7 de fevereiro de 2015

Notas sobre uma reunião de cúpula Canossa-no-rio-Moscou

Philippe Grasset

De Defensa

Tradução / Esse é um daqueles momentos em que temos de pôr de lado as várias hipóteses, os esforços de adivinhação, as constatações que não param de aparecer e de se impor. É preciso manter toda a atenção concentrada no evento, no acontecido, observá-lo e tentar interpretá-lo em relação ao contexto de todos os eventos que nos envolve: o contexto da Grande Crise, da crise do colapso do Sistema. Assim sendo, mais que qualificar a reunião de Moscou (encontro a três Putin-Hollande-Merkel, cinco horas de conversa sobre a questão de um cessar-fogo na Ucrânia) como um “evento histórico” que o congelará no tempo histórico, como se já tivesse significado os efeitos e consequências que significará, é preciso ver nele um “momento histórico”, aquele em que a verdade de toda uma situação geral aparece de repente - concentrada no tempo de um instante. Para muitos dentre os que se disponham a observar esse “momento histórico” pelo que ele é, trata-se de uma revelação. Porque a nova verdade de situação é completamente diferente da narrativa oferecida, se não imposta, pelo sistema, como um patético “mapa-do-caminho” para a interpretação do que acontece segundo o ritmo e a passada que interessa ao sistema.

Não se sabe ainda o que será feito desse “momento histórico”, mas não se deve ignorar o que ele já nos mostrou. Não devemos tampouco descartar a hipótese de que esse “momento histórico” tenha sido uma tentativa de libertar-se das cadeias da interpretação (também chamadas “a narrativa”) que o sistema impõe a todos. Se a hipótese é justa, não significa, contudo, que a tentativa tenha sido bem-sucedida ou que venha a ser acompanhada de alguma transformação da percepção que permita que todos nos aproximemos da verdade do mundo. Tudo isso ficou suspenso como, efetivamente, num “momento histórico” seria a expressão política da ideia poética de "O Tempo, suspender o seu voo." É claro que o tempo histórico da Grande Depressão é muito mais cruel do que o poeta do tempo contemplando o lago, mas nos dois casos trata-se de suspender o tempo para que possamos contemplar as coisas, fixá-las, talvez mesmo alguma nostalgia de tempos passados...

Uma falha e uma ruptura

Numerosos comentários acompanham evidentemente essa suspensão do tempo político que foi a escapada até Moscou - e a conversa gigante, massiva (quase cinco horas!) - que levou a se elaborarem fundamentos de um possível documento de cessar-fogo na Ucrânia que estará talvez pronto no sábado, para ser submetido ao “de-acordo” do grupo informal chamado “os quatro da Normandia” - quantos condicionais, quantas nuanças de prudência, se não, mesmo, de ceticismo, etc... (O grupo chamado “os quatro da Normandia” é totalmente informal, retomando a estrutura dos encontros feitos a quatro - a alemã Merkel, o francês Hollande, o russo Putin, o ucraniano Poroshenko - à margem das cerimônias de comemoração dos 70 anos do desembarque do dia 6 de junho de 1944 na Normandia. Há alguns dias, Poroshenko sugeriu que o grupo fosse ampliado para incluir a União Europeia e - “adivinhem quem mais?” - os EUA. Não é a primeira vez que se ouve essa sugestão. Os EUA nunca pararam de tentar invadir esse grupo e assim esvaziar a força sacrílega da participação negada aos americanos).

Encontram-se em Russia Today, confirmadas como excelente fonte de informação comentada, notas sobre um primeiro aspecto do tal encontro em Moscou. Para marcar uma clara primeira percepção de que a forma, as circunstâncias, o ritmo do encontro põem em evidência uma falha, uma ruptura dentro do bloco BAO entre a Europa - se é que Alemanha e França formam alguma “Europa”, o que ainda não se sabe - e “adivinhem quem?” - os EUA.

Notícias divulgadas pela imprensa sugeriam anteriormente que a visita de Hollande e Merkel a Moscou foi uma decisão repentina, sem consulta a Washington. Depois que Hollande disse na quinta-feira (5 de fevereiro 2015) que “com Angela Merkel, decidimos tomar uma nova iniciativa”, a imprensa francesa passou a sugerir que a decisão de visitar Moscou teria surgido como tentativa de apresentar uma abordagem nova para resolver a crise ucraniana, que seria diferente da abordagem americana. O Nouvel Observateur informou que essa “iniciativa histórica” partida de Hollande e Merkel havia sido precedida por conversas “secretas” entre Paris, Berlim e Moscou. O semanário francês também sugeriu que os líderes da UE estão-se reunindo com Putin “para chegar antes dos americanos, que tentam impor a solução deles a todos os ocidentais: A transferência de armas para a Ucrânia.
Há um claro desacordo entre Washington e Bruxelas quanto a armar a Ucrânia”, diz Nicolai Petro, professor de Política na Universidade de Rhode Island. “Dessa vez parece haver uma real discrepância entre a retórica do lado americano do Atlântico e o lado europeu”, disse o professor à Russia Today. “Dentro da UE claramente também há uma divisão de opiniões. Há nações mais linha-dura: Polônia, os estados do Báltico que vão ainda mais longe, na linha de prover assistência militar aos grupos neonazistas. E há, por outro lado, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Dinamarca que descartaram absolutamente essa via, pelo menos até agora. 
Claro que há diferença na posição. Também há diferença na posição da UE como um todo, porque há diferentes interesses econômicos. A França sempre foi bastante independente dentro da OTAN. A posição da França é, historicamente, bastante diferente da posição da Alemanha” - disse Ann Van Densky, comentarista política da revista EU Reporter, falando à Russia Today. [...] 
A OTAN está flexionando os músculos. Ouvem-se os debates dos Republicanos em Washington, e estão usando uma linguagem muito forte, e estão muito ansiosos por armar as forças de Kiev. Nesse contexto, a Europa tenta promover seus próprios interesses” - disse ela, acrescentando que “ainda não há um entendimento profundo [dentro da Europa] de que se possa impor qualquer tipo de paz sem incluir o povo do Donbass”. Só se encontrará solução duradoura se os interesses do povo do Donbass forem ouvidos e levados em consideração. “Não esqueçamos que a federalização da Ucrânia, que agora é possível, não permanecerá possível por muito mais tempo”. Van Densky destacou o papel especial da França na OTAN e manifestou esperanças de que “serão mais independentes no tratamento ou na abordagem do conflito na Ucrânia. Mas, até agora, os franceses ainda não se mostraram suficientemente independentes para garantir proteção aos interesses europeus.

O analista político Alexandar Pavic disse a Russia Today que “agora cabe ao ocidente reparar as relações com a Rússia, não o contrário”. “Ainda não se sabe se os estados ocidentais farão o que é dever deles fazer” - disse Pavic. Quando a Washington enviar armas a Ucrânia, Pavic crê que esse é o objetivo de Washington e que os EUA não precisam do apoio da Europa para mandar armas para Kiev. “Talvez privadamente os líderes europeus sejam contra a medida, mas até agora não se viu nenhum gesto deles de resistência contra Washington. Na verdade, só fizeram mostrar que, em tudo que tenha a ver com políticas externas, não são entidade independente.”

O “Império” está em superdistensão

Outra notícia do Russia Today, depois da reunião de Moscou, já com Merkel e Hollande de volta aos respectivos lares. Aqui se podem ler longos comentários de um excelente comentarista, ex-editor estrela da United Press International, UPI, Martin Sieff, que atualmente trabalha em Moscou e ampliou muitíssimo sua liberdade para analisar adequadamente os EUA. O comentário é interessante, porque Sieff concentra-se numa apreciação crítica da situação e da posição de Washington.

De mais importante, Sieff oferece o argumento de que o “Império”, esgotado pela própria loucura intervencionista e suas várias loucuras-sistemas, está naquela posição típica dos “fins-de-Império”, de superdistensão [overstretched] de suas muitas intervenções, o que levou o Império a não conseguir assumir todas as suas ações de agressão ao mesmo tempo. Para Sieff, os EUA não podem conduzir simultaneamente a intervenção contra o Estado Islâmico (EI) e a intervenção na Ucrânia, onde instalaram uma situação fora de qualquer controle, com um pseudo-comando dividido de grupos incontroláveis, etc., quer dizer, uma situação tão impotente e tão paralisada pela desordem, como a que se vê no poder em Washington. Portanto, "o problema está em Washington e Kiev, e não em Paris ou Berlim", - ou, melhor dizendo, "o problema estará em Washington e Kiev, e não em Paris e Berlim".

A ravina aparentemente cada vez mais larga entre Washington e as capitais europeias, no que tenha a ver com a crise ucraniana, não passou despercebida, com os críticos dizendo que, de fato, são os EUA e Kiev que estão criando obstáculos no caminho da resolução do conflito. Martin Sieff, colunista do jornal Post-Examiner, falou a Russia Today sobre as negociações da sexta-feira (6 de fevereiro de 2015) em Moscou: “Acho que veremos um documento importante, acho que haverá progresso significativo na direção de implementar-se um cessar-fogo. A chanceler Merkel e o presidente Hollande reconheceram, antes tarde do que nunca, a gravidade do que está acontecendo na Ucrânia. Querem dar um passo atrás, arrancar-se da beira do abismo, querem conter o governo de Kiev, são fortemente favoráveis a um acordo negociado. Os problemas são Washington e Kiev, não Paris e Berlim.

Para Sieff, o “principal ator-bandido” no conflito é o governo de Kiev, que começou apoiado pelo ocidente, mas agora está fora de controle e quer jogar por suas próprias regras em campo. “O ocidente inventou o presidente Poroshenko, mas em muitos aspectos ele é o rabo que balança o cachorro, porque os EUA não conseguem controlá-lo completamente. É o ator-bandido, é o coringa nessa mesa” - disse Sieff. Se Washington segue avante e envia armas para a Ucrânia como os linha-dura americanos exigem, será um “movimento extremamente perigoso”, disse Sieff; e acrescentou que Hollande e Merkel parecem ter “um senso de responsabilidade muito maior” quanto aos esforços para resolver a crise ucraniana.

Eu não acho que eles [o governo dos EUA] estejam considerando a real situação em campo na Ucrânia, e não acho que estejam considerando a situação na Ucrânia dentro do contexto mais amplo das crises que os EUA enfrentam, a outra crise, no Oriente Médio, onde no momento estão tentando conter o EI. Conter o EI é mais do que suficiente, como problema, para os EUA. Depois de duas guerras exaustivas, no Iraque e no Afeganistão, eles não têm cacife para permitir que a Ucrânia se solte, com armas e apoio dos EUA. Seria uma insanidade para os EUA. Entrariam em situação de superdistensão imperial,
disse Sieff.

“Segundo esse crítico, para resolver o conflito, o Presidente Barack Obama e o Secretário de Estado John Kerry dos EUA têm de engolir a vaidade e reconstruir uma relação bilateral genuína, como já existiu antes, com o presidente Putin” - porque os laços entre EUA e Rússia são “o relacionamento estratégico mais importante de todo o planeta”. "O problema é a falta de debate em Washington sobre a responsabilidade das potências ocidentais no atual conflito na Ucrânia, bem como a importância estratégica e sensibilidade dos desenvolvimentos na área para a Rússia, disse ele".

A insano EUA semeia o problema

O detonador da fase atual é um detonador de comunicação; é a evolução complexa, mas que parece inevitável, com um Congresso aquecido a ponto de ignição e uma elite-sistema não menos super aquecida, no rumo de uma decisão, nos EUA, de entregar armamento letal à Ucrânia. Vê-se assim que a reunião de Moscou, para tratar de um acordo na Ucrânia é, essencialmente, na substância, assunto secundário ante a questão do fornecimento de armas; por outro lado, na forma, a reunião está absolutamente conectada e representa um modo de França e Alemanha se distanciarem no atual momento e atuais circunstâncias, de uma decisão “oficial” dos americanos nesse quesito.

Pouco importa, evidentemente, que a coisa (o fornecimento de armas) esteja em andamento e que, decorrido bom tempo, o resultado em campo da “operação” esteja longe de ser o esperado. O que importa aqui é a comunicação - o "efeito anúncio" de qualquer decisão de fornecer armas. Se tal decisão já foi tomada, sobretudo no clima suscitado pela polêmica em torno da decisão, era certo que haveria reações violentas, no próprio terreno, na Ucrânia, e por toda parte; derivação e implicação de eventos e lógica, se a “entrega de armas” estava resolvida, se a situação sobre o terreno - no qual o exército ucraniano está em posição crítica, com a mecânica habitual da escalada sem fim rumo aos extremos tendo conduzido ao envio de soldados “aliados” para a Ucrânia, quer dizer, finalmente e precisamente tropas americanas...

Agora, esse “detonador” funcionou muito bem, antes mesmo de fazer explodir a bomba, a tal ponto que alguns podem temer ou temem que a bomba não passe de um rojão com pavio molhado, e que Washington movimente-se conforme a avaliação de Sieff segundo a qual o “Império” não pode fazer tudo. O detonador “comunicacional” funcionou bem: por todos os lados ergueram-se protestos contra a possível-cada-dia-mais-provável decisão dos EUA, inclusive na OTAN onde os ministros da Defesa dos países-membros pronunciaram-se quase com unanimidade, na quarta-feira (4 de fevereiro de 2015), contra a possível iniciativa dos EUA. A situação é incrível desde que os EUA tiveram que mover céus e terra para não ser completamente isolado (dentro da OTAN...). Assim pudemos ouvir o bravo general Breedlove (Supreme Allied Commander Europe, SACEUR) comandante em chefe das forças integradas da OTAN, engrenando marcha a ré de urgência, dizendo que considera muito seriamente - não é? - que a decisão de enviar armas pode não ser uma boa ideia. (Ver AntiWar, 5 de fevereiro de 2015) Breedlove esteve perto de declarar que a iniciativa não passava de uma loucura completa (“Quem teve essa ideia maluca...” etc.) - logo ele, que promoveu durante semanas a mesma ideia; que é, de fato, um dos “pais” da ideia; mas... Paciência. Em Bruxelas, é melhor abraçar quem você não pode sufocar (quase unanimemente contra qualquer decisão dos Estados Unidos).

Todo mundo fica em outro lugar ... Mas vamos mais longe: se o Ministro da Defesa britânico pronuncia-se novamente e de forma espetacular, para não dizer trovejante, contra enviar armas aos loucos ucranianos de Kiev, é porque provavelmente recebeu discreto estímulo de pessoas em Washington... E Sua Majestade Obama I, sitiado em casa por extremistas - do Congresso em surto de loucura, às Nuland, Powers & Cia. - não queria continuar a enviar as famosas armas e muito apreciaria que seus diversos “aliados” europeus o forçassem a renunciar ao supracitado envio (de armas). Além do mais, os ingleses, que têm uma estranha diplomacia, que vai do insulto anti-Putin à satisfação europeia por uma certa moderação, logo se converteram nos principais entusiastas da iniciativa Hollande-Merkel para irem a Moscou exatamente para que eles não tivessem de ir a Canossa.

Moscou é Canossa, dizem

Canossa, precisamente, onde o imperador Henrique IV teve de ir para fazer sua amende honorable ante o terrível Papa do Ódio, Gregório VII, pondo fim à não menos terrível “Querela das Investiduras”... Quanto a alguns dos quais se pode supor que estejam à beira da histeria, o que se vê pela rapidez com que decidiram e executaram a tal viagem, é preciso apontá-los, denunciá-los: lá se foram eles, direto a Canossa, ajoelhar ante o “Papa Putin”, os traidores! Então, aqui estão alguns.

  • Em Washington, eles são legião: de McCain, que ocupa o trono da Comissão das Forças Armadas do Senado, e diz que o Congresso aprovará qualquer coisa, se o presidente ordenar que se enviem armas aos amigos de Kiev; até os vários neocons/R2P que correm por todos os cantos do governo Obama, lépidos como ratos que entram no gruyère pelos buracos. Acrescente-se a esses os muitos especialistas-sistema, que ganharam carta−branca e que sonham com o dinheiro que podem extrair de cada palmo de terra da Santa Rússia, renascida como por milagre das cinzas da URSS. (Todos se deliciam com relatórios do Pentágono “vazados” para EUA Today segundo os quais Putin seria uma espécie de autista, louco furioso, endemoniado, ainda mais perigoso que o horrendo e temível Ebola). Segunda-feira (9 de fevereiro de 2015), quando Merkel estiver, como se suspeita que estará, no Salão Oval, a teuta sentirá as orelhas arderem, sob os gritos furiosos de todos os livre-pensadores da capital da Potência Indispensável...
  • Em Munique realiza-se nesse fim de semana a famosa conferência daWehrkunde, espécie de Davos das questões de segurança nacional e adepta portanto da mais perfeita adaptação à ortodoxia−Sistema. É provável que se ouçam por lá os rugidos dos ortodoxos da OTAN e dos extremistas do “atlanticismo liberal”, porque não há como esse tipo de reunião para que se exaltem todos os extremismos da política-sistema. É quase inacreditável, mas o tema da conferência está anunciado nu e cru como uma espécie de condenação preventiva da Rússia ao patíbulo, como se lia em Sputnik.News: “Lê-se, no principal documento de trabalho, o tema da conferência: “Russia: bear ou bust” [“Rússia: urso ou [país] falido”]. Tudo leva a crer que Moscou será outra vez confrontada com uma onda de ameaças e de acusações. Mas apesar de tudo, avaliam os especialistas, ainda não será dessa vez que o ocidente conseguirá arrancar a pele do urso russo”. (Devem-se esperar os habituais chiliques, mas já houve ecos, lá dentro, da desordem que reina no mundo real, extra-Ucrânia: a delegação turca abandonou a conferência, ontem, sexta-feira (6 de fevereiro de 2015), depois que foi anunciada, no último minuto, a presença de uma delegação israelense).
  • Na própria União Europeia, às vésperas da abertura da conferência, ouviam-se ecos de manifestações de mau humor por conta da iniciativa de franceses e alemães. Trata-se menos de condenar a orientação que implicava a percepção que se poderia ter da reunião. Problema mesmo foi o modo de fazer as coisas! França e Alemanha pensam talvez que substituem a Europa? Que podem falar em nome da Europa? Apenas um exemplo, dentre vários possíveis, das contradições e inversão de percepções que cercam a Europa, – por que o que seria mais “europeu”, no sentido institucional clássico e ortodoxo que uma Merkel e um Hollande?! Mas eis que desta vez partiram os dois sem qualquer mandato, pensando só nos respectivos interesses, nas respectivas concepções nacionais, e mesmo assim apresentando-se como representantes da Europa... Muita gente percebeu até que (I) a Alta Representante (Ministra Europeia de Relações Exteriores) Federica Mogherini saudou a iniciativa Merkel-Hollande; e que sua saudação foi um modo de dar à iniciativa da dupla uma legitimidade europeia; e que (II) o Presidente da União Europeia, Donald Tusk, esse, ficou em silêncio. É também uma espécie de "réplica" do episódio de segunda-feira 26 de janeiro (veja 29 de janeiro de 2015), onde Tusk tomou a iniciativa, contra todos os usos que reserva esse tipo de ação para Alto representante, para responder diretamente, sem uma consulta adequada dos Estados-Membros sobre um evento na Ucrânia interpretados de acordo com suas concepções poloneses, isto é histericamente anti-russas.

O rei está nu e treme de frio

É inútil elaborar sobre os desdobramentos da reunião Merkel/ Hollande/ Putin, para nos concentrar no essencial, já declarado acima: o que nos diz a tal reunião sobre a situação do mundo no momento em que aconteceu. Seja qual for o resultado, sejam quais forem as consequências, etc., aquela reunião é indicação completamente indubitável da distância que separa os EUA e os europeus (as potências europeias, sem dúvida alguma) quanto à questão ucraniana, quanto à questão das relações com a Rússia e, em termos mais gerais, sobre o modo de abordar as questões de segurança.

Os personagens da peça são o que são, o acontecimento não é suficiente para modificar a percepção que temos dele – no máximo aparecem uma ou outra pergunta: Hollande conseguirá afirmar alguma visão sua, própria, quer dizer, francesa e independente, das questões de segurança, mediante a compreensão da gravidade da situação e das consequências potencialmente catastróficas da política extremista que os EUA querem impor? Merkel virará mais uma vez a casaca, se não trocar logo todos os paramentos, ela também sob o impacto da compreensão da gravidade da situação, depois de constatar que os EUA só fazem acelerar o apodrecimento da situação, com o risco de confronto nuclear, em última instância? Perguntas, certamente nada mais - mas não menos importante, tudo a mesma coisa, isto é, com a substância para justificar pedindo a...

Mas o que aparece à plena luz, e que efetivamente faz da reunião de Moscou um “momento histórico”, é a extraordinária facticidade do atual arranjo e do posicionamento de uns e de outros dentro do Bloco Atlanticista Ocidentalista (BAO), em relação aos interesses de uns e de outros, e segundo as várias percepções tão diferentes umas das outras. Essa facticidade implica uma extrema vulnerabilidade em períodos de tensão como é, toda ela, a época em que vivemos. O que se vê portanto é que o arranjo no seio do Bloco BAO pode, muito, muito rapidamente, transformar-se em desordem no seio do bloco BAO, e que essa desordem tornar-se-á necessariamente, na nossa avaliação, uma “hiper-desordem” que favorecerá o enfraquecimento do bloco BAO (e do Sistema). Assim se abriria eventualmente a via para uma sequência de gravidade extrema, que se deve avaliar como sequência provável final de colapso do sistema.

Deve-se considerar, é claro, que nada está resolvido na Ucrânia, seja qual for o resultado daquela reunião a três. É certo, claro, que os EUA manterão, sob o impulso irresistível do Sistema, a sua política extremista, empurrando-se eles mesmos para o fundo de todas as extremidades possíveis na Ucrânia... Daqui em diante, será cada vez mais próximo de muito provável que os europeus vejam-se cada vez mais empurrados necessariamente para a oposição, contra a política extremista de seu aliado, porque a política extremista dos EUA só faz aumentar as piores probabilidades, e ainda pior, a pior de todas as piores possibilidades (a guerra nuclear)... Essa conclusão, que oferecemos no dia 3 de março de 2014, parece-nos cada dia mais válida, e acaba de ser ilustrada, indiretamente, mas poderosamente por essa reunião em “Canossa-no-rio-Moscou”...

A crise ucraniana, e a percepção de que as pressões do Sistema (do bloco BAO, factótum do sistema) podem levar à catástrofe extrema dos negócios mundiais, podendo também, graças ao “formidável choque psicológico” do qual falamos e ao medo imenso que brota dele, detonar outra dinâmica, de potência inaudita. Nossa hipótese, retomando a ideia da formidável potência simbólica do centenário da Grande Guerra (2 de fevereiro de 2014), é que essa dinâmica é a dinâmica do colapso do sistema. Hoje, ninguém exige o apocalipse nuclear para o colapso do sistema, porque essa tal dinâmica pode acontecer como fruto do pânico psicológico total que nasce da ideia, repentinamente visível, de que o risco de uma guerra nuclear é maior do que nunca...

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