6 de março de 2015

A belicosidade de Breedlove: Berlim alarmada com a postura agressiva da OTAN na Ucrânia

US President Obama supports Chancellor Merkel's efforts at finding a diplomatic solution to the Ukraine crisis. But hawks in Washington seem determined to torpedo Berlin's approach. And NATO's top commander in Europe hasn't been helping either.

Matthias Gebauer, Christiane Hoffmann, Marc Hujer, Gordon Repinski, Matthias Schepp, Christoph Schult, Holger Stark e Klaus Wiegrefe


Tradução / Na quarta-feira passada havia calma no leste ucraniano. Na verdade, tratava-se de mais um dia calmo numa sequência alargada de relativa calma. As batalhas entre o exército ucraniano e os separatistas pró-russos tinham cessado em grande medida e o armamento pesado estava a ser retirado. O acordo de cessar-fogo de Minsk podia não estar a funcionar perfeitamente, mas estava a funcionar.

Nesse mesmo dia, o general Philip Breedlove, comandante em chefe da OTAN na Europa, dirigiu-se à imprensa em Washington. Putin, disse, tinha de novo “subido a parada” no leste da Ucrânia – com “bem mais do que mil carros de combate, forças de combate russas, alguma da sua mais sofisticada defesa aérea, batalhões de artilharia” a terem sido enviados para o Donbass. “O que fica claro”, disse Breedlove, “é que neste momento as coisas não estão a melhorar. Estão a piorar todos os dias”.

Os dirigentes alemães em Berlim ficaram estarrecidos. Não compreendiam acerca do quê Breedlove estava a falar. E não era a primeira vez que isso sucedia. Mais uma vez o governo alemão, apoiado na informação recolhida pelo Bundesnachrichtendienst (BND), o serviço de informações externas alemão, não partilhava do ponto de vista do Supremo Comando Aliado Europeu (SACEUR) da OTAN.

O padrão tornou-se habitual. Há meses que Breedlove vem formulando comentários acerca das atividades russas no leste da Ucrânia, falando de avanços de tropas na fronteira, da concentração de munições e de alegadas colunas de tanques russos. E, vezes sem conta, os números de Breedlove têm sido significativamente mais elevados do que aqueles que estão na posse dos aliados europeus da OTAN americana. Nestes termos o que ele está a fazer é remeter-se diretamente às mãos da linha dura no congresso dos EUA e da OTAN.

O Governo alemão está alarmado. Estarão os americanos a tentar desviar os esforços de mediação liderados pela chanceler Angela Merkel? Fontes na Chancelaria têm caracterizado os comentários de Breedlove como “propaganda perigosa.” O ministro das Relações Exteriores Frank-Walter Steinmeier considerou mesmo necessário abordar a questão dos comentários de Breedlove junto do Secretário-Geral da OTAN Jens Stoltenberg.

O “Super Falcão”

Entretanto, Breedlove não tem sido a única fonte de atrito. Os europeus têm vindo a encarar outros também como obstáculos à tentativa europeia de conseguir uma solução diplomática para o conflito ucraniano. De entre eles, em primeiro lugar muito destacado está Victoria Nuland, Secretária de Estado Adjunto dos EUA para os Assuntos Europeus e da Eurásia. Ela e outros gostariam de ver Washington a fornecer armas à Ucrânia, e são apoiados tanto por congressistas republicanos como por muito influentes membros dos democratas.

Efetivamente, o presidente Obama aparenta estar quase isolado. Manifestou – até ao momento - o seu apoio aos esforços diplomáticos de Merkel, mas também tem feito muito pouco para acalmar aqueles que procuram a agudização das tensões com a Rússia e fornecer armas à Ucrânia. Fontes em Washington dizem que os belicosos comentários de Breedlove passam sempre pelo visto prévio da Casa Branca e do Pentágono. Ao general, dizem, cabe o lugar de “super falcão” cujo papel é o de intensificar a pressão sobre os mais circunspectos parceiros transatlânticos dos americanos.

É necessária uma mistura de argumentação política e de propaganda militar. Mas já lá vão largos meses em que muita gente na Chancelaria simplesmente abana a cabeça em discordância de cada vez que a OTAN, sob a liderança de Breedlove, vem a público com anúncios bombásticos de movimentos de tropas ou tanques russos. Evidentemente que nem os peritos em assuntos russos de Berlim nem os analistas de informação do BND duvidam de que Moscou apoia os separatistas pró-russos. O BND possui provas desse apoio.

Mas o que incomoda Berlim é o tom dos anúncios de Breedlove. No decurso de um recente debate acerca da Ucrânia, um alto responsável alemão advertiu que alegações falsas e estimativas exageradas colocaram a OTAN – e o Ocidente, por extensão – em risco de perda de credibilidade.

Exemplos não faltam. Há pouco mais de três semanas, no decurso das conversações em Minsk sobre o cessar-fogo, os militares ucranianos advertiram que os russos – mesmo com a maratona diplomática a decorrer – tinham movimentado através da fronteira para Luhansk 50 tanques e dezenas de foguetes. Apenas um dia antes, o tenente general Bem Hodges dos EUA tinha anunciado uma “intervenção militar direta russa.”

Altos responsáveis em Berlim solicitaram de imediato informação ao BND, mas as imagens de satélite dos serviços de informações mostravam apenas alguns veículos blindados. Mesmo os agentes dos serviços de informações americanos que fornecem ao BND relatórios diários eram muito mais reservados acerca do incidente do Hodges nas suas declarações públicas. Um agente dos serviços de informações disse que a forma como o general tirou as suas conclusões “permanece até hoje um enigma.”

Muito mais cautelosos

Um perito militar internacional em Kiev confirmou que “os serviços de informações alemães avaliam o nível de risco de forma muito mais cautelosa que os americanos.”

No início da crise, o general Breedlove anunciou que os russos tinham concentrado 40 000 militares na fronteira ucraniana e advertiu que a invasão poderia verificar-se a qualquer momento. A situação, disse, era “incrivelmente preocupante.” Mas agentes de informação de estados membros da OTAN tinham já excluído a possibilidade de uma invasão russa. Acreditavam que nem a composição nem o equipamento das tropas indicava uma invasão iminente.

Os peritos contradisseram o ponto de vista de Breedlove em praticamente todos os aspectos. Não existiam 40 000 soldados na fronteira segundo a sua opinião, quando muito estariam bastante menos de 30 000 e talvez mesmo menos de 20 000. Para além disso, a maior parte do equipamento militar não tinha sido trazido para a fronteira com vista a uma possível invasão, já lá se encontrava antes do início do conflito. E, ainda, não existia qualquer indício da preparação logística de uma invasão, como a instalação de um comando de campo.

Apesar disso Breedlove produziu reiteradamente declarações inexatas, contraditórias ou mesmo rigorosamente falsas. Em 18 de novembro de 2014 disse ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung que existiam “unidades regulares do exército russo no leste da Ucrânia.” Um dia depois, disse ao site web da revista alemã Stern que não eram unidades de combate, mas “sobretudo instrutores e conselheiros.”

Disse inicialmente que eram “entre 250 e 300”, e depois “entre 300 e 500.” Durante algum tempo a OTAN chegou mesmo a falar em 1000.

O fato de a OTAN não dispor de um serviço de informações próprio é um trunfo para Breedlove. A aliança apoia-se em informação recolhida por agentes dos EUA, Grã-Bretanha, Alemanha e outros Estados membros. Desse modo, o SACEUR tem um amplo leque de informação para escolher a que lhe convém.

Influenciando Breedlove

No decurso de uma visita a Sofia, Bulgária, Breedlove referiu que “temos visto colunas de equipamento russo – nomeadamente tanques russos, artilharia russa, sistemas de defesa antiaérea russos e efectivos de combate russos – a entrar na Ucrânia. “Trata-se”, notou, “da mesma coisa que vem sendo relatada pela OSCE.” Mas a OSCE tinha apenas observado colunas militares no interior da Ucrânia oriental. Os observadores da OSCE nada tinham referido acerca de tropas russas a entrar a partir da Rússia.

Breedlove não encontra qualquer razão para rever a sua abordagem. “ Confirmo todas as declarações públicas que tenho feito no decurso da crise ucraniana,” escreveu ele ao SPIEGEL em resposta à solicitação de uma declaração que acompanhava uma lista das suas controversas afirmações. Escreveu que seria de esperar que as informações do centro de informações da NATO, que recebe informação de todos os 33 membros da aliança e ainda dos Estados parceiros, nem sempre seja coincidente com as informações de nações individualmente consideradas. “É normal que nem todos estejam de acordo com as informações que eu veiculo,” escreveu.

Diz que a estratégia da NATO é de “divulgar informação clara, precisa e oportuna relativamente a acontecimentos em curso.” Escreveu ainda que: “Como aliança baseada nos valores fundamentais da liberdade e da democracia, a nossa resposta a propaganda não pode ser mais propaganda. Apenas pode ser a verdade.”

O governo alemão, entretanto, está a fazer o possível para influenciar Breedlove. Fontes em Berlim dizem que nas últimas semanas têm tido lugar conversas com este objectivo. Mas na sede da NATO em Bruxelas há muitos que estão igualmente preocupados com as declarações de Breedlove. Na terça-feira da semana passada as actividades públicas de Breedlove estavam na ordem do dia do almoço semanal de trabalho do Conselho do Atlântico Norte. Numerosos embaixadores presentes criticaram Breedlove e exprimiram a sua incredulidade perante algumas das declarações do comandante.

O governo em Berlim está preocupado no sentido de que as declarações de Breedlove possam afectar a credibilidade ocidental. O ocidente não pode opor à propaganda russa a sua própria propaganda, “mas deve antes recorrer a argumentos que estejam à altura de um Estado constitucional.” Fontes de Berlim dizem também que se tornou evidente que as controversas declarações de Breedlove surgem em regra precisamente quando se verifica algum avanço nas difíceis negociações que procuram uma solução política. Fontes de Berlim dizem que a Alemanha deveria poder contar com o apoio dos seus aliados nos seus esforços pela paz.

Pressão sobre Obama

Peritos alemães em política externa estão todos de acordo em definir Breedlove como um falcão. “Preferiria que os comentários de Breedlove sobre assuntos políticos fossem inteligentes e discretos,” diz por exemplo o parlamentar social-democrata Niels Annen. “Em vez disso, nos últimos temos a NATO não tem feito outra coisa senão anunciar uma nova ofensiva russa quando, na nossa opinião, tinha chegado o tempo para um optimismo cauteloso.” Annen, que há muito se especializou em política externa, tem-se manifestado frequentemente insatisfeito com a informação fornecida pelo quartel-general da NATO. “Nós, parlamentares, temos ficado frequentemente perplexos perante informação relativa a alegados movimentos de tropas que eram inconsistentes com a informação de que dispúnhamos”, diz.

A pressão sobre Obama por parte dos republicanos, e também por parte do seu próprio campo político, é intensa. No caso do cessar-fogo no leste da Ucrânia falhar, será provavelmente difícil continuar a recusar os pedidos de Kiev para o envio das chamadas “armas defensivas”. E isso representaria uma dramática escalada da crise. Moscovo começou já a avançar com ameaças, antecipando tais fornecimentos. “Qualquer fornecimento de armamento a Kiev irá provocar uma escalada da tensão e desestabilizará a segurança europeia”, disse na quarta-feira Nikolai Patrushev, secretário do conselho nacional de segurança russo, ao jornal russo Komsomolskaya Pravda.

Embora o presidente Obama tenha até ao momento decidido dar uma oportunidade à diplomacia europeia, falcões como Breedlove ou Victoria Nuland estão a fazer todos os possíveis para abrir caminho ao fornecimento de armamento. “Podemos combater contra os europeus, combate-los retoricamente,” disse Nuland no decurso de um encontro privado de funcionários americanos à margem da Conferência de Segurança de Munique, no início de Fevereiro.
Noticiando mais tarde sobre esse encontro, o tablóide Bild relatou que Nuland se referiu à viagem da chanceler a Moscovo, no início de Fevereiro, para conversações com Putin como “a coisa da Merkel em Moscovo.” Não é de admirar, assim, de que as pessoas em Berlim tenham a impressão de que os grupos de poder em Washington estão a trabalhar contra os europeus. Funcionários em Berlim têm dado conta de que, após cada visita de políticos ou militares americanos a Kiev, os responsáveis ucranianos se manifestam muito mais belicosos e optimistas no que diz respeito à capacidade dos militares ucranianos em vencer o conflito no campo de batalha. “Temos então de, laboriosamente, trazer os ucranianos de volta à via das negociações, disse um responsável berlinense.

A diplomacia de Nuland

Nuland, que é vista como uma possível secretária de estado caso os republicanos regressem à Casa Branca nas próximas eleições presidenciais, é uma voz importante na política dos EUA relativamente à Ucrânia e à Rússia. Nunca procurou esconder a sua ligação afectiva à Rússia, dizendo até “Amo a Rússia.” Os seus avós emigraram da Bessarábia, que pertencia então ao império russo, para os EUA. Nuland fala fluentemente russo.

É também muito directa. Pode ser muito interessada e divertida, mas tem sucedido que assuma um tom não-diplomático – e nem sempre tem errado ao fazê-lo. Mykola Asarov, que foi primeiro-ministro na altura do derrubado presidente Viktor Yanukovych, recorda que Nuland fez basicamente chantagem sobre Yanukovych no sentido de evitar maior derramamento de sangue em Kiev durante os protestos da praça Maidan. “Nenhuma violência sobre os manifestantes, caso contrário você cai,” disse-lhe Nuland, segundo Asarov. Ameaçou ainda com duras sanções económicas e políticas tanto a Ucrânia como os seus dirigentes. Segundo Asarov, Nuland declarou que, se fosse feito uso de violência sobre os manifestantes da Praça Maidan, informação acerca do dinheiro que ele e os eus cúmplices tinham feito sair do país seria tornada pública.

Nuland tem também sido – pelo menos internamente – franca no que diz respeito ao seu desprezo pela fraqueza europeia e é famosa a sua declaração “F…. a UE” no decurso dos primeiros dias da crise ucraniana em Fevereiro de 2014. O marido, o neoconservador Robert Kagan é, no fim de contas, quem cunhou a ideia de que os americanos são de Marte e os europeus, incapazes de reconhecer que a verdadeira segurança assenta no poder militar, são de Vénus.

No que diz respeito ao objectivo de fornecer armas à Ucrânia, Nuland e Breedlove trabalham de mãos dadas. No primeiro dia da Conferência de Segurança de Munique, os dois reuniram à porta fechada a delegação dos EUA para discutir a sua estratégia para quebrar a resistência europeia ao armamento da Ucrânia.

No sétimo piso do hotel Bayerischer Hof, no coração de Munique, coube a Nuland iniciar o enquadramento. “No decurso das conversas deste fim-de-semana com os europeus, devem argumentar que a Rússia está a colocar mais e mais material ofensivo e nós queremos ajudar os ucranianos a defenderem-se desses sistemas,” disse Nuland. “É defensivo na sua natureza embora algum dele possua letalidade.”

Treinando Tropas?

Breedlove complementou isto com pormenores militares, dizendo que uma moderada ajuda em armamento era inevitável – de outro modo nem as sanções nem a pressão diplomática teriam qualquer efeito. “Se pudermos incrementar os custos para a Rússia no campo de batalha, os outros instrumentos tornar-se-ão mais eficientes,” disse. “É isso que deveremos fazer aqui.”

Altos funcionários políticos em Berlim têm sempre considerado uma posição comum relativamente à Rússia como um pré-requisito necessário para o sucesso nos esforços de paz. Até ao momento essa posição comum tem-se aguentado, mas o que está em disputa é uma questão fundamental – e assenta na questão de se a diplomacia pode ter sucesso sem a ameaça de acção militar. Acrescenta-se a isso que os parceiros transatlânticos têm também objectivos diferentes. Enquanto o objectivo da iniciativa franco-alemã é estabilizar a situação na Ucrânia, a preocupação dos falcões dentro da administração dos EUA é a Rússia. Querem fazer recuar a influência de Moscovo na região e desestabilizar o poder de Putin. Para eles, a conclusão ideal seria uma mudança de regime em Moscovo.

Há um grande camp de treinos militares em Yavoriv no leste da Ucrânia, próximo da fronteira polaca. Durante a era soviética, serviu como a instalação militar mais a ocidente da União Soviética. Contudo, desde 1998, tem sido utilizado para exercícios conjuntos por forças ucranianas com os EUA e a NATO. Yavoriv é também o local onde os soldados EUA pretendem treinar membros da Guarda Nacional Ucraniana para a sua batalha futura contra os separatistas. Segundo os planos do Pentágono, oficiais americanos treinariam tropas ucranianas no uso de dispositivos de localização de artilharia por radar americanos. Pelo menos é o que o comandante do exército EUA na Europa Tem-General Hodges anunciou em Janeiro.

Este treino estava efectivamente previsto começar no início de Março. Contudo, antes de ter começado, o presidente Obama suspendeu-o, no sentido de dar uma oportunidade ao acordo de cessar-fogo alcançado em Minsk. Apesar disso, os falcões continuam confiantes em que em breve darão mais um passo na direcção do seu objectivo. Na terça-feira, durante uma presença em Berlim, Hodges disse que espera que o treino irá mesmo começar em alguma altura do corrente mês.

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