31 de julho de 2014

A cidade espanhola onde as pessoas vêm antes do lucro

Liam Barrington-Bush e Jen Wilton

Contributoria

No sul da Espanha, a rua é a sala de estar coletiva, onde vizinhos se juntam para conversar sobre os acontecimentos do dia até tarde da noite. No verão, o calor chega facilmente a superar 40 graus centígrados e o cheiro de frutos do mar emerge de cozinhas e restaurantes à medida que começa a se aproximar o horário tardio do jantar.

A cena acima descreve bem Marinaleda, na região de Andaluzia. A princípio, a comunidade não se distinguiria de várias outras localidades vizinhas nas montanhas de Sierra Sur, no sul do país, não fosse por alguns sinais reveladores: os nomes de suas ruas (Ernesto Che Guevara, Solidariedad e Praça Salvador Allende, por exemplo); o grafite (foices e martelos desenhados à mão ao lado de As envoltos em um círculo); ou o rosto enorme de Che adornando a parede externa do estádio esportivo local.

Marinaleda vem sendo chamada de “utopia comunista” da Espanha, embora a variante local tenha pouca semelhança com o modelo soviético comumente associado à frase. O tecido social da cidade tem sido costurado de modo muito diferente do restante do país desde a queda da ditadura franquista em 1975. Uma fábrica de azeite de oliva de propriedade cooperativa, casas construídas pela e para a comunidade e um famoso saque de um grande supermercado, liderado pelo ex-prefeito da cidade, em que o total arrecadado foi doado para depósitos comunitários de alimentos, são alguns dos fatos que ajudaram a posicionar Marinaleda como um farol de esperança.

A economia espanhola continua em sua derrocada pós-2008, com a taxa nacional de desemprego a 26% e metade dos jovens sem conseguir arranjar trabalho. Ao mesmo tempo, Marinaleda se orgulha de manter um quadro modesto mas constante de empregos, no qual a maioria das pessoas tem pelo menos algum trabalho e os que estão desempregados possuem uma forte rede de assistência para se manter.

Marinaleda tem uma moeda raramente encontrada, a não ser em grupos ativistas ou comunidades indígenas que lutam contra projetos destrutivos de desenvolvimento: a moeda da ação direta. Em vez de se apoiar exclusivamente em dinheiro para que as coisas funcionem, os marinaleños vêm entregando seu sangue, suor e lágrimas coletivas para a criação de uma gama de sistemas alternativos neste canto do mundo. Quando o dinheiro não está imediatamente disponível, os marinaleños se apoiam uns nos outros. Às vezes isso significa ocupar coletivamente terras de propriedade da aristocracia andaluza e fazer com que sejam utilizadas a serviço da cidade; em outras significa simplesmente compartilhar a carga da coleta do lixo.

Mesmo operando com certo grau de autoridade central, o conselho municipal entregou o poder nas mãos das pessoas a quem serve. Assembleias gerais são convocadas regularmente para que os moradores da cidade possam tomar parte das decisões que afetam suas vidas. As assembleias também criam espaços em que as pessoas possam se unir para organizar o que a comunidade necessita, por meio de ação coletiva.

“A melhor coisa que temos aqui é a assembleia geral”, diz Manuel Gutierrez, veterano servidor público no conselho da cidade. “A assembleia é um lugar para as pessoas discutirem problemas e encontrar soluções”, diz, observando que mesmo pequenos delitos são analisados coletivamente via assembleia, já que a cidade não tem sistema judicial ou polícia desde que o último policial local se aposentou.

Em seu período como prefeito, Juan Manuel Sánchez Gordillo [que administrou a cidade entre 1979 e 2014] conseguiu alavancar considerável apoio financeiro do governo regional, um feito que Gutierrez atribui à trajetória coletiva de ação direta da cidade. “Se você vai em frente com o apoio do povo, isso é muito poderoso”, diz ele. Como resultado, a pequena cidade se orgulha de ter amplas instalações esportivas e um jardim botânico lindamente conservado, bem como uma gama de necessidades mais básicas. “Para um pequeno vilarejo com pouco mais de 2.700 pessoas, temos uma porção de instalações”, diz Gutierrez.

Da ocupação à cooperação

Em 1979, Sánchez Gordillo foi eleito prefeito da cidade pela primeira vez. Ele comandou uma ampla campanha para mudar o rumo de Marinaleda, que começou com a ocupação de terras subutilizadas. Envolvido na “lucha” desde o começo, Manuel Martín Fernández explica como a comunidade decidiu, por meio do processo de assembleia geral, que algo precisava ser feito para conter o êxodo de moradores da cidade. Eles ocuparam um reservatório próximo do vilarejo para convencer o governo regional a conceder-lhes água suficiente para irrigar uma extensão de terra.

Depois que tiveram sucesso com essa ação, passaram então a ocupar 1.200 hectares da terra recentemente irrigada, que na época era propriedade de uma família aristocrática. Em 1991 o lote foi oficialmente expropriado e entregue para uso local. “Levamos 12 anos para conseguir as terras”, explica Martín Fernández, definindo a vitória como “uma conquista”.

Hoje, extensos campos de olivais, alcachofra, feijão e pimenta formam a espinha dorsal da economia local. A terra é administrada coletivamente pela cooperativa El Humoso e uma fábrica de enlatados foi montada na periferia da cidade. Como o ex-prefeito Sánchez Gordillo contou ao jornalista britânico Dan Hancox, autor de um livro sobre Marinaleda, “nosso objetivo não era obter lucro, mas empregos”, explicando porque a cidade escolheu priorizar culturas de uso intensivo de mão de obra para criar mais emprego para os moradores.

Como a maior parte dos empregos agrícolas, seja nos campos ou nas fábricas, o trabalho é sazonal e varia de ano para ano. Mas ao contrário de muitas pequenas cidades agrícolas, Marinaleda divide o trabalho entre as pessoas que precisam dele.

Dolores Valderrama Martín sempre viveu em Marinaleda e trabalha na fábrica de enlatados Humoso há 14 anos. Do escritório ela explica que se 200 pessoas estão procurando trabalho, mas a empresa só precisa de 40 trabalhadores, todas são admitidas. “Formamos grupos de 30 a 40 pessoas, e cada grupo trabalha por dois dias.” Mas ela alerta: “Quando não há nenhum trabalho, ficam todos desempregados, como em qualquer outro lugar”.

Grande parte dos moradores da cidade critica a relativa falta de trabalho, mas a rede de seguridade social erguida com base nos princípios de ação direta e ajuda mútua faz com que, ao contrário de outras partes do país, dois meses de salário sejam suficientes para manter o morador à tona durante o ano. A abordagem da cidade para a habitação é um dos exemplos mais claros de como o esforço coletivo pode preencher o vácuo deixado por uma economia estagnada.

As casas que construíram a comunidade

Para a maioria das pessoas em sua primeira incursão no mercado imobiliário, o dinheiro costuma ser o maior obstáculo. Dar entrada em um imóvel significa sempre uma soma considerável, mesmo em mercados relativamente estáveis. Em Marinaleda, graças à combinação de subsídio estatal em materiais de construção para moradias, mão de obra sem custo para a construção e terras dadas pela cidade, a habitação tem sido parcialmente removida do livre mercado. Em vez disso, membros da comunidade se unem com os planos arquitetônicos entregues pelo conselho para construir um bloco de casas, que se tornam parte de uma cooperativa habitacional. Os moradores pagam prestações mensais de 15 euros [cerca de 48 reais] por cada unidade.

A economia da ação direta

Enquanto o capitalismo enquadra nossos relacionamentos em uma série de transações econômicas de interesse individual, Marinaleda se apoia em um modelo de ajuda mútua, já que os moradores trabalham juntos para satisfazer necessidades compartilhadas, com bem menos dinheiro circulando.

A ação direta na cidade está enraizada em interesses comuns e explora aspectos práticos do que precisa ser feito, com base em quem está lá para fazer, eliminando a divisão consumidor-provedor. Isso faz com que o dinheiro se torne um intermediário desnecessário, já que aqueles que querem que alguma coisa seja feita e os que as fazem se tornam um só.

Embora Marinaleda tenha suas falhas, ela nos mostra que modelos econômicos alternativos não só são possíveis como já existem. Em um grafite na principal rua da cidade, figura o desenho de um filtro de sonhos sobre uma foice e um martelo. A mensagem que o acompanha nos instiga: “Agarre seus sonhos – a utopia é possível”.

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