22 de janeiro de 2015

Os oligarcas em Davos têm razão para temer o mundo que eles produziram

A escala da desigualdade é o produto de uma elite global que vai resistir a todos os desafios aos seus interesses pessoais

Seumas Milne

The Guardian

Créditos: Remy Steinegger/ Reuters.

Tradução / Os bilionários e oligarcas corporativos reunidos em Davos esta semana estão ficando preocupados com a desigualdade. Pode ser difícil de engolir que os senhores de um sistema que entregou o mais vasto abismo econômico global na história da humanidade demonstram preocupação com as consequências de suas próprias ações.

Mas mesmo os arquitetos da ordem econômica internacional em crise estão começando a ver os perigos. Não é apenas o proprietário de fundos-hedge George Soros, que gosta de descrever a si mesmo como um traidor da própria classe. O presidente-executivo da Unilever também demonstrou preocupação com a “ameaça capitalista contra o capitalismo”. A diretora-gerente do FMI teme que o capitalismo pode realmente conter as "sementes da sua própria destruição" de Marx e avisa que algo precisa ser feito.

A escala da crise foi mostrada para eles pelo fundo de caridade Oxfam. Apenas 80 indivíduos atualmente têm a mesma riqueza líquida de 3,5 bilhões de pessoas -- metade de toda a população mundial. No ano passado, o 1% mais rico possuía 48% da riqueza do mundo, acima dos 44% há cinco anos. Com as tendências atuais, no próximo ano o 1% mais rico terá embolsado mais do que os outros 99% juntos. O 0,1% tem se saído até melhor, quadruplicando sua participação na renda dos Estados Unidos desde a década de 1980.

Esta é uma apropriação de riqueza em escala grotesca. Por 30 anos sob o governo do que Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra, chama de “fundamentalismo de mercado”, a desigualdade de renda e riqueza aumentou vertiginosamente, tanto dentro como entre a grande maioria dos países. Na África, o número absoluto de pessoas que sobrevivem com menos de US$ 2.00 por dia duplicou desde 1981, enquanto o rol de bilionários aumentou.

Na maior parte do mundo, a participação do trabalho na renda nacional caiu de forma contínua e os salários estagnaram ao abrigo do presente regime de privatização, desregulamentação e baixos impostos para os ricos. Ao mesmo tempo, a finança sugou a riqueza do domínio público para as mãos de uma pequena minoria, mesmo que ela tenha assolado o resto da economia. Agora há uma acúmulo de evidências de que não apenas tal apropriação de riqueza é um ultraje moral e social, mas está aumentando os conflitos sociais e as crises climáticas, as guerras, as migrações em massa e a corrupção política, prejudicando a saúde e as chances de sobrevivência, o aumento da pobreza e aprofundando as divisões de gênero e étnicas.

A escalada da desigualdade também tem sido um fator crucial na crise econômica dos últimos sete anos, diminnuindo a demanda e alimentando o boom de crédito. Nós não sabemos isso apenas a partir da pesquisa do economista francês Thomas Piketty ou dos autores britânicos do estudo social The Spirit Level. Depois de anos de promoção da ortodoxia de Washington, mesmo a OCDE dominada pela Europa e o FMI argumentam que a cada vez maior desigualdade de renda e riqueza tem sido fundamental para o crescimento lento das últimas duas décadas neoliberais. A economia britânica teria sido quase 10% maior se a desigualdade não tivesse crescido rapidamente. Agora, os mais ricos estão usando a austeridade para ajudarem a si próprios a obter uma parcela ainda maior do bolo.

A grande exceção à onda da desigualdade nos últimos anos tem sido a América Latina. Governos progressistas em toda a região viraram as costas para um modelo econômico desastroso, assumiram de volta os recursos do controle corporativo e reduziram a desigualdade. O número dos que vivem com menos de US$ 2 por dia caiu de 108 para 53 milhões em pouco mais de uma década. A China, que também rejeitou a maior parte do catecismo neoliberal, tem visto nitidamente a crescente desigualdade em casa, mas também tirou mais pessoas da pobreza do que o resto do mundo combinado, compensando a crescente disparidade de renda global.

Estes dois casos demonstram que o aumento da desigualdade e da pobreza estão muito longe de ser inevitável. É o resultado de decisões políticas e econômicas. As pessoas que pensam da oligarquia de Davos percebem que permitir que as coisas continuam como estão é perigoso. Então, alguns querem um "capitalismo mais inclusivo" -- incluindo impostos progressivos -- para salvar o sistema de si mesmo.

Mas, certamente não vai acontecer como resultado de discussões nas montanhas ou em ansiosos almoços Guildhall. Quaisquer que sejam os sentimentos de alguns barões corporativos, os interesses corporativos e escusos da elite -- incluindo as organizações que controlam e as estruturas políticas que colonizaram - têm mostrado que eles vão combater mesmo as mais modestas reformas com unhas e dentes. Para se ter uma ideia, basta ouvir os gritos de protesto, incluindo de alguns de seu próprio partido, contra os planos de Ed Miliband de taxar as casas de valor superior a R$ 2 milhões para financiar o serviço de saúde, ou a demanda da reformista Fabian Society de que o líder do Partido Trabalhista seja mais pró-business (leia pró-empresarial), ou o muro de resistência do Congresso para as suaves propostas de tributação redistributiva do presidente Barack Oabama.

Talvez uma parte da elite preocupada pode estar preparada para pagar um pouco mais impostos. O que eles não vão aceitar é qualquer mudança no equilíbrio de poder social -- e é por isso que, em um país após o outro, eles resistem a qualquer tentativa para fortalecer os sindicatos, mesmo sabendo que sindicatos fracos tem sido um fator crucial para o aumento da desigualdade no mundo industrializado.

É somente através de um desafio para os interesses arraigados que sugaram uma ordem econômica disfuncional que a maré da desigualdade será invertida. O partido anti-austeridade Syriza, favorito para vencer as eleições gregas neste fim de semana, está tentando fazer exatamente isso -- como a esquerda latino-americana conseguiu fazer ao longo da última década e meia. Mesmo para chegar a esse ponto é preciso movimentos sociais e políticos mais fortes para quebrar ou contornar o bloqueio de uma corrente política colonizada. Lágrimas de crocodilo sobre a desigualdade são sintomas de uma elite com medo. Mas a mudança só virá se houver pressão social implacável e desafio político.

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