12 de fevereiro de 2015

Ministros do Eurogrupo ao Syriza: Caiam mortos

Yves Smith

Naked Capitalism

Tradução / Apesar dos Estados Unidos ter se intrometido no impasse Grécia versus Troika para pressionar os funcionários da Eurozona a suavizar a posição deles sobre a austeridade, parece que as linhas de batalha só endurecem cada vez mais.

Hoje, 11 de fevereiro de 2015, uma reunião de emergência do Eurogrupo -- um comitê da União Europeia, constituído dos Ministros de Finanças de 19 nações-membros -- começou a negociar sobre um possível “resgate” para a Grécia. Mas não esqueçam: “resgate” não significa que algo ou alguém seja resgatado: o termo é usado para designar especificamente o tipo de “resgate” que tem data marcada para acabar, 28 de fevereiro de 2015. A menos que seja prorrogado, a Grécia não receberá os 7,2 bilhões de euros dos fundos do “resgate” plus 1,9 bilhão de euros adicionais de renda sobre os bônus gregos em posse do Banco Central Europeu, de que a Grécia precisa desesperadamente, segundo muitos observadores. Mas a coligação governante Syriza continua a rejeitar esses fundos de “resgate”, porque vêm associados a medidas de austeridade como “reformas estruturais” para esmagar o trabalho e a classe trabalhadora.

Na segunda-feira (9 de fevereiro de 2015), o Ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, informou a imprensa sobre as suas propostas de reforma. Ainda que os mercados financeiros tenham respondido positivamente às notícias de que os EUA teriam pressionado a Alemanha, e os esforços de Varoufakis para posicionar sua proposta como resultado de concessões, nenhum dos lados moveu-se um milímetro. Como o Financial Times observou, “vários funcionários, na reunião do G-20 em Istambul, disseram que as novas concessões não parecem nem novas nem concessões”.

E apesar das ações dos EUA, funcionários europeus insistem ainda mais fortemente na direção de que a Grécia tem de ceder. Do Bloomberg:

Schaeuble diminuiu muito qualquer esperança de que as negociações possam levar a algum novo acordo, ao dizer em Istambul, ontem, depois de uma reunião de autoridades financeiras do G-20 que se a Grécia não quer receber a parcela final do atual programa de ajuda, “está tudo acabado”. Os credores “não podem negociar sobre novidades” -- disse ele. O presidente do Banco Central Alemão e do Conselho de Administração do Banco Central Europeu Jens Weidmann disse que os esforços gregos para obter financiamento-ponte mediante instrumentos da dívida não permite iniciar nenhuma negociação real.

O comissário para assuntos econômicos da UE uniu-se ao coro dos “nada-feito” e disse à Grécia que o país tem só até o dia 16 de fevereiro de 2015 para obter algum acordo. Da Reuters:

A Grécia terá de pedir uma prorrogação do atual resgate (sic) para dar a ela mesma e à zona do euro tempo para montar um novo acordo, porque hoje não há qualquer plano específico para Atenas, disse na terça-feira (10 de fevereiro de 2015) o comissário da UE para assuntos econômicos... 
A Grécia terá de aceitar uma extensão do resgate e apresentar-se para recebê-lo na próxima reunião dos Ministros de Finanças da Eurozona, em 16 de fevereiro de 2015, disse ele. Sem isso, não haverá tempo para que os parlamentos de alguns países da zona do euro aprovem a prorrogação do programa, antes de que expire, em 28 de fevereiro de 2015.

O Financial Times também registrou o “incômodo” que a Grécia causa aos eurocratas:

Funcionários da União Europeia mostram-se cada dia mais frustrados com o que acreditam que seja má compreensão dos procedimentos da UE pelo novo governo grego, e esperam que a reunião com o Eurogrupo dê ao Sr. Varoufakis a oportunidade de iniciar negociações mais formais sobre como Atenas quer agir.

E essas versões “midiáticas” parecem ser versões polidas das diferenças e de o quanto são profundas. Para uma versão não “suavizada”, ver “Fontes da UE: Relações UE-Grécia azedaram por causa dos vazamentos. Os dois lados estão cada dia mais distantes” (ing) em MNI Euro Insight (excelente trabalho de Jim Haygood).

É fundamental observar que a fricção não é efeito só de os dois lados estarem em posições tão distantes. Os dois lados estão tomando medidas jamais vistas para minar o opositor fora do espaço das negociações. Peter Doyle, economista e ex-funcionário do FMI, explicou em FT Alphaville:

Por outro lado, em uma mudança inacreditável das práticas que se viam durante a crise financeira global -- quando os bancos centrais faziam de tudo para esconder as instituições que recebiam sua ajuda de emergência, por medo de reforçar sinais adversos e aprofundar a crise -- o Banco Central Europeu (BCE) não se cansou de repetir, ufano, o quanto (muito) os bancos gregos precisavam de sua ajuda. E ameaçou abertamente que retiraria qualquer ajuda. Assim, o BCE ameaçou declaradamente que podia fazer voar pelos ares o sistema bancário grego, para fazer funcionar o Euro. Walter Bagehot, pai, no século XIX, dos emprestadores de último recurso, ficaria completamente desentendido. 
Por outro lado, a [coligação] Syriza não gostaria de coisa alguma mais do que de ver crescerem as implicações sobre a dívida soberana de Espanha, Portugal ou Itália relativas ao pulo da Alemanha, sinalizando mais ampla inquietação nos mercados -- que a saída da Grécia da Eurozona ["Grexit"] pode ser iminente, e pode desestabilizar muito gravemente a já atormentada Eurozona -- o que forçaria o Banco Central Europeu a ceder. Assim, a coligação Syriza, associada ao partido Podemos na Espanha e a forças políticas anti-euro na Itália, está abertamente ameaçando fazer voar pelos ares o próprio regime de câmbio, o Euro, para fazê-lo funcionar. Os muitos pais da credibilidade do regime de câmbio ficariam tão completamente desentendidos quanto Bagehot.

Ouvi hoje de uma fonte que conhece as discussões entre EUA e Alemanha, que eles veem sinais de movimento; e que a Grécia tem apoiadores em outras burocracias da Eurozona. Não é inconsistente com o que dissemos, que há um grupo que reconhece que a austeridade fracassou; e que pode servir-se da negociação grega para fazer avançar sua causa; e esse grupo pode a qualquer momento partir para resgatar a Grécia. Mas isso foi antes de tanta gente ter manifestado tantas posições tão linha-dura contra as propostas da coligação Syriza. Os simpatizantes não parecem estar suficientemente próximos das negociações para pressionar a favor de algum acordo.

Seria melhor se eu estivesse errada, mas o que tenho ouvido da leitura que os EUA parecem estar fazendo, tudo me parece a projeção clássica da visão de mundo dos americanos. Primeiro, figurões do governo convencidos de que, se obrigarem a Alemanha a aceitar algum acordo, o resto da Eurozona “obedecerá”. Mas a estrutura não funciona assim. Se a Grécia continua a rejeitar o quadro de austeridade, a Alemanha terá de obter algum tipo de extensão do empréstimo fora da estrutura da Eurozona. Esse processo tem um número muito superior de partes móveis, além de simplesmente “acertar” diferenças sobre, digamos, quanto a menos a Grécia pode obter (se puder), no que está pedindo como superávit fiscal. A suposição da Casa Branca/ Tesouro parece ser que os dois lados vão negociar no âmbito do resgate atual, quando Varoufakis insiste em repetir que não vai negociar. Se ele não se mexer amanhã, a premissa básica da posição dos EUA de que os dois lados poderiam ser empurrados para um acordo estará muito longe de atingir o alvo.

Além do mais, sem pressão do mercado financeiro sobre Merkel, os EUA parecem não ver a extensão da derrota que será, para Merkel, fazer qualquer concessão à Grécia. Temos discutido repetidas vezes que os líderes políticos alemães demonizaram os gregos; o resultado disso é que os eleitores alemães veem os gregos como preguiçosos, pouco aplicados, maus operários, que merecem integralmente a miséria que se abateu sobre eles. Que justificativa encontrariam para assegurar qualquer facilidade agora, aos gregos, nas negociações, se se sabe o quanto os alemães dão grave importância à necessidade de cumprir compromissos assumidos, muito mais do que os americanos? Não há, longe disso, tempo para lançar uma campanha de propaganda pró-Grécia pela imprensa, e modificar a opinião pública alemã. E, como salienta Doyle, os riscos domésticos para Merkel são imediatos e de grande porte:

Assim chegamos à segunda parte dessa aterrorizante eurodança -- a polka que Merkel e os mercados têm de dançar. Na última vez que se viu em passo semelhante, em 2012, com os mercados, Syriza e o Banco Central Europeu, todos, sabem muito bem, Merkel se mexeu; e nós ficamos “com todo o custo” e as Operações Monetárias Relevantes [Outright Monetary Transaction (OMT)] do BCE. Naquele momento, o ministro das Finanças de Merkel, Schäuble, comandava pessoalmente a pressão para expulsar a Grécia. Merkel hesitou, tempo durante o qual os mercados em toda a Eurozona -- e no mundo -- ferveram. Mas em (grande) parte como resultado daquela efervecência, Merkel convenceu-se de que a Alemanha não conseguiria isolar-se do tumulto que adviria depois do Grexit. Então, ela desautorizou seu ministro Schäuble. O mesmo ministro que recebeu inúmeros sorrisos de Varoufakis durante a conferência de imprensa, na semana passada, em Berlim. 
Agora, os mercados não-gregos do Euro estão calmos, e, embora os mercados gregos estejam estressados, não se vê, nem sequer algo parecido, ao pandemônio que com certeza estaria instalado se Grexit estivesse iminente. 
Será tudo isso porque os mercados creem -- e também a coligação Syriza -- que Merkel vai acabar se mexendo, como em 2012, se os gregos manterem firmes? Ou será porque os mercados estão acalmados pelo Quantitative Easing (QE) e acreditam que todos aqueles burocratas acabarão por convencer Merkel de que as eurodefesas para enfrentar Grexit foram “aprimoradas” depois de 2012? É impossível responder antes dos fatos. 
Mas os riscos de má interpretação dos dois lados e sobre os dois lados, entre Merkel e os mercados, nessa questão, são potencialmente catastróficos. Se ela, erradamente, está interpretando a aquiescência dos mercados como evidência de que as defesas são fortes para enfrentar o Grexit, e assim sendo, a Grécia que se vá, mas a aquiescência dos mercados só refletir “Quantitative Easing”, e a convicção de que ela (Merkel) vai se mexer novamente, nesse caso o euro... Bang!. Mas se Merkel mantem-se pela segunda vez, em vez de arriscar-se a interpretar erradamente, é difícil acreditar que Schäuble vai tolerar mais essa humilhação, muito menos logo depois de ser derrotado na questão do “Quantitative Easing”. E se esse ministro entregar o cargo, será prelúdio de tumultos sem precedentes na política alemã. Merkel sempre prefere a opção de menor risco. Mas no contexto atual é difícil saber onde está o risco menor. Assim é a sua dança com os mercados.

Não se deve esquecer o comentário de Schäuble de que, se a Grécia recusar-se a aceitar o atual “resgate”, praticamente nos mesmos termos de antes, nada mais haverá a discutir. O comentário reflete o nível de fé na “austeridade”, digno de Dr. Fantástico, que anima Schäuble. Mas ele também pode estar tentando “ajudar” Merkel a resistir à pressão-chantagem dos EUA.

Há mais uma possível peça, das mais feias, nessa equação. A Grécia recebeu prazo fatal, até 16/2/2015, para pedir prorrogação do “resgate”. A próxima reunião do board do Banco Central Europeu está marcada para dois dias depois, 18/2/2015. A diretoria do Banco Central Europeu faz-se por rotação, e o grupo que assumirá dia 18 tende fortemente para os partidos mais hostis à Grécia. Aquele grupo poderia usar a rejeição grega ao “resgate”, para justificar uma mudança de postura, usando a justificação de que a recusa resultou em aumento considerável no risco, e usar essa argumentação para chutar a Grécia para o calote e/ou umGrexit presumido. O grande ponto de vulnerabilidade é preservar o acesso do Banco Central grego a um sistema de banking europeu através do programa Emergency Liquidity Assistance, ou ELA. Se se leem as regras do ELA, a assistência é pensada para instituições solventes e para operar abaixo de um determinado limite só por “períodos curtos e especificados de tempo”. Os membros votantes dia 18/2/2015, podem impor limites de tempo ou, até, dar passos mais brutais e baixar o limite do ELA para 60 bilhões de euros. Embora Draghi presumivelmente tente moderar as ações do board, pode não obter o suficiente.

Mais confirmações de o quanto improvável é que alguém consiga que os países da Eurozona “aliviem” na hostilidade contra a Grécia, ou, mesmo, que ofereçam alguma solução duradoura no atual contexto, aparecem no Telegraph. Ele sugere que os EUA e o Reino Unido precisam fornecer apoio para estimular uma Europa relutante em desembolsar:

A abordagem da Casa Branca, até aqui, parece ter-se focado em tentar persuadir Berlim a ceder e aceitar a realidade de que a Grécia não pode pagar. Quer também que a Alemanha “alivie” na “austeridade”, na esperança de garantir mais ampla recuperação econômica na Europa. Dificilmente funcionará. A Europa não é país único, e está ainda a décadas de distância de agir como país único. Muito tempo e muita energia já se consumiram tentando manter coesa a Eurozona. Ainda que se encontre meio para sair da crise imediata, só durará até a próxima crise. A Grécia, e talvez também outros países, exigem soluções diferentes, e a saída da Zona do Euro é sempre o primeiro passo, permitindo que a dívida seja denominada em dracmas desvalorizadas, o que aparará bem baixo o cabelo dos credores. 
Implica que a Grécia tem de ser apoiada com programa de apoio internacional construído com realismo, incluindo empréstimos bilaterais dos EUA e da Grã-Bretanha, em vez da insensatez que a Troika tenta impor à força. Sem o mecanismo de ajuste da desvalorização, tudo sempre continuará condenado a fracassar.

E há também questões muito maiores em jogo, como Swedish Lex destaca, por e-mail:

Espero que Obama já seja suficientemente experiente (cínico que chegue) agora para compreender que ele tem de pressionar os europeus para que evitem a autodestruição. Em minha opinião, essa pressão deve vir mediante argumentos de política de segurança, não argumentos econômicos. Uma implosão grega fará descarrilar a “recuperação” dos EUA, mandará o dólar norte-americano à estratosfera (veja que os números de Coke, já caíram muito pelo US-dólar) e fará de Putin o homem mais feliz do planeta. Os planos e ambições de longo prazo de Putin terão impulso inacreditável se/quando a União Europeia começar a desabar. Não esqueça que Putin, o esperto, já está “aquecendo seus relacionamentos”, dentre outros, com a Frente Nacional na França. 
Dividir para conquistar. Nesse caso, Putin nem precisará dividir: os europeus, “liderados” pela Alemanha, dividir-se-ão, eles mesmos.
Esse confronto é visível, e não surpreende que os comentadores deixem-se envolver no drama pessoal, tanto quanto nas apostas altíssimas.

Mas aqui não estamos lidando só com o teatro das negociações muito públicas, de altas apostas. Essa batalha encarniçada é sintoma de que o fracasso da Eurozona, que não consegue dar conta de suas contradições fundamentais, é problema urgentíssimo, cujo encaminhamento não pode ser adiado. Ainda que Syriza capitule nos próximos dias, a grande, imensa ameaça de Marine Le Pen aí está e aí permanece. Seria Merkel, não Varoufakis, quem teria de assumir o estandarte de líder que desafia a convenção, mas a história dela mostra líder cautelosa demais, jogador do tipo de pisca mais do que o recomendável, e que não assumirá o papel que a Europa precisa desesperadamente que ela assuma.

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