11 de janeiro de 2015

O ataque contra a Charlie Hebdo: Ocultação política e midiática das causas, consequências e desafios

Saïd Bouamama

Le blog de Saïd Bouamama

"O ventre ainda é fértil, de onde surgiu a besta vil." 
Bertolt Brecht

Tradução / O atentado conta a revista satírica Charlie Hebdo marcará nossa história contemporânea. Resta saber em que direção e com que consequências. No contexto atual de “guerra (por procuração) contra o terrorismo” e de racismo e islamofobia de Estado, os artífices daquela cena, conscientemente ou não(1) aceleraram um processo de estigmatização e isolamento do componente muçulmano, real ou suposto, das classes populares.

As consequências políticas do atentado já são desastrosas para as classes populares e o desastre só se aprofundará se não for proposta nenhuma alternativa à famosa “União Nacional”.

A verdade é que o modo como os veículos da mídia corporativa em França e uma esmagadora maioria da classe política reagiram aos acontecimentos é criminoso. Essas reações é que ameaçam nosso futuro e trazem nelas incontáveis “efeitos colaterais” e futuros 7 e 9 de janeiros cada vez mais mortíferos. Compreender e analisar para agir é a única postura que pode ajudar a evitar as instrumentalizações e os desencaminhamentos de uma emoção, de uma cólera e de uma revolta legítima.

A total ocultação das causas

Não tomar em consideração as causalidades profundas e imediatas, isolar as consequências do contexto que as faz surgir e não inserir um evento tão violento na genealogia dos fatores que o possibilitaram nos condena, no mínimo, à catatonia e, no pior caso, a uma lógica de guerra civil. Hoje, ninguém na mídia aborda as causas reais ou potenciais do que houve. Por que foi possível que um atentado daquelas proporções acontecesse atualmente, em Paris?

Como disse Sophie Wahnich, há “uma utilização fascista das emoções políticas das massas”, contra a qual o único antídoto é “o entrelaçamento possível de emoções e razão”.(2) O que estamos vivendo hoje é a adesão total dos discursos jornalísticos, midiáticos e políticos dominantes exclusivamente à emoção, ocultando-se simultaneamente qualquer análise real e concreta. Qualquer tentativa de análise real da situação como tal, ou qualquer análise que viesse a propor outra explicação, diferente da trazida pelos veículos da mídia corporativa e pela classe política classe política torna-se uma desculpa para o ataque.

Analisando o ventre fértil da besta vil

Observemos então pelo lado das causas, a começar pelas causas que brotam da longa duração e da dimensão internacional. A França é uma das potências mais envolvidas em guerras de todo o mundo. Do Iraque à Síria, passando pela Líbia e Afeganistão, para o petróleo, do Mali à África Central, passando pelo Congo, para os minerais estratégicos, os soldados franceses colaboram para semear morte e desastre pelos quatro cantos do planeta.

O fim dos equilíbrios mundiais que resultaram da II Guerra Mundial com o desaparecimento da URSS, combinado a uma globalização capitalista centrada na redução dos custos, para maximizar os lucros, na nova concorrência dos países emergentes, fizeram do controle sobre as matérias-primas a principal causa das ingerências, intervenções e guerras contemporâneas. Eis como o sociólogo Thierry Brugvin resume o lugar que as guerras têm no mundo contemporâneo:

A conclusão da guerra fria precipitou o fim de uma regulação dos conflitos no plano mundial. Entre 1990 e 2001, o número de conflitos entre estados explodiu: 57 grandes conflitos, em 45 diferentes territórios. [...] Oficialmente, partir para guerra contra nação adversária é sempre legitimado por motivos virtuosos: defender a liberdade, a democracia, a justiça... De fato, as guerras permitem controlar economicamente um país, mas também fazem com que os empresários privados de um país consigam passar a mão nas matérias-primas (petróleo, urânio, minérios, etc.) ou nos recursos humanos do outro país. (3)

Depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, o discurso de legitimação das guerras passou a ser construído essencialmente sobre o “perigo islâmico”, contribuindo para que se desenvolvesse uma islamofobia em grande escala nas principais potências ocidentais, que os próprios relatórios oficiais são forçados a constatar. (4) Ao mesmo tempo, essas guerras produzem um denso “ódio ao ocidente” entre os povos vítimas dessas agressões militares. (5) As guerras travadas pelo Ocidente são uma das principais matrizes da besta vil.

Para a ambição de controlar as riquezas gaso-petrolíficas, o Oriente Médio e o Oriente Próximo são alvo geoestratégico central. As estratégias das potências ocidentais em geral e as estratégias da França em especial, desdobram-se sobre dois eixos: para reforçar Israel como base e pivô do controle sobre a região; e para manter o apoio às petromonarquias reacionárias do Golfo.

O apoio incondicional ao Estado de Israel é assim uma constante da política francesa que não mudou, de Sarkozy a Hollande. O estado sionista pode assassinar impunemente em grande escala. Sejam quais forem a amplitude e os meios dos massacres, o gerente local dos interesses ocidentais jamais precisou preocupar-se a sério nem por muito tempo. François Hollande declarou, quando de sua viagem oficial a Israel em 2013 : “Eu sempre serei um amigo de Israel.” (6)

E, mais uma vez, a mídia e discurso político de legitimação desse apoio se constroi sobre a base de uma apresentação do Hamas palestino, mas também (mediante o emprego de recorrentes imprecisões verbais) da resistência palestina em sua totalidade, da população palestina na sua totalidade e de seus apoios políticos internacionais, como se todos significassem o mesmo “perigo islâmico”. A lógica do “dois pesos, duas medidas” impõe-se mais uma vez a partir de uma abordagem islamofóbica que se manifesta nos mais altos escalões do estado, e é repercutida pela grande maioria dos veículos da mídia corporativa e da classe política.

Este é o segundo perfil do ventre da besta vil.

Estes fatores internacionais se combinam com fatores internos da sociedade francesa. Já ficou dito acima que a islamofobia de Estado, impulsionada pela lei sobre o véu em 2004 e mantida depois regularmente (discurso sobre os levantes nos bairros populares em 2005, lei sobre oniqab, “debate” sobre a identidade nacional, circular Chatel e exclusão de mães que usem véu na saída das escolas para buscar os filhos, perseguição contra jovens que vistam saias longas nos ginásios públicos, proibição de manifestações de apoio ao povo palestino, etc.).

É preciso enfatizar que esse clima islamofóbico não foi contraditado por qualquer das forças políticas que se pretendem representantes das classes populares. Ainda mais grave, surgiu um consenso muito amplo, visível várias vezes, formado em torno do pretexto de defender o “laicismo” e de que ninguém se aproximasse “dos que defendem o Hamas”. Da extrema direita, a uma parte importante da extrema esquerda, ouviram-se os mesmos argumentos, construíram-se as mesmas clivagens e produziram-se as mesmas consequências.

O resultado não é outro se não o enraizamento ainda mais profundo dos islamalgames, aprofundamento de uma divisão dentro das classes populares, fragilização ainda maior dos diques antirracistas já frágeis, e violências concretas ou simbólicas exercidas contra os muçulmanos e as muçulmanas. Esse resultado se pode descrever, como propõe Raphaël Liogier, como a difusão, em uma parte importante da sociedade, do “mito da islamização” que culmina na tendência a constituir uma “obsessão coletiva”.(7)

A tendência à produção de uma “obsessão coletiva” foi aprofundada, além do mais, com a recente cobertura da mídia dos recentes casos de Zemmour e Houellebecq.

Depois de I-télé ter-lhe oferecido incontáveis tribunas, Eric Zemmour ganhou o emprego de enviado da rede, porque propôs “a deportação de muçulmanos franceses”. Nesse contexto de obsessão coletiva de que estamos falando, é possível, assim, fazer-se passar por vítima. Quanto ao escritor, é propagandeado por numerosos “jornalistas”, sob o pretexto de que não seria recomendável misturar ficção e realidade.

A verdade é que nesses dois casos, continua o aprofundamento da “obsessão coletiva” por um lado, e, por outro lado, o sentimento de ser insultado permanentemente, mais uma vez. Esse é o terceiro perfil do ventre da besta vil.

Esse fator interno de uma islamofobia banalizada tem efeitos desdobrados no contexto da fragilização econômica, social e política geral das classes populares, hoje. A pauperização e a precarização massivas são já insustentáveis nos bairros populares. Decorrem disso relações sociais marcadas por violência sempre crescente contra si próprio e contra os próximos. Combinam-se a isso, a perda de qualidade de vida de parte importante das classes médias, e o medo de que a mesma perda também os alcance, entre os que ainda estão bem de vida, mas não são “bem-nascidos”. Esses, sentindo-se ameaçados, já contam com um alvo consensual político e midiático constituído e designado como legítimo: o muçulmano ou a muçulmana.

A fragilização toca ainda mais fortemente a parte das classes populares oriunda da imigração, que é confrontada com discriminações racistas sistêmicas (ângulo absolutamente morto, desconhecido, ignorado, nos discursos das organizações políticas que querem os votos das classes populares); essas discriminações racistas produzem trajetórias de marginalização (na formação, no emprego, na procura por moradia, nos contatos com a Polícia e nos controles policiais pela aparência [contrôles au faciès], etc.). (8)

O aprofundamento da cisão entre os dois componentes das classes trabalhadoras em uma lógica de "dividir aqueles que deveriam estar unidos (os diferentes componentes das classes trabalhadoras) e unir aqueles que devem ser divididos (classes sociais com interesses diferentes)" é o quarto perfil do ventre da besta vil.

O que nasce de um ventre desses?

Tal matriz é evidentemente propícia à emergência de trajetórias nihilistas, que se traduzem pela matança em Charlie Hebdo. Extremamente minoritárias, essas trajetórias são produção de nosso sistema social e das desigualdades e discriminações massiva que o caracterizam.

Mas o que as reações ao atentado revelaram é também muito importante e, quantitativamente, bem mais disseminado que a opção nihilista (por enquanto?).

Sem poder esgotar o assunto, recordemos alguns elementos desses últimos dias. Do lado dos discursos, tivemos Marine Le Pen exigindo um debate nacional contra o “fundamentalismo islâmico”, o bloco identitário declarando a necessidade de “repor em causa a imigração massiva e a islamização” para lutar contra o “jihadismo”, o jornalista Yvan Rioufol do Fígaro intimando Rokhaya Diallo a se des-solidarizar na [rádio] RTL, Jeannette Bougrab acusando “os que acusaram Charlie Hebdo de ser islamofóbicos” como culpados pelas mortes, sem falar de todas as “declarações” que falavam de “guerra declarada”.

A essas intenções, juntam-se as passagens das palavras à ação desses últimos dias: uma mulher da ONG Femen faz-se filmar enquanto queima e sapateia sobre o Corão; houve tiros contra a mesquita de Albi; slogans racistas pintados nas mesquitas de Bayonne e de Poitiers; granadas lançadas contra outra mesquita em Mans; tiros contra uma sala de orações em Port la Nouvelle; outra sala de orações incendiada em Aix les Bains; uma cabeça e vísceras de porco jogadas numa sala de orações em Corte na Córsega; explosão num restaurante snack-kebab em Villefranche sur Saône; um automobilista foi alvo de vários tiros no Vaucluse; um aluno de ginásio, 17 anos, de origem magrebina foi molestado durante um minuto de silencio em Bourgoin-Jallieu em Isère, etc.. Os objetivos e os atos mostram a amplidão dos danos já causados, só até aqui, pelos últimos decênios de banalização da islamofobia. Fazem também parte da besta vil.

A besta vil está igualmente na gritante ausência de indignação em face das vítimas inumeráveis das guerras imperialistas das últimas décadas. Reagindo contra o 11/9, a filósofa Judith Butler interroga-se sobre a indignação desigual. Mostra que a indignação justificada pelas vítimas do 11/9 é sempre acompanhada por completa indiferença pelas vítimas das guerras feitas pelos EUA:

Como é possível que ninguém informe os nomes dos mortos nessa guerra, incluídos os que os EUA mataram, e dos quais jamais teremos uma imagem, um nome, uma história, jamais nem o mínimo fragmento de testemunho sobre sua vida, qualquer coisa que se possa ver, tocar, conhecer?(9)

Essa indignação desigual está na base da produção de uma clivagem bem real, no seio das classes populares. E essa clivagem é portadora de todos os perigos, sobretudo em período de construção da “união nacional”, como hoje.

A união nacional que tanto sonham construir, é “todas e todos juntos contra esses que não são os nossos, contra os que não mostram cara branca”.

Uma formidável instrumentalização política

Mas o escândalo que vivemos hoje não fica por aí. Todas as instrumentalizações da situação, e o pânico que suscita, estão aí para quem queira ver – cinismo consumado, o dia inteiro.

- Reforço na segurança e atentados contra as liberdades democráticas

Alguns, como Dupont Aignan, reclamam “mais maleabilidade nas forças da ordem”, enquanto já foi aprovada, no outono passado, uma nova “lei antiterrorista”. Fazendo-lhe eco, Thierry Mariani faz referência à Lei Patriótica dos EUA (cuja consequência foi graves atentados contra as liberdades individuais, sob o pretexto de que assim se lutaria contra o terrorismo): “Os EUA souberam reagir depois do 11/9. Denunciou-se a [lei] Patriot Act, mas, depois dela, não houve nenhum atentado, exceto Boston”.(10)

Instrumentalizar o medo e a emoção, para impor leis e medidas liberticidas, eis a primeira manipulação já testada para sondar o campo dos possíveis em matéria de regressão da democracia. Reivindicações legítimas e urgentes são tornadas inaudíveis pela avalanche “de segurança” que visa a aproveitar a situação: será agora muito mais difícil fazer a luta contra o controle pela aparência em locais públicos [orig. contrôle au faciès], e as humilhações cotidianas que assim se produzem continuarão, cercadas pela indiferença generalizada.

- A unidade nacional

A construção ativa e determinada da unidade nacional é a segunda grande instrumentalização em curso. Ela permite pôr em surdina o conjunto das reivindicações que entravam o processo generalizado de desregulação. A corda tem de ser bem grossa, e é eficaz no clima de medo generalizado que o conjunto da imprensa-empresa produz diariamente.

Em algumas cidades, a unidade nacional já foi estendida à Frente Nacional que participou das manifestações de apoio a Charlie Hebdo. Dati e Fillon já dão sinais de indignação por Marine Le Pen ter sido “excluída” da unidade nacional. É essa unidade nacional que causa também os maiores danos políticos, porque ela destrói os raros pontos de referência positiva que existissem antes, em termos de alianças possíveis e de identidades políticas.

- A obrigação de se justificar

Outra instrumentalização encontra-se na obrigação permanente, real ou suposta, para os muçulmanos, de se justificarem por atos que não cometeram, e/ou de se afastarem, separarem-se, dos autores do atentado.

Essa situação de permanentemente acusado é humilhante. A ninguém ocorre exigir que cristãos, reais ou supostos, publiquem condenação “oficial”, quando o norueguês Behring Breivik assassinou 77 pessoas em julho de 2011 e declarou-se islamófobo e nacionalista racista branco.

Por trás dessa obrigação, está a lógica que apresenta o Islã como essencialmente incompatível com a República. Dessa lógica decorre a ideia de pôr todos os muçulmanos, reais ou supostos, sob vigilância – não só da polícia, mas também dos jornalistas da imprensa-empresa, da “mídia”, dos professores universitários, dos vizinhos, etc..

“Ser” Charlie? Quem pode ser Charlie? Quem quer ser Charlie?

O slogan “somos todos Charlie” é, afinal, a derradeira instrumentalização em operação nos dias que correm. Se o atentado contra Charlie Hebdo é condenável, não se pode de modo algum esquecer o papel que teve o semanário para constituir o clima de islamofobia que se vê hoje.

De modo algum tampouco se podem esquecer as odes a Bush que se via naquelas páginas, enquanto Bush promovia sua famosa “guerra contra o terrorismo” no Afeganistão e depois no Iraque. Essas tomadas de posições escritas ou desenhadas não são detalhes, ou simples piadas sem consequências: estão na origem de múltiplas agressões de mulheres veladas e de numerosos atos contra locais de culto para os muçulmanos.

Sobretudo, o semanário contribuiu fortemente para dividir as classes populares, precisamente quando elas precisavam, ainda mais que nunca, de unidade e de solidariedade. Não somos “mais” Charlie ontem, que hoje.

Os tempos que vêm pela frente anunciam-se difíceis e custosos.

Para deter a escalada, temos de pôr fim à violência dos dominantes: temos de nos bater pelo fim das guerras imperialistas em andamento, e abolir as leis racistas.

Para deter a escalada, temos de desenvolver nossos quadros e produzir eventos de solidariedade destinados a impedir que se alastrem os atos racistas e, sobretudo, islamofóbicos.

Para deter a escalada, temos de construir todos os espaços de solidariedade econômica e social possíveis em nossos bairros populares, com total autonomia em relação aos que tanto promovem, como perspectiva, a união nacional.

Mais que nunca, temos de nos organizar, cerrar fileiras, recusar a lógica que manda “dividir quem tem de ser unido e unir quem tem de ser separados”.

Mais que nunca, temos de identificar e apontar o inimigo dessa nossa construção conjunta: inimigo são todos e tudo que nos divide.

Notas:

(1) Por um lado é cedo demais para saber; por outro lado, o resultado é o mesmo.

(2) Sophie Wahnich, La révolution française, un évènement de la raison sensible 1787-1799, Hachette, Paris, 2012, p. 19.

(3) Thierry Brugvin, Le pouvoir illégal des élites, Max Milo, Paris, 2014.

(4) Djacoba Liva Tehindrazanarivelo, Le racisme à l’égard des migrants en Europe, Ed. Conseil de l’Europe, Strasbourg, 2009, p. 171.

(5) Jean Ziegler, La haine de l’Occident, Albin Michel, Paris, 2008.

(6) Le Monde, Hollande “ami d’Israël” reste ferme face à l’Iran, 17/11/2013.

(7) Raphaël Liogier, Le mythe de l’islamisation, essai sur une obsession collective, Le Seuil, Paris, 2012.

(8) Ver, sobre esse aspecto, meu artigo Les dégâts invisibilisés des discriminations inégalité sociales et des discriminations racistes et sexistes.

(9) Judith Butler, citada em Mathias Delori, Ces morts que nous n’allons pas pleurer, visitado dia 9/1/2015, 18h.

(10) Le Parisien, 8/1/2015.

Nenhum comentário:

Postar um comentário