1 de janeiro de 2015

Para que há de sofrer a Grécia?

Jakob Augstein


Tradução / O dia em que um povo vota é o momento da dignidade em uma democracia. Exceto quando calha o povo poder escolher a esquerda - como na Grécia. Então, o capital protesta, e a dignidade da escolha não vale um euro.

Quem manda em uma democracia? O povo ou o capital? Não há qualquer dúvida, poderia pensar-se. Com efeito, a democracia distingue-se da ditadura pelas eleições. Disso se orgulha o Ocidente. Exceto se um povo ameaçar votar à esquerda. Então, os magazines noticiosos institucionais soltam gritos indignados contra a democracia dos gregos: "Lá vão eles votar outra vez!" E o jornal Bild brada: "Angela Merkel não pode permitir isso!" A chanceler deverá esclarecer os gregos sobre "o que a Alemanha espera legitimamente de um futuro Governo grego". É óbvio que para ter democracia há que a pagar. E os gregos estão falidos. Por isso, façam o favor de se deixar de eleições. Que presunção!

É exatamente o contrário: a Grécia poderá tornar-se um sinal de esperança para a democracia na Europa. Ex oriente lux! Com a crise do euro, a democracia assumiu na Europa um carácter autoritário. O então presidente da Comissão Europeia, Manuel Barroso, disse em 2011 que os mercados estão impacientes: "A democracia é muito lenta." Isso pesa muito sobre o continente. A democracia degenerou numa dominação de tecnocratas por tecnocratas para os tecnocratas - o que vale já não é a frase de Lincoln do "governo do povo pelo povo e para o povo", mas sim a de Lenine: "um comitê de gestão dos negócios da burguesia".

A crise do euro dura já há cinco anos. Há muito se tornou uma doença crônica. A receita da poupança da Dra. Merkel já não funciona. A Grécia vai votar no dia 25 de janeiro. Um governo de esquerda poderá, nessa altura, pregar um valente susto aos médicos infelizes do neoliberalismo.

Alexis Tsipras, o novo farol da esquerda europeia, não é um lunático. Não quer sair da UE, e nem sequer põe o euro em questão. Mas quer desmantelar as medidas de austeridade brutais que a Europa e o FMI impuseram ao seu país. Quer aumentar os impostos, subir o salário mínimo, distribuir senhas de refeição aos mais pobres e cuidados de saúde gratuitos aos desempregados. Isso é Europa. Entre as suas reivindicações há uma que se distingue especialmente: o corte de cabelo [a redução da dívida]. Isso é revolucionário, na verdade - mas necessário. A Grécia tem de se libertar da sua dívida. O reembolso é impossível.

A Grécia está morrendo. Seis anos de recessão, um desemprego que ascende a 26%, e, para os jovens, a mais de 50%, uma queda de salários de 23% entre 2010-2013. A percentagem de pobres e socialmente excluídos atinge 36% - um aumento de cerca de sete pontos percentuais desde o início da crise.

Sim, a Grécia está de novo a gerar um pequeno excedente - mas apenas antes do pagamento do serviço da dívida. O ônus que os credores lhe impõem é uma pedra de moinho presa às pernas da Grécia.

Nada contra a poupança. Mas quem na crise poupa está tramado. Avisos não faltaram. Mas Angela Merkel e os ideólogos da chancelaria não quiseram admitir isto: é certo que, em alemão, a palavra para "orçamento do Estado" quer dizer também "governo da casa", mas o orçamento não se pode reger pelas regras domésticas das donas de casa da Suábia. Mas não havia quem pudesse dissuadir a filha do pastor Merkel a abdicar da sua religião de culpa mascarada de economia.

Por que motivo hão-de sofrer os gregos? Como castigo pelos pecados do passado? Como um aviso para os outros países endividados? Para que Angela Merkel possa dizer aos seus constituintes que não dará dinheiro alemão aos preguiçosos europeus do sul?

Tsipras já no pico da crise da dívida tinha pressentido que o que está em questão não é a dívida, mas forçar a Europa a sujeitar-se a um jugo neoliberal: "Esta estratégia utiliza a chantagem política e financeira para convencer os europeus ou para os forçar a aceitar a austeridade sem resistência." E o filósofo italiano Paolo Flores d'Arcais adverte que, enquanto alguns países funcionarem como exército de reserva industrial (de trabalhadores) para as empresas que querem reduzir os salários e terceirizar a sua produção, não haverá futuro europeu.

Esse é o problema: na crise do euro, Merkel segue desde o início uma estratégia surreal. Queremos manter a união monetária, porque as nossas exportações beneficiam dela e porque tememos as consequências políticas do colapso. Mas a condição do êxito da moeda comum - a união política -, não a queremos criar.

A falta de visão de Merkel, que é considerada como uma força na política interna alemã - tão miserável é a política interna alemã - conduz a Europa ao desastre. Helmut Kohl há muito havia proposto, em conjunto com o presidente francês, um plano de dez anos para a união fiscal.

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