11 de julho de 2014

Diário de Gaza: Israelenses estão sendo enganados sobre o que está acontecendo

Eu não dormi por um segundo enquanto as explosões cercavam nossa casa, mas a comunidade internacional parece não prestar atenção em nós.

Abeer Ayyoub

Haaretz

Tradução / Depois de uma noite barulhenta, sem sono, todos em casa estavam dormindo, aproveitando as horas relativamente calmas do início da manhã. Nosso irmão, que mora no mesmo prédio, veio nos acordar, dizendo que nosso vizinho tinha recebido uma ligação das Forças de Defesa de Israel (IDF) recomendando a evacuação da sua casa, que estava prestes a ser bombardeada. A casa dele fica a uns pouco metros da nossa e a preparação para os bombardeios ainda é traumatizante.

Para que os ataques não quebrassem os vidros, minha mãe abriu todas as janelas – vidro quebrado é uma das principais causas de ferimentos nesses casos. Depois, os 20 membros da minha família se reuniram na sala de estar para esperar pelo terrível evento. Cuidar das crianças, que não entendiam o que estava acontecendo, era a pior parte. Enquanto eu escrevo isso, algumas horas se passaram desde a ligação, e nós ainda estamos, surpreendentemente, aguardando pelo ataque para que possamos nos livrar desse pânico que estamos sentindo.

A noite passada não foi como nenhuma outra. Os drones, extremamente barulhentos, não pararam de circular o céu de Gaza nem por um segundo. Os F16 também não deixaram de atirar sequer por uma hora. E os barcos armados mantiveram o cerco à praia durante toda a noite.

Eu não consegui dormir nem por um segundo enquanto as explosões atingiam os arredores da minha casa. Como o território é muito pequeno, o ponto mais distante de Gaza ainda é próximo de nós. Eu estava acompanhando as notícias nas mídias sociais, na TV e no rádio. Durante toda a noite, os foguetes miraram prédios nos quais dezenas de pessoas dormiam. Em todo lugar é igual, a única diferença de uma área para outra é o nome das famílias.

Eu estava procurando entrevistas online de porta-vozes israelenses para tentar entender como eles anunciavam os objetivos da Operação Borda de Proteção (Operation Protective Edge) de impedir o lançamento de foguetes de Gaza danificando a infraestrutura do Hamas – e matando dezenas de crianças e outros civis enquanto dormiam. Eu assisti uma entrevista de um porta-voz do IDF, Avichay Adrey, em um canal árabe, e fiquei totalmente surpreso com a fala dele sobre o sucesso da operação até agora.

Eu não sei sobre que sucesso Israel está falando, já que a maioria dos 86 mortos (até o começo de quinta-feira) eram mulheres e crianças. Mas o que foi mais surpreendente, e ainda mais rude, foi a justificativa de Adrey para os ataques da IDF em casas de civis, dizendo que o exército normalmente lança um tiro de advertência antes de danificar a construção. Eu não entendo como um exército que alerta as pessoas com tiros pode respeitar a si mesmo.

Por meio das mídias sociais eu pude verificar que a maioria dos israelenses está sendo enganada sobre o que está acontecendo em Gaza. Meus seguidores israelenses no Twitter continuam me dizendo que eu devo me afastar do Hamas se eu quiser continuar vivo. Como se o Hamas fosse um monstro que vive em algum lugar por aqui. Em contraste, eu sempre pude entender o sentimento de um israelense que tem um filho morto. Eu nunca ignorei o aspecto humano devido ao meu ponto de vista da tensão entre israelenses e palestinos.

Depois que dezenas de casas foram demolidas eu comecei a sentir o perigo; meus filhos também. Israel sempre alega que civis só são feridos quando estão próximos a ares de onde guerrilheiros palestinos lançam foguetes. Essa narrativa não é mais aceitável. Eu penso que Israel está matando civis para tentar colocar pressão no Hamas para buscar um cessar-fogo.

Visitando o hospital no centro da Faixa de Gaza, eu pude constatar mais e mais a loucura israelense. Em toda parte o que se vê são bebês feridos, carne queimada e crianças que não sabem que perderam seus pais e irmãos. Pior do que isso, o hospital já esgotou mais de 35% de seus medicamentos e 55% dos suprimentos. Surpreendentemente, ou talvez não, nenhum dos países árabes ou quaisquer outros da comunidade internacional parecem estar prestando atenção ao que está acontecendo com os mais de 1,8 milhões de seres humanos que vivem em Gaza.

Abandonados sob foguetes desgovernados, sem apoio regional e internacional, e com uma atitude desapontadora do presidente palestino Mahmoud Abbas, as pessoas estão desesperadas e sem esperança. Eu agora sei por que Israel está violando leis internacionais de direitos humanos: porque ninguém no mundo se atreve a vetar suas ações.

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