17 de fevereiro de 2015

Quebra das negociações expõe fissura cada vez maior entre Alemanha e Grécia

Yves Smith

Naked Capitalism

Michael: Quando Johnny estava começando, assinou um contrato de serviços com um famoso big-band leader. A carreira dele começou a melhorar, e ele quis cancelar o contato. Mas o band leader não o deixava ir. Agora, Johnny é afilhado do meu pai.. Então, meu pai foi falar com o band leader e ofereceu-lhe 10.000 dólares para deixar Johnny sair, mas o homem disse que não. No dia seguinte, então, meu pai voltou, com Luca Brasi. Em menos de uma hora, ele tinha o contrato rescindido por um cheque de 1.000 dólares.

Kay Adams: Como ele fez isso?

Michael: Meu pai fez uma oferta irrecusável. 
Kay Adams: Ofereceu o quê?
Michael: Luca Brasi colocou a arma em sua cabeça, e disse-lhe que podia escolher: ou a assinatura ou os miolos dele em cima do contrato.

Tradução / Enquanto prosseguem as negociações entre Grécia e os vários membros da Troika, uma das coisas que mais chama a atenção é como todos, sem exceção, matérias de jornal e TV, comentaristas financeiros e outros observadores interessados e razoavelmente bem informados continuam a garantir que algum acordo estará assinado até dia 28 de fevereiro de 2015 -- que é um prazo curto, dada a necessidade de aprovação por vários Parlamentos. Como discutiremos adiante, essa confiança desafia todas as evidências disponíveis, em termos da trajetória das negociações e do modo como terminou a última sessão do Eurogrupo, segunda-feira (16 de fevereiro de 2015).

Calma, não estou dizendo que algum tipo de “acordo” não venha a ser assinado. Mas parece cada dia mais improvável que seja acordo para prorrogar o atual “resgate” dentro da Eurozona. Não implica dizer que não haja outras opções de salvação para a Grécia. Mas temos de compreender bem em que pé estão as coisas: baseados nas posições atuais dos dois lados, não há mais qualquer espaço para negociar uma solução. As margens de barganha dos dois lados absolutamente não se sobrepõem.

E não apenas nenhum dos lados deu qualquer passo: as ações dos alemães ontem (estilo Máfia) tampouco ajudaram a tornar mais atraente a oferta que o Eurogrupo tinha posto sobre a mesa e a Grécia tinha rejeitado na semana passada. Esperava-se da Grécia que captasse a mensagem de que se tratava de oferta que a Grécia não estaria em posição de poder recusar. Assim sendo, embora forças externas possam levar os atores a modificar as respectivas posições, não há razão para supor que as chances pesem a favor de chegarem a algum acordo.

Para uma detalhada recapitulação dos eventos de ontem, vejam Paul Mason of Channel 4; e Ambrose Evans-Pritchard of theTelegraph, e nossos posts (aqui e aqui).

A visão curta é que o lado grego recebeu um memorando do Comissário da União Europeia, Pierre Moscovici, antes da reunião do Eurogrupo; os gregos estavam dispostos a assinar acordo a ser redigido a partir daquele documento. Paul Mason explica por quê:

... o documento... dizia: "Isso [exposto acima] constitui a base para a prorrogação do atual acordo de empréstimo, que pode tomar a forma de um programa intermediário (quatro meses), como estágio de transição para um novo contrato para o crescimento da Grécia, que será deliberado e concluído durante esse período." 
Como isso é exatamente o que os gregos queriam, explica-se o choque e o tom de urgência de suas declarações para a imprensa na segunda-feira (16 de fevereiro de 2015) à tarde, quando o texto foi trocado por outro, com termos muito mais duros.

O problema não-trivial é que Moscovici não era um emissário autorizado da Eurozona. Quando a sessão começou, o chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, apresentou um documento significativamente diferente do que a imprensa alemã tinha informado que havia sido entregue em mãos apenas 15 minutos antes da reunião. Ambrose Evans-Pritchard explica por que essa proposta não poderia sequer ser considerada pelos gregos:

O texto do Eurogrupo dizia "as autoridades gregas indicaram que têm intenção de concluir com sucesso o programa que leva em conta os planos do novo governo". Uma cópia vazada mostra essas palavras rasuradas pelo ministro Varoufakis, que cobriu a lauda de papel com anotações furiosas. 
Parte da disputa parece semântica, mas tem implicações políticas. Os gregos querem um novo arranjo, mas um novo arranjo terá de ser aprovado pelos parlamentos de Alemanha, Holanda, Finlândia e Eslováquia, onde a paciência com a Grécia se exauriu. O Eurogrupo fala de “extensão” do programa, que não tem de ser apreciada e votada nos parlamentos. 
Mas as diferenças são mais profundas. O texto dizia que os gregos têm de manter-se alinhados com “a política fiscal, as privatizações, as reformas do mercado de trabalho, setor financeiro e aposentadorias”. Dizia que a Grécia teria de manter os “superávits fiscais” impostos pela Troika, o que significa que Atenas teria de aumentar o superávit primário no orçamento, de 1,5% do PIB em 2014, para 3% esse ano, e 4,5% no próximo ano.

Para colocar isso em contexto, Dean Baker anota que superávit primário de 4% para os EUA, equivaleria a US$ 720 bilhões.

A verdade é que o Eurogrupo ofereceu alguns ossios aos gregos. Ambrose Evans-Pritchard, outra vez:

O fato é que o texto do Eurogrupo dizia que os credores considerariam “favoravelmente” um pedido de prorrogação técnica do resgate grego, dizendo até que Atenas poderia conseguir uma reserva de € 11 bilhões para recapitalização dos bancos.

Swedish Lex explica, via e-mail, explica que está dirigindo este trem:

Até que se prove o contrário, acredito que Dijsselbloem faz exatamente o que Berlim o manda fazer. 
Superar o atual impasse com concessão como a que se vê no papel de Moscovici significaria mudar o modo como o negócio foi conduzido desde o início da crise. E Merkel não gosta de mudar.

Os funcionários alemães sempre disseram, desde o começo, que são os mais europeus de todos e que estão 100% comprometidos com o projeto. Mas só sob as condições deles mesmos. Os demais terão de ceder. Não são de nuanças. Espero que os funcionários dos EUA saibam disso.

Porque a Tuitosfera estava obcecada com Varoufakis, com as acusações que fazia, que havia sido enganado, se era válido ou não, praticamente todos deixaram passar sem considerar uma questão muito mais grave: os termos do memorando da semana passada eram mais favoráveis à Grécia que os dessa semana. Significa que os dois lados, que nunca deram sinais de qualquer boa-vontade um em relação ao outro, estão andando para separação ainda maior.

Por exemplo, o documento da semana passada estava no nível 50 pés [orig. 50,00 footlevel], com a Grécia comprometendo-se a cumprir suas obrigações financeiras, mas sem menção à questão do superávit primário. Virtualmente todos os comentaristas assumiram que haveria concessão nesse ponto, com os alemães e com países do bloco do norte aceitando chegar aos 3%, talvez menos. Assim também, essa versão escamoteava a questão mais controversa, a das reformas estruturais, com o Eurogrupo a exigir que a Grécia se mantivesse ao programa acordado, e a Grécia querendo cancelar as privatizações de liquidação-total, e gastar mais em programas sociais e para reduzir o desemprego. A versão dessa semana deixou claro que a Grécia não ganhará nenhum alívio naquele front.

A recapitulação que abaixo se lê (agradecimentos a Swedish Lex) é consistente com o que Varoufakis disse na conferência de imprensa:


[Sobre o #Eurogroup essa noite, 16 de fevereiro de 2015

Como vocês já ouviram, as coisas não foram bem. Houve um compromisso de acordo acertado por Draghi, Lagardère e Moscovici. Mas foi afundado por Sjisselbloem, presumivelmente por pressão alemã. Na reunião do Eurogrupo e subsequente conferência de imprensa, Lagardère ou Moscovici pouco ajudaram.

Eles dizem -- completem o programa existente com alguma flexibilidade na implementação de nossa parte. Mas nunca nos dizem o que implica essa ‘flexibilidade deles’. Ao contrário, dizem -- assinem primeiro e depois discutiremos com vocês áreas de flexibilidade.

Nós dizemos -- deem-nos um programa-ponte. E dissemos dos nossos compromissos, não só durante o período-ponte, mas também para os elementos essenciais do nosso acerto de longo prazo com nossos parceiros.

Fizemos o nosso melhor para alcançar um compromisso razoável. Só encontramos pela frente poder e chantagem nus.]

Assim sendo, de onde saiu o descabido otimismo de que se chegaria a algum acordo? Vejam por exemplo o que dizia o Financial Times perto do meio-dia na Europa:

Os mercados financeiros europeus não deram grande importância ao rompimento das negociações entre o governo grego e seus credores na eurozona, que aumentou a probabilidade de o país perder apoio financeiro da UE no final da próxima semana... 
Além da Grécia, contudo, houve silêncio, com analistas manifestando algum otimismo de que o governo grego encontrará um modo de entender-se com os credores internacionais.

Talvez assumam, à moda Máfia, que a Grécia acabará por render-se ao show de violência dos alemães. Mas a coligação Syriza no momento mantem uma situação privilegiada de teatro lotado: os índices de aprovação estão em 81%. Quais as outras razões para essas expectativas tão altas?

Primeiro, é típico de negociações, sobretudo quando feitas sob os olhos da imprensa, manter as aparências de que estão ganhando impulso rumo ao acordo, até que as negociações fracassem completamente. Recordemos que nosso leitor Jim Haygood teve de ir até 1991 para encontrar um exemplo de negociações nas quais uma das partes disse em conferência de imprensa, depois da última rodada de conversas, que a conferência tinha fracassado. Um exemplo recente de mensagem insistentemente repetida ao arrepio da realidade foram as negociações da Parceria Trans-Pacífico no ano passado, quando o governo Obama continuava a repetir que, na verdade, todos os países assinariam o acordo ao final do ano, mesmo quando se sabia que a verdade era outra, graças a vazamentos que mostravam uma forte oposição aos EUA, na linguagem de itens críticos do acordo.

Em segundo lugar, há mais um traço nessas negociações, que chamamos reflexividade negativa [negative reflexivity]. Lembrem dessa sessão de um interessante post em FT Alpahville do economista e ex-funcionário do FMI, Peter Doyle:

Por um lado, em um virada inacreditável das práticas que se viam durante a crise financeira global -- quando os bancos centrais faziam de tudo para esconder as instituições que recebiam sua ajuda de emergência, por medo de reforçar sinais adversos e aprofundar a crise -- o Banco Central Europeu (BCE) não se cansou de repetir o quanto (muito) os bancos gregos precisavam de sua ajuda. E ameaçou abertamente que retiraria qualquer ajuda. Assim, o BCE ameaçou declaradamente que podia fazer voar pelos ares o sistema bancário grego, para fazer funcionar o Euro. Walter Bagehot, pai, no século XIX, dos emprestadores de último recurso, ficaria completamente desentendido. 
Por outro lado, a [coligação] Syriza não gostaria de mais nada além de ver crescerem as implicações sobre a dívida soberana de Espanha, Portugal ou Itália relativas ao pulo da Alemanha, sinalizando mais inquietação nos mercados -- que a saída da Grécia da Eurozona (Grexit) pode ser iminente, e pode desestabilizar muito gravemente a atormentada Eurozona -- o que forçaria o Banco Central Europeu a ceder. Assim, a coligação Syriza, associada ao partido Podemos na Espanha e a forças políticas anti-euro na Itália, está abertamente ameaçando fazer voar pelos ares o próprio regime de câmbio, o Euro, para fazê-lo funcionar. Os muitos pais da credibilidade do regime de câmbio ficariam tão completamente desentendidos quanto Bagehot.

O que isso significa em termos práticos? Qualquer sinal de contágio do mercado de ações trabalhará a favor das mãos que Syriza está jogando. Um dos pressupostos chaves da Alemanha, que os funcionários alemães declararam explicitamente, é que entendem que a Grécia já não representa qualquer risco de contágio. Em estrito sentido financeiro, podem até estar corretos no curto prazo, mas muitos observadores, incluindo os de Obama e do Tesouro dos EUA, acreditam que um país que saia da eurozona pode abrir o caminho para outros, e eventualmente pode haver uma debandada.

Mas a importância de conter o risco de contágio e de impedir que Yanis Varoufakis continue a repetir e repetir a mensagem de que a austeridade é uma armadilha mortal para todos os países periféricos faz subir a ameaça e força os funcionários da Troika a nunca parar de repetir aos seus contatos, sobretudo no ramo dos serviços financeiros, que a Grécia será posta de joelhos, acreditem nisso ou não. Isto é indiretamente confirmado pelos meus contatos que têm proximidade com o Tesouso. O Tesouro estava convencido de que os alemães seriam razoáveis e moderados nas exigências. Quando se soube dos fatos, haviam feito o oposto. Se os alemães não sentem nenhuma obrigação de manter-se fieis à verdade com o governo dos EUA*, muito menos haverá qualquer obrigação de dizer a verdade a meros contatos no setor privado.

Peter Spiegel do Financial Times -- apesar da “barriga” gigante que cometeu na segunda-feira (16 de fevereiro de 2015), pelo Twitter, onde sugeriu que o memorando de Moscovici nunca tinha existido -- tem sido dos mais acurados leitores de folhas de chá sobre os eventos em andamento em Bruxelas. Suas avaliações do fim-de-semana, portanto, antes do rompimento de segunda-feira, eram de que caiam as probabilidades de extensão do “resgate” (mesmo que maquiada) e que a fonte mais provável de alívio financeiro para a Grécia era o FMI.

As atualizações do blog ao vivo do The Guardian tendem ao otimismo, com o francês (até agora sem qualquer serventia) dizendo que as diferenças são realmente semânticas, e os gregos dizendo que um acordo é possível. Mas a Sky News noticia que George Osborne perguntara o que a Grécia faria se não houvesse acordo.

Mas há sinais em outros fronts, muito menos encorajadores. Por exemplo, o Ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble participou de uma conferência de imprensa e confirmou que a Alemanha não tem qualquer interesse em facilitar as coisas para a Grécia:


[A minha conclusão após a conferência de imprensa de Schäuble: Alemanha não vai mover uma polegada e já disse adeus à Grécia, como membro da Zona do Euro.]

No mesmo sentido, Rob Parenteau enviou um matéria do Ekathimerini, de Jan Kregel, intitulada “Banco Central Europeu pode vetar nomeações para bancos”:

O Banco Central Europeu (BCE) enviou um aviso tenso aos bancos gregos, especialmente ao governo de Atenas, via seu Single Supervisory Mechanism (SSM), sobre planos para alterar a administração bancária. Em carta aos bancos gregos, o SSM destacou que qualquer mudança na administração nos bancos só poderá ser implementada depois de aprovada pelo SSM. 
A carta enfatizou que todos os candidatos para os altos postos da administração de cada banco têm de passar por uma sabatina, sem a qual não obterá aprovação pelo SSM do Banco Central Europeu. 
A carta chegou aos bancos horas antes de uma reunião de diretoria marcada no Banco Nacional, na qual se esperava que fossem discutidos os novos nomes para a alta administração. Afinal, a reunião não aconteceu, mas fontes no Banco Nacional atribuem o adiamento mais a motivos técnicos, que à carta. 
Outras fontes contudo dizem que foi a insistência do governo em avançar nas mudanças do Nacional -- apesar de não ter competência para fazê-lo, segundo as regras de recapitalização e a atual estrutura acionária do banco -- que provocou a carta do Banco Central Europeu. 
Um dos nomes cotados para comandar o Nacional é a ex-Ministra da Economia Louka Katseli, com Giorgos Michelis como principal executivo. Consta que o Banco Central Europeu teria objeções ao nome da ex-Ministra Katseli.

Esse incidente sugere que está em curso outra luta, mais básica, e que não aparece diretamente refletida nas negociações entre a Grécia e a Troika. O governo grego e seus credores parecem ter ideias fundamentalmente diferentes sobre quais são os poderes da Grécia. Com efeito, a posição dos vários credores é de que a Grécia “vendeu” parte significativa, se não toda, a soberania grega, em troca do dinheiro do resgate. E os credores montaram um sistema para pagamento da dívida, pelo qual a Grécia não pode livrar-se dos compromissos assumidos. Dito de outro modo, a Grécia foi reduzida a objeto de autoridades de vários níveis da Eurozona, muitas das quais absolutamente não-fiscalizáveis e das quais não se pode exigir nada [unaccountable], sem ter qualquer vantagem por ser membro de uma real federação, a mais importante das quais é receber transferências fiscais. A Grécia, por seu lado, assume a ideia de que ainda é um Estado e tem direitos que não lhe podem ser tirados.

Se esta é a natureza subjacente da discordância, e as dificuldades da negociação são apenas sintomas, não há muito razão para esperar qualquer acordo, exceto se a coligação Syriza capitular. A Grécia está efetivamente exigindo uma mudança na ordem constitucional subjacente -- na qual vários termos impostos para os acordos de “resgate” que os outros Estados da periferia tratam como vinculativos e irrevogáveis. Mudanças em ordens constitucionais são, no mínimo, confusas; em geral só acontecem mediante golpes de Estado ou guerras.

Assim sendo, o que acontecerá se a Grécia não se render? Vamos discutir isso em futuros posts, mas a fórmula mais resumida é que a Grécia atravessará o dia 28 de fevereiro de 2015 sem resgate. Apesar do tranco que o BCE aplicou ao governo grego há duas semanas, nem o muito pessimista Ambrose Evans-Pritchard deixou de acreditar que o BCE não lançará mão do socorro da ELA e deixará quebrar todo o sistema bancário grego. Seria um movimento amplo demais para um corpo não eleito. Mas também podem escalar a pressão sobre os bancos gregos, impondo condições para a assistência emergencial ELA na próxima reunião dessa quarta-feira (18 de fevereiro de 2015). É preciso reunir 2/3 dos votos do comando do BCE, que é rotativo, e que nessa próxima sessão terá uma mesa particularmente hostil à Grécia.

Quer dizer que se a Grécia ainda obtiver a ajuda emergencial ELA, mas não obtiver extensão do programa atual, ficará sem dinheiro, se não houver um novo resgate ou redução na dívida. Isso significa que é um incumprimento. Evans-Pritchard delineia os parâmetros:

A Grécia tem de pagar €22,5 bilhões esse ano, começando com €4 bilhões devidos ao FMI ao longo das próximas seis semanas. O aperto chegará em junho, julho e agosto, quanto tem de pagar €11,4 bilhões, quase tudo ao Banco Central Europeu.

Quanto mais tempo a Grécia conseguir manter-se na luta, mais pode usar o acesso à mídia e, principalmente, o recente status de celebridade que cerca Varoufakis, para convocar partidos anti-austeridade para que pressionem seus respectivos governos. Já dissemos praticamente desde o primeiro dia, que a Grécia jamais conseguirá vencer sozinha essa luta, que precisa do apoio de aliados que consigam pressionar a Troika para que assuma uma linha de conduta mais justa e mais sustentável.

O que pode mudar alguma coisa entre hoje e sexta-feira? O BCE pode impor condições imundas para obrigar a Syriza a cair de joelhos. O Srº. Mercado pode, em teoria, aplicar pressão, o que parece altamente improvável, a menos que os EUA estivessem muito pouco caracteristicamente interessados em assumir o risco. E os EUA poderiam pressionar muito a Alemanha. Sabendo-se que é pouco provável que a Grécia obtenha qualquer ajuda da Rússia em um futuro próximo, a Alemanha parece perfeitamente interessada em converter a Grécia em um estado falido, para marcar um ponto. Na verdade, isso seria um perfeito resultado para desencorajar os demais. Significaria também que à Alemanha pouco importa o resultado de tudo isso, com Grexit ou sem Grexit (o que, como também discutiremos, é menos provável do que muitos observadores pressupõem, por razões legais e uma tonelada de razões práticas), desde que a Grécia apareça em uma situação visivelmente pior depois de ter desafiado insistentemente a Troika.

Mas um estado falido cria as circunstâncias perfeitas para que a Rússia venha a intervir. Primeiro, a Turquia, aliada mais importante do que seria a Grécia, e que ficaria terrivelmente infeliz se a Rússia se pusesse aos afagos com a Grécia, poderia sentir diferentemente se a Rússia conseguisse estabilizar um vizinho caindo aos pedaços. Segundo, seria muito mais barato ajudar a Grécia pós-incumprimento, que agora, e adiante, quase com certeza, os preços do petróleo terão subido bem, o que tornará menor também o custo relativo. Terceiro, a Rússia pode apresentar-se num papel humanitário legitimamente construtivo, depois que a Eurozona, com a cumplicidade dos EUA, deixaram crescer tal crise, com tais dimensões.

Obama e o Tesouro deveriam estar preocupados com esses riscos, mas as ações dessa dupla até agora não chegaram sequer próximas do que é necessário para forçar os alemães a abandonar a posição vingativa e imprudente que adotaram.

Ah, nesse momento #Grexit é o segundo na lista dos Trends Topics do Twitter.

Nota:

* Uma vez que a imprensa alemã informou que o novo memorando foi apresentado ao Djisselbloem 15 minutos antes da reunião do Eurogrupo, parece que este foi concebido como uma manobra para aumentar a pressão sobre Varoufakis, com o documento apresentado a ele no último dia antes do fim do prazo para qualquer acordo. Os alemães podem estar preocupados com a possibilidade de o Tesouro também estar em comunicação com os gregos, e deixaram claro que favoreciam a posição grega. Os alemães podem ter sentido a necessidade de enganar os EUA de que o jogo que urdiram estaria funcionando.

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