28 de março de 2015

Miséria econômica e caos sangrento

Tommy McKearney

Political Economy

Tradução / A novela em que se transformou a claudicante tentativa do SYRIZA de negociar com a odiosa agenda da União Europeia, conduzida pelo setor financeiro, despertou compreensivelmente enorme atenção no passado recente. Tal como em todos os melhores filmes do gênero, os espectadores foram mantidos em suspense enquanto o inevitável desenlace era encenado.

Os sabichões falam solenemente sobre o risco de a Grécia deixar a UE, de ameaças à estabilidade financeira ou de uma ruptura da eurozona. Enquanto isso o novo governo em Atenas incha o peito e fala em impor responsabilidade ao poderoso ministro alemão das Finanças e aos outros membros da Troika. Que o drama acabasse por uma tímida lamúria do SYRIZA ao invés de alguma coisa tão perturbadora como um estrondo era, infelizmente, demasiado previsível.

O novo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, pode ser um bem apessoado e articulado acréscimo na cena política europeia mas ele não é Fidel Castro. O seu ministro das Finanças, Varoufakis, ostenta uma pose arrojada quando viaja pelas capitais do continente, mas, por fotogênico que possa ser, ele não tem a têmpera de um Ernesto "Che" Guevara.

Aqui situa-se a essência da decepção do povo grego. Não só precisava de um governo socialista determinado e decidido obtendo ao invés sociais-democratas, como também a uma população oprimida foi permitido acreditar que um resultado diferente e melhor seria possível.

Não que qualquer socialista genuíno ou ativista da classe trabalhadora possa estar senão consternado pelo que aconteceu. Muitos na esquerda por toda a Europa saudaram a vitória eleitoral do SYRIZA com entusiasmo genuíno. O povo grego rejeitou a pilhagem, o programa neoliberal imposto sobre ele pela finança internacional, e parecia, com as declarações do governo recém eleito, que alguém estava finalmente pronto a rejeitar as exigências do capitalismo rentista. Que a retórica inicial se tenha demonstrado oca é uma regressão para todos à esquerda, pois o otimismo primitivo (e não só na Grécia) pode vir a ser substituído pelo desencanto.

Quantas vezes – alguns podem perguntar, com razão – podemos nós levantar expectativas antes de o povo deixar de acreditar na possibilidade de mudança significativa?

Seria errado, no entanto, atribuir o fracasso do SYRIZA a fraquezas pessoais, traição ou falta de fibra moral. A infelicidade dos sociais-democratas gregos era serem pequenos jogadores em um jogo muito maior – e um jogo no qual a sua liderança acreditou erradamente que podia provocar mudança enquanto permanecendo dentro dos parâmetros do sistema atual. A resposta a esta lamentável situação não deveria ser um grito estéril de "Nós bem lhe dissemos" mas esforçarmo-nos por promover um entendimento mais profundo do que saiu errado e porque.

Após a crise no capitalismo criada pelo crash econômico de 2008, a classe dominante da Europa e o seu veículo de entrega, a União Europeia, não está em estado de espírito de aguentar qualquer desafio à sua autoridade ou de tolerar desenvolvimentos que possam minar o seu poder. Como uma besta ferida, a classe dominante é ainda mais agressiva e perigosa do que era quando se sentia mais forte.

A natureza da sua resposta à presente crise manifesta-se em dois teatro diferentes mas relacionados. Um está a ser encenado com o governo e povo grego; o outro é o ainda mais letal e perigoso conflito que devasta Donets e toda a Bacia do Don. Enquanto atuam duramente nas negociações entre Atenas e a Troika, a UE e seus aliados também estão a perseguir sua agenda no Leste da Europa.

De acordo com uma rotina bem praticada, os meios de comunicação da Europa ocidental prepararam o terreno quando promoveram uma narrativa a asseverar que a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin, pretendiam uma agressiva política de invasão e expansão. A velha e bruta retórica anti-soviética foi vomitada. Em fevereiro, o segundo homem no comando das forças da OTAN, general Adrian Bradshaw, disse no Royal United Services Institute (o think-tank estratégico da elite, em Londres) que as forças da OTAN devem preparar-se para um assalto convencional em grande escala da Rússia em um estado-membro europeu do Leste [1]. Pouco após o primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou que estava para enviar pessoal militar para Kiev a fim de treinar tropas do regime, bem como dar financiamento adicional à BBC para "neutralizar propaganda russa" [2]

Na descrição deste clima de alarmismo e ruido de sabres foi ignorado o fato de que a UE e os Estados Unidos haviam encorajado um golpe contra um governo eleito em Kiev e que apoiaram a sua substituição por um regime que não fazia segredo da sua hostilidade a Moscou e aos ucranianos falantes do russo. Ninguém mencionou tão pouco a intrusão da OTAN numa área de imensa sensibilidade estratégica para um país que perdeu 26 milhões de cidadãos dentro da memória viva. Donets está, afinal de contas, a apenas duas horas de carro da cidade russa de Volgogrado (ou Stalingrado, como era conhecida quanto foi assaltada pela Alemanha nazista em 1942).

Além disso, deliberadamente ocultado, está um cálculo implícito que está sendo feito pelos escalões superiores dos mediadores do poder capitalista nos Estados Unidos e Europa ocidental. Perseguindo implacavelmente, ao longo das últimas décadas, uma política neoliberal a curto prazo de maximização do lucro a qualquer custo, eles levaram a que as suas próprias indústrias manufatureiras se re-estabelecessem fora dos seus países, muitas vezes nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China). Inevitavelmente isto levou a um declínio da sua própria capacidade produtiva, forçando-os a tornarem-se ainda mais dependentes das finanças e dos serviços.

No longo prazo isto cria um dilema para as potências ocidentais, porque a história econômica e a experiência demonstram claramente que a finança segue a produção, ao invés do inverso. Inevitavelmente isto deve significar um declínio da sua hegemonia global – a menos que possam compensar esta tendência por uma política relacionada de (a) utilizar dívida para subjugar alguns e (b) minar qualquer zona potencial de competição econômica entre outros.

Mas a ordem vigente no Ocidente persiste nesta política de duas vias, com a intenção óbvia de que os fardos das dívidas esmagarão, conterão e confundirão os estados da Europa inclinados à social-democracia enquanto criam caos alhures, impedindo a emergência de uma potência econômica rival [3]. O cínico cálculo que unifica esta estratégia é que, com a ausência de um bloco econômico alternativo, os endividados têm poucas opções e os BRICS têm poucas saídas. Aqueles que acreditam que eles venceram a "Guerra fria" pela ameaça da mútua destruição assegurada agora parecem sentir que podem reter influência por um estratagema de "Dominaremos ou arruinaremos".

E a evidência para concretizar esta afirmação? A prova está na ausência de qualquer outra explicação possível ou plausível para o comportamento dos líderes mundiais que impuseram miséria econômica a vastas seções da classe trabalhadora europeia e americana, enquanto levam o caos sangrento ao Oriente Médio, África, Afeganistão e agora a Ucrânia. Nenhum economista do mercado racional demonstrou que a austeridade pode levar a qualquer coisa diferente de deflação e perda de produção. Nenhum indivíduo são alguma vez argumentou que a intervenção ocidental no Norte de África, Oriente Médio, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria ou Rússia pode levar a qualquer outra coisa senão a uma catástrofe mundial.

A máxima de que o socialismo é a única alternativa à barbárie, ou pior, nunca foi mais válida do que hoje.

Notas:

[1] Sam Jones, "NATO warned to prepare for move on territory", Financial Times, 21 de fevereiro de 2015.
[2] Chris Green, "British troops to 'train soldiers in Ukraine'", The Independent (Londres), 24 de fevereiro de 2015.
[3] Para os que possam argumentar que a China refuta essa afirmação vale a pena ler o artigo de Martin Wolf "How addiction to debt came even to China", Financial Times, 24 de fevereiro de 2015.

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