8 de dezembro de 2014

O petróleo, o rublo e o fantasma da deflação

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / Os preços do crude caíram em poucos meses para os mínimos dos últimos cinco anos. E a razão é clara: trata-se da oferta e da procura! Pelo lado da oferta, o desenvolvimento mais significativo foi o grande crescimento da produção de petróleo e de gás de xisto na América do Norte, principalmente nos EUA.

As reservas de petróleo e gás encontram-se no interior de camadas de xisto e podem ser libertadas por um processo hidráulico de injeção de água sob pressão chamado fracking. Através da utilização de centenas de equipamentos de perfuração em rápida sucessão, a rocha de xisto pode produzir importantes fornecimentos de petróleo e gás natural comprimidos - e este processo no Dakota do Norte, no Texas e noutras áreas dos Estados Unidos deu a volta por completo à produção de petróleo nos EUA. A produção de petróleo nos Estados Unidos tinha-se baseado até agora nas reservas conhecidas de petróleo profundo no Texas, na Luisiana e no Golfo de México. A produção norte-americana estava em decadência desde meados da década de 1970 com 4 milhões de barris por dia (mbd) e em redução. Mas graças ao fracking, a produção anual disparou de novo até aos 9 mbd, recuperando os picos anteriores. O fracking de gás e petróleo comprimidos está a estender-se a todo o mundo e os países com grandes reservas de xisto querem explorá-lo na Polônia, na China, na Europa e até no Reino Unido.

O outro lado da equação de preços é a procura. A procura mundial de energia, em particular o petróleo, reduziu-se. Principalmente porque o crescimento econômico mundial desacelerou desde o fim da Grande Recessão. A China tomou a iniciativa travando o crescimento, juntamente com as outras grandes economias emergentes, como o Brasil e a Índia; e as principais economias capitalistas avançadas continuam a funcionar em "marcha lenta". As indústrias estão a aumentar o uso de combustíveis fósseis a um ritmo mais lento do que o esperado, enquanto a procura de transporte está em queda (os norte-americanos conduzem menos). A poupança de energia intensificou-se e a intensidade energética (energia por unidade de produto) está a cair em todo o lado. Todas as agências internacionais de energia acham que os preços do petróleo e do gás permanecerão nestes novos mínimos durante vários anos.

Os maiores perdedores são os países que dependem das exportações de energia: Arábia Saudita, o resto dos estados petrolíferos árabes, a super-rica Noruega, a super-pobre Venezuela, México e, sobretudo, Rússia. Os sauditas lançaram uma contraofensiva. Com mais de cinco vezes as reservas de xisto norte-americano, estão a atacar os produtores de xisto mediante o aumento da produção, com o fim de reduzir o preço até ao ponto em que os produtores de xisto comecem a perder dinheiro (os seus custos de produção são muito mais altos que os sauditas: de 50 dólares a 25 dólares por barril). Mas até agora não funcionou e a produção de xisto continua a aumentar. Mas a política da Arábia Saudita está a destruir as receitas de outros produtores da OPEP como Venezuela e Rússia.

Putin poderia ter feito face ao "Ocidente" em relação à Ucrânia e negar-se a ceder, mas o Ocidente vai ganhando a batalha econômica e o preço do petróleo tem sido a sua arma principal. O colapso do preço do petróleo pôs a nu a debilidade da economia russa.

Há apenas um ano, as reservas de dólares da Rússia graças às suas exportações de energia eram de mais de 515 bilhões de dólares. Agora, como as rendas do petróleo se dissiparam e as sanções impostas pelo Ocidente à Rússia, por causa da Ucrânia, foram aplicadas, o superavit comercial da Rússia diminuiu e a fuga de capitais, dos oligarcas e de outros para fora da Rússia, disparou até aos 120 bilhões de dólares por ano. Como resultado, as reservas de divisas caíram abaixo dos 400 bilhões de dólares e o rublo afundou-se em relação ao dólar 40% neste ano, provocando um forte aumento da inflação e a escassez de bens importados.


400 bilhões de dólares são ainda muitas reservas e o Banco Central da Rússia (BCR) tentou sustentar o rublo vendendo os seus dólares e comprando moeda russa nos mercados cambiais. Mas não funcionou. De modo que o BCR simplesmente deixou cair o rublo para poupar dólares. E o rublo afundou-se ainda mais. Agora começou novamente a comprar rublos com as suas reservas para deter a queda, de novo sem sucesso.


A política do BCR é intervencionista. E isto preocupa Putin, que começou a criticar as suas próprias nomeações no BCR. O problema é que grande parte dessas reservas não se podem utilizar para sustentar a moeda porque devem manter-se fundos suficientes para cobrir os pagamentos das importações essenciais (o FMI recomenda um mínimo de três meses do valor das importações). Se as reservas caem abaixo desse nível, o rublo entrará em crise, já que os credores estrangeiros (principalmente os bancos europeus) retirarão o seu dinheiro. A queda do rublo implica também que todas as empresas russas com grandes dívidas e empréstimos em dólares, em particular os bancos russos, terão que assumir enormes faturas em dólares que não podem pagar.

Segundo o Banco Central da Rússia, o país tem que pagar 30 bilhões de dólares de dívida este mês e mais 138 bilhões nos próximos 18 meses. Só 2% dessa dívida é do governo, enquanto as empresas não financeiras representam mais de 60%, o resto pertence principalmente a dívida bancária, incluindo o maior banco da Rússia - o banco estatal Sberbank.

De modo que estão a pedir (e a obter dinheiro) do governo para serem resgatados. A gigantesca petrolífera estatal Rosneft, por exemplo, pediu 44 bilhões de dólares, o que equivale a mais de metade do saldo restante do chamado Fundo de Bem-estar, que se destina a apoiar o sistema de pensões. VTB Bank e Gazprombank já conseguiram mais de 7 bilhões de dólares do Fundo de Bem-estar e estão a pedir bilhões mais. Se as reservas de divisas e os fundos forem utilizados para resgatar os bancos, não terão outro remédio senão abandonar os projetos planejados de infraestruturas e as pensões estarão ameaçadas. E a margem do limite de três meses de importações estreitar-se-á. Ao ritmo atual de diminuição das reservas de divisas, esse teto poderá ser atingido no verão de 2015.

O discurso anual de Putin no Parlamento russo na semana passada mostrou até que ponto está preocupado. Inclusive ofereceu uma amnistia completa aos oligarcas que têm estado a tirar o seu dinheiro da Rússia, em grandes quantidades, nos últimos meses. “Proponho uma amnistia total para o capital que regresse à Rússia”, disse Putin. “Sublinho, amnistia total.” “Significa”, continuou, “que se uma pessoa legaliza os seus ativos e propriedades na Rússia, receberá garantias jurídicas firmes de que não vai ser convocado pelas instituições, incluindo pelas agências encarregadas de aplicar a lei, que não o vão “pôr num aperto” nem lhe vão perguntar pela origem do seu capital e como o adquiriu, que não vai ser processado ou enfrentar responsabilidade administrativa alguma, nem será questionado pela agência tributária ou pela polícia”.

Na Rússia, dois dos principais grupos de pessoas que têm grandes quantidades de capital no exterior são os grupos criminosos organizados e os chamados oligarcas. Ao sublinhar que não haverá perseguição, Putin pareceu deixar explicitamente aberta a porta ao dinheiro obtido ilegalmente. “Dirige-se a gente que saqueou as empresas”, afirma a professora Louise Shelley, fundadora e diretora do Centro sobre terrorismo, delinquência transnacional e corrupção da Universidade George Mason em Fairfax, Virginia. “Há milhares de casos de pessoas que utilizaram mecanismos criminosos e documentos falsos para adquirir ativos. Está a dirigir-se ao crime organizado que se apoderou de empresas”. E acrescenta: “Nenhuma das grandes fortunas russas é dinheiro totalmente limpo”.

Supondo que o preço do petróleo estabiliza em torno de 60 dólares por barril no próximo ano, Putin pode evitar uma crise da dívida no próximo verão, se for capaz de pressionar as grandes empresas russas a comprar rublos com as suas receitas das exportações em dólares (uma forma de controle de capital) e resgatar os bancos com reservas do governo. Putin está a fazer precisamente isso. Mas isso não quer dizer salvar a economia interna. As sanções, juntamente com o colapso dos preços do petróleo, empurraram a economia russa para a recessão. O governo admite que a economia se contrairá 1% no próximo ano, o investimento cairá 3,5% e o rendimento médio das famílias reduzir-se-á cerca de 3% num ano. De fato, pela primeira vez em 15 anos, o nível de vida do russo médio cairá em 2015. Foi imposto o congelamento dos salários, desindexados da inflação, mas esta cresce quase 10% por ano.

Putin pode ser muito popular por causa da sua política externa em relação à Ucrânia e ao seu confronto com o Ocidente, mas a sua popularidade cai por causa da sua política interna. Aproxima-se a austeridade à russa. A despesa pública aumentou em média 10% por ano na última década, mas agora será travada. Cortar despesas militares e de polícia é politicamente impossível porque Putin precisa do apoio do aparelho de segurança em caso de mal-estar social. Isto significa que o governo terá que atacar os investimentos, os lucros e os salários. Na semana passada, Putin anunciou um corte de 5% em termos reais de 2015 até 2017, mediante a redução da “despesa ineficaz”, à exceção da defesa e da segurança. Putin costumava prometer aos russos que o seu país superaria a Alemanha como a 5ª maior economia do mundo em 2020. Em maio de 2012, assinou um decreto prometendo aumentar os salários reais em 50% até 2018. Essas promessas agora já não valem.

Putin continua a confiar na sua política em relação à Ucrânia para a sua popularidade, mas a economia da Ucrânia está ainda pior. As reservas do banco central da Ucrânia caíram abaixo da barreira dos 10 bilhões de dólares pela primeira vez desde 2005 depois de pagar o gás à companhia russa Gazprom. O FMI provavelmente desembolsará outros 2,7 milhões de dólares para salvar o governo de Kiev. Mas é evidente que a Ucrânia precisa de outros 20 bilhões de dólares nos próximos dois anos para financiar a guerra no Leste e para o serviço da dívida. Uma missão do FMI chega amanhã para planificar um plano de austeridade massivo para o povo da Ucrânia em troca desse financiamento.

Mas provavelmente o aspeto mais importante da queda do preço do petróleo é o fantasma da deflação mundial. A inflação mundial tem sido muito baixa desde a Grande Recessão, outro indicador da Longa Depressão em que se afundou a economia mundial. A inflação que tem havido deve-se à forte subida dos preços da energia. Os aumentos de preços não energéticos têm sido mínimos. Agora, com a forte queda da energia e de outras matérias primas (metais, alimentos, etc.), a deflação é um espectro que paira pelo mundo.


A Oxford Economics calcula que se os preços do petróleo caírem para 40 dólares por barril, 41 dos 45 países assinalados sofreriam deflação.


Há quem diga que é uma boa notícia. Essa é a linha de alguns economistas neoclássicos e da escola austríaca. A queda dos preços, sobretudo de energia e alimentos, aumentaria o poder aquisitivo dos consumidores e ajudaria a impulsionar a procura e o crescimento econômico.

Mas para a rentabilidade do capital é uma má notícia. A inflação dos preços de produção das empresas é outra tendência que contrabalança temporariamente a queda da rentabilidade. Se desaparecer, então a pressão para a baixa na rentabilidade de qualquer novo investimento em tecnologia será maior à medida que a queda de preços apertar as margens de lucro. Nesse sentido, a deflação não é uma boa notícia para o setor capitalista, sobretudo se tem pesadas dívidas (as pequenas empresas, em particular). Assim a crise que se está a formar para as empresas russas pode arrastar outros países. Poderá ser outro fator que empurra para uma nova recessão global, desta vez baseada no setor produtivo não financeiro do capitalismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário