18 de dezembro de 2014

Por que o estupro é tão intrínseco à religião

Histórias como o nascimento virgem carecem do consentimento feminino dado livremente. É revelador o quanto ainda estamos dispostos a aceitá-las.

Valerie Tarico


Tradução / Deuses e semideuses poderosos engravidando mulheres humanas: é um tema comum na história da religião e é mais que uma leve insinuação de estupro.

Zeus chegou a Dânae na forma de chuva de ouro, cortou o "nó da virgindade intacta" e a deixou grávida do herói grego Perseu.

Júpiter tomou Europa à força ao se transformar em um touro branco e raptá-la. Ele a aprisionou na ilha de Creta e a engravidou três vezes ao longo do tempo.

Pan copulou com uma pastora para gerar Hermes.

Os lendários fundadores de Roma, Rômulo e Remo, foram concebidos quando o deus romano Marte engravidou Rea Silvia, uma virgem vestal.

Helena de Tróia, a rara cria feminina de uma união deus-humano, foi gerada quando Zeus se transformou em cisne para chegar até a Leda.

Em algumas versões, Alexandre, o Grande e o imperador Augusto foram "semeados" por deuses na forma de serpentes por Febo e Júpiter, respectivamente.

Apesar de os cristãos mais antigos terem uma história alternativa, no evangelho de Lucas, a Virgem Maria engravidou quando o Espírito Santo foi até ela e o poder do Altíssimo dela tomou conta.

As versões mais antigas do nascimento de Zoroastra contam que ele nasceu de pai e mãe humanos, assim como Jesus, mas em versões mais recentes sua mãe foi perfurada por uma lança de luz divina.

O deus hindu Shiva teve relações sexuais com a humana Madhura, que veio adorá-lo enquanto sua esposa Parvati estava longe. Parvati transformou Madhura em sapo, mas após doze anos dentro de um poço ela recuperou a forma humana e deu à luz Indrajit.

A mãe de Buda, Maya, descobriu-se grávida após ter sido penetrada por um deus em um sonho.

A concepção pode ser um "arrebatamento", sedução ou algum tipo de penetração para procriação excitante porém não sexual. A história pode vir de uma religião tradicional ocidental ou oriental, pagã ou cristã. Mas esses encontros entre mulheres belas e jovens e deuses têm uma coisa em comum: nenhum deles contém o consentimento deliberado feminino como parte da narrativa. (No evangelho de Lucas, Maria consente depois de não ser consultada, mas comunicada por um poderoso ser sobrenatural sobre o que aconteceria com ela: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!".

Quem precisa de consentimento deliberado? Se se trata de um deus, ela tem de querer, não é mesmo? É assim que a história acaba.

Se a jovem voluptuosa protestar ou não, se a sedução envolver mentira ou não, se a mulher já tiver um esposo ou um amante, se ela for ou não forçada fisicamente, o que se presume é que a união entre um deus e uma humana é orgasticamente avassaladora e não sangrenta e violenta. E depois? Bem, que mulher não gostaria de estar grávida de um filho (ou filha) de deus?

Por trás dessa metáfora mentirosa e surpreendentemente duradoura se encontram duas presunções que em sua forma mais primitiva podem ter sua origem na biologia evolucionista.

A hipótese biológica, muito simplificada, é a seguinte: machos e fêmeas de cada espécie possuem comportamentos instintivos que maximizam a transmissão de seus genes para a geração seguinte. Entre humanos, fêmeas procuram pelos portadores de esperma da mais alta qualidade que são capazes de atrair. Elas maximizam a qualidade e a capacidade de sobrevivência de seus filhos quando acasalam com machos poderosos e de prestígio. Os machos, por outro lado, maximizam a qualidade e a quantidade de sua cria ao procurar fêmeas férteis (em que beleza é sinal de fertilidade), controlando algumas fêmeas e afastando outros machos enquanto "espalham suas sementes", se conseguirem.

A biologia pode ser o ponto de partida, mas, ao longo do tempo, os impulsos humanos são ornados e institucionalizados, tornando-se sagrados pela cultura e pela religião. A metáfora mítica em que deuses copulam com humanas incorpora fortes crenças culturais e religiosas sobre sexualidade. Histórias familiares desse tipo vêm de sociedades patriarcais, o que significa que elas legitimam os desejos reprodutivos masculinos: homens poderosos não apenas querem controlar a valiosa mercadoria que é a fertilidade feminina, eles devem. Os deuses ordenam e dão o exemplo. E eles determinam que sejam punidos os que violarem a ordem natural das coisas - especialmente as mulheres.

As histórias sobre concepções miraculosas que listei podem ter suas raízes na pré-história, em religiões arcaicas voltadas para a adoração dos astros e do ciclo agrícola, mas sua forma moderna emergiu durante a Idade do Ferro. Nesse momento da história, a maioria das mulheres eram como bens pessoais. Assim como crianças, gado e escravos, elas eram literalmente posse dos homens, e seu valor econômico e espiritual primário se encontrava em sua habilidade de produzir uma cria de linhagem pura e conhecida. Os homens no poder possuíam concubinas e haréns, e mulheres virgens figuravam entre os espólios de guerras. (Veja, por exemplo, a história das virgens midianitas do Velho Testamento, em que Deus ordena aos israelitas que matem as mulheres "usadas", mas tomem para si as mulheres virgens.)

Essa também foi a época em que deuses escolhiam seus favoritos e se metiam em assuntos das tribos e nações, e em que grandes homens nasciam grandes. Não é de se admirar que tantos homens poderosos reivindicavam uma ascendência poderosa. Na tradição dos hebreus antigos, isso tomou a forma de obsessão com linhagem pura e descendência de alta estirpe. Escritores da bíblia hebraica traçam a genealogia do rei Davi a partir de Abraão, por exemplo e a genealogia de Abraão a partir do primeiro homem, Adão. Nas civilizações grega e romana, essas reivindicações se transformaram no costume de atribuir paternidade sobrenatural a figuras públicas. A tradição cristã tenta de maneira atrapalhada insistir simultaneamente em traçar a linhagem de Jesus, através de seu pai José, até o rei Davi, e em negar que ele teve um pai humano.

Esse é o contexto das histórias de concepções miraculosas e, nesse contexto, o consentimento da mulher é irrelevante. Em uma sociedade que trata a sexualidade feminina como posse masculina, o único consentimento que não pode ser violado é o consentimento do proprietário da mulher, o homem que detém os direitos sobre sua capacidade reprodutiva, tradicionalmente seu pai, noivo ou esposo. Muitos cristãos se surpreendem quando descobrem que em nenhuma passagem bíblica, no Velho ou no Novo Testamento, autor algum diz que o consentimento da mulher é necessário, ou mesmo desejável, antes do sexo.

A omissão é mais que lamentável: é trágica. Dois mil anos depois que textos hebreus e aramaicos foram anexados à moderna bíblia judaica, 1.600 anos depois de um comitê católico romano votar pela inclusão e exclusão de livros da bíblia cristã, 1.400 anos depois de Maomé escrever o Corão (que foi fortemente inspirado na estrutura moral da tradição judaico-cristã), nós ainda temos problemas com a questão do consentimento feminino. Nossa luta se torna imensuravelmente mais difícil pela presença de textos antigos que se tornaram ídolos modernos - textos que imputam a Deus os desejos dos homens.

O exemplo mais emblemático talvez seja um documento publicado pelo Estado Islâmico definindo regras para o tratamento de escravas sexuais, regras inspiradas no Corão. Mais perto dos americanos está a existência embaraçosa porém disseminada de líderes cristãos que ensinam que a honra feminina está na maternidade, e que uma mulher que falha em servir a seu esposo sempre que ele deseja está falhando em servir a Deus.

Mas ainda mais perto de casa para muitos é a chocante prevalência em campi universitários, e na sociedade em geral, de manipulação e coação sexual perpetrada por homens que, do contrário, pareceriam moralmente intactos. É impossível deixar de notar que um grande número de casos notórios envolvem homens influentes: membros de fraternidades, um ator famoso, um locutor de rádio, estrelas de futebol do interior e atletas profissionais de destaque. Homens, em outras palavras, que pensam ser deuses. Convencidos das próprias características divinas, torna-se lógico que o objeto de sua atenção deve querê-lo - e se ela não quiser, bem, tudo bem, já que quando um deus quer uma mulher, o consentimento não é de fato parte da história.

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