18 de dezembro de 2014

O que o "The Colbert Report" nos ensinou sobre a psicologia dos conservadores

Leslie Savan

The Nation

Tradução / Ninguém pensou que Stephen Colbert, o personagem, iria durar tanto tempo. Aquele tom moralista, reacionário, autocomplacente, autoelogiativo, grandiloquente, metido a “ético”, algo bom para um ano ou dois, no máximo.

Como o próprio Colbert disse na segunda-feira a Michele Bachmann que está se aposentando: “O tempo voa, Michele! Eu não posso acreditar que você manteve esse caráter conservador louco por oito anos”.

Mas durante nove anos Colbert nunca parou de nos fazer lembrar que a política – sobretudo a política conservadora é puro espetáculo, não passa de um tipo de desempenho cênico.

Para esse último show, o Grim Reaper vai tirá-lo da bancada. É o que se sabe. Mas deve-se agradecer pela longevidade do programa, pelo menos em parte, aos reinados muito mais longos de suas fontes de inspiração - “Papa Bear” Bill O’Reilly, claro, mas também Sean Hannity, Rush Limbaugh, Steve Doocy, e a própria mentalidade Fox News.

Também pode-se agradecer por esses últimos nove anos à própria “coisa” que tornava-os tão improváveis: como personagem, não só como mero crítico, da direita, Colbert guardava com ele uma rara chave que lhe permitia decifrar o enigma do conservadorismo moderno: Como é possível que essa gente continue a safar-se, fazendo sempre o que sempre fizeram? Por que tantos conservadores converteram-se em perfeitas cavalgaduras, racistas, militantes do ódio, negadores da ciência e da realidade? Os eleitores nem sempre concordam com aquelas políticas deles, mas... continuam a elegê-los. Por quê?

Nós, liberais, continuamos batendo a cabeça na parede contra a ausência total de lógica no que eles dizem e fazem e, frustrados, só fazemos berrar a única explicação que encontramos: “Eles são ... eles são ... eles são insanos”.

Em vez de tentar usar a chave de fora para dentro da muralha – como mais críticos da direita deveriam também aprender a fazer, Colbert mete e gira a chave de dentro para fora da muralha, por mais falsa que seja a chave que ele encontrou e domina. Porque aprendeu a habitar o interior da cabeça dos conservadores servindo-se do seu personagem, Colbert conseguiu mostrar, quatro noites por semana, como funciona a psicologia da direita reacionária.

E assim, em seu último segmento "Formidable Opponent", o reacionário disse que a América jamais iria torturar. O Stephen mais moderado contra-argumentou que já não havia como desmentir. Que o Relatório do Senado comprova que sim, torturaram. Ao que o primeiro Stephen responde: "Ah, eu não estou falando sobre o país real. Eu estou falando sobre a idéia de América. A idéia da América nunca iria torturar ... É isso, meu amigo, é por isso que eu escolho viver na idéia da América. "

É impossível assistir a esse tipo de personagem, que se ancora nessa franqueza sem véus, sem sentir alguma simpatia por ele e, claro, também pelo próprio conservadorismo.

Colbert expressa simpatia, mostrando que, sob a afirmação de seu caráter de onipotência e certeza, há uma fragilidade, que está enterrada em todos os blowhards da vida real e seus dittoheads.

Se pararem de bater palmas, Tinker Bell vai morrer. Se os acenos de concordância param, a força acaba. Se você para de correr na mesma direção em que vai a manada, você ser ser atropelado..

Todas as noites o personagem Colbert se faz aço a permanecer no caminho estreito e apertado por medo.

Sua fanfarronice disfarçou o fato de que ele é um covarde e uma criança grande. (Nisso o personagem mais próximo de Colbert seria Lawton Smalls, velho personagem reacionário de Marc Maron que caía em lágrimas quando não conseguia salvar seus delírios políticos). De vez em quando, Colbert escondia-se sob a mesa, ou punha-se aos berros (porque temos de extinguir da face da Terra todos os ursos!) “Ursos”, como se sabe, significa “Rússia”, mas também o comercial de Reagan “Bear in the Woods”, ou mesmo, “Papai Urso” [Bill O’Reilly]. Mas o mais provável é que o medo de ursos, em Colbert, era o próprio medo, um terror irracional de algo que jamais vimos, com o que jamais cruzamos, como painéis da morte do Obamacare ou bandidos que saem do mato para receber armas que os EUA lhes enviaram. Será que levam para entregar lá a “Doçura”, a pistola que Stephen acaricia e que, tanto quanto se conhece é o único interesse amoroso sério da vida dele.

Mais frequentemente, porém, Colbert cavalga destemido sempre avante, sem retroceder, enunciando os maiores absurdos, sem tomar conhecimento de problemas e consequências. Era o traço “Inspetor Clouseau” de Colbert. É a impenetrável inocência do personagem e o coração do ator que combinam, me parece, para gerar tanta afeição, amor, de fato, por Colbert.

Eu sempre disse que aprecio Jon Stewart (e aprecio muito, muito, John Oliver), mas amo Stephen. Rio tanto, que choro. Eu rio tanto que choro, e, chorando, eu desmaio.

Pensa-se em geral que Stewart faz a sátira política que bate mais forte. Mas Colbert, sob um fino véu de ficção, pode, sim, morder muito mais fundo. Colbert de fato é uma ameaça a O’Reilly – que dá sinais ativos de que não gosta dele –, e O’Reilly e Stewart apoiam-se mutuamente.

Colbert também faz coisas mais próximas do ativismo conservador que Stewart tanto despreza. Como quando Colbert depôs numa subcomissão de Justiça da Câmara de Representantes a favor de garantias para empregos de americanos, em vez de proteção à mão de obra de imigrantes. Ou quando, num dos momentos mais brilhantes da comédia de todos os tempos, foi mestre de cerimônias do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca em 2006. Estando a poucos metros do presidente George W. Bush, Colbert, o personagem, disse:

"Não somos assim tão diferentes, ele [o presidente] e eu. Chegamos lá. Não somos cérebros, a patrulhar nerds. Não somos da gangue do facticídio. Nós dois falamos com as tripas, certo, senhor presidente? 
A melhor coisa sobre este homem é que ele é constante. Você sabe onde ele está. Ele acredita na mesma coisa quarta-feira que ele acreditava na segunda-feira, não importa o que aconteceu terça-feira. Os eventos podem mudar; as crenças deste homem não."

Mas Colbert mordeu ainda mais profundamente nos jornalistas presentes, os quais, como se soube depois, não acharam graça nenhuma:

"Ao longo dos últimos cinco anos, vocês foram ótimos – a favor de cortar impostos que só ricos pagam, aquela inteligência toda sobre armas de destruição em massa, a favor do aquecimento global. Nós, americanos, não queríamos saber, e vocês nos fizeram a gentileza de nada investigar e nada descobrir. Bons tempos aqueles... pelo menos foi o que vocês disseram. 
Mas, escute, vamos rever as regras. Veja como funciona: o presidente toma decisões.. Ele é o Decididor. O secretário de imprensa só anuncia aquelas decisões, e vocês, turma ‘da mídia’, só digitam aquelas decisões. Decidir, anunciar, digitar. É passar lá o corretor ortográfico e ir p’ra casa. Localizem a família de vocês. Façam sexo com a mulher de vocês. Escrevam aquele romance que vive chutando dentro da cabeça de vocês. Lembram? Aquele, sobre o intrépido jornalista em Washington que tem coragem de investigar. Vocês sabem - ficção!"

Não se sabe se o Stephen Colbert de ficção diria alguma coisa desse tipo a convidados do "The Late Show". Mas nunca se sabe. Ele já nos surpreendeu antes.

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