23 de janeiro de 2015

O BCE, a QE e a fuga à estagnação

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / O anúncio de Mário Draghi na reunião do conselho de administração de 22 de Janeiro de 2015 do Banco Central Europeu (BCE) de que este e os bancos centrais nacionais da zona Euro injetariam €1,1 bilhão de crédito novo ao longo dos próximos 18 meses nos bancos da área certamente teve um resultado rápido. O Euro caiu numa queda de onze anos contra o US dólar.


O BCE finalmente aderiu ao Federal Reserve, ao Banco da Inglaterra e ao Banco do Japão naquilo que é chamado sem rodeios como Quantitative Easing (QE). Isto é, a compra direta pelos bancos centrais de títulos de governos, corporações e imobiliários pagos por meio de "impressão de dinheiro", ou mais precisamente criando eletronicamente reservas de dinheiro em bancos.

Até agora, o BCE evitara fazer esta QE e, ao invés, meramente emprestava dinheiro ou crédito aos bancos por períodos de tempo cada vez maiores (agora de até três anos) a taxas de juro virtualmente de zero. O governo alemão e os da Europa do Norte opunham-se à compra de títulos da Irlanda, Espanha, Portugal, Itália e Grécia, os governos perdulários. Eles temiam que tais compras permitissem a estes governos gastarem como quisessem e colocarem em risco o contribuinte alemão em decorrência de quaisquer incumprimentos sobre esta dívida.

Mas tamanha tem sido a estagnação da maior parte das economias da zona Euro e a perspectiva crescente de deflação absoluta que os alemães, holandeses e finlandeses foram persuadidos, a patear e a gritar, a que o BCE deve arriscar e comprar títulos italianos e espanhóis detidos por bancos, companhias de seguros, fundos de pensões e hedge funds e esperam que isto ajude a por em movimento a economia da zona Euro e evitar a deflação. 

Como expliquei numa postagem anterior e também agora num artigo para o Weekly Worker desta semana, há o espectro da deflação a pairar sobre a Europa, o qual poderia arrastar toda a região a uma depressão profunda e a uma euro crise renovada. Assim, esta ação era necessária.

O pacote de Draghi é muito maior do que o esperado, injetando a cada mês fundos equivalentes a 0,6% do PIB da zona Euro. Isto é muito mais, em termos relativos, do que qualquer outro programa QE do Fed, do Banco da Inglaterra ou do Banco do Japão.


Para os dubitativos São Tomés alemães houve uma folha de parreira: que 80% do suposto risco das novas compras de dívidas governamentais seria remetida a bancos centrais nacionais e não partilhada pelo Eurosistema. Mas isso é uma ilusão: se qualquer banco central nacional entrar em perturbação devido a perdas com a compra dos títulos do seu próprio governo, o BCE teria de salvá-los de qualquer forma.

Assim, a pergunta real é: será que esta enorme QE levantará a economia da zona Euro da sua depressão quase deflacionária? Bem, ela certamente está a conduzir o Euro para baixo. Isso ajudará exportadores da zona Euro a competirem nos mercados mundiais contra os da Suíça, EUA e alguns produtores asiáticos. Mas como a maior parte das exportações de cada estado membro da União Monetária Europeia (UME) são diferentes uns dos outros, um euro mais fraco não será suficiente para fazer com que as coisas andem.

A menos que os salários reais (os quais têm estado a cair na maior parte das economias da zona Euro) e o investimento em negócios (os quais permanecem estagnados na maior parte das economia da zona Euro) comecem a subir, não haverá escapatória à estagnação e à depressão. E a QE não fará isso, como expliquei com mais pormenor numa postagem anterior. Desde a utilização do QE a partir de 2010 por vários bancos centrais, o crescimento global tem permanecido fraco e com tendência baixa e a recuperação no emprego e no investimento tem sido fraca apesar de uma enorme impressora eletrônica de dinheiro. O crescimento econômico real não tem correspondido.

É a procura por crédito ou dinheiro que conduz a oferta monetária, não a oferta a criar a procura. E a procura por moeda tem sido fraca porque a atividade econômica é fraca. Para utilizar outro clichê: você pode levar um cavalo à água, mas não pode fazê-lo beber. O "multiplicador da moeda", o rácio do montante de moeda impresso pelo Fed em relação ao montante de moeda a circular na economia caiu como uma pedra.


A QE não funcionou para elevar as taxas de crescimento econômico de volta aos níveis anteriores à crise. Assim, para onde tem ido todo o dinheiro? Ele tem ido para dentro do sistema bancário para escorar seus balanços e restaurar seus lucros. E isto engendrou uma bolha maciça em ativos financeiros; e os preços de títulos do governo e corporativos e, acima de tudo, de ações, tem-se elevado a alturas recorde.


Os únicos beneficiários têm sido os 1% de topo dos detentores de riqueza que por toda a parte possuem o grosso dos ativos financeiros.

Quando a QE principiou, em 2010, economistas convencionais (mainstream), tanto monetaristas como o antigo presidente do Fed, Ben Bernanke, como os keynesianos, como Paul Krugman, consideraram a QE como a principal arma econômica para por economias em movimento. Krugman argumentou mesmo que o programa QE do Banco do Japão retiraria o Japão da sua estagnação.

Quão errado podia estar? O objetivo do Banco do Japão de uma taxa de inflação de 2% permanece uma quimera cerca de quatro anos depois, enquanto a economia real do Japão paira perto da recessão apesar de um programa QE que representou uma ascensão nos haveres de títulos do governo equivalente a 50% do PIB e em crescimento (Japan: the failure of Abenomics). Haverá o mesmo resultado para o programa QE do BCE: o Euro pode cair, como aconteceu com o yen depois de o Banco do Japão iniciar o seu programa. Mas não haverá recuperação significativa do crescimento econômico.

Os keynesianos continuam a insistir em ainda mais QE. Mas também procuram mais ação orçamental, nomeadamente, incorrendo em défices orçamentais mais altos de modo a que os governos comecem a gastar mais em infraestrutura, serviços governamentais e mesmo defesa. Isto pode proporcionar algum apoio limitado ao crescimento. Mas tomadas de empréstimos extra por parte do governo são anátema para os estrategas do capital porque isso acabaria por resultar em taxas de juro mais altos e possivelmente maior tributação mais adiante, e portanto menor lucratividade num momento em que a lucratividade na maior parte das economias ainda está abaixo do nível de antes da Grande recessão (ver, Keynes, the profits equation and the Marxist multiplier e o estudo conjunto de G. Carchedi e Michael Roberts sobre a eficácia do gasto orçamental de tipo keynesiano, The long roots of the present crisis).

Na verdade, longe de procurar um aumento da QE ou da despesa do governo, o Fed dos EUA prepara-se para aumentar sua "política de taxa" no fim deste ano. E o risco é de que se o Fed implementar um aumento das taxas de juro em 2015, então o boom financeiro também entrará em colapso e os lucros começarão a cair, aumentando o risco de um novo declínio (slump) (ver, The risk of another 1937).

Economistas convencionais começaram a reconhecer que as principais economias capitalistas não estão a retornar ao normal, mas sim trancadas em algo a que eles agora chamam "estagnação secular", o tema principal da recente reunião anual da American Economics Association. Como pode as economias escapar?

Um novo relatório da OCDE tenta apresentar algumas respostas (Escaping the stagnation trap: Policy options for the Euro area and Japan). A OCDE é absolutamente clara: "A economia global continua a atuar a baixa velocidade e muitos países, particularmente na Europa, parecem incapazes de ultrapassar o legado da crise. Com alto desemprego, alta desigualdade e baixa confiança ainda a pesarem fortemente, é imperioso implementar rapidamente reformas que promovam a procura e o emprego e despertem o potencial de crescimento. O tempo para atuar é agora. Há um risco crescente de estagnação persistente, em que a fraca procura e o fraco crescimento do produto potencial reforçam-se mutuamente num círculo vicioso".

Ainda mais sombriamente, o relatório chega a dizer: "Os motores da economia mundial continuam a atuar só a meia velocidade. O crescimento é baixo e desigual e algumas partes do mundo, tais como a área Euro, estão em risco de cair dentro de uma armadilha de estagnação persistente, um período extenso de baixa atividade econômica geral e baixo emprego apesar de estímulos monetários extraordinários. Um círculo vicioso está a desenvolver-se, com procura fraca a minar o crescimento potencial (ex. através de uma deterioração do stock de capital, desemprego estrutural e desigualdade mais alta) e fraco crescimento potencial mais uma vez reduzindo a procura (ex. ao desencorajar investimento em capacidade de expansão)".

Realmente nada podia ser pior, excepto um outro declínio global. Então o que deve ser feito?

A OCDE apoia a política atual da QE e fala de gastos em investimento. "Com o lançamento das 'três setas' do Japão em 2013, o recente lançamento da UE de um plano de investimento e o esperado movimento da área Euro em direção à facilidade quantitativa, a probabilidade de escapar à armadilha da estagnação está a aumentar". Mas não será suficiente: "é necessária nova ação para sustentar este momento de reforma positiva".

E o que podia ser isto? "Reformas estruturais são urgentemente necessárias para remover obstáculos regulamentares ao investimento, reduzir o fardo administrativo para os negócios e facilitar reestruturações das empresas". Com efeito, a OCDE quer ainda mais desregulamentação nas práticas de negócios, completa "flexibilidade" nos mercados de trabalho e mais livre comércio, particularmente em serviços: "reduzindo barreiras regulamentares... Novos desmantelamentos de barreiras de fronteiras e para além de fronteiras aos movimentos internacionais de bens e serviços servirão tanto à expansão da procura como tornarão os mercados mais competitivos e dinâmicos". Por outras palavras, a OCDE quer mais políticas "neoliberais" para permitir às "forças de mercado" trabalharem. Com efeito, ela quer "mercados livres" no trabalho para manter baixos os custos do trabalho e livre movimento de capital internacionalmente para elevar a lucratividade. Aparentemente, o problema é que não se está a permitir o capitalismo de funcionar, não que ele não funcione.

A QE nos últimos quatro anos não conseguiu que as principais economias capitalistas avançassem; os gastos orçamentais deficitários tão pouco funcionaram no Japão; assim os estrategas do capital olham para a "terceira seta" do enfraquecimento do trabalho e da extensão do "livre" movimento do capital como sendo a resposta. Mas o caminho mais provável de saída é outro declínio que destrua valores de capital e eleve a lucratividade média.

Nenhum comentário:

Postar um comentário