12 de janeiro de 2015

Quando gratuito não significa justo para a universidade comunitária

Michelle Chen

The Nation

Crédito: Don Harder.

Tradução / Quando o presidente Obama anunciou semana passada que queria tornar as faculdades comunitárias gratuitas, muitos ficaram instantaneamente céticos. Gratuita realmente significa gratuita? Se os estudantes não pagam, quem paga?

É verdade que a proposta atual não está completa. A iniciativa de Obama usaria fundos federais para cobrir uma ampla porção do custo "médio" de frequência, mas geralmente deixa que os estados cubram o resto, e não está claro exatamente como isso será financiado ou se ao menos conseguirá passar pelo Congresso. Mas sim, em teoria, o governo pode tornar a mensalidade de dois anos das faculdades comunitárias gratuitas para todos.

Como Mike Konczal aponta, comparado com os benefícios empregatícios e sociais que irão render com os investimentos em educação superior a longo prazo, o investimento real por aluno é praticável. A administração Obama estima que se o programa é amplamente implementado com o apoio do estado, 9 milhões de estudantes seriam subsidiados com o equivalente a aproximadamente $3,800 por ano. O modelo para essa iniciativa é um novo programa de faculdades comunitárias gratuitas no Tennessee que atraiu milhares de candidatos, a maioria negros.

Existem condições: os programas teriam que preencher certos critérios acadêmicos ou de treinamento de emprego, enquanto os estudantes teriam que manter uma média de notas decente. Mas a pergunta mais significativa seria quais outros custos serão introduzidos com esse subsídios às faculdades.

Sara Goldrick-Rab da Universidade de Wisconsin, uma das acadêmicas que influenciou o plano de Obama, conta ao The Nation por e-mail que ela antecipa que “as matrículas totais irão aumentar e algumas delas serão de pessoas que... de outra forma não iriam à faculdade,” e os índices de conclusão também devem aumentar. Ótimo, mas agora a missão é certificar que os estudantes tenham apoio suficiente para se manterem na linha.

Mesmo que as faculdades comunitárias sejam relativamente as mais baratas e acessíveis no ensino superior, a dificuldade econômica atualmente implica em maiores barreiras ao acesso às faculdades e aos programas de conclusão. Ainda sim, as mensalidades e taxas são apenas uma parte da equação.

Críticos notam que o custo de frequência também envolve o custo, por exemplo, da creche que libera uma mãe solteira para assistir às aulas da tarde, ou do apoio financeiro que necessita para trocar o turno do seu trabalho.

Mais ainda, do ponto de vista dos funcionários e docentes, alguns temem que isso irá subsidiar apenas uma parte do sistema - geralmente a mais barata - enquanto outros fundos para programas de 4 anos irão continuar a minguar. No mínimo, a proposta de financiamento de Obama poderia ajudar a redirecionar os fundos federais para longe de faculdades corporativas lucrativas. Mas isso significa que os estados devem investir profundamente para alcançar os déficits orçamentários e evitar aumento nas mensalidades, esquemas de privatização que acompanharam anos de desinvestimento público no ensino superior.

Universalizar o ensino superior e elevar as taxas de graduação requer investir na contratação de mais docentes e equipes de apoio, e mirar o financiamento na direção dos alunos com dificuldades e necessidades não atendidas. Um ambiente de ensino mais solidário está desesperadamente em falta nos campi de comunidades destruídas pela pobreza e pelo desemprego, onde escolas locais têm sofrido com cortes no orçamento.

Refletindo sobre iniciativas gratuitas para faculdades testadas em nível local, o reitor Matt Reed da faculdade comunitária Holyoke recomendou que programas de “faculdades comunitárias gratuitas” envolvam maior alavancagem dos fundos federais para incentivar estados a investirem mais com um “comprometimento dos estados para voltar seus níveis de financiamento para aqueles dos anos 90. Em troca, faculdades não poderiam aumentar suas mensalidades ou taxas por um determinado tempo.”

As faculdades comunitárias são desafiadas não somente com o ato de educar os estudantes com maiores desvantagens, mas sim também de os ajudar a cooperar com inúmeros encargos, incluindo pobreza, cuidado familiar, problemas de saúde, problemas de imigração, e para estudantes mais velhos, talvez dívidas estudantis passadas, que impedem um futuro próspero. Esses fatores poderiam abaixar as notas e torná-los não aptos para os programas.

As faculdades comunitárias devem incrementar intervenções designadas para atravessar esses vãos, começando com programas de apoio inovadores que já provaram sua eficiência. Na faculdade comunitária do condado de Baltimore, por exemplo, estudantes que necessitam de apoio extra em Inglês foram agraciados com um “programa de aceleração de aprendizado”, no qual “estudantes e seus instrutores passam 6 horas por semana juntos, e metade do tempo é em uma sala pequena de 10 alunos.” A taxa de sucesso do estudante foi mais que o dobro do curso de desenvolvimento tradicional.

Ainda sim, essas inovações nos programas não são uma ideia nova e tal atenção personalizada é padrão em muitas instituições de arte elitistas e liberais. Mas as faculdades comunitárias historicamente tem sido relegadas à padrões menores: o não financiamento deixa as escolas sem professores e com falta de apoio básico para programas e infraestrutura. E logo podem absorver milhões de novos estudantes, com inúmeras necessidades sociais e educacionais.

Então "gratuito" não significa justo no ensino superior. Mas mirar na universalização é um passo adiante. O fato de o programa proposto não focar na divisão dos estudantes de acordo com suas necessidades (reduzindo o financiamento educacional para um programa de bem-estar) é o pilar. Deixando de lado a retórica sobre “criação de emprego” e “capital humano”, existem benefícios sociais ao prolongar o processo de ensino público além do universal K-12 (assim como o universal pré-K ajuda crianças no outro fim do sistema) - mais acesso à educação ajuda comunidades marginalizadas a diminuírem a desigualdade e a avançarem por gerações.

Mas a universalização real significa assegurar igualdade universal também, e qualquer investimento inicial nas mensalidades deveria produzir novos pensamentos em torno de fazer do ensino superior uma parte padrão da educação pública.

Não sabemos que tipo de investimentos adicionais serão necessários para completar o quebra-cabeça universal ou quais custos a iniciativa pode trazer para os sistemas de ensino superior. Mas Goldrick-Rab diz que o plano traz um imperativo social para a arena da educação pública: “É tempo da nação se mover para tornar as faculdades gratuitas, e também sobre como isso será possível. A mesma coisa aconteceu há um século para o ensino médio.”

Mas um século depois, ainda estamos lutando para tornar um direito a promessa de educação publica universal, e as inadequações do sistema de faculdades comunitárias atual reflete essas inadequações. A proposta de Obama deixou muitos falando sobre incrementar os índices de conclusão dos alunos. Mas o foco deveria ser nos índices de conclusão do governo para as promessas que faz ano após ano, para os estudantes em cada fase de seu desenvolvimento educacional - e sempre falharam em obter a nota.

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