26 de janeiro de 2015

O que a vitória eleitoral do Syriza significa para a Europa

Paul Manson

Channel 4 News

Tradução / O partido de extrema esquerda Syriza conquistou 149 das 300 cadeiras no parlamento grego, e formará uma coalizão para assumir o governo. O acordo foi feito com os 13 parlamentares dos Gregos Independentes, aprovando um governo liderado por Alexis Tsipras.

Uma coalizão da extrema esquerda com um grupo de conservadores nacionalistas dissidentes pode parecer estranha – mas esta é a Grécia: uma democracia caótica na fronteira entre Europa e Ásia, mergulhada na miséria ditada pela austeridade promovida pelo FMI e União Europeia.

Havia alívio e preocupação, ontem, entre os apoiadores de Tsipras. Muitas das pessoas que comemoram dançando e aplaudindo ontem, na tenda do partido, eram apoiadores internacionais – do movimento espanhol Podemos, do Bloco de Esquerda em Portugal e de todos os grupos que promoveram protetos do tipo “Occupy”, nos últimos cinco anos.

Entre os veteranos do partido grego, havia um reconhecimento estarrecido de que tudo o que tinham sonhado ao longo de uma vida de protestos, greves, petições ou grupos de estudo dedicados aos escritos de Antonio Gramsci estava se tornando realidade.

Significa em primeiro lugar, que a estratégia do FMI/UE para lidar com as consequências da crise de 2008 está em frangalhos. Ela destruiu o centro político na Grécia: primeiro forçando os líderes partidários a se submeter às políticas de “austeridade”, em seguida, concordando que esse políticos retomassem seus tradicionais jogos de politicagem, clientelismo e acordos duplos.

Assim formou-se a convicção, na mente não apenas dos jovens, mas também da classe média moderada, de que o país tinha sido abandonado: a queda de 25% nos salários reais e os 50% de desemprego entre os jovens foram apenas o começo.

Agora, há um déficit democrático no coração da zona do euro. Um país votou contra a estratégia da maioria e só pode ser forçado a se curvar se o Banco Central Europeu (BCE) disparar propositalmente o gatilho e provocar o colapso dos bancos gregos. Sem consenso, a estratégia econômica da zona do euro só pode provocar a destruição.

O plano da equipe de economistas do Syriza é extremamente claro: deixarão de negociar com a Troika (a tríade composta por Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI, que executa o programa de austeridade). Irão tratar, como um país soberano, com cada instituição separadamente. Argumentam que a própria Troika é ilegal.

Portanto, há uma possibilidade real de que Tsipras anule o programa de austeridade esta semana e de que os falcões do BCE – que atuam a partir da Alemanha – ameacem retirar o Crédito de Emergência Assistencial que mantêm os bancos gregos à tona. Nesse exato instante, os economistas do partido estão tentando mobilizar apoio político para evitar isso – junto ao presidente francês François Hollande, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi e, segundo me disseram, o ministro das Finanças britânico George Osbome. Vamos ver.

Enquanto isso, não se engane: estão em jogo a democracia e a soberania popular na zona do euro.

Sim, o pessoal do Syriza gosta de cantar o hino da esquerda italiana, Bandiera Rossa; mas se você pudesse ver o rosto dos jovens quando cantam o hino da ELAS, o movimento de resistência que derrotou as tropas nazistas em 1944, você entenderia o que impulsiona o esquerdismo aqui.

Tsipras costurou uma aliança de 12 grupos de extrema esquerda, convertendo-a num partido credível: aprendeu a governar em dois anos como oposição parlamentar; incorporou jovens conselheiros tecnocráticos do Pasok, o partido social-democrata em ruínas, e moderou suas políticas.

O confronto com o BCE/FMI não vai se dar em torno desta ou daquela política de esquerda, mas sobre a soberania.

Isso que fez com que o Syriza saltasse de 2 pontos percentuais de vantagem, em 7 de janeiro, para 8% noite passada. O Banco Central Europeu, o FMI e a elite grega entregaram a Tsipras a oportunidade de formar o primeiro governo verdadeiramente de esquerda na Europa desde a Espanha, em 1936. Ele aproveitou a chance. Quando me aproximei dele noite passada, Tsipras parecia a pessoa mais calma da Grécia.

Adendo

Espectadores perspicazes que assistem a mídia grega terão visto que, quando eu tentei fazer uma pergunta à “número dois” do Syriza, Rena Douro, ela me agarrou pelas orelhas e me beijou. Eu gritei “Quanto tempo, desde a Praça Syntagma!” porque quando a entrevistei pela primeira vez ela era uma manifestante enlameada, tentando respirar em meio de bombas de gás lacrimogêneo.

Como ela é a prefeita de Attica, a região onde está situada Atenas, este é, para um jornalista inglês, o equivalente grego a ser beijado por Boris Johnson, prefeito de Londres.

Insisti com a pergunta: “E agora? Como você governará?” Douro respondeu simplesmente “Obrigado por estar aqui”.

Foi um pouco estranho para os outros 50 membros da imprensa com microfone em punho que não foram beijados bem na frente de cerca de 100 câmeras — por isso pensei que seria melhor contar sobre isso...

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