4 de janeiro de 2015

Quando é que os palestinos vão aprender? Voltar-se para o direito internacional não é a resposta - basta perguntar à América e Israel

If Palestine's request is "entirely counterproductive", what does that make Israel's slaughtering of civilians last summer?

Robert Fisk

The Independent

Tradução / Jogue um pedaço de osso para um cachorro velho e, certamente, ele irá correndo atrás dele. Assim é a requisição da “Palestina” para se tornar membro da Corte Internacional de Justiça. Uma óbvia tentativa de Mahmoud Abbas, como dizem, para julgar Israel por seus crimes de guerra em Gaza, no último ano.

Ou talvez uma “faca de dois gumes” – para usar de mais um clichê – que também poderia colocar o Hamas no banco dos réus. Israel ficou ultrajada. Os Estados Unidos foram “fortemente contrários” a tal pedido covarde, por um idoso que acredita mandar em um Estado que nem ao menos existe.

Mas espere um momento. Essa não é a história, não é? Certamente, a verdadeira narrativa é totalmente diferente. A BBC não entendeu isso. Nem a CNN. Nem mesmo a Al Jazeera. Mas, com certeza, o evento mais significante de todos é que os descendentes da Organização de Libertação da Palestina (OLP) – classificada há apenas vinte anos como a mais perigosa organização “terrorista” do mundo, seu líder mentiroso Yasser Arafat, classificado como “nosso Bin Laden” pelo líder mentiroso de Israel, Ariel Sharon – de fato quer CUMPRIR A LEI INTERNACIONAL!

Deus que nos proteja de tal pensamento, mas esses camaradas – depois de todas suas promessas de extinção de Israel, depois de todas as bombas suicidas e intifadas – estão pedindo para se tornarem membros de um dos corpos judiciais mais prestigiosos do planeta. Por anos, os palestinos têm exigido justiça. Eles foram até a Corte Internacional em Haia para que o apartheid de Israel tivesse um fim – eles até mesmo venceram o caso, mas Israel não deu a mínima. Qualquer palestino são, você pode pensar, teria dado as costas, há muito tempo, para tais iniciativas pacíficas.

Ainda assim, esses palestinos miseráveis persistem, depois de um insulto tão humilhante como esse, em apelar à lei internacional para resolver seu conflito com Israel. Lá vão eles novamente, respeitosamente buscar se unir à Corte Internacional de Justiça. Esses árabes nunca irão aprender nada?

E, claro, os americanos estão ameaçando puni-los por tal afronta. Cortar aqueles milhões de dólares de assistência para palestinos. Ficam lado a lado com a recusa de Israel em aceitar qualquer tentativa como essa da “Palestina”. A União Europeia – especialmente Reino Unido e França – acompanhou esse disparate. Inclusive, Israel já decidiu não pagar mais de 80 milhões de dólares que deve à Autoridade Palestina.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA afirmou que seu governo está “profundamente perturbado” por essa ação dos palestinos. É “inteiramente contraproducente”, ele disse ao mundo. Isso não “ajuda em nada para as futuras aspirações do povo palestino por um Estado soberano” - mesmo que alguém pudesse pensar que sua entrada como membro de tal corpo jurídico ajudaria em muito para persuadir o mundo de que os palestinos estão prontos para suportarem todos os fardos de um Estado.

Afinal de contas, os palestinos iriam ter que, de fato, cumprir a lei internacional e - se a lei fosse aplicada de maneira retroativa - eles teriam que suportar o fardo de responder tanto pelos crimes do Hamas como pelos assassinatos antigos da OLP. O fato de os Estados Unidos terem se recusado a se tornar membro da Corte não foi , é claro, citado nas matérias contra o pedido da Palestina. E isso por uma boa razão, pois, assim como os israelenses, Washington também está preocupada que seus soldados e seus oficiais de governo sejam julgados por crimes de guerra. Lembre-se dos afogamentos simulados, da prisão Abu Ghraib, o relatório sobre as torturas da CIA...

Sem surpresa alguma, Jeffrey Rathke, o garoto de recados do Departamento de Estado, diz que o pedido dos palestinos “piora a atmosfera” com Israel, “comprometendo a confiança” e “criando dúvidas sobre o comprometimento palestino para negociar a paz”. E, lembre-se, Abbas apenas fez essa requisição depois que os EUA vetaram - e usaram do poder do veto mais de 40 vezes a favor de Israel contra a Palestina, desde 1975 - uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para por um fim à ocupação de Israel em terras palestinas até 2017.

Mas, é claro, a verdade sobre o que toda esse tumulto se trata é simples: o mundo está cansado de testemunhar o sofrimento dos palestinos. Aqueles com um mínimo de compaixão humana estão saturados de serem chamados de antissemitas ou antissionistas (seja lá o que isso signifique) toda vez que expressam sua indignação para com a crueldade que Israel trata os palestinos.

Matando dois mil palestinos há seis meses - centenas delas sendo crianças - foi um massacre em massa. Nós assistimos essas ações grotescas tantas e tantas vezes - principalmente em Gaza - que até mesmo nossas estatísticas ficaram manchadas com sangue.

Quem agora se lembra das fatalidades na guerra em Gaza em 2008-09? Mil quatrocentos e dezessete palestinos mortos, 313 crianças e mais de 5 mil e quinhentos feridos. Esse foi o conflito que o então recém-eleito Barack Obama não tinha nenhum comentário a fazer.

E quem sabe que outra sanguinolenta caixa de Pandora seria aberta com uma adesão da Palestina? Aquele piloto de bombardeio que matou, em 2002, 15 civis, 11 delas crianças, em um apartamento em Gaza – quando queria matar um oficial do Hamas? Isso não constituiria um crime de guerra? Essas coisas não “pioram a atmosfera” e “comprometem a confiança”? Esses banhos de sangue não são “inteiramente contraproducentes”? E a colonização judia na Cisjordânia ocupada?

Claro, condenem por trás da Jihad Islâmica e do Hamas por crimes de guerra com seus ataques suicidas. Prendam os bandidos da Autoridade Palestina que torturam e matam seus prisioneiros - mas não é isso que Israel e EUA estão preocupados. Eles se preocupam com o fato de que, após meses de discussões e investigações e releituras de milhares de documentos, os juristas possam decidir que Israel - o horror dos horrores - possa ter que responder por seus atos diante da justiça internacional, algo que nenhum veto rotineiro dos EUA poderia evitar.

Agora, apenas imagine se Israel e EUA quisessem que os palestinos assinassem o documento de Roma. Trabalhe com esse pensamento - apenas por um segundo - de que Israel e EUA insistissem que os palestinos deveriam, através de um tratado internacional, se tornar membro da Corte Internacional de Justiça para se qualificar como país. A recusa de Abbas em fazê-lo seria mais uma prova de suas intenções “terroristas”. Ainda assim, quando Abbas de fato assina o documento de Roma, quando os palestinos aceitam ficar sob o jugo da lei internacional, eles devem ser punidos - certamente, algo “inédito” na história moderna.

Eu consigo pensar em apenas duas frases que traduzem esse escândalo dos políticos ocidentais: confunda suas políticas, frustrem seus truques sujos.

O resumo do impasse no Oriente Médio

A propósito, Avi Shlaim, um dos melhores historiadores israelenses, acabou de lançar uma nova edição de seu grande trabalho O Muro de Ferro: Israel e o Mundo Árabe. “O prospecto de uma real mudança na política externa dos EUA vai de mínima para não-existente”, ele escreve. “Nem há qualquer evidência apontando que os líderes de Israel estejam remotamente interessados em uma solução de dois Estados [...] Eles parecem indiferentes ao dano que a ocupação está causando à sua sociedade e à reputação do país no mundo”. Em resumo, é isso, ou não é?

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