ala reformista. A tática dos reformistas era camuflar as contradições sob a capa de um discurso revolucionário. A sua argumentação provão: as resoluções para contentar Deus e o Diabo – e Vandervelde tornou-se mestre nisso – começavam sempre por uma tomada de posição inicialmente de esquerda, para desembocar depois numa decisão prática de capitulação. Em 1914, aquando do desencadeamento da guerra, esta distanciação progressiva entre a palavra e os atos iria desembocar na passagem da totalidade dos principais partidos socialistas para o campo da sua própria burguesia, contra todas as declarações de princípio.

A Segunda Internacional dividida em todas as questões importantes

Os socialistas estavam divididos quanto a problemas como a participação dos socialistas no governo e a aliança com grupos burgueses. O problema colocou-se em França com a entrada, pela primeira vez, do socialista Millerand num governo burguês. Na altura da realização do congresso da Internacional em 1900, em Paris, a maioria colocou-se a favor do ponto de vista que rejeitava a participação no governo; mas, na resolução, foi contudo admitido que a participação poderia ser considerada em circunstâncias extremas, em caso de necessidade, numa situação de constrangimento e foi, pois, reduzida a uma questão tática. Contudo, tratava-se da questão mais fundamental para o movimento socialista: integrar-se ou não no sistema. A experiência francesa com Millerand testemunha esta redução à tática. E isso iria ser ilustrado imediatamente por cada caso de participação socialista em governos burgueses. Em 1904, aquando da realização do Congresso de Amsterdã, esta questão desembocou num debate entre Jaurès e Bebel, que teve grande repercussão: o socialista francês recorreu ao tema da República francesa, "país de gloriosas revoluções"... e às possibilidades parlamentares muito maiores em França.

Para o dirigente do partido alemão, Bebel, não existia nenhuma especificidade fundamental do sistema parlamentar da República francesa: «Uma república burguesa ou uma monarquia burguesa, ambas são Estados de classe; tanto uma como a outra foram criadas para manter a ordem capitalista. Os dois regimes políticos esforçam-se ao máximo para manter todo o poder nas mãos da burguesia». Porém, por toda a parte o parlamentarismo ganhava terreno. Em 1909-1910, o assunto foi discutido no seio do POB [Partido Operário da Bélgica (NT)] cuja direção estava prestes a formar um governo em aliança com os liberais, mas o resultado das eleições não permitiu este entendimento.

Isto colocou-se também com a questão da greve geral política. Era visível que mesmo uma maioria absoluta no parlamento não seria suficiente para impor uma mudança radical da sociedade e daí que se contasse com a ação extraparlamentar da classe operária, a greve geral política. A questão regressou muitas vezes à discussão nos congressos da Internacional. Na Bélgica, houve grandes greves em 1891, 1893 e 1902, greves políticas gigantes a favor do sufrágio universal, provando que se tratava de uma arma muito poderosa. Em abril de 1902, a greve saldou-se por uma derrota: o movimento desencadeado pela base foi destruído pela direção logo que a luta se tornou muito intensa. Na Alemanha, o congresso do partido de 1906 prescindiu desta arma. A posição a favor da greve geral foi combatida intransigentemente por Karl Legien, o secretário-geral do sindicato.

A propósito da questão colonial, os princípios fundamentais da Internacional eram o princípio da igualdade de direitos de todas as pessoas e raças, do seu direito legal à dignidade, à justiça, à liberdade e à independência nacional e também o princípio da solidariedade entre os oprimidos de todas as nações e raças. O congresso de Londres (1896) tinha colocado a exigência da «autodeterminação completa para todas as nações» e condenado o colonialismo como «manifestação do capitalismo». Mas a prática de numerosos partidos era completamente outra. Alguns na Grã-Bretanha defendiam a colonização, com o argumento de que um povo não pode dispor de tesouros da terra (como o ouro e os diamantes) em prejuízo de outros povos; que a terra é um bem comum de toda a humanidade e é dever comum de todos os povos partilhar as riquezas naturais, direito superior ao do interesse do povo local. Na Alemanha, os reformistas Bernstein, Noske e outros argumentavam amplamente no mesmo sentido. Os socialistas alemães votaram a seguinte posição: «dado que o socialismo vai aumentar as forças produtivas de todo o mundo e elevar todos os povos ao mais alto nível cultural, o congresso não rejeita, em princípio, toda a política colonial porque esta, sob o socialismo, pode ter um efeito civilizador».

O POB, contudo, pôs no pelourinho a rapacidade colonial de Leopoldo II. No seio do partido, havia uma corrente anticolonialista: para Louis de Brouckère, que, na época, fazia parte da ala radical de esquerda, a colonização não trazia nenhum desenvolvimento nem nenhum progresso. O protecionismo, o militarismo, o imperialismo e o colonialismo eram considerados como sintomas do declínio de uma classe gananciosa e parasitária que não podia já dirigir a produção... Mas muitos, e em primeiro lugar Vandervelde, eram apoiadores de uma política colonial reformista, enquanto outros apoiavam, sem a mínima crítica, o capital colonial[2]. Quando, em 1908, o Congo se tornou uma colônia belga, Jules Destrée declarou em nome do POB: "Abordaremos a questão colonial como abordamos o capitalismo. Denunciaremos o mal essencial e procuraremos calmantes diretos". O deputado Terwagne declarou que, sem mercadorias coloniais, a vida econômica iria paralisar e acrescentou que a tarefa dos socialistas consistia em «conduzir uma política colonial com o menor número possível de atrocidades».

Guerra à guerra

Na altura da realização de quase todos os congressos da Internacional, a questão da guerra e da paz figurava na ordem do dia. Sobre a causa fundamental da guerra, estava-se facilmente de acordo: ainda muito cedo, declarava-se que o capitalismo conduzia inelutavelmente à guerra. No congresso de Paris (1900), o caráter da guerra foi definido com a ajuda de experiências recentes: era a partilha e a redistribuição das colônias, logo as guerras tornaram-se imperialistas. Sobre a solução fundamental para acabar com a guerra, também se estava geralmente de acordo. O congresso de Zurique (1893) já tinha chegado à seguinte conclusão: «A queda do capitalismo significa a paz mundial». Sobre o que era preciso fazer em tempos de paz, isto é, a propaganda contra o chauvinismo e o militarismo, assim como a recusa em votar os créditos de guerra, não havia, por assim dizer, divergência de pontos de vista. Mas que fazer se a guerra rebentasse? A greve geral? A recusa de integração no exército? Desencadear a revolução?

O congresso mais importante em matéria de paz e de guerra foi o de Estugarda em 1907. Foi proposta uma resolução dos franceses Jaurès, Vaillant e Guesde: "Para impedir a guerra é preciso organizar ações nacionais e internacionais da classe operária, depois a intervenção parlamentar e a agitação pública, até à greve de massas e a sublevação". Mas, para os socialistas alemães, manifestamente, isso era inaceitável, porque as expressões "greve de massas" e "sublevação" iam empurrar o partido para a ilegalidade. Os socialistas alemães aceitavam, pois, a limitação da liberdade de ação do partido socialista pelo kaiser e Bebel apresentou um texto totalmente frouxo. Lenine e Martov transmitiram, através de Rosa Luxemburgo, que se devia incluir uma conclusão que ia mais longe do que propunha Bebel: "Se a guerra ameaça desencadear-se, a tarefa, em todos os países envolvidos, [...] é impedi-la por todos os meios que considerem adequados e que, naturalmente, seria diferente de um país para outro, consoante a intensidade da luta de classes e da situação política geral". O compromisso de Lenine dizia: "trata-se de utilizar a crise econômica e política provocada pela guerra para agitar as camadas mais profundas do povo e acelerar a queda da hegemonia capitalista". Mas, estava já bem claro na época, que a vontade real de aplicar esta ideia não estava presente entre os socialistas alemães.

Em 1910, no congresso de Copenhaga, foi decidido que os parlamentares socialistas votariam contra todos os créditos de guerra. Num congresso extraordinário, em Basileia, em 1913, foi adotada por unanimidade uma resolução contra a «absurda» corrida aos armamentos da época e o perigo da guerra. A resolução via duas garantias essenciais para a paz: a colaboração de todos os trabalhadores de todos os países e o receio das classes dirigentes de uma revolução que resultaria da guerra. O texto continha também um apelo aos trabalhadores alemães, franceses e ingleses a prosseguir a sua luta pela paz e a não se deixarem arrastar para uma guerra geral. O texto explicava que os trabalhadores consideravam um crime disparar uns contra os outros a favor dos capitalistas, ou pelo amor-próprio das dinastias ou ainda por causa de tratados secretos.

Em 29 de julho de 1914 teve lugar em Bruxelas uma última sessão do comitê da Internacional. A Áustria já tinha declarado a guerra e, em Paris como em Berlim, tinham sido organizadas manifestações contra a guerra. Os delegados russos e britânicos disseram que iam resistir. Os alemães declararam que fariam o seu dever. Referiam-se às manifestações de grande escala contra a guerra. Jaurès assegurou aos presentes a vontade de paz do governo francês. Os ingleses propuseram a greve geral em caso de guerra, mas verificou-se que ninguém estava de acordo com isso. Depois da reunião, houve uma grande manifestação pacífica nacional no Circo real de Bruxelas. Jaurès, socialista hostil à guerra, tomou a palavra, rodeado por Rosa Luxemburgo e Haase (Alemanha), Viktor Adler (Áustria), Vaillant (França) e Keir Hardie (Inglaterra). Todos estavam ainda fraternalmente unidos. No dia seguinte, foi enviado um comunicado, apelando à realização de mais ações antimilitaristas e negociações internacionais. Pouco depois da última sessão do comitê da Internacional, Jean Jaurès foi assassinado.

Em 1 de agosto, a Alemanha e a França mobilizavam soldados para a guerra. Para os socialistas alemães a ação revolucionária estava fora de questão: em 4 de agosto, votavam os créditos de guerra. Os socialistas franceses invocaram esta evolução para se colocarem eles próprios ao lado do seu governo. Do mesmo modo, os socialistas belgas, sob a direção de Vandervelde, votaram os créditos de guerra. Só os bolcheviques russos, os sociais-democratas húngaros, búlgaros e italianos, tal como o Partido Socialista dos Estados Unidos concordaram com as resoluções contra a guerra. Convocaram uma conferência separada na localidade suíça de Zimmervald. A Internacional estava morta.

A perspetiva de uma guerra europeia pairava há vários anos e importantes dirigentes do movimento operário interrogavam-se sobre as consequências devastadoras desta guerra, não apenas para a vida e a saúde de milhões de europeus, mas também para o movimento operário. Numa carta de 22 de dezembro de 1882, Friederich Engels, o colaborador de Marx e membro eminente de partido social-democrata alemão, escrevia o seguinte: "Eu considerava uma guerra europeia uma catástrofe; desta vez, ela será terrivelmente grave, acenderá o chauvinismo por toda a parte por muitos anos, porque cada povo lutará pela sua existência. [...] o nosso partido na Alemanha será submergido por uma vaga de chauvinismo, tal como em França. [...] Penso que uma tal guerra retardará a revolução em dez anos [...][3]".

Engels, e também depois dele Lenine, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, estudou as forças motrizes econômicas do capitalismo e descobriu que o capitalismo conduzia necessariamente à guerra. A concorrência entre as grandes nações capitalistas europeias que, não apenas na Europa, mas em todos os continentes, lutavam para conservar ou alargar as suas colônias e para dominar as partes mais importantes dos mercados mundiais, constituía o fator principal de um desenvolvimento que ia de par com a corrida aos armamentos, chamado militarismo na época. Esta corrida aos armamentos era inevitável, tanto para aqueles que queriam defender a sua quota de mercado no mercado mundial como para aqueles que queriam conquistar outras.

Seguia-se daí que o militarismo e o capitalismo estavam indissociavelmente ligados e que o derrube do capitalismo implicaria o fim da guerra. Esta análise distinguiu, no seio do movimento socialista, a ala revolucionária da ala pacifista e ainda mais da ala direita.

Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg estudaram os novos desenvolvimentos do militarismo alemão, sobretudo os debates respeitantes à frota alemã que se desenvolvia muito rapidamente. Esta frota devia permitir à Alemanha arrebatar ao Reino Unido o primeiro lugar como potência colonial e marítima. Em 1916, Rosa Luxemburg voltou à carga sobre o papel da lei sobre a frota: "A proposta de lei sobre a frota, de 11 de dezembro de 1899, foi uma declaração de guerra da Alemanha à qual a Inglaterra respondeu em 4 de agosto de 1914[4]".

Os dirigentes socialistas estavam ao corrente das decisões da última conferência da paz antes da guerra, a da Internacional socialista que se realizou em Basileia, a 24 e  25 de novembro de 1912, e também tinham tomado conhecimento do seu manifesto: "As grandes nações da Europa estão a qualquer momento à beira de pegar em armas uma contra a outra. Porém, uma tal agressão contra a humanidade não tem justificação com o mínimo argumento de qualquer interesse nacional".

Ao contrário dos dirigentes dos partidos sociais-democratas e da Internacional socialista, os mais importantes da época, Lenine colocou a questão: quem tem interesse nesta guerra? Que classe da sociedade? Era o seu ponto de partida para avaliar as atividades militares e diplomáticas dos Estados capitalistas, o que não era o caso nos discursos e argumentos das forças políticas da burguesia. Apenas três semanas depois do desencadear da guerra, por ocasião da primeira assembleia de um grupo de bolcheviques em Berna, Lenine apresentava um projeto de resolução que seria imediatamente difundido em grande escala na Rússia, através de canais ilegais. A partir da primeira frase pode ler-se: "A guerra europeia e mundial apresenta todas as características duma guerra burguesa, imperialista, dinástica. A luta pelos mercados e pela pilhagem dos Estados, a vontade de travar o movimento revolucionário do proletariado e da democracia no interior dos países beligerantes, a tentativa de enganar, de dividir e de dizimar os proletários de todos os países atirando os escravos assalariados de uma nação contra os de outra em benefício da burguesia, tal é o único conteúdo real da guerra, tal é o seu significado[5]".

Lenine condenou muito severamente o colapso ideológico da social-democracia alemã e internacional:

"A atitude dos chefes do partido social-democrata alemão – o mais forte e mais influente dos partidos da II Internacional (1889-1914) - , que votaram o orçamento de guerra e que retomam a fraseologia burguesa e chauvinista dos fidalgotes prussianos e da burguesia, é uma traição pura e simples do socialismo. Esta atitude não se pode justificar de forma nenhuma, mesmo supondo que o partido socialdemocrata alemão seja extremamente fraco e provisoriamente obrigado a subjugar-se à vontade da maioria burguesa da nação. De fato, na situação presente, este partido praticou uma política nacional-liberal.

A atitude dos chefes dos partidos sociais-democratas belga e francês, que traíram o socialismo ao entrar nos ministérios burgueses, merece ser condenada da mesma maneira.

A traição ao socialismo pela maioria dos chefes da II Internacional (1889-1914) significa o descalabro ideológico e político desta última[6]".

Alguns, como Kautsky, principal teórico marxista da época, adotaram uma posição dita centrista. Defendiam a «paz» sem pôr em causa o sistema existente. Lenine escreveu: "A palavra de ordem da 'paz' está errada, a transformação da guerra entre nações em guerra civil deve tornar-se a nossa palavra de ordem[7]". Isto estava de acordo com o ponto de vista de Karl Liebknecht: "O principal inimigo está dentro do próprio país!".

A partir desta abordagem da questão da paz e da guerra, também Lenine se empenhou, nos anos seguintes, na formação de um forte movimento socialista revolucionário, mais tarde qualificado como comunista, cujos pontos culminantes foram a Revolução de outubro e a formação da Internacional comunista e, na Alemanha, a revolução de 1918 e a fundação do KPD (Kommunistische Partei Deutschlands, partido comunista da Alemanha) na viragem de 1918 para 1919.

Duas importantes etapas intermédias já tinham tido lugar: a conferência de Zimmerwald, na Suíça, em Setembro de 1915 e a conferência de paz da esquerda radical, em Kienthal, também na Suíça, em abril de 1916. Em Zimmerwald, estiveram presentes 38 representantes de 11 países. O grupo mais forte dos adversários da guerra eram os alemães. Karl Liebknecht, entretanto na prisão, enviou as suas saudações. No partido social-democrata russo estavam presentes duas tendências: pelos bolcheviques revolucionários, Lenine e Zinoviev; pelos mencheviques, Martov e Axelrod. No decurso desta conferência, Lenine afirmou-se cada vez mais como o porta-voz e representante da esquerda revolucionária na Europa.

Lenine sabia que, nalgumas questões importantes, a maioria da conferência adotava uma abordagem hesitante. Contudo, ele era defensor de uma participação dos bolcheviques na discussão. A esquerda revolucionária introduziu um projeto de resolução que foi rejeitado por 19 votos contra 12. Em vez dele foi adotado o documento conhecido como «Manifesto de Zimmerwald» e redigido por Trotski. Nele não figuravam a exigência de transformar a guerra imperialista numa guerra civil, nem a palavra de ordem «trabalhar para a derrota do seu próprio governo» e a ruptura total com os dirigentes sociais-democratas que colaboravam com a guerra. Contudo, os bolcheviques assinaram este manifesto. A conferência designou uma Comissão socialista internacional, cuja sede principal foi instalada em Berna e a esquerda de Zimmerwald ficou com um escritório dirigido por Lenine. Menos de um ano mais tarde, em abril de 1916, na segunda conferência internacional que se realizou em Kienthal, participaram 43 delegados vindos de 12 países e, nas principais votações, cerca de metade votou então pelas posições da esquerda revolucionária.

Foi, pois, em Zimmerwald e em Kienthal que foi lançada a primeira pedra da futura Internacional Comunista, a III Internacional (comunista).

Bebem o cálice até à última gota

O movimento socialista ainda não era suficientemente poderoso, quer em número, quer, sobretudo, ideologicamente, para impedir o desencadeamento da guerra imperialista. A questão tinha deixado de ser: podemos ou não impedir a guerra? Tinha-se tornado: a resistência às atrocidades da guerra pode transformá-la numa insurreição? O único que chegou a esta conclusão foi Lenine. Defendia a «derrota do seu próprio governo» e a «transformação da guerra imperialista em guerra civil».

Lenine previa corretamente que a sua palava de ordem não poderia concretizar-se de um dia para o outro. Os trabalhadores ainda não tinham sentido no mais fundo de si mesmos o significado desta guerra mundial. Mas todas as ações dos socialistas deviam situar-se nesta linha. Quando, no parlamento, se tratar de votar o orçamento militar, os socialistas devem recusar votá-lo, seja na Alemanha, na Bélgica ou na França. Fazendo isto, proclamarão: «Nós, os trabalhadores, não temos nada a ver com esta guerra e não queremos pagar esta guerra criminosa». Na França, na Bélgica, na Alemanha, os revolucionários deviam desmascarar todos os argumentos utilizados pela burguesia para arrastar as pessoas para esta guerra; deviam defender os interesses dos trabalhadores, defender o pão e o emprego, pois a guerra ia inevitavelmente provocar uma miséria sem precedentes na Europa. Para isso, deviam trabalhar ilegalmente, uma vez que nenhuma legalidade era já possível, e difundir a sua propaganda através de uma imprensa clandestina, e já não pela imprensa legal, como se podia fazer antes da guerra. Com este objetivo, Lenine continua na sua carta a Chliapnikov:

"(Esta transformação pode ser longa, pode exigir e exigirá uma série de condições prévias, mas é preciso levar a cabo todo o trabalho no sentido precisamente desta transformação, no seu espírito e na sua direção). Já não a sabotagem da guerra, já não as intervenções isoladas, individuais neste espírito, mas uma propaganda de massas (e não apenas entre os 'civis'), com vista à transformação da guerra em guerra civil [...][8].

[...] Seria errado apelar aos atos individuais: disparar sobre os oficiais, etc., como admitir argumentos do gênero dos que consistiam em dizer: não queremos ajudar o Kaiser. O primeiro é um desvio para o anarquismo; o segundo para o oportunismo.

Quanto a nós, devemos preparar uma ação de massas (ou pelo menos coletiva) nas forças armadas, não de uma nação apenas, e realizar todo o trabalho de propaganda e agitação neste sentido. Orientar o trabalho (persistente, sistemático, talvez longo) no sentido de uma transformação da guerra entre nações em guerra civil, eis o essencial. Quanto ao momento em que esta transformação ocorrerá, essa é uma outra questão, imprecisa, neste momento. É preciso deixar amadurecer este momento e 'obrigá-lo a amadurecer' sistematicamente[9]".

Mas essa já não era a preocupação dos dirigentes da social-democracia. Eles não tinham capitulado apenas, puseram-se igualmente a justificar a guerra e incitaram os trabalhadores dos países respectivos a «defender a sua pátria».

Naturalmente, o grande capital alemão e a nobreza alemã iam tentar mascarar o melhor possível os seus verdadeiros objetivos de guerra e mascarar-se de defensores da civilização ou de vítimas obrigadas a uma «guerra defensiva». A I Guerra Mundial foi a primeira na qual a dimensão psicológica desempenhou um papel. Foi criada em todos os países uma psicose: «a pátria está em perigo» e sob a sua influência a maioria das pessoas acreditou nisso realmente. E sob o pretexto de não se desligar das massas quando estas eram favoráveis à guerra, os dirigentes socialistas arrumaram-se deliberadamente no campo da burguesia belicista do seu país.

Naturalmente, quase ninguém tinha ouvido falar do muito secreto «Plano de Setembro» sobre os objetivos de guerra, do chanceler alemão von Bethmann-Hollweg cujo preâmbulo diz sem equívocos: "[... para] a segurança do Império alemão [...], a França deve ser tão enfraquecida que não possa renascer de novo como grande potência. A Rússia deve ser empurrada para o mais longe possível da fronteira oriental da Alemanha e o seu domínio sobre os povos vassalos não russos deve ser destruído[10]".

E, com certeza, muito poucas pessoas conheciam os detalhes desconcertantes e concretos do modo como os dirigentes alemães pensavam enfraquecer os seus concorrentes imperialistas, a França e a Inglaterra, e não muitas mais aquelas que conheciam os planos de anexação de certas partes da França e de pequenos países vizinhos a oeste. Para os países do Benelux atual, a nota previa a sua supressão de facto. Nesta mesma nota, Bethmann-Hollweg sublinha a este propósito : «2.º Bélgica. Anexação de Liège e de Verviers à Prússia; retorno de uma parte da província belga do Luxemburgo ao Grão-ducado de Luxemburgo. A anexação de um corredor de acesso ligando esta cidade a Liège não está certa. Em todo o caso, se a Bélgica mantiver aparentemente a sua independência, tornar-se-á um Estado vassalo […] 3.º O Luxemburgo torna-se um Estado confederado alemão, recebe uma parte do Luxemburgo belga e, eventualmente, o triângulo de Longwy. […] 6.º Holanda. É preciso também estudar os meios de ligar mais estreitamente a Holanda à Alemanha […]. A Holanda deverá manter a sua independência aparente, mas tornar-se na realidade dependente de nós. Pode-se talvez encarar um pacto de aliança ofensiva e defensiva incluindo as colónias, em todo o caso uma aliança aduaneira estreita, eventualmente a cedência de Anvers à Holanda contra o reconhecimento a um direito de ocupação pela Alemanha das fortificações de Anvers e da foz do Escaut11». Da mesma forma, a Alemanha queria uma maior fatia do bolo, nas colónias: «A questão das aquisições coloniais e, particularmente a criação de um império centro-africano alemão, [...]12» (em detrimento da França).

Estes objetivos de guerra não tinham sido discutidos abertamente, mas também não eram completamente desconhecidos: toda uma série de notas semelhantes eram públicas e encaixavam-se muito bem na nota de Bethmann-Hollweg. Mas, oficialmente, antes da guerra, o governo dissimulava os planos de anexação atrás de slogans que diziam tratar-se de uma «guerra defensiva».

E, nos seus congressos, os socialistas discutiam havia já muitos anos acerca da próxima guerra e do que era necessário fazer para a impedir.

A "traição" do SPD [Partido social-democrata (NT)] já não era uma surpresa...

Em 8 de agosto de 1914, no Reichstag, foi a social-democracia alemã a primeira que rompeu com os princípios do antimilitarismo, acordando com o Kaiser os créditos necessários para a guerra. Era uma contradição flagrante com o princípio do dirigente do partido, Auguste Bebel, falecido precisamente um ano mais cedo, em 13 de agosto de 1913, e que dizia: «Para este sistema nem um cêntimo, nem um homem!» Ao nível interno, o SPD continha já em si um tal processo de transformação que o apoio aos créditos de guerra já não era uma surpresa. É verdade que, durante os meses que precederam a guerra, houve ainda em diversos locais manifestações sociais-democratas contra a guerra. Mas a determinação em querer utilizar esta guerra para mobilizar contra o sistema capitalista e para apelar ao seu derrube era manifestamente insuficiente. Nas suas memórias, dois veteranos do partido, Carl Litkes e Alfred Mühls, falam de uma reunião com o eminente parlamentar do SPD, Otto Wels, no final de julho de 1914, em Berlim. «Aquando da realização de uma grande concentração de protesto contra a ameaça da guerra, nos últimos dias de julho, o camarada Otto Wels referiu-se à guerra e descreveu os seus horrores em todas as suas variantes. Mas, o que nos surpreendeu, é que ele não disse o que devia acontecer para impedir o início da guerra. Nós interrogávamo-nos: há aqui um jogo de tolos? A assembleia da Direção, que se realizou a seguir, confirmou o nosso receio. Wels explicou ainda que nada podia deter o desencadeamento da guerra. Esta declaração provocou uma verdadeira tempestade de protestos. Dissemos a Wels aquilo de que nós estávamos à espera: uma discussão de medidas contra a guerra. O camarada Hornig acusou Wels de traição. Em vez de responder, Wels levantou-se, indignado, e declarou que não podia discutir connosco nesta base[13]».

E, em 4 de agosto de 1914, o membro do SPD no Reichstag, Hugo Haase, catalogado como de esquerda, justificou como se segue o apoio do SPD aos créditos de guerra: «As consequências da política imperialista, de todo um período de corrida aos armamentos e da agudização das contradições entre os povos, derramaram-se sobre toda a Europa como um tsunami. A responsabilidade de tudo isto é dos autores desta política e nós recusamo-la. A social-democracia combateu com todas as suas forças este desenvolvimento catastrófico. Até ao último minuto, a socialdemocracia organizou em todos os países grandes manifestações pela paz, sobretudo ao lado dos nossos irmãos franceses. Os seus esforços foram vãos».

Poder-se-ia então pensar que, na base de resoluções contra a guerra das anteriores conferências internacionais, os sociais-democratas iam apelar a um reforço da oposição à guerra, a uma greve geral, a uma sabotagem, a uma vaga de protestos que implicasse toda a população. Poder-se-ia ter pensado que, depois do Reichstag, iriam lutar contra as penas de prisão aplicadas a Rosa Luxemburg que, em fevereiro e em junho de 1914, tinha sido condenada a um ano de prisão por ter convocado assembleias populares de trabalhadores apelando a que não virassem as armas contra os seus camaradas de classe de outros países. Mas Haase e o SPD fizeram precisamente o contrário. Capitularam, com o argumento de que era necessário uma «adaptação à realidade» e «impedir que a situação se agravasse». Esta predisposição a inclinar-se perante a posição de que «mesmo assim não se pode mudar nada» dominava havia já uma dezena de anos, na ala direita da direção do SPD e da Federação geral dos sindicatos alemães (ADBG)[14].

Dentro do mesmo espírito, Hugo Haase declarou, no seu discurso sobre os empréstimos de guerra: "Estamos hoje confrontados com a realidade brutal da guerra e dos horrores das invasões inimigas. Não estamos a decidir agora se somos a favor ou contra a guerra, mas a questão dos meios financeiros para a defesa do país. É preciso pensar agora nos milhões de compatriotas que, sem o quererem, se encontram diretamente no centro desta catástrofe. São eles que são os mais afetados pelas devastações da guerra". Haase fala de «defesa». Ele sabia porém que não se tratava de «defesa» de uma nação invadida por um adversário todo-poderoso. E o SPD fala exatamente da mesma maneira que o Imperador Guilherme II, que não conhecia «nada de partidos, mas apenas alemães»: ele já não fala de comunidade de classe e de interesses de classe, mas de «compatriotas».

Um partido marxista não podia descer mais baixo. Haase: «as nossas calorosas saudações vão sem distinção de partido para os nossos camaradas que foram convocados para a guerra. Pensamos igualmente nas mães que têm de se separar dos seus filhos, nas mulheres e nas crianças que ficam sem os que ganham o pão, que têm medo pelos seus entes queridos e estão ameaçados pela fome. Dentro de pouco tempo regressarão dezenas de milhares de combatentes feridos e mutilados. Consideramos que é nosso dever urgente ajudá-los, aliviar o seu destino, minorar as suas privações indizíveis» Que cinismo! O SPD dá luz verde ao caminho que conduz à «fome» e às «privações indizíveis», às «dezenas de milhares de feridos e mutilados», e fala ainda de «dever».

Aparece uma nova imagem do inimigo. "Para a nossa nação e um futuro de liberdade, uma vitória sobre o despotismo russo, embebido no sangue do seu próprio povo, significará muitas coisas, significará tudo. Deve-se atuar de maneira a que este perigo seja conjurado, a cultura e a independência do nosso país devem ser postas em segurança. Na hora do perigo, não deixaremos a nossa pátria ao abandono. [...] Guiados por estes princípios, aprovaremos os créditos de guerra solicitados[15]".

Vandervelde, dirigente do Partido operário belga, enviará os trabalhadores belgas para o massacre nestes termos: «É uma guerra santa pelo direito, pela liberdade e a civilização, pelo direito dos povos à autodeterminação». «A civilização não se salvará senão no dia em que a Alemanha dos proprietários fundiários, dos militares de carreira e dos fabricantes de canhões for destruída». No campo de Vandervelde, no campo da liberdade e da civilização, estavam o czar, isto é, o regime mais feudal, mais reacionário e atrasado da Europa. E os defensores belgas, franceses e ingleses da civilização porão mais tarde a Alemanha vencida sob um jugo econômico: terá de pagar cinquenta milhões de marcos-ouro e perderá metade da sua indústria e da sua produção agrícola, condições em que não poderá sobreviver. Tudo isso em nome do «direito», palavra atrás da qual se esconde a pilhagem colonial e mesmo a pilhagem do adversário vencido, a Alemanha.

Guerra pela «liberdade», dizia ainda Vandervelde, e «direito dos povos à autodeterminação»: mas isso, naturalmente, não se aplicava ao Congo nem ao Ruanda e ao Burundi, que, em nome da «liberdade» e do «direito à autodeterminação», a Bélgica ia colocar sob o seu controle depois da guerra. Também a Inglaterra conservou a Índia como todas as suas outras colõnias. Em França também, a «defesa da pátria» se tornou o novo ponto de vista dos socialistas. Jean Jaurès, apesar de se opor à guerra, tinha já feito declarações semelhantes em nome dos socialistas franceses. O argumento principal era os trabalhadores franceses terem conquistas a defender, a saber, o sufrágio universal simples.

Durante toda a guerra, o SPD concluirá com o imperialismo alemão uma Burgfrieden, uma paz social, uma paz cidadã. Até julho de 1917, o seu grupo parlamentar no Reichstag aprovará todas as emendas do Governo imperial a favor dos empréstimos de guerra. A recompensa não se fez esperar. Antes da guerra, as autoridades recusavam nomear os eleitos do SPD nos conselhos comunais, nos poderes organizadores de escolas e noutros serviços comunais. Dali para a frente, em mais de cem cidades e comunas, instruções ministeriais confirmaram oficialmente os sociais-democratas nas suas funções. O SPD tornava-se, assim, uma componente de parte inteira da estrutura do poder.

Até que ponto a decisão de apoiar a guerra foi surpreendente e chocante, vê-se no discurso de Karl Liebknecht, em meados de fevereiro de 1915. Ele tinha «feito todo o possível, antes de 4 de fevereiro de 1914, para convencer a fração parlamentar a recusar os créditos», escreveu ele a um destinatário desconhecido, mas não tinha conseguido que a maioria de esquerda mudasse de opinião. "Não me pareceu indicado, naquele momento, isolar-me completamente dos meus melhores amigos do campo radical. Ninguém podia prever esta traição do partido. A 3 e 4 de agosto tudo se virou de pernas para o ar. Não tínhamos mais do que umas horas, alguns minutos mesmo, à nossa disposição e encontrávamo-nos, para nosso grande horror, face a um estouro completo da ala radical. Haase, ele próprio membro da minoria no seio do partido, deixou-se convencer a apresentar a declaração da maioria! Foi pois com um ranger de dentes que me conformei à maioria! Lamentei-o de imediato amargamente e, por causa desta atitude, prontifiquei-me a assumir as críticas[16]".

Por ocasião da votação seguinte, em 2 de dezembro, e da terceira, em 20 de março de 1915, Liebknecht retificou este erro. Daqui decorre a origem da esquerda revolucionária na Alemanha e a salvação da honra do movimento socialista alemão.

O Partido Operário Belga (POB) e a guerra

Depois de os socialistas alemães terem decidido colaborar com a invasão alemã da Bélgica, os seus camaradas de outros países encontraram-se naturalmente numa situação difícil. A população belga também apoiava em grande parte a necessidade de defender o país contra a invasão. Mas a direção do POB nem sequer se colocou a questão do modo como prosseguir a luta contra a guerra. Para retomar as palavras de Vandervelde, os trabalhadores belgas serão enviados para o massacre nestes termos: "É uma guerra santa para o direito, a liberdade e a civilização, para o direito dos povos à autodeterminação".

No final de julho, com a aproximação da guerra, o POB aprovou a mobilização do exército belga. Em 2 de agosto, a Alemanha exigiu à Bélgica a livre passagem do seu exército. O conselho geral do POB aprovou a decisão do governo de rejeitar este ultimato e decidiu votar os créditos de guerra. Nenhum socialista contestou esta decisão.

Em 14 de agosto de 1914, o exército alemão invadiu a Bélgica. Nessa mesma manhã, realizou-se uma reunião extraordinária do parlamento. O rei fez primeiro um discurso. Em seguida, de Broqueville virou-se para Vandervelde e disse-lhe: "Vandervelde, nomeâmo-lo ministro de Estado. O senhor não pode recusar" os aplausos na bancada socialista significavam para ele que podia aceitar a sua nomeação. Prometeu então o apoio do POB aos futuros combates e a direção do POB transbordou de patriotismo. Louis de Broukère, catalogado como marxista da ala esquerda e que já tinha estado preso... por propaganda antimilitarista, propôs-se como voluntário! Henri de Man também foi voluntário; Jules Destrée explicou que a luta de classes devia ser deixada temporariamente em suspenso, em nome da luta da democracia (belga) contra a autocracia e o militarismo (da Alemanha). Propôs ao rei Alberto que aproveitasse as suas capacidades de orador e, no final de 1914, enviado em missão pelo rei, foi encorajar os soldados belgas na frente. Mesmo Camille Huysmans, que fora secretário do Burô socialista internacional e que, no início, tinha aceitado a passagem dos alemães pelo território belga, mudou de opinião depois do ultimato e da invasão e votou os créditos de guerra.

Esta tomada de posição não foi verdadeiramente uma surpresa. A atitude do POB para com o Estado burguês tinha sido dúbia desde o início. Marcel Liebman cita o exemplo de um discurso de Émile Vandervelde na Câmara, em 1911. Depois de ele – enquanto presidente oficioso da Internacional Socialista – ter declarado que o POB não era um partido nacional mas internacional, afirmou na mesma intervenção: "No dia em que a Bélgica seja atacada, nós defendê-la-emos. Bater-nos-emos como os outros e talvez com mais ardor do que os outros[17]".

Contudo, em 1880, os socialistas belgas não consideravam a Bélgica como a sua pátria. Louis Bertrand, um dos socialistas mais destacados, publicou por ocasião do cinquentenário da Bélgica, uma brochura com um título irônico, "1830-1880: cinquenta anos de felicidade e de prosperidade". Os socialistas não tinham nenhuma razão para se regozijar mais, dizia ele, do que os trabalhadores ou a classe média. Qualificava a revolução belga de 1830 como «revolução roubada». Os heróis de 1830 eram autênticos proletários, mas a pátria foi-lhes tudo menos agradecida e eles não tinham, pois, pátria de corpo inteiro; tinham sido bons soldados nas barricadas, mas não obtiveram direito de voto. Em 1905 ainda, o Conselho do partido tinha decidido não participar na manifestação em que se esperavam todos os parlamentares para a celebração dos 75 anos da Bélgica.

Mas esta visão da história abria de fato a porta a uma evolução para o patriotismo e a defesa da pátria. O trabalhador de 1830 não carecia de pátria na medida em que se lhes tinha recusado os direitos, direitos que era necessário que conquistassem através de uma dura luta.

No debate sobre a defesa nacional, os socialistas, aliás, reconciliaram-se bastante cedo com o princípio da defesa do território. Eram apoiadores do conceito dos liberais progressistas, de «nação armada». Anseele dizia: "Ninguém é verdadeiramente livre se não tiver os três seguintes direitos: o direito de voto para promulgar as leis conformes com as suas necessidades, uma existência assegurada para não ter de se submeter à vontade dos outros por falta de pão, e armas para defender contra os invasores estrangeiros ou os opressores nacionais os dois anteriores direitos invioláveis do homem. A nação armada, é o armamento dos pobres e o desarmamento dos ricos[18]". Todas as armas estavam apontadas contra o sistema do serviço militar antiquado belga que se fazia por sorteio. A sua supressão – e a introdução do serviço militar individual – foi votado por uma maioria «democrática e progressista», incluindo os socialistas.

Na véspera do último grande movimento de greve a favor do sufrágio universal, o POB debateu de novo, no seu congresso de março de 1913, a questão militar. Os relatores fazem um bom resumo das concessões dominantes no POB em matéria de pátria e de nação: «O socialismo não se opõe ao conceito de pátria no sentido nobre do termo. Não só aceita a existência de nações, como exige a sua autonomia e a sua independência. Admite igualmente que os povos livres se devem preparar para a defesa do seu território e das suas instituições democráticas. Na medida em que os diferendos entre países não sejam resolvidos por arbitragens legalmente constituídas, deverá recear-se o recurso à violência. Mas, face aos exércitos e aos instrumentos de conquista presentes no estrangeiro e aos sangrentos instrumentos de opressão e de coerção no próprio país, o socialismo propõe as milícias nacionais (armamento de todos os cidadãos para a defesa do país) uma nova forma legal mais adaptada ao exercício da defesa (exclusivamente destinada à defesa) dos povos que têm em alta consideração a sua liberdade mas que, ao mesmo tempo, têm respeito pela liberdade dos outros[19]».

Apenas a verdadeira esquerda do partido (Jacquemotte e Chapelier) e o grupo que se dizia marxista, com De Man e Brouckère, defenderam o ponto de vista socialista marxista tradicional: «Nós, os trabalhadores, não temos país». «Venham eles, franceses ou alemães; dar-nos-ão os ensinamentos obrigatórios e este sufrágio universal que trataremos com uma greve geral do trabalho». Mas a direção do partido, a saber, Jules Destrée, declarou: «O proletariado deve pelo menos defender o seu emprego... O trabalhador não deve defender a sua mulher e os seus filhos?» E Vandervelde, que gostava de alardear o seu conhecimento do marxismo para depois lançar os seus princípios borda fora, acrescentava: «Sim, no Manifesto do partido comunista está escrito que “os trabalhadores não têm pátria”. Mas isso data de 1848 – a situação estava então muito longe do que é hoje. Certamente, compreendo que o proletário russo não tem pátria. Mas quem ousaria pretender que, num país democrático como a Suíça, por exemplo, a classe operária não tem pátria? O conceito de pátria é relativo. É-se sempre compatriota de alguém. Os proletários devem tentar conquistar uma pátria que possam defender com amor, da mesma maneira que se defende a própria mãe[20]».

Depois da ocupação da quase totalidade da Bélgica, alguns dirigentes socialistas como Anseele e Wauters ficaram na parte ocupada do país; outros foram para os Países-Baixos, como Huysmans, em 1915. Depois do desencadeamento da guerra, Huysmans continuou a trabalhar para conseguir negociações e a paz através da Internacional. Mas, de fato, tinha-se tornado um patriota, com uma grande admiração por Alberto I. Wauters, foi um defensor radical da pátria. Outros ainda, como Vandervelde, tinham recuado com o exército belga. Destrée partiu para Itália, ainda neutra, no início da guerra. Em 1914-1915, tentou convencer os italianos a declarar guerra às potências centrais e isto contra os socialistas italianos. E, de fato, a Itália entrou na guerra depois de os aliados terem prometido extensões territoriais.

Dos companheiros apátridas aos falcões da guerra

Ter-se-ia compreendido que os dirigentes do POB não tivessem podido opor-se à guerra em 1914, numa altura em que uma maioria da população e os soldados ainda acreditavam na propaganda belicista. Mas, a partir de 1915, e certamente em 1916, esta suposição já não era sustentável. Já tinha havido várias confraternizações na frente, no Natal de 1914. Furtivamente ou em segredo, tinha havido, aliás, confraternizações durante toda a guerra. O ódio de classe que os soldados tinham pelos seus oficiais que os enviavam regular e inutilmente para a morte enquanto eles mesmos estavam confortavelmente resguardados na retaguarda, aumentou. As privações de toda a espécie e a fome empurraram a população civil para a sublevação. Em França, houve uma vaga de greves em maio e junho de 1916. Os partidos socialistas perderam dezenas de milhares de membros em protesto contra a conciliação de classes, enquanto os sindicatos ganhavam força. Entre os socialistas franceses apareceu uma minoria que rejeitava a «paz social». Na Alemanha, a oposição ao SPD aumentou também no seio das forças armadas. Jacques Pauwels[21] cita um provérbio muito popular na época no exército alemão: «Não combatemos pela pátria, não combatemos por Deus. Combatemos pelos ricos. Os pobres, são abatidos». Houve manifestações e greves e foram reprimidas pela violência. Liebknecht lançou a palavra de ordem: «O inimigo está dentro do nosso próprio país». Ele e Rosa Luxemburg foram rapidamente para a prisão. Na Rússia, também as deserções e a rebelião aumentaram e a simpatia pelos bolcheviques, o partido de Lenine, aumentou rapidamente. Desde o início, os bolcheviques tinham-se oposto à guerra, tinham proposto importantes reformas sociais e democráticas, tinham prometido dar a terra aos camponeses, introduzir a jornada das oito horas e sobretudo acabar com a guerra. E foi de facto o que eles fizeram no dia seguinte à Revolução de outubro de 1917.

Na Bélgica também, na frente de Yser, as deserções aumentaram. De 1200, oficialmente, em 1916, passaram a 5630, em 1917. Houve numerosos casos de rendições coletivas. Em 1917, a simpatia com os revolucionários da Rússia, que espezinhavam as autoridades superiores, era muito grande, escreveu Sophie de Schaepdrijver na sua obra, De Groote Oorlog[22].

Mas isso não levou a direção do POB a ter melhores sentimentos e os socialistas revelaram-se verdadeiros falcões da guerra. No 1º de maio de 1916, o Conselho do partido declarava: «A classe operária belga está determinada a passar por todas as dificuldades, a suportar todos os sofrimentos para não ter uma paz alemã que não seja uma paz durável e definitiva. Não se julgue que é preciso apressarem-se por nossa causa. Nós não exigimos a paz[23]».

Que isso não corresponde à realidade, já Vandervelde o tinha podido confirmar pouco depois do início da guerra: no fim de 1914, a pedido de Albert I, ele foi encorajar os soldados belgas na frente; quando perguntou a um grupo de soldados se tinham confiança nos seus oficiais, os soldados gritaram que não e começaram a cantar a Internacional. Vandervelde ficou siderado. Depois disto, o rei achou que era melhor que Vandervelde não se dirigisse mais às tropas!

Vandervelde foi até aos limites de um defensor da guerra, tal como, aliás, a esmagadora maioria do POB. Muito mais do que os socialistas doutros países, que criticavam o seu patriotismo belicista. A direção do POB foi ao ponto de atrair ou manter outros países na guerra. Vandervelde foi em tournée de propaganda aos Estados Unidos e depois da revolução de fevereiro de 1917, à Rússia. Em plena revolução russa, os homens do POB distribuíram uma brochura intitulada «Apelo dos trabalhadores belgas aos seus camaradas russos» para continuar a guerra. De Brouckère e De Man chegaram a aconselhar os oficiais russos a correr à metralhadora os soldados do Sétimo Corpo siberiano, que se revoltavam. Quando, em finais de 1916, houve tentativas de se conseguir uma paz separada para a Bélgica, Vandervelde opôs-se-lhe absolutamente. Mesmo Alberto I era mais pacifista.

Só Huysmans continuou a tentar reunir os partidos socialistas dos países inimigos. Para isto, organizou uma conferência em Estocolmo em 1917. Mas a conferência não teve nenhum efeito e, no seio do POB, quase ninguém estava de acordo com negociações. À medida que a guerra se prolongava, as relações entre Vandervelde e Huysmans arrefeciam. Vandervelde desaconselhou mesmo o ministro socialista britânico Hendersen a participar na conferência de Estocolmo. O Conselho do POB tomou posição contra esta conferência na base de um memorando redigido por Wauters. As iniciativas de paz de Huysmans equivaliam, aos olhos de numerosos socialistas, a uma tentativa derrotista para minar a resistência nacional. Depois da guerra, em dezembro de 1918, Huysmans teve mesmo de responder pela sua política perante o Conselho geral do partido.

O governo apreciou esta tomada de posição. Em 1916, Wauters foi nomeado para o Comitê nacional de socorro e de alimentação, fundado com o acordo dos alemães pelo industrial Solvay e o banqueiro Francqui, que mandou vir víveres dos Estados Unidos e que, de fato, funcionava como um aparelho oficioso do Estado.

Em 1915-1916, os meios dirigentes belgas estavam divididos sobre a questão de saber se a Bélgica devia ou não anexar os territórios depois da vitória. Vandervelde opunha-se, tal como Alberto I, exceto no caso de Malmedy, Moresnet e, se a população estivesse de acordo, o do Luxemburgo. Mas outros socialistas eminentes eram favoráveis a isso.

Apesar de a oposição da ala direita do partido católico e, sobretudo, dos dirigentes do movimento flamengo, como Frans Van Cauwelaert e Gustave Sap, o governo foi estendido como um governo de unidade nacional, com os socialistas e os liberais enquanto ministros plenos. Vandervelde justificou a sua entrada no governo nacional afirmando que havia uma diferença entre a participação governamental em tempos de guerra e em tempos de paz e que as correntes anexionistas poderiam ser combatidas mais eficazmente no seio do próprio governo. A declaração do governo previa que a guerra iria prosseguir sem acordo de paz separada com a Alemanha, que se pretendia o restabelecimento da independência total da Bélgica e... do Congo (sic !) e... o regresso do Luxemburgo à Bélgica. Vandervelde afirma nas suas Mémoires [Memórias (NT)] que havia igualmente uma «tendência para um acordo verbal» a favor de uma universidade flamenga em Gand, assim como do sufrágio universal simples, mas não se encontra rastro disso na declaração governamental.

Bem antes da guerra, Vandervelde era já presidente do Burô socialista internacional. Depois de o liberal Huysmans lhe ter dito que ele não podia servir dois senhores ao mesmo tempo - a Internacional (de que faziam igualmente parte os socialistas alemães e austríacos) e a Bélgica – respondeu que se dedicaria unicamente, dali para a frente, à defesa da pátria. Mesmo assim continuou como presidente do Burô, mas foi Camille Huysmans, o secretário, que continuou a tentar pôr de pé as negociações através da organização. Alberto I compreendeu, aliás, muito bem, a utilidade da posição de Vandervelde. Em finais de 1915, os dois homens falaram sobre a possibilidade de conversações de paz: Albert não acreditava numa vitória militar, contrariamente a Vandervelde. Iria ser necessário discutir.

Alberto I estava reconhecido a Vandervelde também por uma outra razão. Em fevereiro de 1918, realizou-se em Londres uma conferência internacional dos partidos socialistas dos países aliados, sob a presidência de Vandervelde. Este conseguiu evitar uma moção sobre a internacionalização da bacia do Congo depois da guerra: apoiando-se na possibilidade de que os socialistas se tornassem efetivamente o partido mais forte de toda a Europa, Vandervelde tinha atuado de maneira a que a Bélgica não perdesse o Congo.

Concessões por medo da revolução

Como já foi dito, desde 1916 e, sobretudo, depois da Revolução de outubro, o cansaço em relação à guerra adotou, em toda a Europa ocidental, formas cada vez mais perigosas para os detentores do poder. Alberto I estava bem consciente disso e procurava uma saída, mesmo sob a forma duma paz separada com a Alemanha, por receio de que a continuação da guerra levasse à revolução como na Rússia. Já em setembro de 1916, tinha sido informado de que o descontentamento reinava entre os militares na frente da França e que existiam mesmo tendências republicanas.O Primeiro-ministro católico Poullet também partilhava desta opinião: também os católicos não estavam seguros quanto à evolução do POB. No início de 1917, num depósito de artilharia belga, muito próximo do Havre, operários belgas tinham parado o trabalho e ido queixar-se da alimentação e dos salários a Vandervelde, que os tinha apoiado. O governo recusou qualquer concessão e Vandervelde apresentou a sua demissão. Isso foi recusado, mas, entre os elementos mais conservadores do governo, estes acontecimentos levantaram dúvidas quanto à lealdade do POB em relação governo.

O medo de uma revolução foi ainda reforçado quando, em outubro de 1918, se tinha também desencadeado um movimento revolucionário na Alemanha. O príncipe Max von Baden, chanceler do Império, demitiu-se e foi substituído pelo socialista Ebert. Em 9 de novembro, foi proclamada a república e o Kaiser fugiu. Em 10 de novembro, um comitê de soldados alemães vindos de Berlim desembarcou em Bruxelas. Esses soldados insurgentes tinham expulsado a administração alemã de ocupação.

No interior do POB também, a partir daí, militantes opunham-se à linha oficial do partido. Alguns bateram-se ao lado dos bolcheviques, como Frédéric Legrand, um metalúrgico de Mons que, durante a guerra, tinha sido enviado para as fábricas de armamento na Rússia em companhia de outros trabalhadores belgas e que, em São Petersburgo, se tornou a peça-chave de um grupo belga de bolcheviques de cerca de 300 trabalhadores. Tinha reencontrado Julien Lahaut que, na época, era soldado e se tornaria mais tarde dirigente do Partido Comunista Belga. Legrand participou no assalto ao Palácio de inverno em 5 de novembro de 1917. Mais tarde, foi recebido por Lenine ao mesmo tempo que uma delegação de trabalhadores belgas e, até 1921, combateu ao lado dos bolcheviques.

No próprio POB, tanto na Flandres como em Bruxelas e na Valônia, a ala esquerda opôs-se a Vandervelde. O Grupo da paz, de Gand, de que o poeta Richard Minne era membro, exigiu em 1918 o fim da guerra e a solidariedade com a Revolução de Outubro. O grupo apoiava a criação de uma Terceira Internacional, uma vez que a Segunda Internacional, a cuja direção o POB continuava fiel, não estava em condições de impedir a guerra.

Quando os soldados alemães se revoltaram contra os seus oficiais e instauraram um conselho revolucionário em Bruxelas, a exemplo do que se passava na Alemanha, militantes do POB e membros da Jovem Guarda socialista juntaram-se a eles. Um deles era Joseph Jacquemotte, o futuro presidente do Partido Comunista. Em agosto de 1920, o Primeiro-ministro do governo com participação socialista deixou passar um transporte de armas para as tropas contrarrevolucionárias na Polônia. Mas, no carregamento em Anvers, partiu-se uma caixa e os estivadores viram que continha espingardas. Imediatamente pararam o trabalho, e o seu sindicato internacional apelava ao boicote destes transportes. O barão von der Lancken, uma das figuras de proa das autoridades de ocupação alemã, procurou contatar a direção do POB para impedir que a população fosse levada a uma revolta. Mas o POB não tinha de maneira nenhuma intenção de participar na insurreição: Wauters, que foi convidado pelos insurgentes alemães, recusou qualquer colaboração e Anseele, que foi nomeado presidente da "República belga" pelos insurrectos declinou a proposta.

Os dirigentes do POB não se preocupavam com a revolução, tinham abandonado a luta de classes desde o início da guerra e os socialistas que ficaram no território ocupado tinham-se tornado patriotas fiéis ao rei. No seio do comitê nacional de socorro e alimentação, o partido tinha provado a sua lealdade. Nem por um segundo teria encarado a deposição de Alberto I. E isso iria perceber-se bem depressa.

Aliás, já tinha sido decidido que, em caso de uma transferência de poder, seria constituída uma comissão consultiva governamental, formada por quatro católicos, dois liberais e dois socialistas. O POB seria representado por Wauters e Anseele. Depois da avançada do exército belga, depois da ofensiva dos finais de Setembro de 1918, o rei Alberto tinha-se instalado no castelo de Loppem, perto de Bruges. É aí que será discutida a questão do pós-guerra. À maneira do banqueiro Francqui, Alberto queria aliviar a situação socioeconômica explosiva através da introdução rápida de algumas reformas políticas radicais. Joseph Wauters tinha-lhe falado na desconfiança dos trabalhadores face ao governo e às classes dirigentes e mostrado claramente que não havia muito tempo a perder, fazendo alusão aos acontecimentos na Alemanha e na Rússia. A 14 de novembro, foi constituído um governo, o primeiro de Léon Delacroix, com os três partidos.

O rei era apoiador da integração total dos socialistas no regime e, para isso, uma modificação eleitoral era o ideal. Houve acordo com o direito de voto dos homens a partir dos 21 anos (sistema do sufrágio universal simples). Os socialistas não queriam o direito a voto para as mulheres porque receavam que isso não jogasse a favor dos católicos. O POB recebeu três pastas ministeriais importantes: Wauters tornou-se ministro da Indústria, do Emprego e do Abastecimento, Anseele tornou-se ministro da Obras Públicas e Vandervelde recebeu a pasta da Justiça.

Foi decidido que as próximas eleições se realizariam já com o sistema do sufrágio universal simples. Era uma violação da Constituição: o parlamento cessante devia indicar previamente qualquer artigo submetido à revisão antes da aprovação pelo novo parlamento. Mas a necessidade faz a lei e, neste caso, a necessidade era o medo de uma revolta. Organizar as eleições segundo o sistema antigo significava que aqueles que mais tinham sofrido com a guerra, a saber, os trabalhadores e os soldados rasos, não obteriam senão uma única voz, enquanto os outros teriam várias. Isso teria podido desembocar num perigoso descontentamento. O medo da revolução continua a fazer-se sentir nas mais altas esferas. Alberto também estava desconfiado: em 14 de novembro, tinha dito ao general francês Degoutte que alimentava algum receio a respeito dos socialistas belgas: tinha confiança em Vandervelde e Anseele, mas pensava que eles podiam perder o controle das suas bases.

Os salvadores da ordem existente

No final de 1918, a vontade de negociação do POB tornou-se muito forte, por causa da atmosfera revolucionária que reinava então na Europa. Na Bélgica, tinha sido necessário três greves gerais (em 1893, 1902 e 1913), e depois, sobretudo, a Revolução de Outubro, para que os trabalhadores conseguissem arrancar o sufrágio universal masculino, em 1919. Foi necessária uma nova greve geral em 1919, juntando-se ao medo do vento revolucionário de outubro antes que, em 1921, fossem introduzidas a jornada de 8 horas e a semana das 48 horas.

O partido não utilizou a situação para impor uma revolução social, mas declarou-se satisfeito com as reformas, que não tocavam no sistema existente. Em maio de 1918, depois da ocupação da Bélgica, o conselho geral e a comissão sindical definiram o seu programa de reivindicações numa nota transmitida a Vandervelde e a de Brouckère. Esta nota compreendia quatro pontos: o sufrágio universal simples a partir dos 21 anos, a supressão do artigo 310 do Código Penal, que proibia os piquetes de greve, a liberdade de associação para os funcionários e a representação do POB no trabalho de reconstrução nacional. Não queriam criar dificuldades ao regime com o qual se identificaram durante a guerra.

Desde o princípio, os dirigentes do POB estiveram do lado da contrarrevolução. Destrée odiava a Revolução de Outubro. Dizia que Lenine era «um personagem insignificante, meio mongol, meio boche». Vandervelde também estava convencido de que a revolução ia fracassar, porque «os trabalhadores russos são analfabetos na sua maioria». Durante toda a guerra civil, o jornal do POB, Le peuple [O povo (NT)], conduziu uma campanha feroz contra a Revolução de Outubro e contra as outras revoluções na Europa. Em dezembro de 1918, escreveu que «uma vitória dos spartakistas na Alemanha tornaria necessária uma invasão das tropas inglesas e francesas». Os seus semelhantes na Alemanha assumirão a mesma tarefa de afogar em sangue a revolução alemã. Em maio de 1919, o jornal do POB apoiou a intervenção estrangeira contra o poder soviético e, em novembro de 1920, comparou os comissários do povo, isto é, os ministros soviéticos, a «uma modernização de um ataque à mão armada».

A partir daquela época, o partido socialista foi um apoio sólido do regime capitalista. Menos de dez anos mais tarde, essa posição mergulhará ainda a população numa nova crise económica profunda, levará o fascismo ao poder na Alemanha, e conduzirá a uma nova guerra mundial. Hoje, mergulhamos de novo numa crise profunda e o perigo de novas guerras torna-se cada vez mais real.

Desde então, igualmente, o movimento operário está dividido. Em 1919, Lenine fundava a Internacional Comunista, a Terceira Internacional, para substituir a Internacional social-democrata, que tinha traído todos os ideais socialistas. Esta nova Internacional tornou-se um pólo de atração para todos os movimentos que continuaram revolucionários. Em 1921, foi fundado o Partido Comunista da Bélgica, secção belga da Terceira Internacional. Foi esta ala revolucionária do movimento operário que conduziria a luta contra o fascismo e constituir-se-ia como o principal ator na vitória sobre a Alemanha nazista.

Hoje, a luta contra o capitalismo e pela paz é sempre o ponto número um na ordem do dia.

Notas:

1. Os parágrafos seguintes apoiam-se em Leo Michielsen. Geschiedenis van de Europese arbeidersbeweging. Cap. 11, http://www.marxists.org/nederlands/michielsen/1976/geschied/11.htm.

2. Para o debate sobre este assunto ver, ftp://digital.amsab.be/pubs_serials/De_Verbroedering_1899_1936/1907/mtsf40_jg09-27_19070707.pdf.

3. F. Engels: carta a A. Bebel (22-12-1882). MEW, Band 35, p. 416. Retirado de Geschichte der deutschen Arbeiterbewegung, Band 2. Berlin/DDR, 1966, p. 666. Citado numa contribuição de H.P. Brenner numa conferência internacional dos partidos PTB, NCPN, DKP e KPL em Aix-la-Chapelle, a 13 e 14 fevereiro de 2014. A maior parte das citações em alemão provêm desta contribuição.

4. Rosa Luxembourg, La crise de la social-démocratie [A crise da social-democracia (NT)] ("brochura Junius"), cap. 3. L’Altiplano, 2009 (ISBN : 978-2-35346-033-5), p. 73. Esta lei, aprovada em 14 de junho de1900, decidia o aumento da frota para o dobro.

5. Lenine, "Les tâches de la social-démocratie révolutionnaire dans la guerre européenne", [As tarefas da social-democracia revolucionária na guerra europeia (NT)], OEuvres, tomo 21, p. 9.

6. Ibid., p. 10.

7. Lenine, carta de 17 outubro de 1914 em A. G. Chliapnikov, OEuvres, tomo 35, p. 158.

8. Ibid.

9. Ibid., p. 159.

10. "Septemberprogramm" de 9 de setembro de 1914. Citado em Fritz Fischer, Germany’s Aims in the First World War, W.W. Norton & Company, Inc., 1967, http://www.wwnorton.com/college/history/ralph/workbook/ralprs34.htm.

11. Idem. Na rede em francês: http://uia95.com/Carteshistoire/Allemagne/Hegemonie%2014%2018/Programme%20de%20septembre.htm

12. Ibid.

13. Berlim 1917-1918. Parteiveteranen berichten über die Auswirkungen der Großen Sozialistischen Oktoberrevolution auf die Berliner Arbeiterbewegung, Berlin 1957, pp. 13 e 14-15. Citação em Geschichte der deutschen Arbeiterbewegung, Band 2, p. 429.

14. De "Handbuch zur Geschichte der deutschen Arbeiterbewegung", Band 2. Berlin/DDR 1987, p.782.

15. "Erklärung der Sozialdemokratischen Partei zum Kriegsausbruch abgegeben vom Fraktionsvorsitzenden Haase im Reichstag (4 Augustus 1914)", Verhandlungen des Reichstags, XIII. LP., II. Sess., 1914, Bd. 306, pp. 8 e seguintes. Citado em Ernst Rudolf Huber, Dokumente zur deutschen Verfassungsgeschichte. 2.

16. K. Liebknecht : "Brief an einen Unbekannten. 18 februari 1915", Gesammelte Reden und Schriften, Bd. VIII, pp. 195 e seguintes.

17. Marcel Liebman, Les socialistes belges 1914-1918 : Le P.O.B. face à guerre [Os socialistas belgas 1914-1918: o POB face à Guerra (NT)], p. 4. La revue nouvelle [A revista nova (NT)], Fundação Joseph Jacquemotte, Vie Ouvrière [Vida Operária (NT)], 1986.

18. Citado em Vanschoenbeeck, "Socialisten : gezellen zonder vaderland? De Belgische Werkliedenpartij en haar verhouding tot het 'vaderland België', 1885-1940", em BEG-CHTP, no 3 (1997), http://www.cegesoma.be/docs/media/chtp_beg/chtp_03/chtp3_015_Vanschoenbeek.pdf.

19. Vanschoenbeeck, ibid.

20. Citado em Jan Godderis : «Oorlog aan de oorlog !? De houding van de Belgische Werkliedenpartij ten aanzien van het leger 1885-1914». Trabalho apresentado na faculdade de filosofia e letras para a obtenção de uma licenciatura em história. Ano académico de 2003-2004, Universidade de Gand, http://www.ethesis.net/werkliedenpartij/werkliedenpartij_inhoud.htm.

21. Jacques Pauwels, De Groote Klassenoorlog, EPO, 2014.

22. Sophie De Schaepdrijver, De Groote Oorlog. Het Koninkrijk België tijdens de Eerste Wereldoorlog, Hautekiet, Atlascontact, 2013, p. 222. Uma tradução francesa da primeira edição deste livro, La Belgique et la Première Guerre mondiale [A Bélgica e a primeira Guerra mundial (NT)], foi publicada por Peter Lang en 2004.

23. Citado em Jan Godderis: http://www.ethesis.net/werkliedenpartij/werkliedenpartij_inhoud.htm.

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