20 de janeiro de 2015

A era do ouro das operações secretas

Missões especiais (OPS) já em 105 países em 2015

Nick Turse

Tom Dispatch

Tradução / Pela calada da noite, entram a bordo de uma aeronave V.22 Osprey de descolagem vertical. Aterram numa região remota de um dos países mais voláteis do planeta, invadem uma aldeia e de repente encontram-se no meio de um tiroteio de vida ou morte. Foi a segunda vez em duas semanas que os SEALS da Marinha norte-americana tentaram resgatar o fotojornalista americano Luke Somers. E falharam pela segunda vez.

A 6 de dezembro de 2014, aproximadamente 36 comandos de elite da América, fortemente armados, a operar com informações vindas de satélites, drones, e espionagem de alta tecnologia, preparados com óculos de visão noturna, e apoiados com tropas de elite do Iêmen, defrontaram-se com cerca de seis militantes da Al-Qaeda na Península Arábica. Quando tudo acabou Somers estava morto, e também Pierre Korkie, um professor sul-americano que deveria ser libertado no dia seguinte. Morreram também oito civis às mãos dos comandos, de acordo com as notícias locais. A maioria dos militantes escapou.

Este episódio sangrento foi, conforme o ponto de vista de onde se aborde, ou um fim ignominioso para um ano que viu as forças das operações especiais dos Estados Unidos intervindo a uma escala sem precedentes, ou um pouco auspicioso início de um novo ano já encaminhado para alcançar níveis semelhantes de intervenção alcançar grandes êxitos ou mesmo para os ultrapassar.

Durante o ano fiscal que terminou em 30 de setembro de 2014 as forças das Operações Especiais dos Estados Unidos (SOF) estiveram presentes em 133 países -- quase 70% das nações do planeta -- segundo o tenente-coronel Robert Bockholt, oficial de assuntos públicos do Comando das Forças Especiais dos Estados Unidos (SOCOM). Isto coroou um período de três anos em que as forças de elite do país estiveram ativas em mais de 150 países do mundo, executando missões que foram desde raids noturnos para captura e morte a exercícios de treinamento. E este ano pode estabelecer um novo recorde. Apenas um dia antes do falhado raid que resultou na morte de Luke Somers -- decorriam 66 dias do ano fiscal de 2015 -- a elite das tropas americanas já havia entrado em 105 países, aproximadamente 80% do total de 2014.

Apesar da sua escala e âmbito maciço, esta guerra secreta global através de muito do planeta é desconhecida da maioria dos americanos. Ao contrário do desaire de dezembro no Iêmen, a grande maioria das missões especiais permanece na sombra, oculta da supervisão externa e do escrutínio da imprensa. De fato, a não ser por escassas notícias altamente escolhidas filtradas pelos meios de comunicação militares, fugas oficiais a partir da Casa Branca, SEALS que querem vender algo, e uns poucos jornalistas escolhidos a dedo, muito do que as forças especiais americanas fazem nunca é objeto de exame, o que apenas aumenta o risco do ricochete de insucessos imprevistos e de consequências catastróficas.

A idade do ouro

"O comando alcançou o seu zênite absoluto. E é na realidade uma idade do ouro para as operações especiais". Foram estas as palavras do General Joseph Votel III, um graduado de West Point e Ranger do Exército, quando assumiu o comando do SOCOM em agosto último.

A sua retórica pode ter sido exagerada mas não foi hiperbólica. Desde 11 de Setembro de 2001, as forças das Operações Especiais dos Estados Unidos aumentaram muito em todos os aspectos, seja em número, em orçamento, na sua influência em Washington e no seu lugar na imaginação popular do país. O comando, por exemplo, duplicou o pessoal de cerca de 33 000 em 2001 para quase 70 000 hoje, incluindo um salto de quase 8 000 durante as ordens do Almirante William McRaven, recentemente reformado.

Estes números, impressionantes como são, não exemplificam toda a natureza da expansão e crescente alcance global das forças de elite da América nestes anos. Para a entender, é necessário percorrer uma estrutura das Forças Especiais sempre em expansão e carregada de acrónimos. A lista pode parecer difícil de apreender no seu conjunto, mas não há outra maneira de entender o que está em causa.

A parte de leão das tropas da SOCOM são os Rangers, os Boinas Verdes, e outros soldados do Exército, seguidos pelos comandos aéreos da Força Aérea, os SEALS, os Combatentes Especiais e o pessoal de apoio da Marinha, bem como um contingente menor de Fuzileiros. Mas só temos um vislumbre da expansão do comando quando consideramos a totalidade dos «comandos sub-unificados» em que estas tropas especiais das OPS estão divididas, como o SOAFRICA, SOCEUR, o contingente europeu; SOCKOR estritamente dedicado à Coreia; SOCPAC, que cobre o resto da região da Ásia-Pacífico; SOCSOUTH, que executa missões na América Central, América do Sul e no Caribe; SOCCENT, o subcomando unificado do Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) no Médio Oriente; SOCNORTH, que trata «da defesa da Pátria»; e o comando itinerante das Operações Especiais Conjuntas ou ISOC — um subcomando clandestino (anteriormente chefiado por McRaven e depois por Votel) constituído por pessoal de cada ramo de serviços, incluindo os SEALS, aviadores de tácticas especiais da Força Aérea, e a Força Delta do Exército, especialista em procurar e matar suspeitos de terrorismo.

E não se pense que a coisa acaba aqui. Como resultado dos esforços de McRaven para criar uma rede global SOF de interagências aliadas e conjuntas, «oficiais de ligação das Forças Especiais, ou SOLOS, estão agora inseridos em 14 embaixadas-chave norte-americanas para apoiar as forças especiais de várias nações aliadas. Já operando na Austrália, no Brasil, no Canadá, na Colômbia, em El Salvador, na França, em Israel, na Itália, na Jordânia, no Quénia, na Polónia, no Peru, na Turquia e no Reino Unido, o programa do SOLO visa, segundo Votel, expandir-se para 40 países em 2019. O comando e especialmente o JSOC, forjou também também ligações profundas à Central Intelligence Agency - CIA , o Bureau Federal de Investigação - FBI e a Agência de Segurança Nacional - NSA, entre outras.

As Operações Secretas na sombra

O alcance global do Comando de Operações Especiais vai ainda mais longe, com elementos menores, mais ágeis a operar na sombra a partir seja de bases nos Estados Unidos a partes remotas do sudeste da Ásia, de postos do Médio Oriente a austeros acampamentos africanos. Desde 2002, o SOCOM tem sido autorizado a criar as suas próprias Forças de Acção Conjunta, uma prerrogativa normalmente limitada a comandos maiores como o CENTCOM. Vejamos por exemplo, a Operação Conjunta das Forças Especiais das Filipinas (JSOTF-P) que, no auge, tinha cerca de 600 pessoas em apoio junto dos aliados nas Filipinas a operações contraterroristas contra grupos insurgentes como Abu Sayyaf. Após mais de uma década de luta contra esse grupo este decresceu em número, mas continua activo, enquanto a violência na região continua virtualmente inalterada.

Em Junho de 2014 falou-se numa diminuição da força. «O ISOTF-P vai ser desactivado e a operação intitulada OEF-P (Operação de Auxilio aos Filipinos livres) vai terminar no ano fiscal de 2015», declarou Votel ao Comité dos Serviços Armados do Senado. «Um número menor do pessoal militar a operar como parte de um PACOM (Comando Norte-americano do Pacífico) um Grupo de Aumento vai continuar a melhorar as capacidades das PSF (Forças Especiais das Filipinas) para executar as suas missões de CT (contra-terrorismo). Meses depois, contudo, a Força Conjunta de Operações das Filipinas permanecia actuante. «A JSOFT-P continua activa embora o seu efectivo tenha diminuído», disse o porta-voz do Exército Kari McEwen ao repórter Joseph Trevithick de «A Guerra é uma Chatice».

Outra unidade, a Operação Conjunta da Força Bragg, permaneceu na sombra durante anos, antes da primeira menção oficial pelo Pentágono nos princípios de 2014. O seu papel, de acordo com Bockholt, do SOCOM, é «treinar e equipar o pessoal americano em serviço que se prepara para ser enviado para o Afeganistão em apoio das Forças Especiais Conjuntas no Afeganistão. Esta última força, por seu turno, levou mais de uma década actuando na sombra ou «ops negra» para prevenir que actividades insurrectas ameaçassem a autoridade e a soberania» do governo afegão. Isto significava raids nocturnos e missões de captura e morte — frequentemente em ligação com as forças de elite afegãs — que levaram à morte de um número desconhecido de combatentes e civis. Em resposta à indignação popular contra os raids o presidente afegão Amid Karzai proibiu-os em 2013.

As forças das Operações Especiais norte-americanas passariam a um papel de apoio em 2014, deixando as tropas de elite do Afeganistão tomar o controlo. «Vamos deixá-los dirigir o espectáculo» disse o Coronel Patrick Robertson da Força de Intervenção do Afeganistão ao USA Today. Mas, de acordo com LaDonna Davis, porta-voz na força de intervenção, os operadores especiais da América continuaram a liderar missões no ano passado. A força recusa declarar quantas missões foram executadas pelos Americanos ou mesmo em quantas operações os seus comandos estiveram envolvidos, embora as forças especiais afegãs tenham referido cerca de 150 missões em cada mês de 2014. «Não estou em condições de discutir o número específico de operações que tiveram lugar», declarou o Major Loren Bymer das Forças Especiais da Força de Intervenção Conjunta aoTom/Dispatch «mas normalmente os Afegãos executam cerca de 96% das operações especiais e nós continuamos a treinar, aconselhar e apoiar os nossos parceiros para garantir o seu sucesso.»
E nem pensem que é aí que acaba o quadro de organização das forças especiais, a Força Conjunta do Afeganistão tem cinco Grupos de Aconselhamento de Operações Especiais «destinados a dirigir e aconselhar os nosso parceiros das [Forças especiais Afegãs de Segurança], segundo Votel. «De modo a garantir que os nossos parceiros continuem a lutar contra os nossos inimigos. O SOF norte-americano tem de continuar a aconselhar nos postos tácticos em 2014, com unidades seleccionadas em lugares seleccionados», declarou ao Comité de Serviços Armados do Senado. Na realidade, no passado mês de Novembro, o sucessor de Karzai Ashrat Ghani levantou discretamente a proibição dos raids aéreos nocturnos, abrindo de novo a porta a missões com os conselheiros americanos em 2015.

Mas deve haver menos tropas ops americanas disponíveis para missões tácticas. De acordo com o então Contra, agora Vice-Almirante Seann Pybus, Comandante do SOCOM, cerca de metade dos pelotões dos SEALS colocados no Afeganistão, no fim do mês passado, devem ter sido retirada e recolocada para apoiar a reorientação para a Ásia, ou trabalhar no Mediterrâneo, ou no Golfo da Guiné, ou no Golfo Pérsico». Todavia, o Coronel Christopher Riga, comandante do 7º Grupo das Forças Especiais, cujas tropas serviram com as Forças Especiais Conjuntas do Afeganistão perto de Kandahar no ano passado, decidiu continuar «Há ainda muita luta a decorrer no Afeganistão que vai continuar», declarou numa cerimónia de entrega de prémios no ano passado. «Vamos continuar a matar o inimigo, até nos dizerem para partir».

Junte-se a estas Forças os elementos do Comando Dianteiro das Forças Especiais SOC-FWD, pequenos grupos que de acordo com os militares «definem e coordenam a segurança e apoio a operações especiais de cooperação do comando de operações especiais no teatro de operações, comando geográfico de combate e objectivos de equipas regionais e nacionais». O SOCOM recusou-se a confirmar a existência do SOC FWD, embora haja amplo testemunho oficial sobre o assunto, e portanto disponibilizou informação acerca de quantas equipas estão actualmente destacadas pelo mundo fora. Mas as que são conhecidas estão diluídas em ops, incluindo o SOC FWD no Paquistão, o SOC FWD no Iémen, e o SOC FWD do Líbano, assim como o SOC FWD na África do Leste, o SOC FWD na Africa Central e o SOC FWD na Africa Ocidental. A Africa tornou-se na verdade um local privilegiado para missões sombra dos operadores especiais da América. «Esta unidade particular tem feito coisas impressionantes. Seja através da Europa ou da Africa numa variedade de contingências, todos estão a contribuir de uma forma muito significativa», afirmou o comandante do SOCOM General Votel aos membros do 352.o Grupo das Operações Especiais na sua base em Inglaterra no Outono passado.

Os Comandos aéreos não estão sozinhos nas suas incursões nesse continente. Nos últimos anos, por exemplo, os SEALS executaram com sucesso uma missão de salvamento de reféns na Somália e uma missão de rapto que correu mal. Na Líbia, os comandos da Força Delta capturaram com êxito um operacional da Al Qaeda num raid de madrugada, enquanto os SEALS recuperaram um navio tanque da Líbia que o fraco governo apoiado pelos Estados Unidos já considerara roubado.

Adicionalmente, os SEALS dirigiram uma missão de evacuação falhada no Sudão do Sul em que os seus membros ficaram feridos quando o avião em que seguiam foi atingido por artilharia leve. Entretanto, uma tropa de elite de resposta rápida conhecida pela Unidade Especial de Ataque 10 (NSWU-10) interveio em «países estratégicos» como o Uganda, Somália e Nigéria.

Uma ops, força de treino clandestino na Líbia implodiu quando a milícia ou força «terrorista» atacou duas vezes o campo, guardado pelas tropas líbias e levou grandes quantidades de equipamento americano de alta tecnologia, centenas de armas - incluindo Glocks e espingardas M4 - assim como aparelhagem de visão nocturna e laser especiais que só podem ser vistos com esse equipamento. Em consequência, a missão foi abortada e o campo abandonado. Ao que parece foi depois ocupado por uma milícia.

Em Fevereiro do ano passado, tropas de elite seguiram para o Níger para três semanas de exercícios militares como parte do Flintlock2014, um exercício anual especial de contra-terrorismo que juntou as forças da nação de acolhimento, Canada. Chade, França, Mauritânia, Holanda, Nigéria, Senegal, Reino Unido e Burkina Faso. Alguns meses depois, um oficial do Burkina Faso que recebeu treino de contra-terrorismo nos Estados Unidos sob os auspícios da Universidade de Operações Especiais Conjuntas da SOCOM em 2012 tomou o poder num golpe. Mas as forças especiais das ops permaneceram intocadas. No fim do ano, por exemplo, sob os auspícios do SOC FWD da Africa Ocidental, membros do 5.o batalhão, do 19.o Grupo das Forças Especiais juntou-se às tropas de elite de Marrocos para treinar numa base nos arredores de Marraquexe.

Um Mundo de Oportunidades

Contudo, as deslocações para nações africanas são apenas uma parte do crescimento rápido do Comando das Operações Especiais no ultramar. Nos dias do ocaso da administração Bush, sob a direcção do chefe do SOCOM almirante Eric Olson, as forças de Operações Especiais foram deslocadas para 60 países. Em 2010, esse número elevou-se para 75, segundo Karen DeYoung e Greg Jaffe do Washington Post. Em 2011, o porta-voz do SOCOM Coronel Tim Nye declarou ao TomDispatch que o total andaria à volta de 120 no final do ano. Com o Almirante William McRaven no comando em 2013, o então Major Robert Bockholt afirmou ao TomDispatch que o número subira para 134. Sob o comando de McRaven e Votel em 2014, de acordo com Bockholt, descera ligeiramente para 133. O Secretário de Defesa, Chuck Hagel, que está de saída, precisou no entanto que sob o comando de McRaven - de Agosto de 2011 até Agosto de 2014 — as forças das operações especiais deslocaram-se a mais de 150 países diferentes. «De facto O SOCOM e todo o aparelho militar norte-americano estão mais empenhados internacionalmente do que nunca — em mais locais e com uma variedade maior de missões», declarou em Agosto de 2014.

Não estava a brincar. Nos dois meses do ano fiscal de 2015 o número de países para onde foram as missões especiais já atingiu 105, segundo Bockholt.

O SOCOM recusou comentar a natureza das missões, ou o interesse de operar em tantos países. O comando nem sequer indicou quais os países onde as Forças Especiais intervieram nos últimos três anos. Um olhar a algumas das operações, exercícios e actividades que surgiram à luz dá, contudo, uma ideia de um comando itinerante em constante movimento com alianças em quase todos os cantos do planeta.

Em Janeiro e Fevereiro, por exemplo, membros do 7.o Grupo das Forças Especiais e o 16.o Regimento de Operações Aéreas efectuaram um treino conjunto (JCET) com forças de Trinidad e Tobago, enquanto tropas do 353.o Grupo de Operações Especiais, se juntaram a membros da Real Força Aérea para exercícios em Udon Thani, Tailândia. Em Fevereiro e Março, os Boinas Verdes das 20.as Forças Especiais treinaram com tropas de elite na Republica Dominicana como parte de um JCET. Em Março, membros do Comando das Operações Especiais da Marinha e da unidade especial 1 da Marinha de Guerra participaram em manobras a bordo do cruzador de mísseis guiados USS Cowpens no Multi-Sail de 2014, um exercício anual destinado a apoiar «segurança e estabilidade na região Indo-Asia-Pacífico». No mesmo mês, soldados de elite, marinheiros, aviação e fuzileiros participaram num exercício de treino, nome de código Resposta em Fusão com membros das forças de Belize. «Exercícios como este elevam o nível de relação e ligação entre as forças norte-americanas e Belize», declarou o Tenente-Coronel da Força Aérea Heber Toro do Comando de Operações Especiais do Sul.

Em Abril, soldados do 7.o Grupo de Forças Especiais juntaram-se a tropas nas Honduras para treino de salto — pára-quedismo sobre a base aérea de Solo Cano desse país. Soldados dessa mesma unidade, a servir na Força Rápida do Afeganistão realizaram também operações secretas na parte sul do país na Primavera de 2014. Em Junho, membros do 19.oGrupo de Forças Especiais realizaram um JCET na Albânia, enquanto operadores da Força Delta tomaram parte na missão que conseguiu libertar o sargento do Exército Bowe Bergdahl no Afeganistão. No mesmo mês, os comandos da Força Delta ajudaram a raptar Ahmed Abu Khattala, um «líder» suspeito dos ataques terroristas de Bengasi, Líbia, que matou quatro americanos, enquanto os Boinas Verdes iam para o Iraque como conselheiros na luta contra o Estado Islâmico.

Em Junho e Julho, 26 membros do 522.o Esquadrão de Operações Especiais realizaram uma missão de 28 000 milhas, quatro semanas, a cinco continentes que os levou ao Sri Lanka, Tanzânia e Japão, entre outras nações, para escoltar «três aviões unimotores [Comando de Operações Especiais da Força Aérea] para um destino algures na Área de Responsabilidade do Pacífico». Em Julho, as forças das Operações Especiais seguiram para Tolemaida na Colômbia para competir com tropas de elite de outros 16 países — em tiro ao alvo, tiro dirigido e corridas de obstáculos — na competição anual das Forças de Comandos.

Em Agosto, soldados do 20.o Grupo de Forças Especiais dirigiram um JCET com tropas de elite do Suriname. «Fizemos muitos progressos num mês. Se tivermos de funcionar em conjunto no futuro sabemos que fizemos parceiros e amigos em quem podemos confiar» disse um oficial superior não comissionado dessa unidade. No Iraque, nesse mês, os Boinas Verdes efectuaram uma missão de reconhecimento no Monte Sinjar como parte de um esforço para proteger os étnicos Yazidis dos militantes do Estado Islâmico, enquanto os comandos da Força Delta fizeram um raid numa refinaria de petróleo no Norte da Síria numa tentativa de salvar o jornalista americano James Foley e outros reféns aprisionados pelo mesmo grupo. Essa missão foi um fiasco e Foley foi brutalmente executado logo a seguir.

Em Setembro, cerca de 1200 operadores especiais norte americanos e pessoal de apoio juntaram-se às tropas de elite da Holanda, da República Checa, da Finlândia, da Grã-Bretanha, da Lituânia, da Noruega, da Polónia, da Suécia e da Eslovénia para a Jackal Stone, um exercício de treino que reunia tudo desde combate corpo-a-corpo e tácticas de tiro de precisão a operações em pequenas embarcações e missões de salvamento de reféns. Em Setembro e Outubro os Rangers do 3.o Batalhão, do 75.o Regimento de Rangers deslocaram-se à Coreia do Sul para praticar tácticas de pequenas unidades como limpeza de diques e derrube de bunkers. Durante Outubro, os comandos da Força Aérea também treinaram missões simuladas de salvamento de reféns na Área de Treino de Stanford, Thetford, Inglaterra. Entretanto, em águas internacionais a sul de Chipre, os SEALS da Marinha recuperaram o já referido navio tanque abastecido de petróleo num porto líbio sob controlo rebelde. Em Novembro, os comandos americanos efectuaram um raid no Iémen que libertou oito reféns estrangeiros. No mês seguinte, os SEALS realizaram uma missão sangrenta que deixou dois reféns, incluindo Luke Somers, e oito civis mortos. E estas são apenas algumas das missões que conseguiram chegar às notícias.

Querem estar em todo o lado

Para os chefes das operações secretas da América o globo é tão inseguro como interligado. «Garanto-lhes que o acontece na América Latina afecta o que acontece na Africa Ocidental, que afecta o que acontece no Sul da Europa, que afecta o que acontece no Sudoeste da Ásia» declarou McRaven no ano passado em Geolnt, uma reunião anual de executivos de industrias de espionagem e militares. A sua solução para a instabilidade interligada? Mais missões em mais países — em mais de três quartos dos países do mundo, na realidade — durante o período McRaven. E o palco está pronto para mais do mesmo nos anos futuros. «Queremos estar em todo o lado» afirmou Votel em Geolnt. As suas forças já fizeram muito em 2015.

«As nossas nações esperam muito do SOF», afirmou a operadores na Inglaterra no Outono passado. «Eles esperam que executemos as mais duras missões em condições muito difíceis». A natureza e localização de muitas destas «missões difíceis» continua no entanto a ser desconhecida dos Americanos. E Votel aparentemente não está interessado em explicá-las. «Desculpe, mas não» foi a resposta do SOCOM ao pedido de uma entrevista com o chefe das Operações Especiais ao TomDispatch sobre operações presentes e futuras. O comandante recusou disponibilizar fosse quem fosse para explicar o que estão a fazer em nome da América e com o dinheiro dos impostos pagos pelos Americanos. Não é difícil adivinhar porquê.

Votel está agora no topo das histórias de maior sucesso de militares pós 9/11 que tomaram parte em lutas, intervenções sem sucesso, criminalidade crescente, fugas repetidas de segredos embaraçosos e toda a espécie de escândalos chocantes. Com uma rara combinação de gabarolices e secretismo, fugas bem colocadas, publicidade eficiente e trabalho de relações públicas, a figura cuidada de uma mística de super-homem (com uma certa fragilidade torturada para compor) e uma extremamente popular alta visibilidade, com licença para matar, as forças das Operações Especiais tornaram-se o ídolo da cultura popular americana, enquanto o comando tem sido um vencedor permanente nas batalhas de boxe sem luvas travadas em torno do orçamento.

Isto é particularmente relevante dado o que está a acontecer no terreno: em Africa, o armamento e preparação de militantes e o treino de um chefe golpista; no Iraque, as melhores forças de elite americanas estão implicadas na tortura, destruição de casas, morte e ferimento de inocentes; no Afeganistão foi uma história semelhante com relatos repetidos de mortes de civis; enquanto no Iémen, Paquistão e Somália aconteceu o mesmo. E isso é apenas um arranhão na superfície das histórias e dos falhanços das forças especiais secretas.

Em 2001, antes das tropas secretas começarem a sua maciça guerra clandestina em múltiplas frentes contra o terrorismo, havia 33 000 membros do Comando das Operações Especiais e cerca de 1800 membros da elite das elites, o Comando Conjunto das Operações Especiais. Havia também 23 grupos terroristas — do Hamas ao Real Exército Republicano Irlandês — como foi reconhecido pelo Departamento de Estado, incluindo a Al Qaeda, cujos membros se estimavam entre 200 a 1000. Esse grupo esteve inicialmente instalado no Afeganistão e no Paquistão, embora existissem pequenas células a operar em numerosos países como a Alemanha e os Estados Unidos.

Depois de mais de uma década de guerras secretas, espionagem maciça, inúmeros raids nocturnos, detenções e assassinatos para não mencionar biliões e biliões de dólares gastos, os resultados falam por si. O SOCOM aumentou duas vezes de tamanho e o secreto JSOC provavelmente é tão grande como este era em 2001. Desde Setembro desse ano, 36 novos grupos terroristas surgiram, incluindo múltiplas sequelas da Al Qaeda, rebentos e aliados. Hoje esses grupos ainda operam no Afeganistão e no Paquistão — há agora 11 afiliados reconhecidos da Al Qaeda no Paquistão, e 5 no Afeganistão — assim como no Mali e na Tunísia, Líbia e Marrocos, Nigéria e Somália, Líbano e Iémen, entre outros países. Um novo rebento nasceu da invasão americana do Iraque, cresceu num campo de prisioneiros americano e é agora conhecido como Estado Islâmico, controla uma larga fatia desse país e da vizinha Síria, um proto-califado no coração do Médio Oriente que era apenas um sonho da jihad em 2001. Só esse grupo tem uma força de cerca de 30 000 e procura conquistar mais espaço, incluindo a segunda maior cidade do Iraque apesar de ter sido logo de início combatido pelo JSOC.

«Precisamos de continuar a sincronizar as deslocações do SOF através do globo», afirma Votel. «Todos precisamos de estar ligados, coordenados pelo comando». Deixado fora da sincronização fica o povo americano, que tem sido consistentemente mantido no escuro sobre o que andam a fazer e onde estão os operadores especiais da América, já para não falar dos duvidosos resultados, e do ricochete das suas acções. Mas se a história servir de guia, o secretismo das Operações Especiais ajudará a garantir que esta continua a ser uma «idade de ouro» para o Comando norte-americano das Operações Especiais.

Nick Turse é o editor chefe de TomDisppatch.com e membro do Instituto da Nação. Ganhou o prêmio Izzy, escreve do Médio Oriente, Sudeste da Ásia e Africa e tem artigos publicados no New York Times, no Los Angeles Times, The Nation e colabora regularmente no Tom Dispatch. O seu artigo no New York Times, "Matem o que mexer, a verdadeira guerra da América no Vietname", bestseller, recebeu o prêmio do América Book em 2014.

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