1 de outubro de 2014

Obrigado a Cuba

Rémy Herrera


Tradução / Neste momento não é ainda possível avaliar com precisão as consequências, em termos de vidas humanas, da epidemia de Ebola que atinge a África ocidental, do Senegal à Nigéria, e que agora se concentra na Serra Leoa, a Libéria e a Guiné-Conacri.

Será necessário dizer-se que, de uma forma geral, o estado sanitário das populações desta região é muito mal conhecido – em consequência de meios disponíveis ou atribuídos às instituições locais especializadas, e dos poucos esforços empreendidos internacionalmente para as ajudar.

Em meados de setembro de 2014 a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimava em mais de 2 630 o número de mortos causados diretamente pela doença, e em mais de 4 800 o de pessoas contagiadas. Mas numerosos testemunhos recolhidos no terrível caos das localidades mais afetadas levam a pensar que estes números subavaliam largamente a situação.

A própria OMS, aliás, não desmentiu a previsão segundo a qual 20 000 casos suplementares poderiam verificar-se daqui até ao fim do ano.

Identificado pela primeira vez em 1976 no hospital de Yambuku, no norte do ex-Zaire, o vírus em questão, o Ebolavirus Zaïre, é a 90% letal (nove em cada dez casos são mortais por febre hemorrágica aguda) e é muito contagioso em condições precisas: através do contato directo com os líquidos orgânicos. Se nada for feito num prazo muito curto para deter a difusão deste flagelo, os outros não serão os únicos a ser atingidos pelo inferno.

Mais 165 cubanos

No passado dia 12 de setembro, a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, e o ministro da Saúde Pública de Cuba, o Dr. Roberto Morales Ojeda, deram uma conferência de imprensa em Genebra. Em nome do presidente Raúl Castro, Roberto Morales Ojeda confirmou que o seu país respondia presente ao apelo à cooperação anti Ebola lançado por aquela instituição da ONU e pelo secretário-geral Ban Ki Moon.

Cuba prepara-se para enviar 165 profissionais de saúde em ajuda às populações locais. Em dois dos três países mais atingidos – Serra Leoa e Guiné-Conacri – estavam já no local e operacionais brigadas médicas cubanas de vinte e três e dezEsseis membros, respectivamente.

Em Havana decorre a preparação intensiva de 165 homens e mulheres, treinados pelos seus colegas do Instituto de medicina tropical Pedro-Kourí nos protocolos de segurança e na manipulação dos materiais de proteção. 62 e 103 enfermeiros que fizeram a opção de deixar família e amigos para ir desafiar a morte no continente africano, e aí tentar salvar o maior número de vidas possível. É esse o sentido da sua existência, é essa também a mensagem de coragem, de solidariedade e de humanidade que o povo de Cuba e o seu governo nos dirigem a todos. Cada um avaliará, por si, o que pode daqui concluir-se. Declararei apenas, da minha parte, humildemente, o orgulho de viver num mundo onde, em algum lugar, apesar das gigantescas dificuldades que tem de defrontar (incluindo um bloqueio), um povo encontra as forças, os recursos e 165 heróis para agir desta forma.

É certo que Cuba, nos dias de hoje, fornece sozinha mais pessoal médico aos países do sul do que o G7. Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino-Unido, Itália e Canadá significam mais de 36 trilhões de dólares de riqueza produzida (mais de metade do rendimento mundial para 10% da população do globo), contra menos de 65 bilhões em Cuba (11 milhões de habitantes, menos do que o Senegal, o Mali, o Níger). Então eu, francês, digo: “vergonha aos nossos dirigentes do norte”! E precisemos que estes 165 cubanos são todos voluntários – era óbvio, mas é preferível referi-lo face ao incessante fluxo de calúnias derramado pelos meios de comunicação ocidentais contra Cuba.

Vergonha também a esses meios de comunicação, cujo exercício da “liberdade de expressão” consiste em aconselhar a compra na Bolsa de ações das empresas farmacêuticas transnacionais susceptíveis de conseguir volumosos lucros no decurso da epidemia.

A participação cubana é, de momento e de longe, a mais generosa oferta de médicos, enfermeiros, especialistas no controle de doenças infeciosas e epidemiológicas que a OMS recebeu. Estas brigadas médicas cubanas irão, por seis meses sem rotação, trabalhar lado a lado com outros voluntários da saúde – heróis eles e elas igualmente, venham de onde vierem, sejam locais ou estrangeiros.

As brigadas são compostas por profissionais de alto nível, com experiência (um mínimo de 15 anos de prática), tendo já efetuado pelo menos uma missão internacionalista e exercido em condições de catástrofes naturais ou epidemiológicas. Intervirão em primeiro lugar na Serra Leoa, tendo em conta a amplitude da epidemia e a urgência da situação existente neste país.

Esta decisão explica-se também pela existência de antecedentes de cooperação entre Cuba e a Serra Leoa em termos de saúde pública e pela necessidade de concentrar os esforços e os efetivos médicos a fim de os tornar eficazes, de respeitar normas sanitárias estritas nos centros de cuidados de saúde e de promover a entreajuda para evitar o esgotamento, o desencorajamento ou mesmo a contaminação do pessoal no terreno.

Mais de 1,2 milhares de milhões de consultas médicas

Simultaneamente, as autoridades médicas cubanas anunciam ter adotado uma série de medidas de prevenção em conformidade com o dispositivo de controle sanitário internacional em relação às entradas e saídas de viajantes bem como do reforço da “vigilância higiênico-epidemiológica” nacional.

As equipes de pesquisadores cubanos dos diferentes laboratórios do sistema de saúde pública e das indústrias médico-farmacêuticas e biotecnológicas, cujas capacidades são amplamente reconhecidas, foram igualmente mobilizadas para a tentativa de encontrar soluções terapêuticas e/ou preventivas da doença. A tarefa afigura-se extremamente complexa logo a partir da fase inicial.

Não esqueçamos que, para além desta contribuição exemplar para o combate contra a epidemia de Ebola, mais de 4 000 (4 048, segundo dados oficiais) trabalhadores cubanos da saúde, entre os quais 2 269 médicos, participam atualmente em missões internacionalistas em 32 países africanos.

E que, desde 1959 – o início da revolução cubana –, perto de 77 000 integraram brigadas médicas cubanas enviadas a 39 países de África. De resto, foi no continente africano, após uma primeira ajuda enviada à população chilena vítima de um tremor de terra (1960) que se iniciou a história da solidariedade médica de Cuba. Foi em maio de 1963 na Argélia, com a chegada ao seu território tão dolorosamente libertado do colonialismo de 55 médicos vindos de Havana.

Há muito pouco tempo mais de 36 000 pacientes africanos beneficiaram da missão Milagro (“Milagre”) graças à qual puderam recuperar a vista ou melhorá-la, principalmente os operados às cataratas. Juntam-se a isso, e esse aspecto é fundamental, numerosos estudantes originários de África que são formados nas escolas de medicina em Cuba ou, em outros casos, no seu próprio país com apoio cubano.

Cuba é, no presente, a presença de mais de 50 000 trabalhadores da saúde, metade dos quais médicos, em 66 países. Dois terços deles são mulheres que exercem, em alguns casos, em condições dificilmente imagináveis, como será o caso das montanhas do Paquistão. Resultados em 55 anos de solidariedade: 595 000 missões cumpridas em 158 países, 325 000 profissionais de saúde envolvidos, 12 milhões de crianças vacinadas, 8 milhões de intervenções cirúrgicas efetuadas, 2,2 milhões de partos acompanhados, mais de 1,2 milhares de milhões de consultas médicas realizadas... Não há senão uma palavra a dirigir aos cubanos, e essa palavra é: Obrigado.

"Dinheiro e materiais são importantes, mas com esses meios apenas não será possível conter a epidemia de Ebola", declarou Margaret Chan (OMS). "O mais importante são as pessoas: pessoas capazes de compaixão; médicos e enfermeiros que sabem como confortar os seus pacientes apesar das barreiras que os separam, por exemplo, apesar do fato de terem de utilizar meios de proteção e trabalharem em circunstâncias muito difíceis. Cuba é mundialmente reconhecida pela sua capacidade de formar excelentes médicos e enfermeiros. É igualmente reconhecida pela sua generosidade e a sua solidariedade para com os países a caminho do progresso.

(...) Estou muito feliz pela cooperação cubana na luta contra a epidemia de ebola. Cuba é um exemplo". Os Estados Unidos, pela voz do presidente Obama, mantiveram-se igualmente fiéis à sua reputação, decidindo enviar um contingente de 3 000 militares para a Libéria.

Assim seja. Se se tivesse tratado de 3 000 médicos e enfermeiros, teríamos razões para lhes endereçar toda a nossa gratidão; e teriam sido colocados no terreno duas vezes mais profissionais de saúde do que aqueles de que a doutora Chan disse ter necessidade.

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