2 de janeiro de 2015

A era da surrealpolitik

A tragédia de Barack Obama, o presidente que não permaneceria firme

Jeffrey St. Clair

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução/ Tenho um fraco por Harry Reid. Não pela sua política, que continua retrógrada na maioria de suas proposições, mas pelo homem. Ele é combativo e duro, um verdadeiro lutador de rua. Tem uma voz que parece um disco de vinil riscado, mas é cruamente honesto. Raramente fala por enigmas. Quanto adota determinada posição, ele a sustenta mesmo sob ataque.

Em um tempo de clones políticos, Reid é original, um oriundo da classe trabalhadora ocidental, cuja mãe, Inez, foi uma lavadeira e o pai, um mineiro, o qual posteriormente cometeu suicídio durante um longo período de desemprego. Reid cresceu em um posto avançado de busca, no deserto, em uma cabana de empresa desprovida de confortos básicos como banheiro ou telefone. Por esforços próprios adentrou a faculdade de direito, furando seu caminho através do terreno espinhoso da política do Estado de Nevada a partir do nada.

Resumindo, Reid personifica todas as qualidades que faltam a Obama. Dessa forma, não foi tão surpreendente que Reid tenha lançado ao próprio Obama grande parte da culpa pelo massacre sofrido pelo partido Democrata nas últimas eleições intercaladas da metade do mandato. Obama parece sofrer uma paralisia psicológica profunda, que simplesmente o impede de lutar por suas próprias políticas públicas, mesmo quando o destino de seu próprio partido está na balança. Reid, antigo boxeador, não tem estômago para pruridos ou timidez em tempos de crise. Ele é direto em relação a Obama e está certo, pelas razões corretas ou não.

Já Obama, que ficou visivelmente atordoado com a derrota, de forma inexplicável jogou a culpa pelos resultados desastrosos em latinos e negros, lamentando o baixo comparecimento das minorias. Além disso, chamou-os de preguiçosos e ingratos. Somos tentados a considerar essa esquisita altercação como uma espécie venenosa de projeção subliminar. A pessoa de Obama carrega consigo uma esdrúxula qualidade vingativa na qual aqueles que mais deveria amar são justamente os mais violentamente atacados por ele.

As condenações insensíveis do presidente irritaram aos negros e hispânicos, justamente zangados com Obama. Afinal, a abstenção também foi igualmente grande entre os progressistas brancos, mulheres e sindicalistas. Eles também deveriam ter levado sua parte do crédito pela queda do partido de Obama. Não se deve deixar de levar em conta que foram os que suportaram os mais violentos golpes durante o mandato de Obama durante estes últimos seis anos sombrios.

Obama foi desconcertante, mesmo após sua vitória inconteste de costa a costa, e seus movimentos pareciam emanar de um sonâmbulo. Dificilmente encontramos personalidades políticas que se orgulham de pensar longamente antes de tomar decisões sem nenhuma inspiração e eivadas de estupidez.

Tome como exemplo a ação executiva levada a efeito por Obama em relação à imigração, a qual deveria ter acontecido anos antes. Trata-se, se tanto, de medida tomada pelas metades, liberando explicitamente mais de dois milhões de pessoas as quais foram deportadas pelo mesmo Obama. Em seguida, houve uma resposta insegura e insuficiente à ultrajante decisão do Grande Júri de não indiciar Darren Wilson por ter atirado e matado Michael Brown a sangue frio. Não se pode negar que negros e hispânicos estão cobertos de razão para sentir raiva pelas atitudes indiferentes do presidente Obama em relação às circunstâncias cruéis que cercam suas vidas.

O abraço mortal entre os Democratas e o neoliberalismo continua incontestável desde a ascensão de Jimmy Carter nos anos 70, o aperto tornando-se mais e mais candente a cada eleição. Agora, ele domina, mas o partido está moribundo. As atuais vítimas do neoliberalismo uma vez já constituíram as bases do partido. O Partido Democrata tornou-se o túmulo de suas antigas facções do New Deal e nem todo o dinheiro podre dos fundos hedge do mundo inteiro fará com que seus velhos soldados voltem à vida.

No lugar deles, os mandatários do DNC congratulam-se com algumas das forças mais maldosas do cenário político dos Estados Unidos: Os especuladores que manipulam títulos e capitalistas de apostas de risco, magnatas de empresas DotCom, empresários da indústria armamentista, tubarões do private equity e CEOs antisindicais, além dos loucos e fanáticos da energia nuclear, não esquecendo nunca das tropas de choque do onipresente lobby israelense, os quais sistematicamente sufocam as vozes que defendem as aspirações do povo da Palestina. Estamos oficialmente em plena era da política surreal.

Ainda que a espinhosa palavra “desigualdade” raramente mostre a cara feia nas campanhas presidenciais, normalmente é regra inviolável das labutas políticas antes das eleições que se você penetrar fundo na mente do eleitorado, a economia está sempre presente. A recuperação da economia sob Obama não passa de truque barato, uma ilusão induzida pelo FED. Poucas pessoas estão comprando, e comprando muito pouco no país. A economia continua desordenada [no original, entropic - entrópica], desaquecida, e a solução permanece no horizonte. A acidez tomou conta do espírito da nação. O país dissolve-se lentamente, como se estivesse em câmera lenta.

Mas eu continuo otimista. Penso que estas eleições na realidade foram menos sobre as nuvens negras da economia e mais sobre o menosprezo. O desprezo das massas em relação a Obama, aos Democratas, ao maldito, rançoso sistema que promete felicidade e entrega apenas mais privações e mais guerras. Cedo ou tarde, a fatura dessas traições contra o eleitorado teria que ser entregue. O preço deve ser pago até o último centavo.

As contradições flagrantes do Partido Democrata avançaram até um ponto onde teriam que rachar. Afinal, quem neste mundo defenderia um partido que se recusa a dar assistência aos seus próprios correligionários em situação de vulnerabilidade? Quem iria querer participar de um partido político que diligente e impiedosamente esmaga cada faísca de fervor idealista, desde o Occupy Wall Street aos Dream Defenders, chegando mesmo a ser contra o movimento para os 15 dólares por hora de trabalho, enquanto persegue de forma maníaca acordos de comércio como o TPP [5], que não passa de um assassino de empregos nos EUA? Será transformado em picadinho, mesmo antes de colapsar a partir de seu próprio estado de decadência.

Barack Obama, durante a campanha presidencial, vendeu a si mesmo como sendo incomum, um novo tipo de político, que desafiaria finalmente as forças hegemônicas do roubo corporativo e do militarismo aventureiro. No fim, mostrou-se apenas mais do mesmo, sem remorso ou arrependimento.

Esta, então, é tragédia de Obama, o presidente que não iria permanecer firme. Que caia, para que de sua queda cresça uma nova forma de resistência.

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