11 de dezembro de 2014

Líbia: Tenha cuidado com o que deseja

Brian Cloughley


Tradução / Em 19 de março de 2011 os EUA lideraram os países da OTAN em um ataque aéreo massivo, com mísseis, contra o governo líbio Muammar Gaddafi, extravagante ditador da Líbia, que foi visitado pelo primeiro-ministro britânico Tony Blair em 2004, em 2007 do presidente francês, Nicolas Sarkozy, em 2008 da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice e em 2009 do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, os quais, todos eles, cordialmente lhe asseguraram que havia relações confortáveis entre seus países.

Gaddafi era um déspota e perseguia seus inimigos tão selvagemente como o ditador Hosni Mubarak no vizinho Egito, mas a vida da maioria dos líbios era confortável e até a BBC teve de admitir que "o tipo especial de socialismo de Gaddafi garante educação e atendimento à saúde universais e gratuitos; e moradia e transportes subsidiados, mas os salários são extremamente baixos e a riqueza do estado e os lucros dos investimentos estrangeiros no país só enriqueceram uma reduzida elite (o que não acontece em qualquer outro lugar, é claro)."

O World Factbook da CIA registrava que a Líbia de Gaddafi alfabetizara 94,2% da população (índice melhor que o da Malásia, do México e da Arábia Saudita, para ficar nesses três exemplos), e a Organização Mundial da Saúde registrava expectativa de vida de 72,3 anos para a população líbia, das maiores no mundo em desenvolvimento.

Mas voltemos às figuras que voaram em bando para a Líbia antes da guerra da OTAN. Um telegrama diplomático vazado em 2009 registrava que "os senadores McCain e Graham promoviam os interesses dos EUA em manter e fazer avançar as relações bilaterais e o senador Lieberman declarou a Líbia importante aliada dos EUA na guerra ao terror."

Condoleezza Rice disse que "as relações EUA-Líbia andam em uma boa direção já há vários anos creio que a noite de hoje marca nova fase dessas boas relações", e britânico Tony Blair considerou seu encontro com Gaddafi "positivo e construtivo" porque as relações de seu país com a Líbia haviam se "transformado completamente nos últimos anos. Há agora forte cooperação entre nós nos setores de contraterrorismo e defesa".

A BBC noticiou “no encontro entre o Sr. Blair e o Sr. Gaddafi, foi anunciado que a gigante anglo-holandesa do petróleo Shell assinara negócio no valor de mais de 550 milhões [libras britânicas, US$ 860 millhões] para exploração de gás na costa da Líbia”. As empresas americanas de petróleo ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation e Hess Company também estavam profundamente envolvidas na produção de petróleo líbio  a nona maior reserva do mundo.

As coisas pareciam boas para a Líbia.

Mas em 21 de janeiro de 2011, a Reuters noticiou que "Muammar Gaddafi disse que seu país e outros exportadores estão analisando a possibilidade de nacionalizar as empresas estrangeiras que operam no país, por causa dos baixos preços. Sugeriu que o petróleo deve ser propriedade do Estado, agora, para que possamos controlar melhor os preços, aumentando ou reduzindo a produção."

Então, em fevereiro, imediatamente depois de Gaddafi ter falado de nacionalizar o petróleo líbio, houve um "levante de rebeldes" que queriam derrubá-lo. E no dia 17 de março de 2011, o Conselho de Segurança da ONU já tinha estabelecido uma "zona aérea de exclusão" sobre a Líbia, "para proteger os civis que estavam sendo atacados no país".

Os "rebeldes" eram apoiados por EUA, Grã-Bretanha e 12 dos seus 26 aliados na OTAN (com destaque para Alemanha e Turquia), três nações árabes (não incluída a Arábia Saudita), e a Suécia, que abandonou sua tão louvada neutralidade e tornou-se país da OTAN, em tudo, exceto no nome. Brasil, Rússia, Índia, China e Alemanha excluíram-se da Resolução, pregando a resolução pacífica para o conflito interno líbio e alertando contra “consequências não desejadas de uma intervenção armada”.

Dois dias depois da resolução "zona aérea de exclusão" começou o massacre da Líbia pela OTAN-EUA e prosseguiu por sete meses, até o final de 2011. Em 30 de abril de 2011 um míssil dos EUA matou três netos e um dos filhos do coronel Gadaffi, no que a OTAN chamou de "um ataque de precisão” contra “prédio do comando militar e controle". Perguntado sobre um ataque massivo contra o complexo residencial do coronel Gaddafi, o porta-voz do Pentágono anunciou que "nosso alvo não é a residência. Não temos notícia de qualquer morte de civis".

No auge dos ataques à Líbia, o presidente Obama dos EUA, o primeiro-ministro Cameron da Grã-Bretanha e Sarkozy da França declararam em conjunto que "continuamos hoje as operações militares para proteger civis líbios e estamos determinados a olhar sempre para a frente. Temos certeza de que tempos melhores virão para o povo líbio... o coronel Gaddafi tem de sair, e sair por bem. Nesse ponto, a ONU e as nações-membros devem ajudar o povo líbio a reconstruir onde Gaddafi destruiu - reparar casas e hospitais, restaurar os serviços públicos básicos e ajudar os líbios enquanto desenvolvem instituições para servir como estrutura para uma sociedade próspera e aberta."

A resposta de Gaddafi foi que "Vocês provaram ao mundo que não são civilizados, que são terroristas. Animais que atacaram uma nação que nada fez contra vocês."

Em 20 de outubro de 2011, Gaddafi foi brutalmente assassinado por um grupo de “rebeldes”. Obama festejou o assassinado. Disse que "hoje podemos dizer que definitivamente chegou a fim o regime de Gaddafi. Sua principal fortaleza ruiu. Um novo governo está se consolidando no país. Um dos mais longevos ditadores está morto."

A OTAN realizou 9.658 ataques aéreos contra a Líbia, e a BBC noticiou que "ao longo dos sete meses de campanha a OTAN reconheceu que houve um “erro” por “mau funcionamento” de uma arma. Dia 19 de junho, vários civis foram assassinados por um míssil que atingiu prédios em Trípoli. Porta-voz da OTAN disse depois que “ocorreu um possível erro de sistema de armas, que levou a arma a atingir alvo não buscado". (Também houve 105 ataques de drones dos EUA sobre o qual nada se sabe.)

É absolutamente inverossímil que, de 9.658 ataques aéreos, só um tenha assassinado civis. A ONG Human Rights Watch afirma que morreram muitos e muitos civis naqueles ataques – embora o número não seja importante, porque ninguém, nem dos EUA, nem de qualquer país OTAN, será jamais investigado por investigadores independentes sobre a morte de civis em lugar algum do planeta, por míssil, bomba ou foguete.

Nos diziam que o objetivo da guerra de EUA-OTAN contra a Líbia era impor a democracia à bombas, e o primeiro-ministro Cameron da Grã-Bretanha declarou que "estou otimista quanto à Líbia; sempre fui otimista desde o início e estou otimista agora quanto ao Conselho Nacional de Transição e o que são capazes de alcançar. Acho que, claro, se se olha hoje para Trípoli - levar água àquela cidade, fazer valer a lei e a ordem - mas verdade é que já está provado que tudo que os cínicos e os generais de poltrona disseram está errado."

Os "cínicos" - melhor descritos como realistas - e generais de poltrona estavam certo, é claro, na previsão de que o colapso do país era inevitável; da mesma forma que estavam certo sobre a previsão de caos no Iraque e no Afeganistão.

Dois intelectuais respeitados, Ivo Daalder, Representante Permanente dos EUA no Conselho da OTAN de 2009 a 2013, e o almirante James G ("Zorba") Stavridis, do Comando Supremo dos Aliados dos EUA na Europa (o comando militar da OTAN), na mesma época escreveram em Foreign Affairs em 2012: "A operação da OTAN na Líbia foi corretamente saudada como intervenção modelo. A aliança respondeu rapidamente a situação que se deteriorava e ameaçava centenas de milhares de civis em rebelião contra regime opressor. Conseguiu proteger aqueles civis e, de fato, garantir o tempo e o espaço necessários para que as forças locais derrubassem Muammar al-Gaddafi."

Segundo essa análise, a Líbia teria sido libertada e tornara-se país livre graças à OTAN. E os dois receberam o apoio de colunistas como Nicholas Kristof, para quem "a Líbia faz lembrar que às vezes é possível usar armas militares para promover causas humanitárias". A frase seria cômica, não fosse tão obscenamente perversa, porque a Líbia mergulhara já na anarquia e na ruína. A declaração dos britânicos à ONU em 2012, de que "hoje, Trípoli e Benghazi são cidades transformadas. Onde antes havia medo, hoje há esperança e otimismo e fé verdadeiramente inspiradores", mostrou-se absurda.

A CNN noticia que "assassinatos, sequestros, bloqueios de refinarias, milícias rivais que lutam nas ruas, extremistas islamistas acampados e, sobretudo, governo cronicamente fraco fizeram da Líbia lugar perigoso, cuja instabilidade já respinga através de fronteiras e para o Mediterrâneo. Verdade é que a Líbia está convertido em estado fora da lei." Claro, "verdadeiramente inspirador".

De acordo com a Anistia Internacional, "desde julho de 2014 pelo menos 287 mil líbios tornaram-se migrantes internos, resultado de ataques indiscriminados e do medo de serem apanhados no fogo cruzado entre as milícias; e outros 100 mil líbios tiveram de deixar o país para não serem mortos." As nações ocidentais já retiraram de lá suas missões diplomáticas, e a Grã-Bretanha aconselha os cidadãos “contra viajar à Líbia, onde prosseguem os combates e é grande a instabilidade em todo o país”.

A OTAN não fez nada para "reconstruir casas e hospitais, restaurar os serviços públicos básicos e ajudar os líbios enquanto desenvolvem instituições para servir como estrutura para uma sociedade próspera e aberta", como Obama, Cameron e Sarkozy haviam declarado que seria necessário, ao mesmo tempo em que, com bombas, foguetes e mísseis Tomahawk iam destruindo casas e hospitais e serviços públicos básicos. E nenhuma dessas pessoas - excitados líderes mundiais, pseudo jornalistas "comentaristas" ou intelectuais respeitados, aí, repetindo, como perfeitos imbecis, que a "intervenção na Líbia foi corretamente saudada como intervenção modelo" - não davam nenhum sinal de sentirem qualquer vergonha ou arrependimento pelo entusiasmo com que saudaram o massacre que levou à devastação e ao desastre.

Durante a guerra contra a Líbia, Obama e Cameron declararam que, "estamos convencidos de que tempos melhores virão para o povo líbio." Digam isso aos milhões de líbios cujas vidas foram destruídas pela "intervenção modelo" que a OTAN lançou contra eles. A escala do sofrimento humano não é tão terrível quanto a que os mesmos EUA-GB infligiram ao Iraque, mas também é horrenda. Dia 30 de novembro de 2014, por exemplo, a agência Reuters noticiava que "cerca de 400 pessoas foram mortas em seis semanas de confrontos pesados entre forças pró-governo líbio e grupos islamistas na segunda maior cidade da Líbia, Benghazi." E nada dos tais "melhores tempos" que viriam depois de seis meses de ataques incessantes dos mísseis e bombas de EUA-OTAN.

E o que acontecerá à OTAN? Onde decidirá montar a próxima "intervenção modelo", depois de ter destruído a Líbia e de ter sofrido uma derrota humilhante no Afeganistão?

A OTAN procura desesperadamente uma "causa" que justifique a existência daquela aliança, e está movendo suas forças, entusiasticamente na direção do leste da Europa, envolvendo soldados norte-americanos em "exercícios" na Ucrânia e nos EUA e em outros deslocamentos para a Polônia e Estados Bálticos. Já criou uma "Missão Báltica de Policiamento Aéreo" multinacional e está empurrando outra operação (que recebeu o nome mais ridículo de todos os ridículos nomes de "operações": "Operação Firmeza & Dedicação Atlântica - Compromisso Continuado dos EUA com a Segurança da Europa") a ameaçar a Rússia.

Mas a OTAN, e especialmente os EUA, deveriam ter ouvido os conselhos de Brasil, Rússia, Índia, China e Alemanha que alertaram contra “consequências não buscadas da intervenção armada”. Como o presidente Vladimir Putin disse dia 4 de dezembro de 2014, "Hitler estava decidido a destruir a Rússia até os Urais. No entanto, todo mundo se lembra como aquilo terminou." Exatamente.

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