20 de dezembro de 2014

Quando o governo diz, "Shhh!"

Margaret Sullivan

The New York Times

Tradução / Howell Raines lembra-se de um telefonema de Ari Fleisher pouco depois dos ataques de 11 de setembro 2001, nos Estados Unidos.

Raines, então editor-executivo do New York Times, diz que Fleisher, então assessor de imprensa de George W. Bush, fez um pedido assombroso. Ele “pediu que prometêssemos que entraríamos em contato com a Casa Branca antes de publicarmos qualquer assunto relacionado à segurança nacional”.

Howell Raines contou-me, num e-mail recente, que recusou: “Disse-lhe que não faríamos a promessa que ele pedia, mas que se a Casa Branca quisesse pedir a suspensão de uma matéria específica, esse pedido teria que ser feito pelo presidente ao editor-executivo ou ao publisher do jornal.” Essa foi a única vez em dois anos como editor, afirma ele, que ouviu um pedido do governo para suspender informação.

No entanto, o governo conseguiu contornar essa recusa pelo menos uma vez durante o mandato de Howell Raines. O relatório sobre tortura recentemente divulgado pelo Comitê de Inteligência do Senado menciona uma matéria que “um jornal importante” teria suspendido a pedido do governo, em 2002. O repórter James Risen informou que o jornal em questão era o The New York Times. (A matéria, sobre um dirigente da al-Qaeda que era mantido preso numa prisão secreta na Tailândia, acabou sendo publicada no ano seguinte.) James Risen disse-me que Gerald Boyd, então chefe de redação, tomou a decisão quando Howell Raines não se encontrava no jornal. Isso ocorreu (pelo que Raines consegue se lembrar) depois que Boyd foi contatado por Condoleezza Rice, que na época era conselheira de segurança nacional do presidente Bush. Raines acha difícil acreditar que Boyd, que morreu em 2006, tenha tomado essa decisão sem o consultar. Jill Abramson, que na época era chefe da sucursal de Washington (e posteriormente tornou-se editora-executiva do jornal), disse-me, por e-mail, que não participara do caso e não se lembrava do incidente. O publisher, Arthur Sulzberger, disse o mesmo.

Os detalhes obscuros podem não fazer muita diferença agora, dez anos depois. Mas a questão mais ampla – a relação entre o governo e a imprensa – é muito importante. Em que circunstâncias deveria uma organização jornalística concordar com um pedido do governo para suspender uma matéria com base em preocupações de segurança nacional?

Os dois últimos editores-chefes do The New York Times dizem que mudaram de opinião sobre o assunto – e que acham que, às vezes, a imprensa cede com muita facilidade à pressão governamental.

“O relatório sobre a tortura é uma advertência de que deveríamos ser mais exigentes sobre aquilo que deixamos de publicar”, disse-me o atual editor-executivo do diário, Dean Baquet. Repetindo observações que fez a David Folkenflik, da National Public Radio, ele me falou: “Irei ouvir um pedido sério do governo, mas estou muito, muito mais relutante” em atendê-lo.

A lamentável repercussão dos atentados do 11 de setembro 2001 é um fator que pesa nessa mudança de opinião; outro, é o que Edward Snowden, que prestou serviços para a Agência de Segurança Nacional, revelou sobre a ampla e profunda vigilância exercida pelo governo. (Snowden disse que optou por não trazer essas revelações ao The New York Times porque acreditava ser menos provável que jornalistas de outros veículos se curvassem à pressão do governo).

Dean Baquet considera que o comportamento dos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro 2001 proporcionaram “um debate muito rico”. Os elementos deste debate incluem as guerras do Iraque e do Afeganistão, as revelações de Snowden, a expansão da guerra com drones e o papel da CIA.

O The New York Times deve a seus leitores toda a informação necessária para acompanhar esse debate. Mas os pedidos continuam chegando. Dean Baquet disse-me que não se passa um mês sem que haja algum esforço do governo para persuadir o The New York Times a não publicar alguma coisa. E eles são bem-sucedidos? “Muito raramente.”

E quanto a Jill Abramson, segundo uma matéria de Michael Calderone no The Huffignton Post, ela disse que aquilo que parecia razoável “ao vivo”, pouco depois dos ataques do 11 de setembro de 2001, talvez não tivesse mais sentido. “Nenhum de nós sabia o que a ‘guerra ao terror’ iria representar e que tantos aspectos das liberdades civis seriam questionados”, afirmou. “Fomos ingênuos.”

A história mais famosa de uma suspensão de matéria pelo The New York Times vem de 2004. Uma reportagem de James Risen e Eric Lichtbau, de grande sucesso, gravada sem autorização judicial pela Agência de Segurança Nacional, quase não conseguiu ser impressa. Foi suspensa por 13 meses e só foi publicada quando se soube que o conteúdo sairia no livro State of War, de Risen, prestes a ser publicado.

Bill Keller, que antecedeu Jill Abramson como editor-chefe, disse-me no ano passado que a proximidade dos ataques de 11 de setembro 2001 afetou suas decisões: “Três anos depois dos ataques de 11 de setembro 2001, nós, como país, ainda estávamos sob a influência daquele trauma e nós, como jornal, não estávamos imunes. Não foi algo como um arrebatamento patriótico. Foi uma sensação aguda de que o mundo era um lugar perigoso.”
São situações difíceis, principalmente quando autoridades de primeiro escalão dizem aos editores que “você terá sangue em suas mãos” se a matéria for publicada, como Jill Abramson me contou que aconteceu.

É fácil ter uma segunda avaliação das decisões em retrospecto. Mas se as organizações jornalísticas – e, principalmente, o The New York Times – tivessem sido menos cooperativas e menos crédulas logo após o 11 de setembro de 2001, o país poderia estar bem melhor hoje.

Dean Baquet disse o seguinte: “Algumas coisas acontecem e nós, como país, lamentamos profundamente.” Para ele, o relatório sobre torturas do Senado é um “momento notável” na história dos Estados Unidos. E os cidadãos “têm o direito a ter sua própria opinião e a toda a informação de que precisam”. Só isso, diz, cria “uma poderosa barreira” contra qualquer pretensão a suspender uma informação.

É bom ver Dean Baquet assumir uma postura mais dura. E é bom ver o Times usar o termo tortura, e não um eufemismo, por uma questão de credibilidade. Que o Times tenha aprendido com seus erros e esteja disposto a discuti-los – entre todas as más notícias sobre liberdades civis, sigilo governamental e liberdade de imprensa – é uma resposta bem-vinda, mesmo que tardia.

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