29 de janeiro de 2015

Por dentro do Boko Haram

Eric Draitser

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A primeira parte dos artigos sobre o Boko Haram teve como foco o relacionamento do grupo radical com a política interna da Nigéria, assim como a disputa regional por recursos naturais que se desenvolveu ao redor do Lago Chade. O texto revelava as conexões de indivíduos e redes, tanto na Nigéria como no vizinho Chade, que são apoiadores e facilitadores ativos do Boko Haram - e, dessa maneira, participando de um perigoso jogo de desestabilização da região. Naturalmente, a pergunta se torna: por que? É o interesse de quem que essa desestabilização aconteça? Quais são as engrenagens econômicas e geopolíticas fazendo a máquina girar?

Pelos últimos 500 anos, os europeus olharam para a África como uma potencial fonte para riqueza e poder. Desde as primeiras expedições portuguesas até os dias atuais, o Ocidente ambiciona as vastas, e aparentemente infinitas, riquezas do continente: indo do ouro, diamante e outros metais preciosos até as fontes energéticas e, claro, impossível não mencionar, o trabalho humano.

Examinando a complexa rede de relações conectando os eventos na África Ocidental, uma perturbadora, mas nada surpreendente, tendência aparece: ao mesmo tempo em que os interesses econômicos e geopolíticos do Ocidente aumentam, a instabilidade na região também aumenta; enquanto os EUA e a Europa invocam ad nauseam o termo “estabilidade”, a realidade é que o caos e a instabilidade da África servem perfeitamente aos seus objetivos neocoloniais.

A França, por exemplo, que por séculos foi uma potência dominante na África, figura entre os principais personagens desse século XXI na competição para continuar enriquecendo às custas do continente africano. Em suas antigas colônias na África Ocidental, a França novamente se estabeleceu como uma potência militar e, principalmente, econômica. Usando os pretextos siameses de “terrorismo” e “humanitarismo”, a França foi bem sucedida em disfarçar suas reais intenções na região: a pilhagem de recursos minerais e energéticos. Porém, uma vez que o imperialismo nu e cru de outrora é politicamente inaceitável nos dias de hoje, a França tem se apresentado como um benevolente patrão, uma potência altruísta que simplesmente quer ajudar suas antigas crianças coloniais a ficarem de pé, mas não é necessário uma análise muito profunda para deixar claro que aquela França que escravizou o Haiti, colonizou boa parte do Norte da África e explorou impiedosamente a África Ocidental, continua muito viva.

Mas os franceses certamente não são os únicos de olho no potencial econômica do oeste africano. Recentemente, a Alemanha entrou na briga, deixando claro que ela buscar se tornar mais assertiva militar e economicamente na região. Sendo o principal motor econômico da Europa, a Alemanha desfruta da confortável posição de tirar vantagem da combinação de insegurança e enorme crescimento demográfico na África Ocidental. Em Gana, Nigéria e outros países, a Alemanha visualiza um enorme mercado potencial para suas exportações, assim como um melhor posicionamento militar. E, claro, existe o inescapável e intratável poderio militar dos Estados Unidos, que têm silenciosa e continuamente aumentado sua presença militar – ou sua “pegada”, para usar o linguajar dos planejadores estratégicos da Africom (ironicamente com sede na Alemanha) – por todo o continente. Essa ensurdecedora expansão militar silenciosa tem, em sua raiz, o objetivo de cortar a crescente influência econômica da China por toda a África, transformando o continente em uma espécie de “campo de batalhas terceirizado”, onde a desestabilização é uma potente arma. Todavia, será a população africana que pagará com sangue pelas ambições econômicas e geopolíticas do Ocidente.

Conheça o novo chefe, o mesmo antigo chefe

A crescente instabilidade por toda a África Ocidental francófona forneceu ao país europeu a desculpa perfeita para reafirmar sua hegemonia nas antigas colônias. O golpe de estado de 2012 no Mali, a subsequente guerra civil e o crescimento do terrorismo deram à França a abertura que precisavam para estacionar permanentemente suas forças militares por toda a região. Apesar da retórica de democracia, estabilidade e o Estado de direito, a França possui motivações interesseiras. No que diz respeito ao Boko Haram, a Nigéria e a bacia do Lago Chade, a França é o maior beneficiário da extração energética do local, uma vez que seu porto de Le Havre é o destino final do petróleo não-refinado.

Além da energia, os interesses econômicos da França se estendem à lucrativa exploração de minérios por toda a região. No anúncio de uma nova companhia mineradora estatal - cujo governo “socialista” do primeiro-ministro François Hollande investiu mais de meio bilhões de dólares - o ministro da indústrias francês Arnaud Montebourg afirmou que “os países da África francófona gostariam mais de trabalhar conosco [França] do que com empresas estrangeiras”. Naturalmente, deve-se perguntar o quanto de voz esses países, sem mencionar seus cidadãos, têm sobre o assunto.

Além do mais, o uso das palavras “empresas estrangeiras” é bem reveladora. De um lado, parece que na mentalidade da elite empresarial e política da França, eles não são “estrangeiros” quando operando em países francófonos - o neocolonialismo nessa mentalidade é impossível de ignorar; por outro lado, é claro também a quem o francês se referia quando falou de “empresas estrangeiras”: a China.

Somando-se a isso, estão os vastos depósitos de urânio na África francófona. Como a Think Africa Press, relatou em 2014, a “França tem cerca de 75% de sua eletricidade gerada por energia nuclear e é, em grande parte, dependente do Níger para suprir sua demanda de urânio. Essa dependência pode aumentar ainda mais após a recente descoberta do depósito Imouraren, que tem o potencial de produzir 5 mil toneladas de urânio por ano, transformando o Níger no segundo maior produtor de urânio no mundo. A Areva, que tem 87% de suas ações na mão do governo francês - que também é o acionista majoritário em três das quatros mineradores de urânio operando no Níger - está financiando a nova mina”.

O presidente nigeriano Mahamadou Issoufou, é um ex-funcionário da Areva, que apesar de ter maior parte de seu capital francês, possui quase um monopólio na exploração do urânio no Níger. Assim sendo, não deveria ser surpresa alguma que a rivalidade com a Areva vem da Somina, que tem 37% de suas ações na mãos dos chineses”.

Outra evidência da orientação da França de estabelecer a hegemonia em sua “esfera de influência” na África é o documento intitulado “Um parceria para o futuro: 15 propostas para uma nova dinâmica entre África e França“, que pode ser encarada como uma planta para a política francesa na região. Sem dúvida, essa nova ênfase se deve ao fato de que “na última década, a parcela da França no comércio africano caiu de 10% para 4,76%, enquanto a participação da China na África aumentou para 16%, em 2011”.

Os alemães estão chegando

Enquanto o envolvimento da Alemanha na África nunca foi profundo, ou sequer duradouro, como aconteceu com a França, Reino Unido e outros impérios europeus, não se pode diminuir o papel alemão no que tange ao imperialismo. Apesar de a “Partilha da África” no final do século 19 em Berlim ter ficado bem para trás no retrovisor da Alemanha, o país germânico demonstra cada vez mais querer ser um ator no cenário africano – militar e economicamente.

Em uma publicação recente que levou o título de “Diretrizes políticas do governo federal para a África“, o governo alemão aponta que “o potencial da África deriva de seu desenvolvimento demográfico e do fato de que é um enorme mercado para o futuro, com forte crescimento econômico, riqueza em recursos naturais e um grande potencial para a expansão da produção agrícola e segurança alimentar por seus próprios esforços”.

Talvez seja por isso que a chanceler alemã Angela Merkel reiterou o comprometimento do país emfornecer assistência militar (apoio financeiro, treinamento, logística etc.) para sua parceira de longa data, Gana; e é através dessa parceria, que a Alemanha usará Gana como intermediária para expandir sua presença militar na região. Após um encontro recente com os líderes de ambos os países, o site oficial do governo foi de que, em resposta à ameaça do Boko Haram, “Angela Merkel apoiou a proposta do presidente de Gana para fundar uma força de intervenção regional [...] No interesse de promover a paz e prevenir crises, a Alemanha está trabalhando para estabelecer estruturas de segurança, parcialmente através do Centro Internacional de Treinamento para Manutenção da Paz Kofi Annan, fundada há 10 anos com apoio da Alemanha”.

É claro que a Alemanha enxerga em Gana um parceiro viável para aumentar sua presença militar na região. Utilizando o Boko Haram como pretexto, parece que novamente a força militar alemã, aliada com o apoio financeiro, será usada para garantir o acesso ao mercado que a Alemanha tanto precisa.

Assim como a França, a Alemanha busca usar seu aparato militar e a Guerra ao Terror, para garantir sua posição econômica e não ficar para trás na, cada vez mais, posição hegemônica da China.

O elefante (imperialista) na sala

Enquanto Alemanha e França têm claras motivações econômicas para expandir sua presença na África Ocidental, a agenda dos EUA é menos óbvia. Apesar de os EUA investirem pesado na África, os norte-americanos não são tão dependentes dos recursos africanos como são seus aliados europeus. Ao invés disso, a preocupação de Washington é ser ultrapassado pela China, dentro do continente.

Em um relatório de 2013 sobre o investimento chinês na África, constatou-se que “as importações e exportações da China, subiu de 10 bilhões de dólares em 2000, para 166,3 bilhões em 2011″. Isso indica que a China tem rapidamente desafiado a hegemonia econômica dos EUA na África. Ao investir em uma variedade de setores – mineração, petróleo, telecomunicações, finanças e outros – a China se tornou uma alternativa viável aos investimentos e assistência dos EUA, Banco Mundial e FMI. Naturalmente, isso abala as estruturas do establishment político e econômico dos EUA que enxergam na China uma ameaça a seu poder. É precisamente desse desafio vindo da China é que a real motivação para sua expansão silenciosa para a presença militar dos EUA no continente, especialmente na África Ocidental e no Sahel.

Os Estados Unidos também estabeleceram uma vasta rede de bases e instalações de drones por toda a região. Apesar de os oficiais militares se recusarem em reconhecer essas instalações como nada mais que “áreas temporárias de treinamento” ou algum outro eufemismo. Porém, basta uma simples visualização do mapa, combinada com relatórios díspares de diversos meios de comunicação, para perceber uma imagem muito mais traiçoeira do que os EUA estão fazendo.

2012: de acordo com o Washington Post, “um ponto chave na rede de espionagem dos EUA pode ser encontrada em Ougadougou, capital de Burkina Faso [...] Onde um programa confidencial de vigilância chamado Creek Sand, foi conduzido para estabelecer uma pequena base aérea ao lado do aeroporto internacional da cidade. Diversos aviões de vigilância voam centenas de quilômetros até o Mali, a Mauritânia e o Saara, mais ao norte”.

2013: os EUA anunciaram a construção de uma enorme base para drones no Níger, novamente, segundo o Washington Post, “devido a importância estratégica na África Ocidental [...] O Níger faz fronteira com a Líbia e Nigéria, que também têm lutado para combater os movimentos extremistas armados [...] O próprio presidente Mahamadou disse ‘Nós damos boas vindas aos drones [...] Nós dependemos de países como a França e os EUA. Nós precisamos de cooperação para garantir nossa segurança”.

E nisso fica claro a conexão do engajamento militar dos EUA com o Boko Haram e outros grupos terroristas: os norte-americanos utilizam cinicamente a instabilidade da região – causada diretamente pela guerra liderada por eles e pela Otan contra a Líbia – para aumentarem ainda mais sua força militar na África. Como pôde ser observado em setembro de 2014, quando o Marine Corps Times, o jornal do corpo de fuzileiros navais dos EUA, anunciou que “o Corpo estabeleceu três novos postos em Senegal, Gana e Gabão que ajudarão os Marines a responder mais rapidamente às crises na África”.

Sob os auspícios da Africom, os EUA estão presente em praticamente todos os países significantes da região. No Chade, que figura de maneira proeminente na narrativa do Boko Haram, os EUA possuem umcontingente militarestacionado indefinidamente com o objetivo de buscar pelas garotas raptadas de Chibok. Todavia, enquanto os EUA admitem apenas um pequeno destacamento de soldados, a verdade é que as forças dos EUA estão muito mais envolvidas no Chade, de uma maneira ou de outra. Talvez isso esteja melhor ilustrado no fato de que o Chade foi selecionado para sediar os exercícios militares da Flintlock 2015, da Africom, “que terão início em 16 de fevereiro, na capital N’Djamena, com a participação do Níger, Nigéria, Camarões e Tunísia, e terminarão apenas em 9 de março de 2015″. Ou seja, os EUA escolheram conduzir exercícios militares por toda a região, com atenção específica aos países da bacia do Lago Chade.

Os EUA vêm estabelecendo ostensivamente essa rede de bases para propósitos contra o terrorismo e grupos como Boko Haram, Al-Qaeda, entre outros. Mas quem consegue ler nas entrelinhas pode ver claramente que a infraestrutura militar, de vigilância e assistência aos países da região são parte de uma tentativa coordenada dos EUA para conter a crescente influência da China no continente. Os EUA sabem perfeitamente que não são capazes de competir com os chineses em termos de investimento e comércio na África. Assim sendo, os norte-americanos apelam com a única coisa em que têm vantagem, sua força militar; e o terrorismo passa a ser menos uma ameaça, e mais uma janela de oportunidades para cimentar a posição de Washington como dominante hegemônico na África.Talvez, a maior tragédia é que o destino das garotas de Chibok, assim como os inocentes em Baga e outras partes do nordeste da Nigéria, a da África Ocidental, tenha se tornado apenas uma reflexão dentro de um grande esquema imperialista na África. Suas vidas foram reduzidas a moeda de troca para a vantagem da França, Alemanha e, principalmente, EUA.

But of course, mum’s the word when it comes to these uncomfortable truths.  “Nothing to see here,” our fearless media tells us.  Sadly, for the vast majority of people in the West, this is undeniably true; there is simply nothing worth seeing.

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