21 de janeiro de 2015

Liberdade, liberdade querida, onde estão os teus defensores?

Rémy Herrera

Afrique Asie

Tradução / O presidente François Hollande declarou: "A França está em estado de choque" e deve "unir-se". Ou seja, vai enfrentar a barbárie. A barbárie é assassinar a criança que vai à escola, é abater o transeunte que não tem a "religião certa", é forçar as portas de uma sala de redação e abater jornalistas porque o que escrevem ou desenham não agrada. É por isso, perante esta barbárie que tantos franceses querem que o seu país continue a prezar bem alto a questão das liberdades de consciência e de expressão, a da laicidade, a da educação. E são muitos, muitos decididos a não recuar nem um palmo frente aos ataques sofridos pelos seus princípios progressistas. Unir-se contra o fanatismo religioso e o seu obscurantismo medieval é simples. É pelo contrário bem mais difícil — principalmente na onda de emoções perante o horror, talvez numa confusão em que amigos e inimigos políticos se encontram repentinamente lado a lado, unir-se e oferecer a oportunidade de recuperação — ouvirem-se uns aos outros na interpretação destes acontecimentos dramáticos. Tanto nas causas, como nas responsabilidades últimas e múltiplas e nas consequências a tirar, ou nas soluções, que seria bom explorar.

A França atacada... mas qual França?

A verdade é que esta tragédia teve lugar em França. E de certeza não foi por acaso. Esta França que, há muito tempo teve uma revolução tão grande que deixou traços inapagáveis, irreversivelmente positivos, e cujos princípios fundamentais acima lembrados são: liberdade de expressão, inscrita já na Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão e levada longe: laicidade, pela qual se teve de lutar mais de um século ainda antes de 1789 para que ela estruturasse a sociedade: educação pública, claro, gratuita, obrigatória, sustentáculo da República. Um país onde o racismo recuou (será?) e isso nos bairros mais populares, nas famílias mais pobres, mais mistas, anti-racistas, e assim os menos bem tratados pelos nossos governantes. País onde se vê (via-se) em todo o lado e sempre, as culturas, cores e religiões a tocar-se, "a mestiçagem" a progredir, mais do que no resto da Europa. Um país que sabia (saberá?) acolher gerações de estrangeiros, chamados "problemáticos" antes, mas finalmente "integrados" e que pode, e deve orgulhar-se disso. Um país que contem a maior "comunidade muçulmana" e a maior "comunidade judia" da União Europeia. Um país onde não é talvez inimaginável que um dia as lutas de massas, viradas para o progresso social interno e para a solidariedade com os povos do Sul no exterior, se ponham de novo em movimento. Não é também o que esta França pode representar aos olhos do mundo que estes fanáticos religiosos atacaram?

A liberdade de expressão... para melhor a calar?

É por acaso que o golpe sofrido por esta mesma França, a que queremos, a de todos os combates anti-esclavagistas, anticolonialistas, anti-imperialistas, antifascistas, a que no momento presente se confronta com o desafio de insuflar de novo os valores do progresso (do programa do Conselho Nacional da Resistência) edificando uma sociedade de tolerância, é por acaso que estes golpes vêm de políticas neoliberais acionadas pelo poder do dinheiro? Vejamos, há quase meio século que estas políticas, pelas suas ideologias se debatem contra a razão das Luzes, caluniam a herança revolucionária — Robespierre, que aboliu os privilégios e a escravatura, foi o primeiro dos "terroristas"! —, abandonam a escola aos mercados e às capelas confessionais, vendem os serviços públicos considerados indispensáveis ao exercício da cidadania, bradam a soberania nacional, atiçam as comunidades e os seus ódios, criminalizam a revolta desde que ela já não seja pró-sistêmica ou manipulável?

É essa a linha da finança; é esse o dogma dos meios de comunicação dominantes que lhe pertencem. Para fazer opinião, ou melhor formatá-la. Qual é esta liberdade de que falam bruscamente os porta-vozes dos oligopólios financeiros, vendedores de armas, miliardários "filantrópicos"? Liga-se à loucura televisiva destes cronistas econômico-político-desportivos, retrógrados que rivalizam em provocações? É este o comportamento esperado do debate democrático? Apenas o tamanho da trela do cão de guarda feroz que ladra para agradar ao dono e merecer a comida?

Trata-se de defender a liberdade de um sistema que hoje se cala sobre as ações do exército ucraniano no Donbass, como ontem sobre o esquartejar da Iugoslávia pela OTAN? E os gritos das crianças desfeitas em Gaza? Liberados, estes meios de comunicação que soltam o seu fluxo incessante de propaganda contra os avanços revolucionários latino-americanos? Livremente informado o cidadão a quem ninguém diz coisa alguma (ou quase) sobre as vítimas inumeráveis das guerras que mutilam — desde a guerra do Golfo, ao fim da URSS — o mundo árabe-muçulmano? Mesmo quando essas vítimas, evidentemente muçulmanas a maioria das vezes, e por vezes jornalistas, são executadas pelos fundamentalistas salafitas...?

Responsabilidades... igualmente partilhadas?

Sãos os poderes da finança, a quem obedecem os nossos meios de comunicação dominantes, que impelem há vinte cinco anos o governo dos Estados Unidos numa lógica de guerra militar permanente. Por eles os dirigentes franceses, atlantistas de todos os lados, renunciaram combater, para aceitar submeter-se à sua loucura destruidora. Eles, que para manter a ordem tão violentamente desigual que impõem ao mundo, precisaram de voltar contra os povos do Sul — e do Leste — os trabalhadores do Norte, contra os quais dirigem uma guerra social. São esses poderes que, no fundo, são responsáveis por esta barbárie, de milhares de criaturas.

Essas criaturas, transformadas em demônios, são deles. Talibãs que os serviços norte-americanos marinaram, formaram, lançaram contra os comunistas afegãos, apoiados então pelos soviéticos, integristas do FIS, na Argélia, mas dispondo de escritórios em Washington. Aqmi, semeando o terror no Mali, mas surgido do caos onde a França (do presidente Sarkozy) mergulhou a Líbia de Mouammar Khadafi — autocrata e simultaneamente lutador contra o integrismo. Daesh agora, fruto envenenado da invasão do Iraque de Saddam Hussein — autocrata, e anti-integrista — pelos Estados Unidos, a ajuda militar da França (outra vez ela, mas do presidente Hollande) aos "opositores moderados do regime sírio" (Al-Nosra, até finais de 2012?) e do apoio aos investidores do terrorismo da Arábia Saudita e do Qatar, mas aliados dos Estados Unidos e da França (portanto de Israel). Essas criaturas serviram e servem o interesse comum dos imperialistas. Nem sempre, nem em toda a parte, evidentemente, mas muitas vezes e em muitos locais. Porque não continuariam a servi-los no futuro, num outro Norte? É essa a utilidade de todas as "derrapagens" islamofóbicas atuais.

Será necessária uma guerra contra o Irã, quando os pasdarans, juntamente com os peshmergas curdos (e claro os combatentes do PKK, considerados como "terroristas" pela Turquia de Recep Tayip Erdogan, e logo de Bruxelas), os mais eficazes a deter a marcha de Daesh? Será preciso lutar na Síria contra um outro autocrata, que luta também contra o integrismo? Uma guerra aberta no Iêmen, no Paquistão? E depois? Mais uma na Rússia? Na China? Será preciso mais sangue, ruínas, miséria? Uma terceira guerra mundial? Deixaremos arrasar o planeta inteiro para que alguns poderosos continuem a esmagar-nos? Quantos "erros" teremos de reconhecer depois, quantos mortos vamos contar, para entender? Estas vozes são as da loucura, esta voz é a do caos.

Não se encontra na França "livre", "democrática", "civilizada" nem no Norte em geral, um único canal de televisão suficientemente progressista e alternativo — do tipo Tele Sur da América latina, por exemplo —, que apresente a exposição argumentada, justificada, prolongada, repetida de um apelo de paz com estas palavras: não às guerras imperialistas, não às injustiças capitalistas que estão na sua origem, não aos racismos que são os seus efeitos!

Rémy Herrera é um economista, pesquisador do Centre national de la recherche scientifique (CNRS), professor na Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne.

Nenhum comentário:

Postar um comentário