21 de janeiro de 2015

Um conhecido veterano está envolvido na guerra civil do Iêmen

O Iêmen não é a Síria. Mas a compreensão distorcida da América do Oriente Médio já produziu um cenário muito semelhante.

Robert Fisk


Crédtios: Scott M. Stringer/ EPA.

Tradução / É tudo sobre os sauditas. Não importa o quanto a nova guerra civil no Iêmen possa parecer complexa -- nem o quanto os rebeldes houthis sejam hoje poderosos na capital Sanaa – quem apavora a monarquia sunita wahhabista da Arábia Saudita é a seita zaidi, xiita, representada pelos houthis, e não sem razão.

Por mais de cinco anos, tem havido um conflito armado entre forças sauditas e os Houthis, que num dado momento capturaram uma cadeia de montanhas de baixa altitude em território saudita. Os sauditas culpam os suspeitos de costume: o Irã e o Hezbollah libanês. Os houthis culpam os suspeitos de costume: os sunitas do Iêmen e os seus apoiadores sauditas - você adivinhou - com os Estados Unidos.

Mas, como todas as crises no Oriente Médio, o conflito no Iêmen, que começou quase imediatamente e sem transição depois da guerra civil que trouxe o exército egípcio de Nasser para o conflito com a família real iemenita -- apoiada pelos sauditas -- é um pouco mais sutil do que os despachos de notícias despachadas poderiam sugerir. A verdade é que o primeiro governante independente do Iêmen foi um xiita zaidita – não era sunita – que estendeu seu território sobre o norte do Iêmen entre as duas guerras mundiais.

O Imã Yahya liderava a seita zaidita, cujas crenças e culto têm quase tanto em comum com o Islã sunita quanto com o xiismo, mas lutou contra os sauditas quando tomaram Asir e Najran, do que Yahya chamava “o Iêmen histórico”.

Euegen Rogan, professor de Oxford, descreveu a crueldade do sucessor de Yahya, seu filho Ahmed, que prendeu e executou seus rivais e iniciou relações diplomáticas com a União Soviética e a China, mas logo se viu em luta contra a palavra de ordem de Nasser, que mandava derrubar os “regimes feudais” no Oriente Médio.

Ahmed gostava de condenar o socialismo árabe, em versos (roubar propriedade privada seria “crime contra a lei islâmica”). Quando o filho de Ahmed, Badr, foi derrubado num golpe militar, Nasser apoiou a nova república e os sauditas tentaram destruir Nasser, oferecendo apoio aos rebeldes xiitas zaiditas.

A triste história da divisão do Iêmen e eventual (e infeliz) unificação do governo ditatorial de Sanaa, 33 anos sob Abdullah Saleh – ele próprio xiita zaidita – e, depois, os inevitáveis clamores da minoria oprimida, implicavam que o despertar árabe – no Iêmen foi de fato uma “primavera” sangrenta – despertaria feridas ainda muito dolorosas.

A saída de Saleh produziria uma nova Constituição que não satisfez os houthis. Os sauditas passaram a temer que os rebeldes xiitas do norte, que carregavam o nome de Hussein Badreddin al-Houthi, líder zaidita morto em 2004, fossem apoiados pelo Irã e, assim -- por causa da própria substancial minoria xiita na Arábia Saudita – que constituíssem uma ameaça à estabilidade do próprio reino saudita.

Muito protestaram os sauditas contra o apoio que o Irã e o Hezbollah libanês dariam aos houthis – e muito o Irã e o Hezbollah negaram qualquer apoio --, mas o crescimento da facção iemenita da Al-Qaeda (seguindo, é claro, as mesmas crenças Salafista-Wahabi que a própria Arábia Saudita), trouxe o inevitável envolvimento militar dos EUA.

Os ataques por drones norte-americanos no Iêmen, praticamente apagados do mundo pela mídia ocidental, eram dirigidos contra a al-Qaeda, supostamente em nome do governo iemenita que os sauditas apoiavam. Mas em dezembro de 2009, porta-vozes dos houthis começaram a catalogar séries de ataques dos EUA contra os próprios houthis, inclusive 29 raids aéreos que mataram 120 pessoas em cidades do norte do Iêmen.

O avanço dos houthis sobre Sanaa dividiu a força do exército do governo – que passou a combater contra a al-Qaeda (em nome dos EUA) e contra os houthis (em nome dos sauditas). A al-Qaeda na Península Árabe moveu-se para o norte, para combater os houthis, com o que passou a receber apoio dos sunitas.

O Iêmen não é a Síria. Mas a compreensão distorcida da América do Oriente Médio já produziu um cenário muito semelhante: além de tentarem destruir o regime xiita Alawita de Assad e seus inimigos sunitas do EIIL na Síria, os EUA parecem agora ansiosos para esmagar também os houthis xiitas zaiditas e os sunitas da al-Qaeda no Iêmen. Ordem dos sauditas.

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