18 de março de 2015

A previsão da evolução dos principais processos que influenciarão a situação da Rússia em 2015

Mikhail Khazin

World Crisis

Tradução / Eu não escrevi uma previsão para a Rússia por anos. Principalmente, porque não havia muitos pontos - nada havia mudado, as tendências básicas continuavam, e simplesmente não haviam mudanças para descrever. Hoje, a situação está mudando. Isso requer uma nova previsão.

Não vou avaliar as previsões anteriores, muito tempo se passou. Essa previsão começa a partir do 0 (em oposição com a previsão da economia mundial). Vou, no entanto, referir-me a certos aspectos das previsões anteriores porque agora é difícil ter acesso essas fontes mais antigas.

Comecemos com uma descrição da elite russa. As elites russas surgiram durante o processo de desintegração da sociedade socialista do período final, e foram uma espécie de solução para que se cumprissem duas tarefas básicas a elas atribuídas por grupos muito poderosos dentro da população - do crime organizado aos estratos medianos e mais baixos da elite soviética. Aquelas tarefas foram: 1) conseguir a completa eliminação de qualquer responsabilidade que o Estado tivesse para com a sociedade; e 2) garantir a transferência dinástica do status e da riqueza, sempre dentro das próprias elites. A segunda tarefa foi cumprida com a introdução da propriedade privada; a primeira, com a eliminação de toda e qualquer instituição do estado (as que funcionavam mal e, também, as que funcionavam bem).

A partir do final dos anos 90, quando se tornou claro que o estado não poderia existir sem nenhuma instituição (porque tinha surgido o problema de proteger a riqueza obtida no processo da privatização), a política da elite passou por mudanças. Especificamente, se adotaram algumas regras gerais (por exemplo: que não se apelaria à opinião pública, quando se tratasse de decidir disputas dentro das próprias elites). Para fazer funcionar essas regras, foi necessário encontrar um árbitro que não apenas resolvesse os problemas entre diferentes grupos das elites, mas que também explicasse como os ativos dessas elites deviam ser administrados a favor do interesse coletivo das mesmas; e evitar que fossem administrados contra esse interesse.

A busca desse árbitro levou algum tempo, o que, no entanto, foi efetivamente utilizado. O processo de introdução das forças de segurança na elite foi iniciado. Isto não só estabilizou a estrutura da elite, mas as forças de segurança "silovki" também se tornou uma ferramenta que permite o acompanhamento e implementação de arbitragem. Finalmente, um árbitro foi escolhido, aquele que já tinha resolvido problemas semelhantes na capital do crime da Rússia nos anos 90: a cidade de São Petersburgo.

A cidade de São Petersburgo não assumiu apenas as rédeas do poder. Também implantou firmemente o conceito do lugar da Rússia no mundo, a partir do qual aquele próprio árbitro tinha sido criado. É um conceito que se localiza na história perto do final dos anos 50, se não um pouco antes; provavelmente foi introduzido na liderança soviética por Otto Kuusinen e, no geral, articula a ideia da “convergência” - as elites do Ocidente e da União Soviética deveriam “convergir”. Antes de Putin chegar ao poder, a elite russa não tinha levado em consideração o destino da Rússia - nas leituras mais caridosas, eles se viam na posição de “Gauleiters” para o Ocidente. O foco era roubar sempre mais; transferir os ativos roubados para o Ocidente, a fim de protegê-los; e prosseguir, repetindo o mesmo processo pelo tempo mais longo possível. A atual elite ucraniana levou esse processo ao auge. Putin mudou isso (na Rússia).

Deve-se observar que o desaparecimento de alguns membros da elite (Berezovsky, Gusinsky e Khodorkovsky) não foi decisão pessoal de Putin: foi uma consenso definido dentro da própria elite. Os que se recusaram abertamente a seguir o que a elite determinava foram expulsos. Em geral, aconteceu com quem, tendo eliminado a opressão pelo Estado, categoricamente se recusava a subordinar-se a novos códigos, mesmo que voluntários e com âmbito restrito de aplicação. Os demais membros da elite ativamente combateram essa insubordinação; e foram combatidos principalmente os que podiam contar com meios significativos de autodefesa, como a Troika acima listada. Assim foi alcançado o consenso das elites.

Mais importante que isso, Putin agiu para dar ao “Caso Khodorkovsky” um subtexto adicional (o affair foi usado como ferramenta para forçar os 90 oligarcas a pagar impostos). Na Ucrânia, nada houve de semelhante ao “Caso Khodorkovsky”. Os oligarcas de lá não pagam impostos. Os resultados são evidentes. Mas, agora precisamos fazer uma digressão:

A ascensão de Putin ao poder coincidiu com a chegada ao poder nos Estados Unidos do republicano e imperialista linha-dura George W. Bush, que assumiu no dia 20 de janeiro de 2001; poucos meses depois da sua posse ocorreu o 11/9. Do ponto de vista da política interna dos EUA, esse foi o início da crise econômica nos Estados Unidos (eu mesmo disse e alertei em 10 de setembro de 2001, que o governo dos Estados Unidos não daria conta de explicar os resultados econômicos terrivelmente ruins daquele verão; que apontaria razões externas para explicar a situação). Bush realmente precisaria de aliados, porque iria abraçar uma política (a guerra no Iraque) que não seria aprovada pela comunidade mundial.

Se Clinton considerava a elite russa sua contemporânea como selvagens ignorantes que aceitavam pérolas e pedras preciosas para assinarem qualquer tratado (“Sakhalin-2” é um exemplo disso), Bush preparou-se para um período em que teria de garantir alguns direitos a Putin e à Rússia - porque Bush tinha prioridades diferentes. O entendimento que Putin e Bush tinham sobre os problemas mundiais de energia eram semelhantes. Khodorkovsky e suas intrigas chinesas também irritaram Bush. E, assim sendo, Putin recebeu “carta branca” por um período, não só para dentro mas, também, relativamente, para fora da Rússia. Mas essa atividade de política exterior seria bem limitada. Como disse certa vez a Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice: "Os interesses da Rússia terminam nas fronteiras russas."

Por dois mandatos, Putin governou um consenso dentro da elite russa baseado na ideia da “convergência”. Até que, aliviado, renunciou ao cargo. “Trabalhei como escravo de galé” - disse ele, e não é poesia; é uma perfeita compreensão da situação: o gerente contratado trabalhara incansavelmente durante dois mandatos; até que decidiu aposentar-se. Houve novas reuniões dentro da elite e, finalmente, optaram por um liberal dos serviços de segurança, Medvedev, que assumiu a presidência. Em seguida, os problemas começaram.

Eram problemas relacionados com a economia. A crise de 2008 mostrara-se extremamente desagradável para a elite. A elite de início não conseguiu lidar com ela (sem gerência, nenhuma responsabilidade era possível; a responsabilidade foi posta de lado, com mão de ferro). Os fluxos de financiamento secaram; correspondentemente o papel da arbitragem cresceu dramaticamente - e Medvedev não era, evidentemente, um homem suficiente para a tarefa. As melhorias observadas durante 2009 e 2011 haviam sido insuficientes; a elite, então, apelou outra vez para Putin, pedindo-lhe que voltasse. Mais precisamente, uma parte da elite.

A mais zelosamente entreguista e colaboracionista (liderada e coordenada por Voloshin e Yumashev). Para os outros, até a ideia de “convergência” parecia independente demais; recusaram-se completamente a assumir qualquer responsabilidade por qualquer coisa no país. (Especificamente, estavam satisfeitos com a execução mecânica de tudo que o FMI ordenasse para a política econômica do governo). E não queriam voltar ao poder. Montaram até o chamado “processo pântano”, cujo objetivo era gerar dúvidas sobre os resultados das eleições e desqualificar a eleição de Putin.

Como sabemos, o “processo pântano” não foi bem sucedido. Putin não apenas voltou à presidência, mas voltou com um projeto totalmente diferente do que tinha em 2000. No primeiro mandato, Putin foi uma presidente para a elite, um gerente contratado que incapaz de mudar fundamentalmente as regras. Observo aqui que eu não estou dizendo nada sobre seus desejos pessoais - apenas sobre as possibilidades. Depois de 2012, a situação mudou radicalmente - Putin recebeu um mandato do povo e agora tem o direito de fazer mudanças fundamentais.

A necessidade de tais mudanças era urgente. Refiro-me a uma análise por Andrei Fursov publicada há alguns anos atrás. O fato é que a Rússia em sua história encontrou-se, várias vezes, em uma situação muito difícil quando uma necessidade urgente de modernizar entrou em conflito com a relutância categórica de alguns do grupo dominante para a modernização. A estrutura estatal russa herdada do Império Romano, o Império Bizantino (ver http://expert.ru/expert/2014/23/vsplyivayuschaya-vizantiya/), é aquele em que o chefe de Estado atua como protetor do povo contra a elite dominante. Daqui resulta que um governante legítimo tem de, a qualquer preço, implementar a modernização. Ao longo dos séculos tal experiência foi acumulada.

A primeira modernização aconteceu no século XVI. A Europa Ocidental tinha escolhido. Os empréstimos haviam sido legalizados, com o que começou a construção do capitalismo e a era do progresso científico e tecnológico. E logo apareceu a mesma oligarquia conservadora, à qual se chama, genericamente, os Rurikites, para limitar severamente qualquer tentativa de modernização. Foi o tempo de Ivã, o Terrível, e de seus expurgos que pressionaram a elite. Para o povo, Ivã permanece como figura progressista. Isto está de acordo com o padrão bizantino.

Ivã, o Terrível, não completou as reformas que iniciou. Boris Godunov quase as completou (é considerado por muitos historiadores o melhor administrador de toda a história russa). His death interrupted reforms and Rurik took revenge. Incidentally, I do not rule out that the choice of Mikhail Romanov to the throne was the result of a common position in Russian society after a short reign of Basil Shumsky: anyone will do, just not Rurikovich.

As reformas de Ivã, o Terrível, foram finalmente completadas, em parte, por Pedro I. O processo foi atrasado e completado no final, às pressas. As condições naquele momento eram tão difíceis, que a população russa diminuíra. O próprio Pedro entrou para a memória da pátria como o Anticristo.

Depois os problemas novamente se agigantaram na segunda metade do século XIX. Mais uma vez, o principal opositor, contra qualquer mudança, foi o grupo feudal governante (chamados convencionalmente “os grandes duques”), que lideraram as revoluções de fevereiro e de outubro de 1917. A revolução não conseguiu completar a modernização, e a questão reapareceu no início dos anos 1920s. Então, a oposição conservadora, contra qualquer reforma, era os “Velhos Bolcheviques” que queriam gozar a vida, sem sacrifícios pelo país. Stálin surgiu como líder nesse momento (nesse processo de reformas é que Stálin tornou-se um dos governantes mais importantes da história da Rússia); e a modernização naquele momento foi sucesso completo. Vale a pena observar que se tratava do mesmo tipo de governo de estilo bizantino: um líder ao lado do povo, contra a elite.

Nos anos 80, o problema reapareceu. Teoricamente, a modernização deveria ser feita pelo modelo da tradição bizantina, vale dizer, indicar um líder que, apoiado no povo, combatesse as forças do conservadorismo e derrotasse a nomenklatura e a máfia comercial. Recursos havia, se se considerasse a experiência da Bielorrússia nos últimos 20 anos. Nada disso aconteceu assim. Houve uma revolução, mas que levou a nomenklatura ao poder. O primeiro secretário da união de repúblicas aceitou a divisão do país. Todos conhecemos o resto dessa história.

Se a elite “Ocidental” global tivesse conseguido implementar seus planos como foram escritos nos anos 80-90, não há dúvida: mais cedo ou mais tarde, a Rússia seria subordinada. Mas começou a crise (cujas razões discutimos, nos termos de nossa teoria, em http://worldcrisis.ru/crisis/1060229); o resultado é que herdamos uma configuração geopolítica muito complexa, nada fácil de compreender.

A moderna elite russa consiste em três grupos principais. O grupo “liberal-familiar”, cujos líderes convencionalmente são Voloshin, Yumashev, Chubais e Kudrin. São os oligarcas da primeira geração, colhendo os benefícios da privatização, da sonegação fiscal, da corrupção e dos saques contra o dinheiro público à maneira das gangues. São conhecidos como “os liberais”; os serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 00; e as elites regionais, basicamente nacionais, que não se deve subestimar. O principal problema dos liberais é que seus negócios não dão lucro, e sua a capacidade para alavancar o orçamento do Estado para poder reivindicar um tratamento preferencial está decrescendo. Além disso, a luta sem tréguas pelos recursos que ainda restam no país está ficando cada dia mais dura; e a cada dia é mais difícil lavar dinheiro no Ocidente. As opções dos liberais parecem ser as seguintes: a) declarar-se em conflito contra Putin, para voltar à situação dos anos 90. Nesse caso, a Rússia volta ao projeto “somos Gauleiters a serviço do Ocidente”; b) tentar “espremer” ao máximo as ONGs e os grupos alternativos; e c) deixar a Rússia e mudar-se para o Ocidente. A probabilidade de sucesso da opção c) diminui a cada minuto. O Ocidente repetidas vezes disse que não há lugar de destaque para os oligarcas russos no mundo ocidental. Com raras exceções, são empresários incompetentes; se emigrarem, o mais provável é que acabem na miséria.

Esse grupo controla quase completamente as políticas econômicas e financeiras do país, com seu componente burocrático quase diretamente “sob orientação pastoral” da elite financeira mundial (através do FMI). Observo que a elite financeira global - apenas parte da elite do projeto global “Ocidental” - tem, nos últimos 100 anos (depois da criação do Federal Reserve) desempenhado um papel dominante na determinação da política financeira e econômica russa. Na Rússia, os “liberais” são os mais decididos e obcecados opositores de qualquer desenvolvimento (opõem-se também ao projeto da elite ocidental de desenvolvimento; isso, quase com certeza levou à marginalização desse grupo de elite “gerencial”); e há muito tempo deixaram de ter uma agenda política. É o que se vê claramente se se examina o programa do próximo Fórum Econômico de Krasnoyarsk: http://worldcrisis.ru/crisis/1839439.

O segundo grupo - os serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 00 - não têm líderes conhecidos e declarados; em vez disso parecem operar por um sistema complexo de liderança coletiva. Sempre têm várias opções. Primeiro, o grupo dos serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 00 podem pressionar os oligarcas e os empresários “liberais”, convertendo-os em refugiados políticos, em busca de proteção no Ocidente. Essa proteção tende a ser limitada e dependente de atividade política (Khodorkovsky). Esta não seria uma estratégia de longo prazo.

A segunda possibilidade é o grupo dos serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 00 estabelecerem uma rígida autossuficiência e transformarem a Rússia em um estado totalitário. Em certo sentido, é uma intensificação da primeira estratégia acima. A ideia aqui é que, se o Ocidente espera uma crise total, o mais importante para os “liberais” seria sobreviver até que a crise aconteça. Implica que os “liberais” têm de ser arrancados do poder o mais rapidamente possível, porque eles enfraquecem a Rússia, dado que os “liberais” apoiam a hegemonia do dólar e do FMI.

Esse programa é progressista só na medida em que corta os fluxos financeiros a partir dos “liberais” (o que praticamente dobra os recursos para intensificar a modernização econômica sob regime de industrialização pré-guerra). Mas não se sabe ainda com clareza de onde viriam aqueles recursos e como se implementariam programas apropriados. No entanto, uma coisa é clara. Os "siloviki" não podem, por conta própria, implementar os programas apropriados. Eles precisam de mais apoio. Eles terão que criar, a partir do zero, uma elite administrativa para país em todos os níveis. Isso foi feito na década de 30.

O terceiro grupo, que não se deve subestimar, é o das elites regionais, primariamente nacionais. Esses já não querem implementar o programa, estilo 80, de partição do país (que é como interpretam os resultados das reformas nas repúblicas ex-soviéticas); nesse sentido, estão prontos a apoiar qualquer poder forte que se instale em Moscou. Teoricamente, estão mais inclinados a apoiar os “siloviki” do grupo (2a, acima), porque os “liberais” ameaçam levar o país ao colapso e criar instabilidade, mas, por outro lado, lutarão desesperadamente para manter seus privilégios e acesso ao dinheiro público. Em todos os casos, são atores que não se deve subestimar, num país que ainda passa pelo processo de construir pesos & contrapesos de controles democráticos.

Todas as demais forças na Rússia (“esquerda”, monarquistas, russos nacionalistas e outros) estão fortemente marginalizadas e são absolutamente incapazes de fortalecer a própria posição. A única exceção são as forças patrióticas, que ganharam força depois dos eventos na Ucrânia. Esse grupo (3a) ainda não nomeou líderes identificáveis, mas estão ganhando força num nível secundário do grupo (2a) e entre a juventude dos “liberais”. Se a situação econômica do país piorar muito fortemente e muito rapidamente, esse grupo pode rapidamente produzir um novo discurso que poderá influir na configuração política do país.

A situação é ainda mais complicada no vasto mundo exterior. O “caso Strauss-Kahn” rachou a elite financeira mundial e comprometeu o destino do projeto global “Ocidental”. O Fato é que, de acordo com a nossa teoria do desenvolvimento capitalista, os recursos para o desenvolvimento se esgotaram. O resultado disso, o projeto “Ocidente” não vem mais apoiado sobre programa político positivo. Isso levou a crescimento acentuado nos sentimentos de anti-americanismo em todo o mundo; e vê-se, em muitos diferentes países pelo planeta, que chegam ao poder governos conduzidos por uma contra-elite que explicitamente se opõe aos EUA. Embora, em teoria, esses governos não tenham o projeto de destruir o sistema atual, eles acabarão descobrindo que será muito difícil manter o sistema, uma vez que não estão disponíveis os recursos para redistribuição dos fluxos financeiros que vinham dos EUA, sobretudo com a aceleração da crise econômica.

Na realidade, a elite do projeto “Ocidental” está dividida em alguns grupos, que estão em uma disputa feroz entre eles, porque, por efeito e resultado da crise, já não há lugar garantido para todos no “trem da alegria”. Existem basicamente três grupos. O primeiro grupo aqui é aquela parte da elite que não pode separar-se do atual sistema financeiro, baseado na oferta de dinheiro. São os maiores bancos e instituições financeiras, a burocracia global (financeira e política) das elites dos estados nacionais (mas não dos EUA). A situação desses todos é muito ruim, especialmente porque não conseguiram emplacar o “homem deles” (Larry Summers) na presidência do Federal Reserve. Esse grupo controla o grupo gerencial russo “liberal”. São representantes desse grupo todos os funcionários do governo russo; do Banco Central; grupos de especialistas próximos da Escola Superior de Economia, da Escola Russa de Economia e do Gaidar Institute. Nada sugere que tenham muito peso.

O segundo grupo é o dos conectados com a elite nacional dos EUA. Pode-se dizer que têm dois projetos positivos: o “programa maximalista” e o “programa minimalista”. O maximalista tenta criar uma zona franca de comércio entre os EUA e a União Europeia, lançando o resto do mundo num caos total; pode-se chamar esse programa, convencionalmente, de “projeto da cidade na colina”. Em teoria, isso manterá o padrão de vida do meio-bilhão “dourado” (nos EUA e em vários países da Europa Ocidental); e manterá a elite mundial no controle do seu Projeto “ocidental”.

A principal vantagem desse cenário é que assim se mantém o “custeio” que recebem os mais ricos residentes da União Europeia; e a chamada “classe média” nos EUA também será mantida; e isso, por sua vez, mantém o modelo sociopolítico dos EUA. Se não funcionar, há um plano B.

Se esse projeto não se completar (tenho minha opinião sobre isso, mas essa discussão não cabe aqui), a opção sempre será derrubar as áreas monetárias do mundo, inclusive o dólar que os EUA comandam; e o euro, incluindo a Europa Ocidental. Resultará inevitavelmente em degradação tecnológica e em terrível queda nos padrões de vida. Esse cenário deve ser evitado.

O terceiro grupo é aquela parte da elite financeira mundial (repito: é a maior e mais rica parte do projeto global “ocidental” da elite), não diretamente relacionada com os EUA. A base dele – a parte financeira do ex- Império Britânico, usualmente associado ao nome “Rothschild”. Há provas indiretas de que o principal objetivo desse grupo é, simplesmente, empurrar todo o mundo para dentro de blocos comerciais, com o grupo R encarregado do sistema de compensações entre todos. Esse grupo evidentemente não apoia a opção “mansão no alto da colina” – sob a qual a posição deles ficaria dramaticamente enfraquecida. Por essa razão, esse grupo tem buscado contatos entre os “siloviki” na Rússia e tem apoiado ativamente ações que visam a criar um sistema financeiro do rublo e a integração eurasiana, vale dizer: a criação do rublo como moeda de reserva.

Com base no alinhamento descrito acimas, cobrimos quase todas as tendências ativas hoje na Rússia. Os “liberais” levaram a economia russa à crise. A recessão começou realmente no final de 2012. Mas o sistema financeiro global precisa de recursos. (O fluxo de liquidez que brotava dos burocratas americanos foi gradualmente reduzido até virar um pingo). Eis a razão pela qual o Banco Central e o governo russo (o Ministro das Finanças, em primeiro lugar) continuam a encorajar ativamente o retorno de capitais, aumentando as reservas denominadas em dólar (apesar de bem conscientes de que há boa chance de esse dinheiro jamais voltar). Mas estão com muito medo de serem derrubados do poder, porque não têm recursos orçamentários e administrativos alternativos. Se acontecer, perderão o patrimônio que tiverem na Rússia por um ano ou dois; mas no ocidente, sem apoio da Rússia, seriam marginalizados por vários anos.

Do ponto de vista dos interesses nacionais (e posição de quem recebeu mandato popular), Putin deveria já ter expurgado os liberais há muito tempo. A atitude dele em relação aos “decretos de maio” [2012] deixa isso bem claro. Mas há aí um fator do jogo político, porque só há dois centros ativos de poder. Nesse quadro, se eliminar os “liberais”, Putin se tornará completamente refém, dependente, dos “siloviki”. E automaticamente perderá toda a liberdade de movimentos, o que tornará ainda mais difícil cumprir os compromissos que assumiu ao ser eleito.

Acho que essa é a causa pela qual Putin não expurgou os funcionários “liberais” de seu governo, que o sabotam abertamente. A demissão dos “liberais” indicaria também aguda escalada da linha do anti-EUA; seria a contra-elite chegando ao poder; e seria confronto aberto com os EUA. Muito claramente, a Rússia não está pronta para isso – especialmente no plano econômico. Há ameaça real de sanções cada vez mais pesadas, e temos fragilidades terríveis em nossa economia. Ainda não temos nem estoques de sementes de grãos, nem fazendas de criação, sequer temos ovos para renovar nossos estoques para granjas de criação e corte. Em tal situação, qualquer movimento brusco pode levar a crise.

Nos últimos anos, a situação que descrevemos manteve-se em geral estável, com “liberais” e “siloviki” disputando a supremacia na administração e obtendo só pequenas vitórias para um ou outro lado. Recentemente, o nível do conflito escalou continuamente, por causa de extremas pressões externas (Ucrânia) e porque o tamanho da elite comum (pontos em que convergem opiniões de todos os grupos) não parou de encolher. Vê-se que aquele consenso, criado nos anos 90 pelo processo de privatização e a destruição do sistema soviético (incluindo judiciário e militar) só incluía os liberais. Mas os “siloviki” encaixam-se perfeitamente no mesmo sistema e o apoiam. De fato, nesse sentido, a tarefa de modernização, para a própria sociedade (e talvez também para Putin) não é muito diferente dos problemas que tiveram Ivã o Terrível, Pedro I ou Stálin.

Os problemas da Ucrânia, ano passado, exacerbaram essas contradições - e transformaram a situação, a partir do lento processo ao qual se assistiu nos últimos anos (motivo pelo qual não escrevo mais previsões para a Rússia). Hoje, existem alguns cenários, que vale a pena enumerar.

Em primeiro lugar, os eventos ucranianos impactaram seriamente a posição política dos “siloviki” (o grupo dos serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 00). Antes da Ucrânia, eles não tinham posição firme sobre o mundo exterior. Em geral, sempre seguiram o discurso dos “liberais”. O único desacordo foi quanto às posições a negociar com a elite do projeto “Ocidente”. Hoje, já se veem vários “partidos” claramente esboçados. Assim se cria a oportunidade de que, em vez de um sistema de “siloviki”+”liberais” com os “regionais” como contrapeso, crie-se algum outro sistema de pesos e contrapesos. Dentro das forças de segurança, distinguem-se hoje os patriotas-monarquistas; um pouco menos claramente recortados, alguns “neoliberais”; e se vê também, emergindo, um partido da renovação socialista. Esse último ainda é quase que só embrião de organização, mas, na luta contra os monarquistas, que realmente querem restaurar a monarquia (e, mesmo, devolver o trono aos Romanovs), a renovação socialista pode realmente ganhar tração e crescer.

Como é frequentemente o caso, a consolidação dentro destes contra os partidos políticos se dá devido a fatores externos. Os “Patriotas-Monarquistas” são orientados pela velha elite da Europa Ocidental, que claramente busca uma chance de vingar-se contra o projeto “Ocidente”, pelas derrotas nas duas guerras mundiais. Em alguns países, esses monarquistas têm tido considerável sucesso local (Hungria), e o comportamento desse país sugere fortemente quem pode ser seu aliado estratégico. Ao mesmo tempo, os “patriotas-monarquistas” contemplam um modelo econômico russo estritamente autárquico. Nem todos apoiam qualquer forte integração com países não eslavos. Os nacionalistas russos desempenham papel importante aqui, que muda conforme quem seja visto como parceiro na Europa Ocidental.

Os “neoliberais” cuja formação é ainda mais difusa que a dos “patriotas” têm, como principal parceiro, os mesmos “Rothschilds” mencionados acima. A política deles é integração eurasiana extensiva (plena união monetária, sistema autolimitado de divisão do trabalho, com um mínimo de 500 milhões de consumidores); criação de uma zona monetária do rublo, trabalhando em íntima conexão com os governantes das demais zonas monetárias, inclusive com os “isolacionistas” norte-americanos que podem chegar ao poder nos EUA, nas eleições de 2016. A anotar que esses dois grupos (os “siloviki”, grupo dos serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 00; e os neoliberais) opõem-se, ambos, ao projeto “ocidental” da “cidade na colina”

Mas também há diferenças importantes entre eles. Os “siloviki”apoiam o papel da religião ortodoxa, que limita (mas não impede) a integração eurasiana para além dos países puramente eslavos, o que limita, até certo grau, a coordenação com os atuais líderes do projeto “ocidental” que têm limitações semelhantes na interação com a China. Os neoliberais são muito mais pragmáticos, cooperando ativamente com a parte da elite do projeto “ocidental” e também com a China (de fato, com maior proveito). Não “amam” a Igreja Russa Ortodoxa, considerada conservadora e inflexível demais; mas não negam o seu papel de consolidação. Claramente enfatizam o papel de países não eslavos dentro da integração eurasiana (Turquia, Ásia Central). Eles consideram seriamente a possibilidade de trabalhar com vários países islâmicos.

Esses dois grupos têm, ambos, um mesmo problema grave, crítico, que se tornará gravíssimo, fundamental, em futuro próximo, conforme se adaptem para formar suas posições políticas. Ambos têm a visão de que a sociedade a ser construída na Rússia não deve seguir o modelo social de sociedade. A sociedade claramente não aceita essa posição. Isso é que explica os números estratosféricos de popularidade de Stálin (que, na Rússia sempre aparece associado à ideia de que o poder é subordinado à sociedade) e de Putin. Além disso, no caso contemporâneo, o ocidente têm cometido erros muito graves, em suas “avaliações”. O ocidente construiu uma dicotomia de Khodorkovsky & Navalny (apresentados como se fossem “pais da democracia russa”) versus Putin “o carrasco sanguinário”. Foi o que bastou para que 90% dos russos, que conhecem, pelo menos, com certeza, Khodorkovsky & Navalny, se atirassem, satisfeitíssimos, nos braços de Putin.

Além disso, os problemas econômicos não são caso só russo, e também estão presentes em outros países que devem ser incluídos na “zona eurasiana”. É preciso criar novos slogans para compensar a competição implícita no processo de integração. Aqui, me parece, o elemento chave está nas ideias do socialismo. Além do mais, conforme caiam os padrões de vida, as ideias socialistas inevitavelmente voltarão à tona na vida russa, cada vez mais fortes. Até agora não há praticamente nenhum grupo político capaz de articular um programa desse tipo.

Agora, só falta completar uma descrição geral daqueles grupos que interagirão uns com os outros em 2015. Parece-me que a consolidação desses grupos será o principal fator que determinará a situação no país no ano em curso. Aqui, comento alguns dos pontos mais importantes.

Primeiro, Putin não removerá o governo “liberal” nem o comando do Banco Central, enquanto as divisões comentadas acima dentro do grupo dos “siloviki” (2a, acima: “o grupo dos serviços de segurança e os oligarcas de segunda geração dos anos 2000s”) não tomarem forma de partidos distintos. Se o Ministério da Defesa vier a ser fortalecido, ali se criará um ponto focal que atrairá o grupo dos representantes das várias agências do Judiciário e da Polícia. O segundo grupo, provavelmente, se constituirá como um projeto puramente político. Seu potencial eleitoral deve tornar-se palpável em torno da crítica dura contra as privatizações e a corrupção das políticas dos “liberais”. Devem buscar cooperação com os conhecidos “Rothschilds” e os “isolacionistas” norte-americanos. Há boas razões para crer que os esforços desse grupo serão apoiados pelos correspondentes grupos na elite global – apoio que pode vir a ser a base para pôr fim às sanções contra a Rússia.

Permitam-me repetir: Creio que a capacidade para remover o governo dos “liberais” só aparecerá depois que se defina o partido dos “neoliberais” e que esse partido consiga apresentar sua visão econômica ao país.

Quanto ao curso para o socialismo, deve ser apresentado à sociedade pelo próprio Putin. Eu acredito firmemente que seria uma estupidez abandonar a tradição bizantina de pôr-se uma cabeça política para proteger o povo contra o Estado. (Historicamente, nenhuma outra tradição foi bem-sucedida). Na verdade, os “decretos de maio” pareciam andar nessa direção. Aconteceu que, depois de dar aquele primeiro passo, Putin não deu o segundo passo. Essa direção lhe assegura real apoio da sociedade, não só em pesquisas de popularidade, mas para implementar programas de desenvolvimento. As elites regionais também apoiarão (de algum modo, limitadamente) essa via. O que realmente importa é que essa é a única direção que fará aumentar a autoridade e a respeitabilidade da Rússia no mundo, inclusive no mundo islâmico. Observo que os processos atuais para melhorar a credibilidade da Rússia e de Putin, pessoalmente, só fazem exibir o espectro renascido da URSS como alternativa ao projeto “ocidental” de globalização.

Como escrevi anteriormente, o projeto “ocidental” não tem programa progressista, mas tampouco há programa progressista na Rússia de hoje. E sem um programa progressista, a alternativa é sempre uma luta banal por recursos, na qual, de fato, praticamente não temos qualquer chance de sucesso. Mas, apareçamos com uma narrativa consistente de valores progressistas e agenda política positiva, e o adversário não terá qualquer chance. O papel dos recursos diminuirá muito. Nesse caso, nós teremos não só uma chance considerável: teremos uma chance muito considerável.

Eu vou terminar aqui. As “previsões” acabaram por só prever muito relativamente. Entendo que um dos pontos principais é a emergência de um partido “neoliberal”, sem o qual não se eliminará o partido “liberal” na Rússia. Mas não sei quando acontecerá. Não há qualquer certeza, sequer, de que aconteça ainda esse ano. Enquanto os “liberais” continuarem no poder, a crise continuará e continuarão também as sanções contra nós. Tampouco se pode prever quando Putin começará a construir e expor ideias para um governo socialista (nem que seja só parcialmente socialista). Minha opinião é que, se não fizer isso, o frágil consenso que há em torno dele será rapidamente destruído, mais cedo ou mais tarde, e ele terá de sair. E se Putin sair, essa “previsão” é suficientemente sincera e aberta a ponto de “prever” que a situação disparará, possivelmente fora de qualquer controle.

Geralmente, eu peço desculpas para aqueles que queriam dados precisos sobre as despesas orçamentais, o rublo, e assim por diante. O grau de incerteza é demasiado elevado. Só se pode falar sobre os processos básicos e agrupamentos. Eu tentei descrever estes.

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