10 de março de 2015

Mentiras e provocações da OTAN

Dividindo a Aliança Atlântica

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

"A guerra foi provocada para destruir o mundo russo, arrastar a Europa para a guerra e cercar a Rússia com países hostis. Ao desencadear essa guerra planetária, os EUA tentam encontrar alguma saída para seus problemas internos."
Sergey Glazyev, Conselheiro do presidente Vladimir Putin

Tradução / As elucubrações acima, do principal comandante da OTAN na Europa, general Philip Breedlove, meteram uma cunha entre a Alemanha e os EUA que pode levar ao colapso da Aliança Atlântica. Segundo a revista alemã Der Spiegel, Breedlove várias vezes sabotou as tentativas da chanceler Angela Merkel para encontrar uma solução diplomática para a guerra na Ucrânia, sempre distribuindo “propaganda perigosa” que está mal informando a opinião pública sobre “avanços de tropas na fronteira [e] o acúmulo de munição e colunas de tanques supostamente russos”. Mas, embora o artigo, raro pela contundência das críticas, destaque isoladamente Breedlove pelos exageros ridículos sobre uma inexistente invasão russa, o verdadeiro objetivo da matéria publicada pela Der Spiegel é alertar Washington de que os líderes da União Europeia não apoiarão nenhuma política de confrontação militar com Moscou.

Antes de explicar o que está acontecendo, é preciso ler um excerto do artigo. Segundo a Der Spiegel:

"... por meses a chancelaria limita-se a balançar a cabeça com desagrado, cada vez que a OTAN, sob o comando de Breedlove, vem a público para anunciar, com espalhafates, movimentos de tropas ou tanques russos... O que mais incomoda Berlim é o tom dos 'anúncios' de Breedlove. Notícias falsas, relatos visivelmente exagerados, alertou um alto funcionário alemão, em recente reunião sobre a Ucrânia, expõem a OTAN — e, por extensão, todo o Ocidente – ao risco de perder a credibilidade. 
Os exemplos são amplos... No começo da crise, o general Breedlove anunciou que os russos teriam deslocado 40 mil soldados para a fronteira ucraniana e disse que a invasão poderia começar a qualquer momento. A situação, disse ele, seria 'incrivelmente preocupante'. Mas agentes da inteligência de países membros da OTAN haviam descartado completamente qualquer possibilidade de invasão russa. Para eles, nem a composição nem o equipamento das tropas eram consistentes com qualquer invasão iminente. 
Os especialistas logo desmentiram praticamente todos os itens do que Breedlove tinha dito. Não havia 40 mil soldados na fronteira; eram muito menos de 30 mil e talvez bem menos de 20 mil. Além do mais o equipamento militar não estava com certeza próximo da fronteira para qualquer invasão, e haviam estado na mesma região antes do início do conflito. Além do mais, não havia nenhum sinal de movimentação para preparação logística de alguma invasão, como quartéis-generais de campanha. Breedlove continuou a fazer, como antes tinha feito, declarações inexatas, contraditórias e, até, declarações absolutamente erradas. ... 
Em 12 de novembro de 2014, durante uma visita a Sofia, Bulgária, Breedlove relatou que 'vimos colunas de equipamento russo – basicamente tanques russos, artilharia russa e sistemas russos de defesa, além de tropas russas de combate — entrando na Ucrânia'. 'Seria', disse ele, 'a mesma informação que a OSCE está distribuindo'. Mas a OSCE tinha mencionado apenas comboios militares dentro da Ucrânia, no leste do país. Nenhum observador da OSCE jamais disse algo sobre tropas vindas da Rússia. 
Breedlove não vê motivo algum para revisar suas intervenções. 'Mantenho tudo que disse nos pronunciamentos feitos durante a crise na Ucrânia' – escreveu ele à revista Der Spiegel, em resposta ao convite para que se manifestasse acompanhado de uma lista de suas controversas declarações. (Breedlove’s Bellicosity: Berlin Alarmed by Aggressive OTAN Stance on Uckraine, Der Spiegel).

Por mais que se possa escorregar na superfície da narrativa da revista Der Spiegel, de um militarista ensandecido que estaria tentando arrastar a Europa para mais perto da III Guerra Mundial, o roteiro parece ser outro, ardilosamente construído. Como sabem todos que acompanham o fiasco do “Ocidente” na Ucrânia ao longo do ano passado, nada há de extraordinário nas distorções e sandices de Breedlove. O Secretário de Estado, John Kerry, repetiu as mesmas coisas várias vezes, como vários outros, para vários veículos. As mentiras sobre alguma “agressão russa” são a regra, não a exceção em toda a imprensa mundial de repetição. Assim sendo, por que a revista Der Spiegel teria resolvido, de repente, pôr-se a atacar Breedlove, o qual, afinal, não é mais mentiroso que qualquer outro? O que está realmente acontecendo?

Bem claramente, Der Spiegel está operando para ajudar Merkel, vale dizer, para minar a credibilidade do comandante do exército de Washington na Europa, para desencorajar qualquer escalada da guerra na Ucrânia. Sim. Mas Merkel não cuidou só de humilhar Breedlove para mostrar que a Alemanha não se manterá imóvel e sentada sobre as mãos enquanto Washington empurra a Europa para o fundo do abismo; ela também cuidou atentamente, ao mesmo tempo em que humilhava nomeadamente só o general, de poupar Kerry e Obama, que não ouviram crítica alguma. É uma atitude significativa, porque a verdade é que todos, absolutamente todos, os supracitados e outros – virtualmente todo o establishment político e toda a imprensa de repetição e respectivos lobbies nela ativados – todos mentiram sempre, sobre praticamente todos os aspectos do conflito ucraniano. Merkel não quis desacreditar todos esses (mas a matéria da Der Spiegel sugere fortemente que ela poderá “bater mais”, se o “mau comportamento” [do general] persistir).

O artigo em Der Spiegel foi parte de um movimento de “saque e voleio” para forçar Washington a alterar a sua atitude confrontacional. O segundo “ataque-voleio” veio logo no domingo à tarde, quando o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou que a Europa precisa constituir um exército próprio. Eis o que a agência Reuters noticiou:

"A União Europeia precisa de seu próprio exército para enfrentar a Rússia e outras ameaças, e para restaurar a posição da política exterior do bloco em todo o mundo, disse o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker a um jornal alemão no domingo... 
Com seu exército próprio, a Europa pode reagir com mais credibilidade a qualquer ameaça à paz em Estado membro ou em Estado vizinho. 
Ninguém pensa em exército europeu a ser imediatamente mobilizado, Mas um exército europeu comum a todos os países enviaria uma clara mensagem à Rússia de que falamos sério sobre defender nossos valores europeus." (Juncker calls for EU army, says would deter Rússia, Reuters).

Viram o que está acontecendo? Com uma mão, Merkel-Der Spiegel dá uma martelada na credibilidade do principal comandante da OTAN; com a outra, o Presidente da Comissão Europeia-Reuters atropela os negociadores norte-americanos e anuncia seu plano para criar uma força europeia de combate independente, que tornará a OTAN redundante. São dois grandes desenvolvimentos que, sem dúvida, deixaram zonzos a trupe que cerca Obama. É um ataque direto, frontal, ao papel da OTAN como grande garantidora da segurança regional da União Europeia. Talvez a opinião pública europeia não seja suficientemente simplória e ingênua a ponto de engolir a ideia, perfeitamente absurda, de Junker, para quem um exército da União Europeia “enviaria clara mensagem” ao mundo; mas com absoluta certeza ninguém, no N. 1.600 da Pennsylvania Avenue acreditou nessa. Todo o movimento foi pensado para enviar a Washington o “recado” de que a Europa está farta das andanças da OTAN e quer mudanças. O recado para Breedlove e a turma dele é “tome jeito ou tome seu rumo”.

Ironicamente, esses mesmos movimentos põem Merkel alinhada ombro-a-ombro com o modo como Putin vê as coisas, nos termos de seu famoso discurso de Munique, em 2007, quando disse:

"Estou convencido de que alcançamos aquele momento decisivo quando temos de pensar seriamente sobre a arquitetura da segurança global. E temos de seguir adiante, procurando um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os participantes no diálogo internacional... Os EUA extravasaram para fora de suas fronteiras nacionais por todas as vias imagináveis... E é claro que isso é extremamente perigoso... Resulta em que ninguém se sente seguro. É preciso enfatizar – ninguém se sente seguro. (Vladimir Putin, 10 de fevereiro de 2007, 43ª Conferência de Segurança de Munique).

Como os EUA poderiam apresentar-se como “defensores do sistema de segurança global”, quando as intervenções norte-americanas deixaram pelo caminho uma tão longa trilha de Estados destruídos, da fronteira sul da Somália ao extremo norte da Ucrânia, rastro caótico de ruínas fumegantes e de indescritível sofrimento humano, comparável às depredações do Terceiro Reich.

Nenhuma segurança poderá ser assegurada à Europa por uma entidade semeadora de guerras, controlada pelos EUA, que só age com vistas a atender os interesses de Washington. Nesse momento, a OTAN obtém dos EUA 75% dos fundos que a mantêm, motivo pelo qual a aliança vive muito menos interessada em fazer alguma paz ou em promover alguma segurança, e muito mais se dedica a internacionalizar sua guerra imperial de agressão por todo o planeta. Antes da crise na Ucrânia, os líderes europeus não perceberam o perigo desse arranjo estúpido (embora as intervenções norte-americanas na Sérvia, na Líbia, no Afeganistão devessem ter bastado para lhes abrir os olhos). Mas agora, quando os movimentos ensandecidos, temerários, da OTAN criaram o risco real de vaporizar a Europa numa tempestade de fogo nuclear; líderes como Merkel e Hollande parecem estar começando a mudar a sua velha cantoria. Que ninguém esqueça: o cenário ideal para os EUA seria guerra limitada que arrase grandes porções dos continentes europeu e asiático, devolvendo os EUA ao posto que tinham no final da II Guerra Mundial, quando ninguém cogitava de “rublo-izar” o mundo. Talvez seja um excelente projeto para maníacos, que comandam o mundo da segurança de seus bens abastecidos bunkers em Washington, DC. Mas para a Europa, essa não é, definitivamente, estratégia vencedora. A Europa não quer guerra, e com certeza não quer ser usada como bucha de canhão para maior glória de uma Nova Ordem Mundial distópica.

Sergey Glazyev, Conselheiro de Putin, mostrou que Washington estava agindo muito antes de Kiev lançar sua desgraçada campanha “antiterrorista” contra separatistas rebeldes no leste. Eis como Glazyev resume tudo isso:

"A principal tarefa que os norte-americanos determinaram para seus fantoches operados à distância na junta de Kiev foi arrastar a Rússia para guerra total com a Ucrânia. Para essa finalidade, cometeram-se todos aqueles crimes horríveis – para forçar a Rússia a enviar tropas à Ucrânia para proteger a população civil... 
A bancarrota do sistema financeiro nos EUA, incapaz de honrar o serviço da própria dívida externa; a falta de investimentos para financiar o salto para uma nova ordem tecnológica e para manter a competitividade da indústria norte-americana; e a possível derrota na competição geopolítica contra a China. Para resolver esses problemas, os EUA precisam de uma guerra de novo mundo." (Eric Zuesse e Sergei Glazyev, Obama’s Ukrainian War: Viewpoint of President Putin’s Advisor Sergei Glazyev, Global Research, 15 de novembro de 2014).

Bingo. O império em acentuado e persistente declínio, cuja fatia no PIB mundial só faz encolher ano a ano, precisava, desde o início, de uma guerra. Não há outro meio pelo qual os EUA consigam reverter o rápido declínio econômico, preservando para si o posto de única superpotência. Felizmente, há governantes na União Europeia que começam a erguer a cabeça do buraco na areia, o suficiente, pelo menos, para perceber o que se passa e alterar a própria atitude.

Vale registrar que ninguém no governo Merkel ou em lugar algum desmentiu publicamente a matéria da revista Der Spiegel. Por quê?

Esse silêncio parece sugerir que todos sabem, há tempos, que a propaganda anti-Putin não passa de conversa à toa; que o tal “Putin-do-mal” que os EUA tentam construir não mandou tropas e soldados para o outro lado da fronteira da Ucrânia; que não foi Putin quem derrubou o avião da Malaysian Airlines; que Putin não matou nenhum “líder da oposição”, a tiros, no meio da rua, a poucos metros do Kremlin. Isso parece estar sendo dito, bem claramente, no silêncio dos europeus.

É claro que sim. A razão pela qual nenhuma autoridade se manifestou a favor da OTAN é – como a revista Der Spiegel reconhece cinicamente – que “é necessária uma mistura de argumentação política e propaganda militar”.

“Propaganda necessária?”

Hah-hah! Afinal um reconhecimento que só muito raramente se vê na imprensa. Mas é pura verdade, não? Os euro-líderes deixaram-se enganar na onda de mentiras sempre usadas para manter as massas submissas e alinhadas. Em outras palavras, como sempre: uma forte dose de “gerenciamento de percepções” para o rebanho, mas a verdade, claro, para nossos reverenciados amos-senhores-patrões. Sempre foi assim. Até que, agora, de repente, aquelas mesmas elites amestradas resolveram partilhar a verdade com a massa ignara e servem-se da revista Der Spiegel? Mas, por quê? Por que essa repentina vontade incontrolável de [o governo alemão] declarar e de [a revista Der Spiegel] publicar verdades?

É porque as elites europeias não apoiam as políticas de Washington. Essa é a razão. Ninguém mais na Europa quer que os EUA armem e treinem o exército ucraniano. Ninguém mais na Europa quer que os EUA mandem 600 paraquedistas para Kiev e aumentem o apoio logístico que os EUA dão a Kiev. Ninguém mais na Europa quer saber de escalada na guerra na Ucrânia, porque ninguém na Europa quer saber de uma guerra contra a Rússia. Mais simples, impossível.

Pela primeira vez, líderes europeus, especialmente Angela Merkel, compreendem com clareza que os objetivos estratégicos dos EUA (o pivô para a Ásia) não se alinham com os objetivos da União Europeia. Na verdade, as ambições geopolíticas de Washington são uma grave ameaça à segurança europeia. Lamentavelmente, não basta que Merkel apenas compreenda o que está acontecendo. Ela precisa atrair para o seu lado os colegas europeus e dar passos ativos, para fazer descarrilar agora o plano de Washington. Sem isso, os EUA continuarão a forjar mais atentados, e mais assassinatos sob falsa bandeira, até que Putin seja obrigado a responder. Quando acontecer, muito provavelmente será inevitável a guerra generalizada, pela qual os EUA anseiam.

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