2 de dezembro de 2014

A ilusão do debate

Consenso para as pessoas que importam

Jason Hirthler

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Em um recente artigo, a organização Fairness and Accuracy In Reporting (FAIR), revisou todos os resultados de pesquisa de seus estudos anteriores sobre a qualidade do “debate” político levado ao ar pelas redes de difusão da mídia dominante. Estudou o processo pelo qual foram levadas à opinião pública as intervenções militares, pelos EUA, contra Iraque e Síria. A ideia daqueles jornalistas talvez fosse mostrar o que os EUA aprenderam desde a guerra fraudulenta de que o Iraque foi vítima, em 2003. Bem, parece que não aprenderam nada.

FAIR trabalhou ao longo de pesadas e dolorosas horas, absorvendo toda a desinformação divulgada pelos soníferos shows dos domingos, como State of the Union, no canal CNN; Face the Nation, no CBS; Meet the Press, no NBC; e This Week, no ABC, além de alguns dos programas de comentário político mais populares, incluindo Situation Room, do canal CNN, perigosíssimo, porque pode induzir surtos de hiperatividade pela Síndrome do Déficit de Atenção [ADHD]; o Special Report do canal Fox News; o venerável sedativo News Hour do canal PBS; e Hardball do canal MSNBC. Todos conhecemos o elenco que jamais varia: o hiper falante George Stephanopoulos, a direta Candy Crowly, o eternamente sofredor Wolf Blitzer e o esbravejante Chris Matthews. Imagens dessas bocas ganindo estão implantadas no hipocampo nacional.

No total, 205 porta-vozes repetidores da Casa Branca foram convidados para repetir diante os cidadãos telespectadores as respectivas “ideias” espertamente construídas frase a frase para “elevação” da “informação” do público. Desses, o espetacular número de 3 (três!) manifestaram-se contra a ação militar dos EUA na Síria e no Iraque. Reles 125 especialistas alinharam argumentos “de especialista” a favor de ação agressiva contra aqueles dois países.

Se se contam só os “especialistas” atuantes nos programas dominicais, 89 “especialistas” convidados foram bem remunerados para educar a obtusa população americana de sofá-e-batata-frita de domingo. Um deles (1!) sugeriu que ninguém fosse à guerra. Ausentes, totalmente ou quase, por difícil que seja acreditar, estiveram todos os argumentos jurídicos contra aquelas intervenções ilegais. Alguém “enviesado” a favor do respeito à lei? Não.

O consenso “midiático” sobre Síria e Iraque não é instância isolada de pensamento-de-grupo. Longe disso. Na verdade, corresponde a um padrão bem claro, cujo núcleo é o deliberado desapego à lei internacional e a qualquer esforço para fazer valer tratados internacionais legais e vigentes e leis sobre a ação militar. (Mas as leis que regulam o comércio internacional são consideradas importantes e merecedoras de consideração e respeito, por motivos óbvios).

O New York Times, sem qualquer investigação ou pesquisa e sem crítica repete o número de mortos que Israel divulgou no recente ataque do estado judeu contra Gaza. A jornalista, Jodi Rudoren, considera fontes igualmente dignas e legítimas tanto Telavive e a ONU e o vasto trabalho de pesquisa e coleta de informações que fez, bem como organizações palestinas independentes, de direitos humanos, em Gaza. Ela adota uma “definição” israelense, sem qualquer fundamento, do que seja “combatente”, ignorando todo um vasto e rico consenso internacional que contradiz a “definição” israelense. Mistura, suspeitosamente, menores e adultos, e faz sumir o número de crianças mortas por Israel. E assim por diante. Tudo a serviço da posição pró-Israel da imprensa.

Em 2010, Israel atacou uma flotilha de barcos que levavam ajuda humanitária a ser entregue a palestinos na Faixa de Gaza que Israel bloqueara. Anthony DiMaggio, escritor e analista político coordenou as pesquisas Lexis Nexus, que demonstram como a imprensa-empresa nos EUA em geral, e o NYTimes em especial, evitam cuidadosa e atentamente qualquer tema que faça lembrar a lei internacional, sempre que discutem ações de Israel. Numa análise de artigos do Times e do Washington Post sobre Israel entre 31 de maio e 2 de junho de 2014, apenas cinco textos faziam referência à lei internacional relacionada seja à flotilha humanitária, seja ao bloqueio ilegal. DiMaggio disseca vários dos meios pelos quais Israel frauda a Carta das Nações Unidas. Diz que Israel já violou mais de 90 resoluções do Conselho de Segurança da ONU relacionadas à ocupação de terras palestinas. Nada disso – nada – aparece publicado na “grande mídia” dominante. Essa omissão é típica: é a regra. A imprensa-empresa norte-americana dedica-se atenta e cuidadosamente a privilegiar a narrativa israelense, não o ponto de vista dos árabes e praticamente ignora a existência de dúzias de resoluções da ONU que condenam as ações criminosas dos israelenses.

O mesmo se constata no “jornalismo” sobre o Irã. Já há anos, Washington alerta o mundo, teatralmente, espalhafatosamente, que o Irã quer construir sua bomba atômica e ameaça com ela todo o Oriente Médio. Para começar, implica “esquecer” que seria suicídio. Todas as agências de inteligência norte-americanas, e muitas outras que acompanham os eventos na região, sabem que a política externa do Irã é política de contenção e que o programa nuclear iraniano tem finalidades pacíficas. Nada e ninguém consegue impedir que o “jornalismo” do canal MSM apresente Teerã como ninho e forno de onde não param de sair os mais ensandecidos terroristas.

Kevin Young investigou artigos “jornalísticos” sobre as negociações nucleares entre EUA e Irã, com resultados espantosos. Foram analisados cerca de 40 editoriais publicados peloNYTimes e pelo WPost. Precisamente zero editoriais, zero, nenhum, reconhecia as implicações contra a lei internacional, de os EUA viverem a repetir ameaças e a apoiar atos subversivos praticados por Israel – como assassinar cientistas iranianos, e fazer ciberataques, nos dois casos modalidades “inovadoras” da violação padrão de soberania de outros países. Impressionantemente, 34 das tais peças de “informação jornalística” “diziam ou deixavam implícito” que o Irã está trabalhando para construir sua bomba atômica. Esqueçam todos tudo o que disseram 16 agências norte-americanas de inteligência (que o Irã não mantém programa ativo de produção de armas nucleares). Esse “jornalismo” já fez a escolha crucial de operar no campo do boato, da intriga, do ouvir-dizer. Portanto, nada muda, mesmo que haja estudos sérios e/ou crítica ativa que façam-saber que o fato é outro. Mais de 80% dos artigos publicados eram favoráveis às sanções incapacitantes que os EUA insistem em manter contra o Irã – e cuja única justificativa é o fato inventado por esse “jornalismo”, de que o Irã estaria construindo a tal bomba.

Antes do trabalho de Young, Edward Hermann e David Peterson analisaram 276 artigos publicados sobre o programa nuclear iraniano entre 2003 e 2009. O número em si já é espantoso. Mais espantoso ainda se torna, se se o compara ao número de artigos publicados no mesmo período, sobre o programa nuclear israelense: míseros três.

É interessante, se se considera a postura dos dois países em relação a tratados internacionais. Israel armazena livremente pilhas e pilhas de bombas atômicas e mantêm “política de ambiguidade deliberada” sobre as próprias capacidades atômicas, apesar dos frequentes esforços de países árabes para persuadir Israel e reconhecer a existência de seu arsenal atômico (estimado hoje em várias centenas de ogivas nucleares). Israel ainda não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, já firmado por 190 países em todo o mundo [inclusive pelo Irã]. Essa posição intransigente é empecilho sempre ativo contra todos que trabalham para implantar uma zona desnuclearizada naquela região.

Compare-se, então, o comportamento de Israel e do próprio Irã – que permitiu inspeções extensivas em suas instalações nucleares. Até o Times  observou recentemente que as principais instalações nucleares iranianas estavam “lotadas de inspetores”.Além de ser signatário do TNP, o Irã é também membro pleno da Associação Internacional de Energia Atômica (AIEA). E o Irã continua a trabalhar em busca de solução racional com o Ocidente, apesar da sanções que os EUA impuseram ao país. O EUA também pressionaram ilegalmente e indevidamente a AIEA para que adotasse outros protocolos, segundo os quais o Irã teria de satisfazer exigências ainda maiores, o que tornou a possibilidade de solução negociada cada dia mais (confortavelmente, do ponto de vista dos EUA) distante. (Aquelas demandas adicionais incluíam, pelo que se soube, que o Irã aceitasse ser vigiado por drones, que “fiscalizariam” desde a origem até o destino, todas as centrífugas que viessem a ser construídas no país, além de aceitar também que os EUA instalassem escutas no palácio do governo. Pois nada disso mereceu sequer uma linha de comentário “objetivo”, dos nossos “especialistas” ou dos nossos “jornalistas”).

A cobertura do Iraque não é diferente, sobretudo o que se viu e vê-se novamente, antes de cada nova guerra periódica ilegal de agressão, pelos EUA, contra aquele país. O ex-Relator Especial da ONU para a Palestina, Richard Falk, e o escritor Howard Friel realizaram, em 2004, pesquisa para avaliar a cobertura pré-guerra do Iraque, que o jornal New York Times ofereceu em 2003. Em mais de 70 artigos, o Times jamais mencionou as expressões “Carta da ONU” ou “lei internacional”. A pesquisa também demonstrou que “Não há qualquer espaço assegurado para divulgação da grande quantidade de argumentos em invocam a lei internacional ou que pregam a preservação da paz mundial, em oposição à guerra”. Mas são argumentos que só se ouvem longe dos corredores ocidentais do poder em Washington, Londres, Paris e Telavive – e que nossos “especialistas” “midiáticos” e jornalistas em geral ignoram completamente.

Isso não é debate, muito menos é debate democrático. A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.

Assim sendo, no que tenha a ver com Irã, Iraque, Síria e outros casos assemelhados, a questão nunca é se se vai ou não à guerra: a questão é só o tipo de guerra a ser inventada. Falcões querem bombas. Pombos, sanções. A linha mais dura quer pôr os Marines lá. Os Democratas querem um exército de jihadis alugados. Todos querem os mercenários da empresa Academi. (Obama contratou a gangue antes conhecida como Blackwater, para trabalhar como se fosse a CIA, por, secos, US$250 milhões). E quando tivermos dado cabo do Estado Islâmico. A questão não será alguma estratégia de retirada. A questão, então, será se os coturnos norte-americanos [no solo, no ar ou no mar] devem tomar o rumo oeste, para Damasco; ou leste, para Teerã.

A questão não é se os EUA devem cortar a ajuda que dão a Israel – por causa dos assassinatos de palestinos em massa, em Gaza e na Cisjordânia – ou se devem manter a ajuda. A questão é quanto de terra os condomínios podem continuar a roubar dos palestinos, no Vale do Jordão, sem gerar incontrolável desprezo contra Israel. (De aplicar a lei internacional, outra vez, nem se cogita).

No front doméstico, a questão não é se haverá pagador único ou assistência médica privada à saúde; a questão é se os cidadãos devem ser obrigados à força & malho, a comprar planos privados, ou se devem ser só aconselhados a comprar os mesmos planos. A questão não é se se mantêm ou não as conquistas do New Deal: a questão é como fazer para destripá-las em tempo recorde. A questão não é se os cidadãos devem ou não poder fiscalizar a ação dos políticos: a questão é onde armazenar os dados e se se roubam metadados de two-hop ou de three-hop. A questão não é se se prendem ou não torturadores conhecidos: a questão é como redigir os relatórios dos ‘eventos’, de modo que os torturadores escapem de qualquer acusação. A questão não é se se regulam ou não os doidos de Wall Street. A questão é, como disse o viscoso advogado Bennett Holiday, da indústria do petróleo, em Syriana, criar “a ilusão do devido processo legal”.

Nada disso implica dizer que os meios de jornalismo de massa não conheçam pontos de vista diferentes dos deles. Eles conhecem, mas só os reconhecem como pontos de vista possíveis se podem ser usados para ‘comprovar’ conclusão já definida. Ao longo do ano que está terminando, os jornais e televisões do noticiário de massa quase cansou a audiência, de tanto que falaram e falaram a favor do respeito à lei internacional.

Howard Friel rastreou os registros de respostas ao fiasco ucraniano nas páginas do NYTimes. E o que descobriu? Quando a Crimeia, em plebiscito, pediu a reintegração à Rússia, e a Rússia aceitou a reintegração da Crimeia, o  NYTimes investiu furiosamente contra a tal “invasão”, agarrado ao argumento de que seria violação da lei internacional. Oito diferentes editoriais em apenas poucos meses, em tom frenético, para “detonar” o presidente Vladimir Putin da Rússia por causa da tal violação “ilegal” de direitos dos crimeanos, e o “desprezo”, o “pouco caso”, a “flagrante transgressão”, o ataque frontal... à lei internacional. Conclamações sem fim para que se tomassem medidas contra tal desconsideração do consenso global, cínica, descabida. Os aliados ocidentais que tratassem de agir para “reafirmar a lei internacional” e aplicar pesadas penalidades à Rússia, por  “atropelar sem qualquer cuidado” preceito sagrado, hiper-super sagrado, tipo “a soberania ucraniana”.

Em outras palavras, Washington apoia golpes contra governos eleitos em Kiev, na Síria e em Tegucigalpa, envia drones para “atropelar sem qualquer cuidado” fronteiras iemenitas, paquistanesas, somalis e outras fronteiras fracamente protegidas; e manda milhares de soldados, conselheiros e jihadistas armados pelos EUA para proteger os buracos negros onde operam os torturadores da CIA no Iraque e no Afeganistão. Mas melhor não nos metermos nessas contas. Debitemos todos os mortos por conta das brumas da guerra. Afinal, a única lei que os EUA respeitam é a lei do excepcionalismo autoproclamado, definida em termos claros por Richard Falk como “transparência e prestação de contas à força para os fracos e vulneráveis; e sombras, as mais protetoras e discretas, para os fortes e os poderosos”.

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