20 de fevereiro de 2015

A Grécia conseguiu o acordo… mas se os detalhes derem errado, “estamos acabados”

Paul Mason


Tradução / A zona euro e o FMI fizeram um acordo com a Grécia, prolongando o seu resgate por quatro meses em troca de um compromisso de fazer passar pelo crivo dos credores todas as medidas com impacto econômico significativo. A segunda parte do acordo tem de ser feita segunda-feira, com a Grécia a apresentar uma lista das medidas que propõe.

Em linguagem futebolística o ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis conseguiu uma “derrota fora de casa pela margem mínima” em vez da potencial eliminação -- da taça e do campeonato ao mesmo tempo.

Eis o porquê. O texto não dá à Alemanha tudo o que ela queria. Permite à Grécia alterar o objetivo orçamental para este ano -- quer dizer que pode ter um excedente menor, mas ainda por definir. Além disso, de acordo com Varoufakis, existe uma “ambiguidade criativa” no que respeita aos excedentes que é suposto a Grécia alcançar para além deste ano.

Em segundo lugar, ele mantém as palavras propostas por Varoufakis na quinta-feira: que a Grécia não irá desmantelar as medidas existentes ou tomar medidas unilaterais “que possam ter impacto negativo nas metas orçamentais, recuperação econômica ou estabilidade fiscal” -- mas acrescentando as palavras “na avaliação das instituições”. Isto torna claro quem vai decidir se a revisão do programa grego ameaça esses aspectos.

Na segunda-feira a Grécia tem de apresentar uma lista de medidas, de forma a conseguir dinheiro para recapitalizar os seus bancos e fazer rolar os empréstimos. Varoufakis apresentou isto na conferência de imprensa como algo que seria avaliado em conjunto -- pelo que o jogo de poder entre a Alemanha, a Grécia e toda a gente pelo meio é para continuar, mas com o FMI -- cujas metodologias são consideravelmente menos doutrinárias que as do BCE no que respeita às propostas do Syriza -- na jogada.

Para além disso, a palavra “ponte” está no acordo. Dijsselbloem indicou que ele seria uma ponte para qualquer futuro acordo -- e nesse sentido, a oposição alemã a qualquer sinal da possibilidade de uma fase de transição foi ultrapassada.

Aspetos positivos para a Grécia

Eis porque entendo que Varoufakis conseguiu alguma coisa. Nas horas antes do acordo, os meios de comunicação gregos relataram que a fuga de depósitos tinha aumentado significativamente. Então, não foi o BCE a ameaçar a Grécia com controle de capitais, mas sim o banco central grego e o ministério das Finanças que sabiam que teriam de limitar os levantamentos multibanco logo na terça-feira.

Sob o peso desse prazo, os negociadores gregos temeram claramente que a posição que assinaram esta noite seria triturada pelos seus adversários -- ou seja, aproximando-se da posição alemã. Ao assinar já, eles -- é o que acreditam -- afastaram esse problema da contagem decrescente, e se o BCE -- como espera Varoufakis -- fizer anúncios positivos para repor as linhas normais de crédito aos bancos gregos, os bancos estão seguros.
Ele disse na conferência de imprensa que os bancos irão manter-se abertos “terça, quarta e ad infinitum”.

Um cenário de pesadelo para a Grécia seria, caso impusessem limites nos levantamentos na terça, o da UE/FMI poderem marcar passo, como fizeram com o Chipre, obrigando à capitulação total.

A verdadeira substância do que foi acordado só ficará decidida quando o FMI/UE e o BCE disserem sim ou não a cada medida proposta pela Grécia. O ministro das finanças alemão, e mesmo o “tom” alemão, estiveram ausentes do anúncio final do acordo. Por isso ainda se está para ver qual será a resposta do legislador alemão.

A esquerda do Syriza

Varoufakis estava visivelmente aliviado. Ele conseguiu -- acho eu -- evitar uma corrida aos bancos e a rendição total, mas à custa de recuar nas promessas do Syriza na sequência das eleições.
A esquerda do Syriza irá criticar isto -- e irão criticar a conduta de Varoufakis e da sua equipe, a quem pareceram sobrar muito poucas balas no carregador esta noite. Mas como Varoufakis pode apresentar este acordo como “melhor do que podia ter sido”, eu antecipo que haja algum alívio, e a raiva seja dirigida à Alemanha nas ruas gregas neste fim de semana.

Quando perguntado sobre o que aconteceria se a UE/FMI não concordarem com a lista que o Syriza apresentará na segunda-feira, Varoufakis respondeu de forma desarmante, “então estamos acabados”. Mas se ela pode ser negociada, há imensa coisa que o Syriza pode fazer nas políticas que não estão ligadas aos seus objetivos orçamentais, e quatro meses só nos levam ao fim de junho, que tem sido sempre “época de motins” na crise grega.

A crise estratégica não acabou. Mas os danos para a confiança e solidariedade, com um país -- a Alemanha -- a ser visto como tentando forçar outro eleitorado à rendição total -- é real.
Perguntei a Dijsselbloem na conferência de imprensa: “O que tem a dizer ao povo grego, cuja democracia acabou de mandar para a lata de lixo”. Ele respondeu que não achava que fosse uma pergunta muito objetiva. Teremos de concordar em discordar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário