5 de dezembro de 2014

Expressa-se a Turquia

Putin e seu negócio-surpresa de gás surpreendem Obama e “eurolíderes”

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Na segunda-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, garantiu um acordo inovador com o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, que irá fortalecer os laços econômicos entre as duas nações e torna a Turquia o ponto central para o gás russo na região. Nos termos do acordo assinado, a Rússia bombeará mais gás natural para locações na Turquia central e para uma “central de distribuição na fronteira turco-grega”, que praticamente garantirá a Putin livre acesso pela porta dos fundos ao lucrativo mercado da União Europeia, com a Turquia operando como intermediário criticamente decisivo. O movimento cria uma aliança Rússia-Turquia de fato, que altera todo o equilíbrio de poder regional a favor de Moscou, erguendo mais um formidável obstáculo contra a estratégia de “pivô para a Ásia” de Washington. Enquanto a imprensa ocidental dedica-se a “noticiar” a mudança no projeto (“Putin abandonou o projeto de construção do gasoduto Ramo Sul que levaria gás para o sul da Europa”) como se fosse um “fracasso diplomático” para a Rússia, a verdade parece ser exatamente o oposto de qualquer tipo de fracasso. Putin passou a perna nos EUA mais uma vez, tanto no front “energético” quanto no front geopolítico, acrescentando duas marcas em sua longa lista de triunfos políticos. Adiante, um breve resumo escrito por Andrew Korybko, no blog Sputnik News:

A Rússia deixou para trás o conturbado projeto Ramo Sul e passará a construir com a Turquia o gasoduto que o substituirá, noutra direção. É decisão monumental, que assinala que Ancara também decidiu rejeitar o euroatlanticismo e abraçar a integração eurasiana. 
No movimento que pode ser o maior, até agora, na direção da multipolaridade, (...) a Turquia mudou de campo e deixou para trás as velhas ambições euroatlânticas. Há um ano, nada disso seria sequer imaginável. Mas o retumbante fracasso da política dos EUA para o Oriente Médio e para a energia da União Europeia tornou possível essa reversão completamente surpreendente, em menos de um ano. A Turquia já gozava de algumas relações privilegiadas com o ocidente, mas toda a natureza do relacionamento foi para sempre alterado, com o país, agora, oficialmente engajado numa multipolaridade pragmática. 
O governo da Turquia completou movimento importantíssimo ao firmar esse negócio colossal com a Rússia, em ambiente político tão altamente sensível; e a velha amizade não poderá ser restaurada. (...) As reverberações disso tudo são globais, no mais pleno sentido da palavra. (“Cold Turkey: Ancara dá as costas à pressão ocidental e volta-se para a Rússia”, Sputnik News)

Korybko parece ser o único a perceber a magnitude do que aconteceu em Ancara na segunda-feira, embora – a julgar pelo silêncio sepulcral do governo Obama – tudo leve a crer que a gravidade do quadro começa a se tornar visível para muitos. Vlad, o Grande-Mestre, atropelou os “únicos supernegociadores indispensáveis da única superpotência idem”, deixou-os sem expressão. É um cenário que ninguém prevere e que, se não for corretamente administrado pode vir a transformar-se em um pesadelo excepcional. Adiante, um pouco mais de uma conferência de imprensa, em RT:

Putin disse que a Rússia está pronta para construir novo gasoduto para suprir a crescente demanda da Turquia por gás, que pode incluir uma central especial de redistribuição, sobre a fronteira turco-grega, para consumidores no sul da Europa. 
Por hora, o suprimento de gás russo para a Turquia aumentará cerca de 3 bilhões de metros cúbicos, pelo gasoduto Ramo Azul [oBlue Stream] já operante (...). Moscou também garantirá desconto de 6% no preço do gás para consumidores turcos, a partir de 1º de janeiro de 2015, disse Putin. 
"Estamos preparados para aumentar esses descontos no preço do gás, conforme avance a implementação de nossos projetos conjuntos em larga escala", explicou o presidente da Rússia. (“Putin: Russia forced to withdraw from S. Stream project due to UE stance”, RT)

Como foi possível? Como Putin pode dançar valsa em Ancara, assinar o próprio nome em algumas folhas de papel e capturar um dos aliados chaves de Washington, bem ali, sob o nariz de Washington? Não havia ninguém ali suficientemente sensível para prever o cenário e evitá-lo a tempo? Ou todos os seres competentes no governo do EUA foram substituídos por doidas doentiamente viciadas em guerra, como Susan Rice e Samantha Powers?

O governo Obama estava fazendo tudo que podia para controlar o fluxo de gás do oriente para o ocidente e assim minar a integração econômica russo-europeia. E, de repente, ágil, Putin encontra uma via para evitar as sanções econômicas (A Turquia havia rejeitado as sanções contra a Rússia), para evitar a coerção e a chantagem pelos EUA (que foram aplicadas contra a Bulgária, a Hungria e a Sérvia), e evita as infindáveis hostilidade e beligerância de Washington, e, simultaneamente, posiciona a Rússia exatamente onde a Rússia desejava estar. Mas, ora... Afinal de contas, o que se deveria esperar de um Mestre de alto nível em artes marciais, como Putin?

“Não estou batendo em ninguém”, diz Vlad, a Marreta. “Você é que vai espancar-se”.

E se bem o disse, melhor o fez. Pergunte ao embasbacado Obama que, até agora, não levou a melhor em nenhum dos vários encontros que teve com Putin.

Mas por que o silêncio? Por que a Casa Branca não emitiu uma declaração sobre o grande negócio de gás entre russos e turcos, sobre o qual todos estão falando?

Vou lhe dizer o por quê. Porque ainda não sabem o que desabou sobre eles, de que lado veio, nem por quê. Estão completamente abalados pelo anúncio do acordo e não conseguiram nem perceber o que significa para as questões são as principais da agenda de política externa deles mesmos. Como o “pivô para a Ásia”, ou as guerras na Síria e Ucrânia, ou o muito eternamente inflado gasoduto do Qatar para a União Europeia que se esperava que cruzasse o território da Turquia. Será que aquele plano ainda é um plano, ou a aliança Putin-Erdogan bateu o último prego do esquife dele? Verdade seja dita, Putin, dessa vez, mandou o adversário para fora do ringue. A equipe de Obama está claramente sem chão, sem nem ideia do que está acontecendo. Se a Turquia vira-se na direção do leste e une-se ao crescente bloco russo, os políticos americanos terão de rasurar a melhor parte de seus planos estratégicos para o próximo século e voltar ao começo do jogo. O que é uma dor de cabeça.

Na quarta-feira o New York Times publicou um artigo interessante que expõe perfeitamente a ambivalência de Washington em relação ao Ramo Sul. Aqui, um excerto:

Moscou apresentou o projeto há muito tempo, em 2007, como projeto que fazia sentido comercial, porque criava nova rota para o gás russo chegar à Europa. Washington e Bruxelas opuseram-se, porque o projeto seria instrumento para reforçar a influência russa sobre o sul da Europa, e porque deixava de lado a Ucrânia, cujas disputas de preços com a Gazprom interromperam por duas vezes o fornecimento de gás à Europa, em anos recentes (“Decisão de Putin, de não construir o gasoduto Ramo Sul, deixa a Europa embasbacada”, New York Times).

Aquele foi o argumento do vai-e-vem: vender gás para as pessoas da União Europeia reforçaria, sabe-se lá como, o poderio tirânico maníaco que Putin insistiria em impor ao continente. É uma piada. Você, caro leitor: está disposto a desligar o aquecimento e o fogão de cozinha, rasgar sem pagar sua conta de energia elétrica, para protestar, e deixar-se morrer congelado no escuro só para “fazer-ver” à empresa fornecedora de gás que você não está disposto a capitular ao seu governo tirânico?

Claro que não, porque a ideia é ridícula. Assim como é ridículo pensar em bloquear o Ramo Sul também sempre foi ridícula. Putin está vendendo gás, não tirania. Não é vendedor de tirania. Não tem planos de fazer as pessoas bater queixo, bater pés e viverem arrepiados de frio, em casa e no trabalho, dia e noite, no escuro. Tudo isso não passa de propaganda do pessoal da indústria do petróleo, que perdeu a disputa comercial pelo fornecimento de petróleo para a União Europeia. Reclamem o quanto queiram das uvas amargas, porque, volta e meia, as uvas amargam, sim, para um lado ou para o outro. O gasoduto (Nabucco) deles fracassou. O de Putin ganhou. Ponto final. Chama-se “capitalismo”. Lide com ele.

E há mais uma coisa: os países que aquele Ramo Sul atenderia não têm fornecedor alternativo que atenda sua demanda crescente por gás. Assim sendo, aqueles países, ao acompanharem a “liderança” de Washington, o que fizeram foi, basicamente, atirar contra o próprio pé. Analistas estimam que qualquer substituição para o gás russo custará provavelmente 30% a mais que o preço que a Gazprom lhes ofereceria.

Viva os EUA! Viva a estupidez!

Os EUA estavam determinados a sabotar o Ramo Sul, desde o começo, sobretudo porque Washington quer que suas empresas e bancos controlem o fluxo de gás para o mercado da União Europeia  através de gasodutos privados na Ucrânia. Assim, podem arrancar lucros maiores para os oligarcas acionistas do governo dos EUA. Sem entrar em muitos detalhes sobre os variados métodos que os EUA usaram para torpedear o projeto, aqui vai uma história que vale a pena conhecer. Esse excerto é de Zero Hedge:

(...) dois meses antes de o governo ucraniano ser derrubado: o Primeiro-Ministro da Bulgária – país que mantém relação especialíssima de amor & ódio com a Rússia, e relação na qual os EUA adorariam injetar mais ódio – Plamen Oresharski, surpreendentemente ordenou a suspensão dos trabalhos no gasoduto Ramo Sul, por recomendação da União Europeia. A decisão foi anunciada depois de conversações entre Oresharski e senadores norte-americanos. 
Agora tem um pedido, da Comissão Europeia, depois do qual suspendemos os trabalhos que estavam em andamento. Eu mesmo ordenei a suspensão. Outros procedimentos serão decididos depois de novas consultas com Bruxelas – Oresharski disse a jornalistas, depois de conversar com John McCain, Chris Murphy e Ron Johnson durante visita que fizeram à Bulgária. 
Naquela ocasião, McCain, comentando a situação, disse que: a Bulgária deve resolver os problemas do [gasoduto] Ramo Sul, em colaboração com colegas europeus. E acrescentou que, na atual situação, queriam menos envolvimento russo. 
Os EUA decidiram que querem pôr-se em posição de excluir todos os que querem excluir países nos quais os EUA tenham algum interesse; não há absolutamente nenhuma racionalidade econômica nisso. Os europeus são muito pragmáticos, estão procurando fontes de energia – recursos de energia limpa, que a Rússia pode fornecer. Mas o problema com o [gasoduto] Ramo Sul é que ele não se encaixa na política da situação, disse Ben Aris, editor de Business New Europa, à RT (“Europe Gives Bulgaria A Bank System Lifeline As Battle Over “South Stream” Pipeline Heats Up”, Zero Hedge).

Deixe-me ver se entendi: McCain, o Louco, chega à cidade e imediatamente se põe a mandar em todos à sua volta, dizendo que quer “menor envolvimento russo”, e basta isso para levar o Ramo Sul a um ponto insuportável? É isso que você está me dizendo?

Sim. Ou pelo menos é o que parece.

Será que tudo isso afinal ajudou o leitor a ver o que está realmente acontecendo aqui? Não se trata de Putin. Trata-se de negócios de gás, e de quem vai lucrar com esse gás e em que moeda esse gás será denominado. É disso que se trata. O resto da absurdo sobre “envolvimento russo” ou terrorismo ou direitos humanos ou soberania nacional é só conversa fiada. A turma que governa os EUA (gente como McCain) não dá nenhuma importância a nada disso. O que importa é o dinheiro; dinheiro e poder. Nada mais.

Assim sendo, o que farão agora? Como os gatos gordos no poder em Washington expressarão sua fúria contra a nova ameaça que Putin e Erdogan criaram?

Não é preciso um gênio para entender o que virá. Será exatamente o que todos já vimos acontecer, um milhão de vezes.

Vão à caça da cabeça de Erdogan com unhas e dentes. É o que sempre fazem, não é?

A única razão pela qual ainda não começaram a caçada é porque estão pondo em ordem as suas hordas de propaganda, o que em geral toma um dia ou dois. Mas tão logo os “jornalistas” e “especialistas midiáticos” estejam organizados, começará o desmantelamento do velho Recep, uma manchete excruciante de cada vez. Erdogan vai ser o novo Hitler e a maior ameaça para a humanidade que o mundo já viu. Pode apostar.

Sibel Edmonds acha que Washington já estava cozinhando a desgraça de Erdogan há muito tempo, desde o tempo de um conflito que ele teve com a CIA, há alguns anos. Seja como for, ela oferece bom prognóstico do que esperar, agora que Erdogan entrou na lista dos inimigos de Washington. Eis um recorte do que ela postou em Boiling Frogs, em 18 de janeiro de 2014:

Todos sabemos o que acontece a esses fantoches quando se desentendem com a CIA. O fantoche passa a ser visto como se seu prazo de validade estivesse vencido. Depois de o fantoche ser considerado expirado começa, sem mais nem menos, do nada, a reversão da respectiva marca, que se pode chamar de marketing reverso: todos os velhos esqueletos são desenterrados do mais fundo dos armários e “vazados” para a imprensa-empresa. Todas as violações de direitos humanos que, antes, nada haviam violado, são examinadas novamente para constatar que, sim, violaram. A carta terrorista rapidamente aparece na equação. E a lista vai longe. 
(...) Todos os fantoches e palhaços e respectivos regimes que o Império pôs no poder têm de obedecer cegamente todas as ordens do Império (...). Não violarás as ordens do Império. Porque se as violares, estarás desgraçado, ferrado, exposto, derrubado do poder e pode acontecer até de morreres. Para ter certeza, basta examinar a história do último século. E ver o que acontece quanto fantoches e palhaços postos no poder ficam confiantes demais e se deixam dominar pela húbris, e ignoram um ou mais dos mandamentos. É quando qualquer fantoche ou palhaço pode ganhar reencarnação como ditador, déspota, torturador e, claro, claro: como terrorista. É quando o quintal deles é cavado incansavelmente, até acharem lá qualquer grama de armas de destruição em massa... 
Não importa como se analise a questão, os dias de Erdogan estão contados... Todos os que algum dia se atreveram a fazer o que ele fez foram punidos e exibidos em praça pública, como exemplo a todos os demais fantoches−palhaços postos no poder pelos EUA−CIA. (“Primeiro-ministro turco Erdogan: A rápida transformação de um fantoche do Império”, BFP).

Então é isso. Podem todos esperar o que virá lá pelo fim da semana, quando a imprensa já estiver “reorganizada” para fazer a demonização de Erdogan, o homem que se atreveu a agir de forma independente e colocar os interesses de seu próprio povo acima daqueles dos chefes da máfia Washington. Como qualquer um que seguiu a política externa americana nos últimos 60 anos vai dizer-lhe; isso é um grande não e não.

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