20 de fevereiro de 2015

Troika, Grexit ou Plano B?

Michael Roberts


Tradução / Nesta tortuosa saga entre os líderes da Eurozona e o novo governo grego sobre o reembolso da sua dívida do setor público e a continuação do programa de austeridade imposto pela Troika, devemos recordar que a causa de toda esta confusão é o fracasso do capitalismo na Europa e na Grécia.

Sim, o governo Syriza recuou maciçamente da sua posição original de cancelar ou renegociar o fardo "odioso" da dívida e cedeu sobre algumas (muitas?) das medidas imediatas que pretendia tomar acerca da reversão da austeridade e melhoria dos enormemente reduzidos padrões de vida das famílias gregas. Mas isso é inevitável se o governo pretende manter o capitalismo grego dentro ou fora da Eurozona. O capital grego é o mais fraco no espectro do capital europeu, onde a Alemanha e a França são mais fortes. Eles é que dão o tom. 

Assim, o vilão real da peça é o Capital na personagem do capital franco-alemão e dos seus apoiadores nos governos do outros "aflitos" estados da União Monetária Europeia (UME) da Espanha, Portugal e Irlanda, bem como a "Europa do Norte".

Há muitos comentadores, incluindo aqueles na esquerda keynesiana, a queixarem-se de que os alemães estão a ser não razoáveis e estúpidos. Dar aos gregos alguma liberdade de movimento nos gastos públicos e na redução do fardo da dívida ajudaria a restaurar a economia grega e a manter o projeto europeu em andamento face ao acrescido ceticismo do eleitorado da Europa e uma estagnação e deflação da economia do Euro. Como vê, a austeridade não funciona, esse é o argumento (Greece and educating economists).

Mas os alemães não são "irracionais" do ponto de vista do Capital. Os austeritários consideram que o capitalismo europeu não se recuperará a menos que o setor capitalista seja restaurado com alta lucratividade e que o fardo da dívida seja reduzido. Isso significa reformas "estruturais" envolvendo primariamente dizimar o poder do trabalho através de leis anti-sindicais, aumento dos direitos de demissão, redução de benefícios de desemprego e de pensões e mais privatizações. Juntamente com isto, deve haver cortes na despesa pública e na dívida para permitir cortes na tributação corporativa para aumentar a lucratividade. Reduzir custos do trabalho e promover a lucratividade -- esse é o caminho de saída desta depressão (Can austerity work?)

Isto é uma estratégia racional para o Capital. Os keynesianos, por outro lado, consideram que cortar salários e austeridade orçamental apenas corta a "procura efetiva", de modo que a austeridade gera ainda menos crescimento. Na profundidade da depressão, este argumento tem alguma validade, especialmente na Grécia. Mas a essência da recuperação numa base capitalista deve ser um retorno à lucratividade e a elevação de salários ou mais gastos no bem-estar social provocam o oposto (The causes of recovery: austerity, QE and the spending multiplier)

Assim, a intransigência alemã decorre de uma crença ideológica de que a austeridade orçamental e programas de cortes salariais são essenciais. Como os alemães não estão comprometidos com qualquer união orçamental justa na Europa (ver meu post, Red lines and fiscal union), eles não querem fazer quaisquer (ou as mais mínimas) concessões ao Syriza. Além disso, nisto eles são apoiados pelos governos venais, corruptos e neoliberais empedernidos da Espanha, Portugal e Irlanda, os quais impuseram programas Troika aos seus povos e que seriam duramente questionados se houvesse melhores termos a um governo de esquerda na Grécia. Os impotentes governos pró capitalistas sociais-democratas da Itália e da França, ambos tentando impor "reformas estruturais" sobre o trabalho, também concordam com isto.

Infelizmente, a propaganda na Alemanha e a ascensão de forças eurocépticas levaram o eleitorado alemão a acreditar que os gregos são preguiçosos, estão todos com benefícios [sociais], obtêm pensões enormes e são corruptos. Aparentemente 66% dos alemães perguntados não querem que os gregos obtenham quaisquer concessões. Naturalmente, esta caracterização da classe trabalhadora grega é insensata.

Os gregos trabalham mais horas por ano do que qualquer outro país na Europa -- e mais mesmo do que os americanos ou britânicos! E surpreendentemente, são os alemães os "mais preguiçosos", se medido pelas horas trabalhadas.


Embora a produtividade da economia grega no conjunto tenha arrancado de uma base baixa quando em 1999 o país aderiu à Eurozona, o crescimento da produtividade do trabalho desde então tem sido mais rápido do que as economias capitalistas fortes da Alemanha ou França, mais de 25% em comparação com apenas 10% na Alemanha.


A razão porque a Alemanha tem sido tão competitiva não foi porque o crescimento da sua produtividade do trabalho fosse muito bom, mas porque os salários subiram o mínimo, apenas 22% desde 1999 a comparar com quase o dobro na Irlanda e mais de dois terços na Grécia (ver meu post, German capitalism -- a success story?)

Assim, enquanto os gregos viram os seus padrões de vida melhorarem sob o Euro até à chegada da crise, eles fizeram isto trabalhando mais horas e sendo explorados mais do que qualquer outra força de trabalho na Europa. Os maiores ganhadores da adesão ao Euro foram os capitalistas gregos. Os frutos do aumento do crescimento econômico e do comércio foram para eles de forma desproporcional. A fatia dos salários no rendimento nacional grego caiu quase 4 pontos percentuais, uma queda só ultrapassada pela Espanha e ainda maior relativamente do que a sofrida pelos trabalhadores americanos.


Do meu ponto de vista, o Syriza estava correto ao dizer que queria permanecer no Euro e fazer campanha pela remoção do fardo da dívida e reversão da austeridade. Partir do ponto de vista de que a Grécia deve abandonar o Euro e encarar então a "reversão da austeridade" põe o carro diante dos bois e também vai contra as aspirações dos gregos de serem "parte da Europa".

Mas o que está errado com a posição do Syriza (na minha opinião) é ver a questão da dívida e do "espaço orçamental" como a principal (única?) das questões e ter a ilusão de que os líderes do Eurogrupo verão que é do seu interesse salvar o capitalismo europeu de uma grave pancada se a Grécia for atirada para fora do Euro. Como agora sabemos, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, diz que o seu objetivo é salvar o capitalismo das políticas estúpidas do neoliberalismo, obter algum tempo para recuperar e procurar então medidas socialistas por algum meio mais adiante quando o capitalismo estiver em melhores condições (ver meu post fortemente criticado, Yanis Varoufakis: more erratic than Marxist).

O que está errado com a posição da liderança do Syriza e aquela da esquerda dentro do Syriza é que eles colocaram o fardo da dívida e do Euro no centro das preocupações ao invés da substituição do fracassado capitalismo grego como principal prioridade. Quer a Grécia esteja dentro ou fora do Euro isso não restaurará o crescimento e os padrões de vida se o setor capitalista continuar a dominar na Grécia. A dívida do setor público grego nunca poderá ser reembolsada e deveria ser cancelada como odiosa. Mas o custo do seu serviço tem caído para níveis já baixos, de modo que cancelá-la não será suficiente para arrancar a economia.

O governo grego e seu povo devem tomar o controle do alto comando da economia. Isso significa propriedade pública e controle democrático dos bancos e das principais companhias estratégicas, o lançamento de um programa de investimento público para empregos e crescimento e uma pelo à solidariedade dentro da Europa para a alternativa grega contra os governos neoliberais do Eurogrupo. Isso provavelmente levaria a Grécia a ser expulsa da UE, dado o atual equilíbrio das forças políticas. Mas pelo menos o povo grego e o resto da Europa veriam porque os líderes do Euro faziam isso e tinham também um claro Plano B alternativo para implementar (An alternative programme for Europe)

O perigo agora é que o Syriza venha a acordar um compromisso com os líderes da UE que "salve" o capitalismo grego e o Euro a expensas de pouca ou nenhuma melhoria nas condições para a maior parte do povo grego. Tudo o que isso faria seria adiar o choque entre a reversão da austeridade e os interesses do Capital, sem um Plano B no interesse do Trabalho.

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