25 de janeiro de 2015

Grécia mostra o que pode acontecer quando os jovens se rebelam contra as elites corruptas

The rise of Syriza can’t just be explained by the crisis in the eurozone: a youthful generation of professionals has had enough of tax-evading oligarchs

Paul Mason

The Guardian

Tradução / No quartel-general do Syriza, a fumaça do cigarro se amontoa no café, formando figuras. Se pudesse refletir as formas que estão na cabeça dos homens inclinados sobre seus cafés, seriam provavelmente os rostos de Che Guevara, ou de Aris Velujiotis, o militante da resistência grega durante a II Guerra Mundial. São esquerdistas veteranos que esperavam acabar seus dias como professores de matérias esotéricas, como economia do desenvolvimento, legislação sobre direitos humanos, e quem matou quem na Guerra Civil. Ao contrário, eles estão a ponto de chegar ao poder.

Tudo o que oferece o café, além da possibilidade de contrair câncer de pulmão, é apenas café e bolo. Mas na véspera da jornada eleitoral, encontrei seus paroquianos crédulos e perplexos.

No entanto, os escritórios centrais do Syriza não são o lugar para saber mais sobre a radicalização. O fato de um partido que tem “comitê central” chegar inclusive a se aproximar do poder não tem nada a ver com uma mudança repentina da mentalidade grega em direção ao marxismo. Antes disso, atesta três coisas: a crise estratégica da zona do euro, a determinação da elite grega de se prender em uma corrupção sistêmica, e uma nova forma de pensar entre os jovens.

De todas essas coisas, a mais fácil de entender é a crise da zona do euro, pois suas consequências podem ser lidas com grande facilidade nas cifras macroeconômicas. O FMI previu que a Grécia cresceria como resultado de seu pacote de ajuda de 2010. Ao contrário, a economia da Grécia se contraiu em 25%. Os salários baixaram na mesma proporção. O desemprego entre os jovens continua em 60%, e isso entre os que ainda continuam no país.

De modo que a derrocada econômica – pelo qual todos os gregos, tanto de esquerda como de direita, se sentem ressentidos – não é apenas uma derrocada material. Demonstrou uma completa miopia por parte da elite política europeia. Em todo drama e comédia, não há figura mais risível que a de um homem rico que não sabe o que está fazendo. Durante os últimos quatro anos da troika (Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu), ofereceu-se esse espetáculo aos gregos.

Em relação aos oligarcas gregos, seu desgoverno é muito anterior à crise. E não se trata apenas dos célebres magnatas navais, cujo setor não paga impostos, mas dos chefes dos grupos de energia e da construção, e dos clubes de futebol. Tal como me disse um eminente economista grego, na semana passada: “Esses daí evitam pagar impostos desde a ditadura de Metaxas, da ocupação nazista, da Guerra Civil e da Junta Militar”. Não tinham intenção de pagar impostos quando a troika começou a pedir à Grécia que equilibrasse as contas depois de 2010, razão pela qual os gregos foram pegos no sistema PAYE (pay-as-you-earn), uma população ativa de 3,5 milhões, que durante a crise diminuiu para apenas 2,5 milhões.

Os oligarcas permitiram que o Estado grego se transformasse em um campo de batalha de interesses em conflito. Como disse Yiannis Palaiologos, um jornalista grego, em seu recente livro sobre a crise, há uma “irresponsabilidade generalizada, uma sensação de que não existem responsáveis, de que ninguém está disposto ou é capaz de atuar para o bem comum”.

Mas o impacto mais corrosivo é sobre as camadas mais baixas da população. “Aí vai o fulano”, dizem os gregos uns aos outros ao ver os ricos indo para suas mesas em restaurantes da moda. “Esse controla o beltrano no Parlamento e tem uma rusga com o cicrano”. Como numa novela, mas de verdade, e existem muitos gregos atentamente fascinados por ela.

Em três eleições gerais, a conquista do Syriza consistiu em politizar a questão da oligarquia. A palavra grega para falar dela é “os enredados”, e estavam sobretudo enredados no duopólio político centrista. Dado que o Syriza não lhes deve qualquer coisa, o líder do partido, Alexis Tsipras, pôde assim descarregar sua artilharia retórica sobre as questões da corrupção e da evasão fiscal, e isso tocou massivamente os jovens.

E aqui está o porquê. Em uma economia de mercado funcional, o casal clássico em um restaurante de luxo é jovem e de idade parecida. Em minhas viagens pela crise do euro – de Dublin a Atenas –, adverti que o clássico casal de uma época disfuncional é um homem grisalho com uma moça na casa dos vinte anos. Isso acaba em uma história de velhos com poder oligárquico alardeando sobre sua riqueza e influência sem sofrer qualquer retaliação.

Os jovens são usurpados quando a oligarquia, a corrupção e as elites políticas afogam a meritocracia. O repentino surgimento na Grécia de pequenos partidos centristas dirigidos por jovens profissionais carismáticos é prova de que essa geração já teve bastante.

Mas quando começaram a atuar, Tsipras já estava lá.

De fora, a Grécia parece um negativo gigante: mas o que há por trás da ascensão da esquerda radical é o surgimento de novos valores positivos, e entre uma camada de gente jovem muito mais ampla que a base de apoio natural do Syriza. Trata-se dos clássicos valores da geração em rede: independência, criatividade, vontade de tratar a vida como experimento social, atitude global.

Quando surgiu a Aurora Dourada como uma pavorosa e violenta força neonazista, com apoio – em um dado momento – de 14%, o que surpreendeu os jovens em rede foi a quantidade de gente da elite política que os mimou. Os que sabem História podiam ver uma repetição do final de Weimar pululando diante de seus olhos: alguns nazistas alucinados e acolhidos por grandes homens de negócios que ansiavam por ordem.

Venho cobrindo a crise grega desde o começo e o que mudou em 2015 foi isso: que o Syriza já havia ganhado o sólido apoio de cerca de 25% dos eleitores nas questões relacionadas à Europa e à economia. Mas hoje uma parte maior do eleitorado grego, sobretudo os jovens, está dando sinais de que já chega de corrupção e elites.

A Grécia, embora atípica, também tem sido sempre um indicador: isso é o que acontece quando o capitalismo moderno fracassa. Porque burocratas ineptos e elites corruptas existem em todas as partes: só o que lhes protege de ser examinados como a Grécia são os bilhões de dólares criados e bombeados para a economia de seus respectivos países para evitar a queda.

Estamos há dois anos com incerteza eleitoral na Europa, com a extrema esquerda e a direita dura competindo agora pelo poder na Espanha, França e Holanda. A quem vai proclamando este “fim do neoliberalismo”.

Não estou certo disso. A única coisa certa é que a Grécia mostra como poderia terminar.

Paul Mason é editor de economia do Channel 4 News. Seu livro “Postcapitalismo: A guide to our Future” será publicado pela Penguin em 2015.

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