13 de novembro de 2014

Chegou a hora de dizer: "Eu sou um hierosolimita"

Quando o muro do apartheid vai desmoronar?

Jamal Juma e Maren Mantovani

Al Jazeera

Há 25 anos, o Muro de Berlim veio abaixo. O célebre discurso de John F. Kennedy “Eu sou um berlinense” fez desse muro o símbolo perfeito que o Ocidente escolheu para encarnar o “outro” contra o qual ele se bateu durante décadas, justificando inúmeras guerras, o apoio a ditaduras, a tortura no mundo todo e a repressão interna. O dia 9 de novembro de 1989 marcou o fim da era da Guerra Fria e o início da era do “choque de civilizações”. Retomando o antigo modelo orientalista, as populações árabes e muçulmanas tornaram-se o novo inimigo.

2002 assistiu à construção de um novo muro, muito mais extenso, muito mais alto e, além disso, um instrumento de confisco, em larga escala, de territórios e de recursos. O Muro do Apartheid israelense, construído em terras palestinas ocupadas, cria, de fato, Bantustões para o povo palestino. Ele separa os agricultores de suas terras, as famílias de seus parentes e as crianças de suas escolas. Esse muro é mais um exemplo concreto da campanha de limpeza étnica que Israel empreende contra os palestinos. Ele demonstra a impossibilidade de um Estado ou da autodeterminação. Lamentavelmente, neste momento histórico, o Muro do Apartheid israelense é o símbolo perfeito do próprio paradigma do mundo “livre”: com o pretexto da “segurança” e da “autodefesa”, tudo que Israel faz é desculpado e aceito.

O impacto do Muro do Apartheid em Jerusalém é especialmente dramático. O Muro está redesenhando a cidade e isolando os bairros palestinos, visando erradicar a presença palestina em Jerusalém e a esmagar a reivindicação palestina de ter Jerusalém como capital.

Hoje, outra capital, Jerusalém, se transforma em um campo de batalha simbólico. Desta vez não temos a ponte aérea americana nem discursos grandiloquentes, mas a resistência diária de um povo que luta por seus direitos, por sua dignidade e por sua própria vida na cidade. Na última sexta-feira, quase exatamente um quarto de século após a queda do Muro de Berlim, em toda a Jerusalém Leste ocupada palestinos entraram em choque com as forças israelenses que ocupam sua capital. Só no campo de refugiados de Shu’fat 70 pessoas foram feridas e outras 250 ficaram asfixiadas com gás lacrimogêneo da polícia de fronteira israelense. Em Bir Nabala, o comitê popular derrubou uma parte do Muro do Apartheid.

Os palestinos de Jerusalém assumem as rédeas de seu próprio destino. Eles não podem se dar ao luxo de esperar que a comunidade internacional cumpra com sua obrigação de assegurar que Israel pare com as violações do direito internacional e de derrubar o Muro, reafirmadas pelo Tribunal Internacional de Justiça em sua decisão de 2004 a respeito do Muro. É chegada a hora de todos os povos do mundo se erguerem em solidariedade e, contra a conivência de seus líderes políticos, declararem: “Eu sou um hierosolimita”.

A “Intifada de Jerusalém”

Desde o início, Jerusalém tem sido um ponto crítico das estratégias israelenses. Durante as campanhas israelenses de limpeza étnica em 1948, o mais cruel e emblemático massacre de civis palestinos ocorreu em Deir Yasin, nos arredores de Jerusalém. Desde a ocupação do lado oriental da cidade em 1967, os esforços de Israel para anexar na prática Jerusalém e para eliminar a presença palestina em sua capital têm sido implacáveis. Os últimos meses, contudo, têm assistido a um crescimento exponencial da agressão israelense na cidade.

A expansão dos assentamentos em Jerusalém tem sido contínua e tem representado uma provocação sistemática, na medida em que Israel rouba cada vez mais terras dos palestinos para os colonos judeus. Só nos últimos dois meses, Israel anunciou 2600 novas unidades residenciais nos assentamentos de Givat Hamatos, 640 em Ramat Shlomo e 400 em Har Homa. No bairro palestino de Silwan, colonos ilegais ocuparam mais de 25 apartamentos palestinos.

Além disso, ao atacar a mesquita de Al Aqsa e o complexo do Nobre Santuário ao lado, Israel provoca deliberadamente a ira não somente do povo palestino, mas de todo o mundo muçulmano. Ao longo dos últimos seis meses, colonos israelenses têm invadido quase que diariamente a área protegidos pelo exército de Israel, violando a legislação israelense e os acordos internacionais. Líderes políticos israelenses juntam-se regularmente aos colonos, deixando claro que não se trata de um movimento periférico, mas que faz parte da estratégia governamental. Tornou-se rotineira a tentativa de Israel de fechar o acesso dos palestinos ao Nobre Santuário durante o período que vai das preces da manhã às do meio-dia.

Como os palestinos se escondem em seus lugares sagrados, os confrontos acontecem quase que diariamente. Pela primeira vez desde que Saladino libertou Jerusalém dos cruzados, as forças de ocupação israelenses fecharam completamente o complexo do Nobre Santuário, chegando mesmo a proibir o chamado para a reza duas vezes nas últimas semanas.

Ultimamente, os confrontos para defender o acesso aos lugares sagrados muçulmanos foram liderados, em grande medida, por mulheres, já que, nos últimos dois anos, Israel proibiu todos os homens palestinos com menos de 50 anos de idade de entrar na mesquita de Al Aqsa. Como resultado disso, Israel agora também está impedindo a entrada nos lugares sagrados de mulheres com menos de 40 anos de idade. Além disso, as forças de ocupação passaram a exigir que os palestinos que entram na mesquita deixem suas carteiras de identidade nos portões de entrada, e muitos deles são obrigados a se apresentar para serem interrogados pela polícia israelense quando querem deixar o complexo da mesquita.

No entanto, o que detonou o atual levante da população de Jerusalém contra a ocupação foi o cruel assassinato do hierosolimita de 16 anos Mohammed Abu Khdair. No dia 2 de junho, o jovem foi sequestrado e queimado vivo por um grupo de colonos israelenses. Isso representou o prelúdio da “Intifada de Jerusalém”, fazendo com que ocorressem confrontos em toda a cidade. A mobilização logo se espalhou para as cidades e bairros ocupados por cidadãos palestinos na Galileia e para a Margem Ocidental. Essa onda de protestos só refluiu em consequência do pavoroso ataque de Israel a Gaza, um massacre destinado em parte a desviar a atenção e romper a dinâmica de mobilização que se espalhava no restante da Palestina. No entanto, logo após o fim do massacre Israel anunciou a criação de novos assentamentos e o confisco de 4.000 dununs (1 dunum = 1000 m²) de território palestino na Jerusalém ocupada. Os protestos na cidade recomeçaram.

Israel usa esses protestos como pretexto para impor um cerco ainda mais rígido a Jerusalém. O atual efetivo policial recebeu um reforço de mil policiais de fronteira que patrulham os territórios palestinos. Nas ruas, policiais fortemente armados param os palestinos por qualquer motivo e, no mínimo, os intimidam e aplicam multas administrativas ilegítimas. É assim que Israel pretende afastar os palestinos das ruas.

Essas medidas de repressão da resistência palestina atendem ao discurso interno de Israel. Após a verdadeira derrota militar sofrida neste verão para a população de Gaza, os políticos exigem que se use uma força exagerada contra os palestinos para resgatar a percepção que têm de si como um poder invencível. No entanto, como seria previsível, em vez de subjugar facilmente os palestinos esses ataques estão fazendo o contrário. A população de Jerusalém continua a sair às ruas e os protestos estão se espalhando novamente pela Margem Ocidental e pela Galileia. Numa tentativa de reduzir a escalada da situação, o primeiro-ministro Netanyahu foi até forçado a pedir aos colonos que interrompessem temporariamente as invasões da mesquita de Al Aqsa.

Bantustões em formação

A insistência de Israel em subjugar a resistência palestina em Jerusalém ultrapassa o simbolismo implícito no domínio total da capital palestina e dos lugares sagrados. A divisão da Margem Ocidental em duas partes, uma ao sul e outra ao norte, por meio da criação de um corredor de assentamentos que vai de Jerusalém ao Mar Morto, é uma necessidade geoestratégica do projeto de bantustonização da Margem Ocidental.

Simultaneamente aos ataques a Jerusalém ocorre a aceleração do processo de limpeza étnica de 46 comunidades beduínas palestinas que vivem nas montanhas que se estendem da cidade ao vale do Jordão, no extremo leste da Margem Ocidental. As autoridades de ocupação estão prevendo três “áreas de realocação” para essas comunidades, semelhantes às construções pelas comunidades negras despejadas durante a versão sul-africana do apartheid. Ao mesmo tempo, estão em andamento projetos de infraestrutura para abrir um túnel de Aizariya a Anata e fechar as estradas históricas que ligam o sul da Margem Ocidental ao norte e ao vale do Jordão. Durante o mês de junho, o assim chamado posto de controle Container, localizado ao norte de Belém, foi fechado temporariamente para todos que não tivessem uma autorização especial, como uma forma de testar um eventual isolamento do sul da Margem Ocidental de sua porção norte.

A repressão violenta da resistência palestina em Jerusalém e a divisão da Margem Ocidental em duas porções isoladas representaria um passo enorme no sentido de implementar a bantustonização da Palestina. Ela representaria uma nova etapa na implementação do plano de desengajamento de Ariel Sharon – o plano de se “desengajar” de todos os guetos palestinos confinados atrás do Muro do Apartheid enquanto, simultaneamente, anexa o restante da território, impossibilitando qualquer projeto de autodeterminação palestina.

Três objetivos simples

Considerando isso tudo, não é de admirar que uma das frases mais repetidas nos protestos em Jerusalém seja o apelo: “Vamos lá, Margem Ocidental, pelo amor de Deus!” Embora dezenas de protestos estejam pipocando na Margem ocidental, uma terceira intifada em grande escala ainda não irrompeu, apesar da construção acelerada de assentamentos, da violência contra os civis palestinos e da destruição de comunidades inteiras.

Hoje, a luta do povo palestino nas ruas de Jerusalém mostra o caminho a seguir para o futuro. Antes de mais nada, sublinha o elemento central da resistência popular dentro da luta palestina. Isso exige toda a nossa solidariedade com a população palestina e seus direitos em Jerusalém. Além disso, nas manifestações palestinas em Jerusalém ecoa o apelo ao fim imediato de toda a cooperação militar com o exército de Israel - seja dentro da Palestina ocupada ou ao redor do globo.

Na medida que os militares israelenses continuam a cometer crimes de guerra e outros abusos, relações com as forças de ocupação e seu complexo militar-industrial não passam de uma afronta à dignidade, ao sacrifício e à luta do povo palestino. Ao contrario, é preciso fazer com que os responsáveis pelos crimes de guerra e pelos crimes contra a humanidade sejam responsabilizados criminalmente. Por isso, a terceira exigência é que a liderança palestina adira ao Estatuto de Roma e ao Tribunal Penal Internacional e leve a julgamento os criminosos de guerra israelenses.

Essa pauta com três objetivos simples que está ganhando corpo nas ruas da Palestina e sendo entoada durante os protestos não é uma estratégia diplomática sofisticada. No entanto, ela parece potencialmente a mais promissora para mudar algo no atual beco sem saída de opressão do povo palestino e para construir uma base sólida para a eclosão inevitável, mais cedo ou mais tarde, de uma terceira intifada em grande escala.

É chegada a hora de todos nós, na Palestina e em todo o mundo, declararmos: “Somos todos hierosolimitas”.

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