7 de novembro de 2014

Refém dos banksters

O sentido da inflação e deflação em simultâneo!

Ismael Hossein-Zadeh

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução/ Enquanto o setor financeiro das economias capitalistas centrais desfruta uma escalada inflacionária no preço dos ativos, o setor real das mesmas, especialmente aquelas da Europa e do Japão, está a sofrer deflação, isto é, estagnação e alto desemprego.

E apesar desta ocorrência simultânea de inflação e deflação parecer paradoxal, isso é assim apenas superficialmente. Na realidade trata-se simplesmente do resultado lógico das políticas monetárias neoliberais seguidas nestes países: como estas políticas de economia austeritária desde o colapso financeiro de 2008 têm drenado sistematicamente os recursos materiais da esmagadora maioria dos cidadãos e canalizado estes recursos para o setor financeiro, o resultado tem sido a compreensível contração do setor real em paralelo com a expansão do setor financeiro.

Face a estes desenvolvimentos aparentemente contraditórios, sabichões econômicos e "peritos" financeiros ao leme do aparelho que elabora as diretrizes de política monetária fingem perplexidade acerca de como as evoluções do mercado se têm tornado cada vez mais "complicadas" e de como em consequência a sintonia fina econômica tornou-se mais desafiante. Contudo, tais discursos pomposos são pretensões vazias. Na realidade, não há absolutamente nada de "complicado" ou misterioso acerca da expansão simultânea do setor financeiro e da contração do setor real. Na verdade, é totalmente axiomático que se você sistematicamente rouba Pedro para pagar a Paulo, estará a empobrecer Pedro (os 99%) enquanto enriquece Paulo (os 1%).

O enriquecimento concomitante da plutocracia financeira e o empobrecimento das massas do povo é análogo ao crescimento de um parasita no corpo de um organismo vivo a expensas do sangue vital ou da nutrição daquele organismo. O que é desconhecido para o público é que a transferência parasitária do sangue econômico de baixo para cima não é simplesmente o resultado espontâneo das operações da mão invisível do mecanismo de mercado, ou das forças cegas da competição. Ainda mais importante, a transferência é o resultado lógico de políticas monetárias deliberadas que são carpinteiradas pelas elites financeiras e seus mandatários ao leme da elaboração da política econômica da maior parte dos países capitalistas. Como afirmou recentemente o economista político Mike Whitney:

"Como grande parte das pessoas agora percebe, as ações não triplicaram nos últimos cinco anos porque a economia está em expansão. Com todos os demônios, não. A economia ainda está de quatro e toda a gente sabe isso. A razão porque as ações têm estado em grandes alturas é porque o Fed acrescentou uns substanciais US$4 trilhões de tinta vermelha no seu balanço. Naturalmente, quando alguém compra US$4 trilhões em ativos financeiros, o preço dos ativos financeiros tem de subir" (Fonte).

A pretensa lógica por trás da incessante concessão de dinheiro quase sem juros a instituições financeiras é que quando estas instituições recebem dinheiro barato das máquinas de impressão do governo elas, por sua vez, ofereceriam crédito a baixo custo a industriais, estimulando com isso o investimento e a criação de emprego no setor real da economia.

A política monetária tradicional/New Deal funcionou razoavelmente bem enquanto constrangimentos regulamentares – especialmente o Glass-Steagall Act que foi imposto de 1933 a 1998 – estipulava estritamente os tipos e quantidades de investimentos que bancos e outros intermediários financeiros podiam comprometer-se. Como aquelas exigências regulamentares proibiam os bancos de se envolverem em investimentos especulativos ou arriscados eles tinham pouco ou nenhuma opção senão comportarem-se ou fazerem negócios principalmente como bancos, ou intermediários financeiros, isto é, canalizarem poupanças de depositantes e/ou dinheiro gerado pelo governo para o setor real da economia.

Contudo, com a remoção sistemática dos constrangimentos regulamentares, os bancos foram progressivamente abandonando ou marginalizando seu papel tradicional como intermediários financeiros. Eles, ao invés, agora investem principalmente na compra e venda de ativos e outras atividades especulativas, pois estes são muito mais lucrativos do que simplesmente aceitar depósitos a certas taxas de juro e então emprestá-las a taxas ligeiramente mais altas.

Esta mudança no comportamento ou função do sistema bancário não só restringiu drasticamente o fluxo de capital do setor financeiro para o real como de fato reverteu o fluxo de capital entre estes dois setores: há agora uma alarmante fuga de capital do setor real para o financeiro em busca de taxas de lucro mais altas, especulativas. A evidência mostra que (nos últimos anos) administradores corporativos do setor real estão cada vez mais a desviar seus lucros, bem como o dinheiro barato que tomam emprestado dos governos (habitualmente através de bancos centrais de propriedade privada), para a especulação ao invés da produção. Como observei num artigo anterior a respeito, "parece que eles chegaram a pensar: 'por que incomodar-me com o complicado negócio da produção quando retornos mais elevados podem ser arrecadados simplesmente a comprar e vender títulos?'"

Esta constante transferência de dinheiro do setor real para o financeiro é exatamente o oposto do que os decisores da política monetária – e na verdade toda a teoria econômica neoclássica/principal – afirmam ou retratam acontecer: fluxo de dinheiro do setor financeiro para o real.

Alguém imaginaria que estas mudanças drásticas nos mercados do mundo real, as quais mostram quão gravemente economistas convencionais (mainstream) falharam ao aferrarem-se às suas teorias abstratas e em grande medida obsoletas, deveriam ter sacudido um pouco a fé destes economistas na sua ortodoxia econômica e levado a que revissem ou ajustassem suas teorias tradicionais da oferta monetária, da criação de crédito, da finança e do investimento.

Infelizmente, a fé no mecanismo de mercado e na ortodoxia econômica parece ser tão forte quanto a fé em qualquer religião sobrenatural. Enquanto professores universitários ou conselheiros de decisores políticos os economistas convencionais eles continuam a ensinar as mesmas coisas e a repetir as mesmas teorias apesar das economias fortemente financiarizadas, tal como o fizeram ao longo dos tempos, ou seja, na era dos mercados relativamente competitivos e das estruturas econômicas industriais/manufactureiras de outrora.

Sob a dominação do capital financeiro, a política monetária tem-se transformado cada vez mais num instrumento de inflação do preço de ativos, isto é, de acumulação de ainda mais capital fictício nos bolsos fundos da oligarquia financeira. Apesar de não ser reconhecida abertamente, a lógica por trás da injeção sem fim de dinheiro barato para dentro do setor financeiro – tal como bombear ar quente para dentro de um balão – é uma tentativa desesperada ou uma vã esperanças da parte de decisores da política econômica de que os chamados efeitos gotejamento (trickle-down) das bolhas de preços dos ativos possam levar à recuperação econômica.

Reconhecidamente, os presumidos efeitos do gotejamento sobre a procura agregada podem ter tido alguma validade nas etapas anteriores (industriais ou manufatureiras) do capitalismo, em que a ascensão na riqueza das nações também significava expandir a produção (real) e aumentar o emprego. Contudo, na era das economias fortemente financiarizadas, onde a forma dominante de riqueza capitalista provém não tanto da produção real de bens e serviços mas das bolhas de preços de ativos, a teoria do gotejamento perdeu qualquer validade mínima que possa ter tido em fases anteriores do capitalismo.

Tristemente, decisores de política monetária, os quais frequentemente são os mandatários das elites financeiras ao leme de bancos centrais de propriedade privada (ao contrário das percepções generalizadas, o US Federal Reserve Bank também é de propriedade privada, seus acionistas são bancos comerciais), não são afetados pelos desenvolvimentos econômicos do mundo real que tendem a contradizer suas teorias para-religiosas. A sua lealdade é em primeiro lugar e acima de tudo para com os interesses e as agendas dos seus patrões e benfeitores por trás do palco – aqueles que os alimentam, que os promovem e os colocam no assento dos decisores monetários/econômicos. Tendo abandonado as políticas orçamentais e monetárias tradicionais/New Deal da gestão da procura, a inflação do preço de ativos tornou-se a política preferencial de recuperação econômica – se não da recuperação, então da prevenção de um colapso econômico.

Reféns dos banksters

Isto ajuda a explicar porque as economias da maior parte dos países do núcleo capitalista tornaram-se reféns dos banksters, do seu apetite insaciável por cada vez mais dinheiro barato. Estas práticas de injeções continuadas de cash para dentro do setor financeiro são obviamente o equivalente a pagamentos de resgate aos banksters "grandes demais para falir", além de um medo exagerado de que o fracasso deles levasse a um "colapso econômico cataclísmico". Isto também ajuda a explicar as múltiplas renovações ou extensões infindáveis da política da facilidade quantitativa (quantitative easing, QE), pois o término desta política está destinado a levar a uma outra implosão financeira.

Como indicação deste vício destrutivo dos mercados financeiros às generosas injeções de cash do Tio Sam, recordemos como estes mercados entraram em queda livre nos meados de outubro diante da perspectiva de que a QE pudesse não ser estendida para além de outubro e de como imediatamente saltou outra vez diante da notícias que o Fed na verdade continuaria as injeções de cash para além daquela data – isto, a QE3 seria continuada como QE4. Eis como Mike Whitney descreveu aqueles dias turbulentos dos mercados financeiros:

"Ao meio-dia [de 15 de outubro de 2014], o Dow baixara 460 pontos antes de arrastar-se para trás menos 173 pontos. Parecia que o mercado estava pronto para mais uma chicotada de três dígitos na quinta-feira [16 de outubro de 2014] quando o Fed interveio e começou a falar uma extensão da QE3. Foi tudo o que foi preciso para apaziguar o nervosismo dos investidores, cessar o colapso e remeter ações como foguetes para o espaço. No fim da sessão de sexta-feira, todos os mercados estavam outra vez no verde com o Dow registando uns impressionantes 263 pontos naquele dia" (Fonte).

Apesar de a política de extensão indefinida do QE (juntamente com taxas de juro próximas do zero) poder temporariamente impedir os mercados financeiros de implodirem, esta política simplesmente adia o dia do ajuste de contas – mais ou menos como manter um paciente vivo em estado terminal através de aparelhos artificiais (life support). E nisto jaz o aspecto fútil, na verdade trágico, desta política: a obrigação de os decisores monetários injetarem cash constantemente para dentro do sistema financeiro a fim de impedir o sistema de entrar em colapso é análoga à lógica do ciclista proverbial que tinha de se manter a pedalar em frente ou então cairia.

Decisores monetários à testa de bancos centrais de departamentos do tesouro, representando os interesses poderosos da grande finança, fariam tudo o que pudessem para evitar cair no precipício, ou atrasar a aproximação ao precipício. Ao assim fazer, contudo, eles drenam os recursos econômicos/financeiros da maioria esmagadora dos cidadãos – pela transferência daqueles recursos (através de medidas de austeridade) para a oligarquia financeira. Andre Damon (do World Socialist Web Site) resume os efeitos redistributivos desta política monetária neoliberal:

"Os 1% mais ricos da população mundial agora controlam 48,2 por cento da riqueza global, mais do que os 46% do ano passado), segundo o mais recente relatório da riqueza global emitido pelo Credit Suisse, a companhia de serviços financeiros com sede na Suíça. 
Hipoteticamente, se o crescimento da desigualdade prosseguisse à taxa do ano passado, os 1% mais ricos para todos os fins práticos controlariam toda a riqueza do planeta dentro de 23 anos. 
O relatório descobriu que o crescimento da desigualdade global acelerou-se drasticamente desde a crise financeira de 2008, pois os valores dos ativos financeiros ascenderam ao passo que os salários estagnaram e declinaram. (...) Emma Seery, responsável pela Desigualdade na Oxfam, a entidade beneficente anti-pobreza britânica, comentou: 'Este relatório mostra que aqueles menos capazes em termos de recursos teem de pagar o preço da crise financeira ao passo que a riqueza inundou os cofres dos já muito ricos'.

O estudo revelou que os 8,6% mais ricos da população mundial – aqueles com um valor líquido de mais de US$100 mil – controlam 85% da riqueza do mundo. Enquanto isso, os 70% da base da população mundial – aqueles com menos de US$10 mil em valor líquido – possuem uns meros 2,9% da riqueza global.

O crescimento da desigualdade está associado a uma alta mundial na riqueza em papel, alimentada pelos trilhões de dólares bombeados para dentro do sistema financeiro pelos bancos centrais via taxa de juro zero e políticas de 'facilidade quantitativa'. (...) 
Como observou o relatório, 'A economia global na generalidade pode permanecer letárgica, mas isto não impediu a riqueza pessoal de aumentar durante o ano passado. Conduzida por (...) preços robustos das ações, a riqueza total cresceu 8,3% em todo o mundo ... a primeira vez que a riqueza familiar ultrapassou o patamar dos US$250 trilhões'.!" (Fonte).

O que fazer?

A solução para a corrida do setor financeiro, segundo a maior parte dos críticos liberais-keynesianos da financiarização, é regulamentação, ou re-regulamentação. Se bem que isto seria uma melhoria bem vinda sobre o comportamento desestabilizador do capital financeiro desenfreado, representaria apenas uma tentativa de solução a curto ou médio prazo, não uma solução definitiva a longo prazo. Pois, enquanto não houvesse controle democrático, as regulamentações seriam minadas pelos influentes interesses financeiros que elegem e controlam os decisores políticos e, portanto, a política. A reversão dramática das extensas regulamentações das décadas de 1930 e 1940, as quais foram postas em vigor em resposta à Grande Depressão, para as igualmente dramáticas desregulamentações de hoje, servem como uma robusta validação deste juízo.

Outros críticos do capital financeiro descontrolado clamam pelo sistema financeiro pública. Estes críticos argumentam que, devido à sua influência econômica e política, poderosos interesses financeiros facilmente subvertem regulamentações do governos, e assim reproduzindo periodicamente a instabilidade financeira e a turbulência econômica. Em contraste, eles argumentam ainda, bancos no sector público podem tranquilizar melhor os depositantes quanto à segurança das suas poupanças, bem como por diretamente aquelas poupanças no rumo da distribuição produtiva do crédito e das oportunidades de investimento. Acabar as crises recorrentes dos mercados financeiros exigem portanto colocar os intermediários financeiros desestabilizadores sob propriedade pública e controle democrático.

Apesar de a nacionalização de bancos comerciais poder mitigar ou afastar as turbulências de mercado que se devem a bolhas e estouros financeiros, ela não impedirá outra crise sistêmica do capitalismo. Isto inclui crises de lucratividade que resultam de níveis muito altos de capitalização (ou altos níveis da "composição orgânica do capital", na expressão de Marx), da procura insuficiente e/ou sub-consumo, da super-capacidade e/ou super-produção, ou da desproporcionalidade entre os vários setores de uma economia de mercado.

Além disso, enquanto o capitalismo prevalecer, e com ele a distribuição desequilibrada do excedente econômico, a instabilidade financeira não pode ser arrancada pela raiz através da nacionalização do sistema financeiro. Pois apesar de a nacionalização dos bancos tradicionais/comerciais poder abrandar a fragilidade financeira, outros tipos de intermediários e instituições financeiras estão prontos a levantarem a fim de contornar a regulamentação e/ou nacionalização, precipitando com isso a instabilidade financeira. Isto inclui todas as espécies de bancos sombra (shadow banks) e empresas especulativas tais como empresas de participações privadas (private equity firms), mercados derivativos, hedge funds e outros mais.

Suprimir as crises sistêmicas do capitalismo exige, portanto, mais do que nacionalizar e/ou regulamentar os bancos; exige mudar o próprio sistema capitalista.

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