5 de janeiro de 2015

A arma geopolítica do petróleo

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Enquanto a queda do preço do petróleo põe contra as cordas uma Rússia que, já em crise por causa das sanções dos Estados Unidos e da União Europeia, vê diminuir as receitas provenientes de suas exportações energéticas, os Estados Unidos está convertendo-se no maior produtor mundial de petróleo bruto – deslocando a Arábia Saudita - e, em breve, será não só auto-suficiente mas também estará em condições de garantir à União Europeia petróleo e gás em abundância e, além do mais, barato. Isso é o que nos dizem a imprensa. Uma historia que vamos confrontar aqui com os dados da realidade, partindo da seguinte questão: Por que está caindo os preços do petróleo?

A queda se deve não apenas a fatores econômicos, como a desaceleração da demanda global, mas também a fatores geopolíticos. Em primeiro lugar, a decisão da Arábia Saudita, o maior exportador mundial  - seguido da Rússia -, de manter um nível de produção elevado para que, ao aumentar a oferta, diminua o preço do petróleo bruto.

Que interesse tem a Arábia Saudita nessa manobra, que pode reduzir suas próprias receitas provenientes do petróleo? Afetar outros países exportadores, principalmente a Rússia, o Irã e a Venezuela. Riad pode dar-se o luxo de realizar essa manobra porque os custos de extração do petróleo bruto saudita estão entre os más baixos do mundo, 5 ou 6 dólares o barril, enquanto que a extração de um barril de petróleo no Mar do Norte, por exemplo, custa mais de 26 dólares. A ideia de que a manobra de Riad possa estar dirigida contra os Estados Unidos, onde começou o boom de xisto betuminoso, é infundada. Em primeiro lugar porque os Estados Unidos segue importando petróleo saudita, cuja qualidade convêm às refinarias estadunidenses, enquanto que o xisto betuminoso está substituindo o que se importava da Nigéria, da Angola e da Argélia. E por que a manobra do petróleo foi acordada por Washington com Riad com base na estratégia destinada principalmente a enfraquecer e isolar a Rússia. Neste contexto, encontra-se o boom do petróleo e do gás extraídos do xisto betuminoso nos Estados Unidos mediante a técnica de fraturamento hidráulico, ou seja o esmagamento das rochas nas camadas profundas com água a pressão que contêm produtos químicos. Esta técnica é muito cara: de acordo com a Agência Internacional de Energia, extrair petróleo de xisto custa entre 50 e 100 dólares por barril enquanto que extrair um barril de petróleo no Oriente Médio custa cerca 10 dólares.

Segundo os especialistas, a extração do gás de xisto betuminoso é economicamente interessante quando o preço internacional do petróleo ultrapassa os 70 dólares o barril. Desde junho, no entanto, o preço do barril de petróleo sofreu uma queda de 40%, assim que o preço do barril anda pelos 60 dólares, e pode seguir ciando. Como é possível então que se mantenha o boom? Porque os Estados Unidos - ou seja, o Estado - está alocando bilhões de dólares em incentivos para o setor, no qual estão implicados geralmente pequenas companhias petrolíferas. É importante observar que as maiores companhias se mantêm fora desse negócio, porque os depósitos explorados mediante a técnica de fraturação hidráulica se esgotam muito antes que os convencionais.

Depois, há que esta técnica provoca sérios danos ambientais, cujos custos recaem sobre as comunidades locais. Muitas delas se opõem, até agora com pouco resultado, ao uso de seus territórios para a extração de petróleo e de gás de xisto. Na verdade, o boom do petróleo dos Estados Unidos é guiado por objetivos geopolíticos de Washington: por um lado, prejudicar a Rússia e outros países, e por outro lado, fazer com que os aliados europeus substituam as compras de produtos energéticos russos pelos que proveem dos Estados Unidos. Mas os Estados Unidos, que é o maior importador de petróleo bruto do mundo, não pode garantir à Europa os volumes de petróleo e de gás natural que garante a Rússia, nem tampouco aos preços que pratica a Rússia. Tudo isto no passa de um blefe do "poker americano" da guerra.

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