10 de março de 2015

O laço do BCE em torno da Grécia: Como bancos centrais subordinam governos

Ellen Brown


Tradução / Lembram-se de quando o infame Goldman Sachs apresentou uma ameaça velada ao Parlamento grego, em dezembro, advertindo-os de que deveriam eleger um primeiro-ministro favorável à austeridade ou arriscar-se a ter a liquidez do banco central cortada para os seus bancos? (Ver aqui a mensagem de 6 de janeiro). Parece que o Banco Central Europeu (encabeçado por Mario Draghi, antigo administrador do Goldman Sachs International) agora cumpriu a ameaça.

Na semana seguinte ao candidato do Syriza, Alexis Tsipras, tomar posse como primeiro-ministro, o BCE anunciou que não aceitaria mais títulos do governo grego e dívidas garantidas pelo governo como colateral para empréstimos do banco central a bancos gregos. Os bancos ficaram reduzidos a obter a sua liquidez junto ao banco central através do "Emergency Liquidity Assistance" (ELA), o qual tem taxas de juro elevadas e pode ser terminado pelo BCE à vontade.

Numa entrevista publicada pela revista alemã Der Spiegel em 6 de março, Alexis Tsipra disse que o BCE estava "a por um laço em torno do pescoço grego". Se o BCE continuar seu jogo duro, advertiu, "estaremos de volta ao suspense que vimos antes de fevereiro" (referindo-se à perturbação no mercado que acompanhou as negociações antes de uma extensão por quatro meses ser finalmente acordada).

O laço em torno do pescoço da Grécia é isto: o BCE não aceitará títulos gregos como colateral para a liquidez de banco central que todos os bancos precisam, até que o novo governo Syriza aceite o programa de austeridade muito estrito imposto pela Troika (a Comissão da UE, o BCE e o FMI). Isso significa vender ao desbarato de ativos públicos (incluindo portos, aeroportos, companhias de eletricidade e petróleo), cortar salários pensões, aumentar impostos drasticamente e desmantelar serviços sociais, assim como criar fundos especiais para salvar o sistema bancário.

Estas são táticas de extorsão como as da máfia pelas quais economias inteiras são subjugadas ao reembolso integral a bancos estrangeiros - dívidas que devem ser pagas com trabalho, ativos e patrimônio de pessoas que nada fizeram para nelas incorrer.

Brincar de ver quem é mais corajoso com o dinheiro do povo

A Grécia não é o primeiro a sentir o aperto do laço no seu pescoço. Como nota The Economist, em 2013 o BCE anunciou que dali a dias cortaria o Emergency Lending Assistance (ELA) a bancos cipriotas, a menos que o governo concordasse com os seus termos de salvamento. Ameaças semelhantes foram feitas em 2010 para obter a concordância do governo irlandês.

Da mesma forma, diz The Economist, a crescente dependência dos "bancos gregos" ao ELA deixa o governo à mercê do BCE quando ele tenta renegociar o salvamento.

Mark Weisbrot comentou no Huffington Post:

Deveríamos deixar claro o que isto significa. Este movimento do BCE era completamente desnecessário... Ele parece muito a uma tentativa deliberada de minar o novo governo. 
... O BCE podia... estabilizar os yields dos títulos gregos a níveis baixos, mas ao invés disso preferiu... ir ao extremo oposto - e extremo é mesmo o que quero dizer - para promover uma corrida aos depósitos bancários, afundar a bolsa grega e puxar para cima os custos dos empréstimos gregos.

Weisbrot observou que a Troika mergulhou a Eurozona em pelo menos dois anos adicionais de recessão desnecessária a partir de 2011, porque "eles estavam a brincar de ver quem é o mais o corajoso... O BCE deliberadamente permitiu que estes atores do mercado criassem uma crise existencial para o Euro, a fim de forçar concessões dos governos da Espanha, Itália, Grécia, Portugal e Irlanda".

O torniquete da liquidez do Banco Central

Não só os bancos gregos, mas sim todos os bancos, confiam na liquidez do banco central, porque todos eles estão tecnicamente insolventes. Todos eles emprestam dinheiro que não têm. Confiam em que serão capazes de tomar emprestado de outros bancos, o dinheiro do mercado, ou do banco central quando precisarem equilibrar suas contabilidades. O banco central (o qual tem o poder de imprimir dinheiro) é a barreira final neste truque de prestidigitação. Se aquela fonte de liquidez secar, os bancos vêm abaixo.

Na Eurozona, o bancos central nacionais dos países membros renunciaram a este crítico poder de crédito em favor do Banco Central Europeu. E o BCE, tal como o Federal Reserve dos EUA, marcha ao som dos tambores dos grandes bancos internacionais e não da vontade democrática do povo.

Para que não haja qualquer dúvida, vamos rever o memorando de Dezembro da Goldman ao Parlamento grego, reimpresso no Zerohedge. Intitulado "Da GRecuperação à GRecaída" ("From GRecovery to GRelapse"), ele advertia:

Nisto jaz o principal risco para a Grécia. A economia precisa que o único prestamista de último recurso ao sistema bancário mantenha ampla provisão de liquidez. E isto não é porque os bancos possam exigir recursos para ajudar a reduzir futuros riscos de refinanciamento para a soberania. Mas também porque os bancos já confiam em títulos do governo ou garantidos pelo governo para manter constantes os atuais níveis de liquidez. 
No caso de um grave choque do governo grego com prestamistas internacionais, a interrupção da provisão de liquidez aos bancos gregos pelo BCE poderia potencialmente levar mesmo a umas prolongadas "férias bancárias" ("bank holiday") estilo Chipre. E os temores do mercado quanto à potencial saída do Euro podiam chegar a esse ponto. [Ênfase acrescentada.]

Por que o BCE teria de "interromper a provisão de liquidez" apenas devido a um "choque com prestamistas internacionais"? Como observou Mark Weisbrot, o movimento era completamente desnecessário. O banco central pode ligar ou desligar a torneira do crédito à sua vontade. Qualquer país que resista a cooperar com o programa de austeridade da Troika pode descobrir que os seus bancos foram cortados desta liquidez crítica, porque o governo e os bancos já não o consideram mais como "bons riscos de crédito". E este julgamento condenatório torna-se uma profecia auto-realizável, como está a acontecer na Grécia.

"A cobertura sobre o bolo"

Jogando sal sobre a ferida, a inchada dívida grega foi incorrida para salvar os próprios bancos internacionais aos quais ela agora está amplamente endividada. Pior, aqueles bancos compraram a dívida com empréstimos baratos do BCE! Pepe Escobar escreve:

A Troika vendeu à Grécia uma trapaça econômica... Essencialmente, a dívida pública grega passou das mãos privadas para as públicas quando o BCE e o FMI "resgataram" bancos privados (alemães, franceses, espanhóis). A dívida, naturalmente, inchou. A Troika interveio, não para salvar a Grécia, mas para salvar os bancos privados. 
O BCE comprou dívida privada aos bancos por uma fortuna, porque o BCE não podia comprar dívida pública diretamente ao estado grego. A cobertura sobre esta camada do bolo é que os bancos privados encontraram o dinheiro (cash) para comprar a dívida pública da Grécia exatamente do... BCE, aproveitando-se das taxas de juros ultra-amistosas. Isto é roubo absoluto. E foram os ladrões que estabeleceram as regras do jogo desde o princípio.

Isto traz-nos de volta ao papel da Goldman Sachs (alcunhado por Matt Taibbi como o "Polvo vampiro"), o qual "ajudou" a Grécia a entrar na Eurozona através de um esquema altamente discutível envolvendo um swap de divisas que utilizou taxas de câmbio artificialmente altas para ocultar a dívida grega.

O Goldman então deu a volta e cobriu (hedged) suas apostas curto-circuitando a dívida grega.

Previsivelmente, estas apostas derivativas saíram muito erradas para o menos refinado dos dois jogadores. Um empréstimo em 2001 de €2,8 mil milhões para a Grécia tornou-se uma dívida de €5,1 mil milhões em 2005 .

Apesar deste fardo pesado, em 2006 a Grécia permaneceu dentro das orientações do BCE de défice orçamental de 3%. Ela entrou em grave perturbação só após a crise bancária de 2008. No fim de 2009 o Goldman aderiu às apostas em baixa sobre a dívida grega lançadas pelos pesos pesados dos hedge funds ao aplicar pressão de venda sobre o Euro, forçando a Grécia ao salvamento externo (bailout) e a medidas de austeridade que desde então destruíram a sua economia.

Ambrose Evans-Pritchard escreveu no The Telegraph britânico em 2 de março:

O Syriza tem há muito argumentado que a sua dívida [pós 2009] é ilegítima, alegando que o BCE comprou títulos gregos em 2010 a fim de salvar o sistema bancário europeu e impedir o contágio num momento em que a eurozona não tinha uma barreira (firewall) financeira, não para ajudar a Grécia.

O sr. Varoufakis [o recém nomeado ministro grego das Finanças] disse que o resultado foi deter um incumprimento grego a credores privados o que teria levado a um grande corte (haircut) para bancos estrangeiros se os acontecimentos tivessem podido seguir seu rumo normal, reduzindo o fardo da dívida para a Grécia a níveis administráveis. Ao invés disso, as autoridades da UE tomaram uma série de passos para impedir este momento purgativo (cathartic), impingindo finalmente pacotes de empréstimos de €245 mil milhões sobre o contribuinte grego e empurrando a dívida pública para 182 por cento do PIB.

O sistema tóxico da banca central

Pepe Escobar conclui:

Cuidado com os Mestres do Universo a distribuírem sorrisos. Draghi e o... pistoleiros do BCE podem distribuir todos os sorrisos do mundo, mas o que eles mais uma vez estão a demonstrar graficamente é como a tóxica banca central é agora o sacrossanto inimigo mortal da democracia.

Os bancos centrais nacionais já não são ferramentas dos governos para o benefício do povo. Os governos tornaram-se ferramentas de um sistema global de banca central que serve os interesses de instituições financeiras internacionais gigantescas. Estas bestas gigantes "demasiado grandes para falir" devem ser salvas a expensas de bancos locais, dos seus depositantes e da generalidade das economias locais.

Como escapar aos tentáculos desta tóxica hierarquia bancária assemelhada a um polvo?

Para países com um pouco mais de espaço para manobrar do que a Grécia, uma opção retirar depósitos públicos e privados e colocá-los em bancos de propriedade pública. Os megabancos são considerados demasiado grandes para falir só porque o dinheiro do povo está amarrado a eles. Podia-se permitir-lhes falirem se os fundos públicos não ficassem em risco.

O SBFIC (Savings Banks Foundation for International Cooperation) alemão propôs um projeto-piloto com base no modelo das caixas econômicas (Sparkassen) para a Grécia. Outras opções provocadoras também foram propostas, a serem objeto de um outro artigo.

[*] Procuradora, presidente do Public Banking Institute e autora de 12 livros, incluindo Web of Debt e The Public Bank Solution . Seus sítios web são Web of Debt, Public Bank Solution e Public Banking Institute.

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