6 de março de 2015

Como Putin bloqueou o pivô dos EUA para a Ásia

Peguem Vlad!

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Em 10 de fevereiro de 2007, Vladimir Putin fez um discurso na 43ª Conferência de Segurança de Munique, que criou um conflito entre Washington e Moscou, que só se aprofundou ao longo do tempo. A dura crítica do presidente russo contra a política externa dos EUA foi uma acusação racional das intervenções dos norte-americanos pelo mundo e do efeito devastador que tiveram sobre a segurança global. Putin provavelmente não estimou o impacto que suas observações precisas teriam sobre a assembleia em Munique, ou a reação dos agentes dos EUA que assistiram àquele discurso como um ponto de virada nas relações EUA-Rússia. Mas o fato é que se pode rastrear a hostilidade de Washington contra a Rússia até especificamente aquele incidente: o discurso no qual Putin comprometeu-se publicamente com um sistema global multipolar, repudiando, portanto, as pretensões de uma Nova Ordem Mundial comandada pelas elites norte-americanas. Eis o que ele disse:

"Estou convencido de que chegamos a esse momento decisivo em que devemos pensar seriamente sobre a arquitetura de segurança global. E nós temos que continuar procurando por um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os participantes no diálogo internacional."

Com essa formulação, Putin rejeitou o papel que os EUA assumiram como única superpotência e guardião da segurança global, posição privilegiada que Washington considera merecida porque conquistada por ter “vencido” a Guerra Fria e que daria aos EUA o direito de intervir unilateralmente onde bem entender. A fala de Putin pôs fim a anos de disputas e discussões entre analistas de think-tanks sobre se a Rússia podia ou não podia ser integrada ao sistema liderado pelos EUA. Agora eles sabiam que Putin não dançaria pela música de Washington.

Nos primeiros dias de sua presidência, acreditava-se que aprenderia a curvar-se às “demandas” ocidentais e aceitaria um papel subordinado no sistema Washington-cêntrico. Mas não aconteceu assim. O discurso em Munique apenas reforçou o que muitos falcões e guerreiros de guerra fria nos EUA já diziam desde o começo, que Putin não entregaria sem luta a soberania russa. A declaração em que desafiou as aspirações dos EUA a governarem o mundo não deixou nenhuma dúvida de que Putin seria problema com o como seria preciso lidar por todos os meios necessários, inclusive duras sanções econômicas, golpe de estado contra a vizinha Ucrânia conduzido pelo Departamento de Estado, conspiração para derrubar os preços do petróleo, ataque especulativo contra o rublo, guerra por procuração no Donbass usando neonazistas alugados como tropa de choque do império, e milhares de operações sob falsa bandeira usadas para desacreditar Putin pessoalmente, ao mesmo tempo em que se meteria uma cunha entre Moscou e seus parceiros comerciais primários na Europa. Agora o Pentágono está planejando mandar 600 paraquedistas ostensivamente para “treinar a Guarda Nacional Ucraniana” – uma violação grave, que fere o espírito de Minsk-2 e exigirá resposta proporcional do Kremlin. Resumo da história: os EUA estão usando todas as armas que têm no arsenal para manter a sua guerra contra Putin.

O assassinato, na semana passada, ao estilo de brigas de gangues, de um membro da oposição russa, Boris Nemtsov, teve de ser considerado em termos do jogo geopolítico mais amplo atualmente em curso. Ainda que seja possível que o assassino nunca venha a ser encontrado, pode-se dizer com certeza que a falta de qualquer prova não impediu nem a imprensa nem os políticos norte-americanos de servir-se da tragédia para aprofundar os ataques contra Putin e fazer avançar a agenda para desestabilizar o governo e disparar o processo de “mudança de regime” em Moscou. O próprio Putin disse que o assassinato pode ter sido parte de um plano para pressionar cada vez mais o Kremlin. David North, do jornal World Socialist Web Site resumiu as implicações políticas:

"O assassinato de Boris Nemtsov, da oposição russa, é um evento político significativo que brota do confronto EUA-Rússia e da intensa luta que se trava nos mais altos níveis do estado russo. O governo Obama e a CIA estão tendo um papel importante na escalada desse conflito, com o objetivo de produzir um resultado que sirva aos interesses geopolíticos e financeiros globais do imperialismo norte-americano... 
É óbvio que o governo Obama espera ver surgir uma facção dentro da elite russa, apoiada por elementos militares e da polícia secreta, capaz de encenar um “golpe palaciano” que os livrem, todos eles, de Putin... 
Os EUA não querem disparar uma revolta popular. [Mas] estão inteiramente focados em convencer uma parte da oligarquia e da emergente classe capitalista de que seus negócios, interesses e riqueza pessoal dependem do apoio dos EUA. Por isso o governo de Obama usou sanções econômicas diretamente contra indivíduos, como meio de pressionar os oligarcas, bem como setores mais amplos da elite corporativa. 
É nesse contexto de luta internacional pelo poder que se tem de avaliar o assassinato de Nemtsov. Claro, é possível que a morte dele tenha a ver com questões da vida privada do morto. Mas é muito provável que tenha sido morto por razões políticas. Com certeza, o timing do assassinato – na véspera de uma manifestação da oposição anti-Putin em Moscou – sugere fortemente que se tratou de assassinato político, não de algum acerto de contas privado”. (“Murder in Moscow: Why was Boris Nemtsov assassinated?”, David North, World Socialist Web Site).

Apenas poucas horas depois de Nemtsov ser baleado em Moscou, a imprensa ocidental entrou em ação, com artilharia pesada de artigos sugerindo que o Kremlin estaria envolvido no crime, mesmo sem qualquer prova nessa direção. A campanha logo ganhou impulso, com mais e mais “especialistas” e políticos russos querendo oferecer mais e mais palpites sobre quem seria o assassino. Naturalmente, nenhum dos entrevistados arredou-se sequer um centímetro da narrativa “jornalística” segundo a qual o culpado seria alguém a mando de Putin. Um artigo no The Washington Post é um bom exemplo da tática usada nessa mais recente campanha de propaganda e RP (“Relações Públicas”) para desacreditar Putin. Segundo Vladimir Gelman, cientista político da Universidade Europeia em São Petersburgo e da Universidade de Helsinki:

"Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição política, foi morto perto do Kremlin. Em minha opinião há aí todos os indícios de assassinato político provocado por campanha agressiva induzida pelo Kremlin contra a 'quinta coluna de traidores da pátria', que se opunham à anexação da Crimeia, à guerra do ocidente pela Ucrânia e ao declínio ininterrupto das liberdades políticas e civis na Rússia. Talvez jamais se descubra se o Kremlin ordenou o assassinato, mas, dado o fato de que Nemtsov foi um dos mais consistentes críticos, não só do regime russo, mas também de Putin pessoalmente, sua voz dissidente não voltará a perturbar Putin nem sua claque mais íntima." (“What does Boris Nemtsov’s murder mean for Russia?”, The Washington Post).

O artigo do The Washington Post é bem típico de outros publicados na imprensa dominante. A cobertura é sempre extensiva e farta de denúncias sem prova e insinuações sem fundamento. Os padrões tradicionais do jornalismo, de objetividade, com coleta e investigação de fatos, foi atropelada pela pressa em promover a agenda política que reflete os objetivos da propriedade privada. O assassinato de Nemtsov é apenas a mais recente ilustração do estado de fracasso abissal em que despencou o jornalismo profissional na imprensa ocidental.

A ideia de que agentes de Putin “apagariam” um candidato da oposição é apenas mais uma pedra inventada lançada contra o Kremlin, para dizer o mínimo. Como escreveu um comentarista, no blog Moon of Alabama:

"A imagem de um político opositor morto, que o Kremlin nem investiga, não é um pouco exagerada? Quero dizer: só falta terem encontrado um bilhete cravado com a faca no coração do morto, escrito 'quem encontrar essa faca, por favor devolva ao senhor Putin, Kremlin, Moscou'. Difícil imaginar uma cena mais clara de golpe armado para implicar o governo. E na véspera de um comício que Nemtsov iria comandar? Façam-me o favor!"

Por mais que, claro, não haja como garantir que Moscou não esteja envolvida, o fato é que essa é a hipótese menos crível. A explicação mais provável é que o incidente é parte de esquema mais amplo para “mudança de regime”, para acender um pavio que leve a uma explosão social, agitação pública, tumultos, que desestabilizem o governo. Os EUA usaram essas táticas tantas vezes antes, em tantas das chamadas “revoluções coloridas”, que nem é preciso voltar aqui àqueles detalhes de sempre. Mesmo assim, vale a pena observar que os EUA não conhecem “linhas vermelhas” em matéria de fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos comerciais-estratégicos. Nenhum jornalismo, nenhuma imprensa, nenhuma democracia há, capaz de impedir que os EUA façam, literalmente, qualquer coisa. Os EUA farão absolutamente qualquer coisa para derrotar Putin.

A questão é por quê? Por que Washington está tão determinada a derrubar o presidente Putin?

O próprio presidente Putin respondeu essa pergunta recentemente, na celebração do Dia do Diplomata na Rússia. Disse que a Rússia manterá sua política externa independente, no que ele chamou de “desafiador ambiente internacional contemporâneo”.

"Não importa o quanto nos pressionem, a Federação Russa manterá sua política externa independente, para apoiar os interesses fundamentais de nosso povo e alinhados com a segurança e a estabilidade globais." (Russia to pursue independent foreign policy despite pressure: Putin, Reuters).

E aí, precisamente, está o crime imperdoável de Putin, o mesmo crime que cometem Venezuela, Cuba, Irã, Síria e incontáveis outras nações que se recusam a marchar pelas ordens de Washington.

Putin também resistiu contra o cerco pela OTAN e contra tentativas dos EUA para saquear os vastos recursos naturais da Rússia. E, por mais que Putin tenham envidado todos os esforços para evitar um confronto direto com os EUA, não recuou um passo nas questões que são vitais para a segurança nacional da Rússia. De fato, o presidente Putin repetiu inúmeras vezes não só que o cerco pela OTAN é ameaça que Moscou absolutamente não admitirá, mas, também que a expansão ocidental é ação movida a mentiras. Aqui, mais uma vez, Putin em Munique:

"Eu gostaria de citar o discurso do Secretário Geral da OTAN Mr. Woerner, em Bruxelas, em 17 de maio de 1990. Ele disse na época que 'o fato de que estamos prontos para não colocar um exército da OTAN fora do território alemão dá a União Soviética uma garantia de segurança firme... 
Onde estão essas garantias?" 

De fato. Aparentemente, elas eram tudo mentira. Como analista político Pat Buchanan disse em seu artigo “E se Putin tiver razão?”:

"Embora o Exército Vermelho tenha decidido sair e saído voluntariamente do leste da Europa, e Moscou entenda que houve um entendimento de que o ocidente não avançaria a OTAN para o leste, nosso momento já passou. Nós não apenas introduzimos a Polônia na OTAN; também trouxemos para a OTAN Letônia, Lituânia e Estônia, e virtualmente todo o Pacto de Varsóvia, plantando os exércitos da OTAN bem à porta da Mãe Rússia. Agora, o projeto parece ser trazer também Ucrânia e Geórgia no Cáucaso, terra natal de Stálin... 
... é verdade que Putin nos deu luz verde para usarmos bases nas repúblicas ex-soviéticas para libertarmos (sic) o Afeganistão; mas agora já estamos seriamente dedicados a tornar permanentes aquelas bases na Ásia Central.

... usando o National Endowment for Democracy, seus auxiliares Republicanos e Democratas, os think-tanks que nem impostos pagam, ONGs, fundações e institutos de “direitos humanos” como a Freedom House ... só fazemos fomentar golpes para “mudança de regime” no leste da Europa, nas repúblicas ex-soviéticas e até na própria Rússia.

Estas são queixas de Putin. Será que ele não tem um pouco de razão" (“Doesn’t Putin Have a Point?”, Pat Buchanan, antiwar.com).

Agora, os EUA querem instalar seu sistema de mísseis de defesa no Leste da Europa, sistema que – segundo Putin "trabalhará automaticamente e será item que integrará a capacidade nuclear dos EUA. Pela primeira vez na história – e enfatizo esse ponto – há elementos da capacidade nuclear dos EUA no continente europeu. Isso absolutamente muda toda a configuração da segurança internacional... É claro que temos de responder a isso."

Como Putin pode permitir que isso aconteça? Como poderia admitir que os EUA instalem armas nucleares numa locação que amplia muito a capacidade dos norte−americanos para o primeiro ataque, e destrói o equilíbrio de contenção que sempre permitiu que os EUA forçassem a Rússia a seguir suas ordem ou enfrentaria aniquilação total. Putin não tem escolha: é absolutamente obrigado a opor-se a essa situação, assim como também é obrigado a opor-se ao princípio sobre o qual se baseia a expansão norte-americana, a noção de que os EUA “venceram” a Guerra Fria e, portanto, os EUA teriam o direito de remodelar o mundo do modo que mais bem sirva aos seus próprios interesses econômicos e geopolíticos. Putin novamente::

"O que é um mundo unipolar? Por mais que se possa complicar o termo, refere-se sempre a um tipo de situação na qual há um centro de autoridade, um centro de força, um centro de tomada de decisões. É mundo no qual há um senhor, um soberano. Ao final do dia, é muito danoso não só para os que vivem dentro desse sistema mas também para o próprio soberano, porque se destrói ele mesmo, de dentro para fora. 
Eu considero que o mundo unipolar não é apenas inaceitável; é também impossível, no mundo de hoje... O próprio modelo é falhado, porque não há nem pode haver lugar nesse modelo para os fundamentos morais sobre os quais se pode erguer a civilização moderna." (Vladimir Putin, 10 de fevereiro de 2007, 43.ª Conferência de Segurança de Munique).

Que tipo de homem fala assim? Que tipo de homem fala sobre "as bases morais para a civilização moderna" ou invoca FDR em seu discurso?

Putin: “Segurança para um é segurança para todos. Exatamente o que Franklin D. Roosevelt disse nos primeiros dias, quando a II Guerra Mundial estava eclodindo: “Quando a paz foi quebrada em qualquer ponto, a paz de todos os países em todo o mundo está em perigo”. Essas palavras permanecem atuais."

Convido todos a assistir pelo menos os dez minutos iniciais do discurso de Putin, e que decidam vocês mesmo se a demonização de Putin faz algum sentido e se a figura que a empresa−imprensa está inventando corresponde ou não à realidade. E prestem especial atenção ao minuto 6’, quando Putin diz o seguinte:

Vemos desdém crescente e crescente pelos princípios básicos da lei internacional. E normas legais independentes estão, de fato, chegando cada vez mais próximas de ser o sistema legal de um só estado e sempre, e cada vez mais, dos EUA, que já extravasaram para fora de suas fronteiras nacionais por todas as vias imagináveis. É visível nas políticas econômicas, políticas, culturais e educacionais que os EUA impõem a outras nações. Ora, quem está feliz com isso? Que gosta disso? (Lendário discurso de Vladimir Putin na Conferência de Segurança de Munique).

Enquanto Putin diz isso, a câmera busca os senadores John McCain e Joe Lieberman, sentados, de rosto sério, na primeira fila, atentos a cada palavra do presidente da Rússia. Se se olha bem, vê-se a fumaça que sai pelas orelhas de McCain.

Por isso precisamente é que Washington quer mudança de regime em Moscou. Porque Putin recusa-se a se deixar arrastar de um lado para outro pelos EUA. Porque quer um mundo regido pela lei internacional que seja imparcialmente administrada pela ONU. Porque Putin rejeita uma ordem mundial “unipolar” na qual uma nação dita sua política ao resto do mundo e na qual o confronto militar armado é o modo preferencial de o forte impor seus desejos ao fraco.

Putin: "Hoje testemunhamos o hiperuso da força bruta praticamente sem qualquer limitação, que está jogando o mundo num abismo de conflitos permanentes(...) EUA já extravasaram para fora de suas fronteiras nacionais por todas as vias imagináveis (...). E é claro que isso é extremamente perigoso ... Resulta em que ninguém se sente jamais seguro. É preciso enfatizar – ninguém se sente jamais seguro. (Vladimir Putin, Conferência de Segurança de Munique).

Putin não é um homem perfeito. Ele tem seus defeitos e falhas, como todos os outros. Mas ele parece ser uma pessoa decente, que tem feito grandes progressos na restauração da economia da Rússia depois de ter sido saqueada por agentes de os EUA após a dissolução da União Soviética. Ele aumentou o padrão de vida, aumentou as aposentadorias, reduziu a pobreza e melhorou as condições de educação e assistência pública à saúde, motivos pelos quais os índices de aprovação do governo de Putin alcançam comoventes 86%. Mas, mesmo assim, o motivo pelo qual Putin é mais admirado é por ter se erguido contra os EUA e ter conseguido bloquear a estratégia do Pentágono de pivotear-se para a Ásia. A guerra por procuração na Ucrânia é, de fato, guerra para fazer fracassar o plano de Washington, de quebrar a Federação Russa, cercar a China, controlar o fluxo de recursos da Ásia para a Europa e reinar sobre o mundo inteiro. Vladimir Putin é o governante que está fazendo frente a esse ataque planetário. Por isso, sim, está recebendo, por justos motivos, respeito e admiração do povo de todo o mundo.

Quanto “democracia”, o próprio presidente Putin disse muito bem:

Se sou um “democrata puro”? [risos] É claro que sou. Absolutamente. O problema é que eu estou sozinho, o único do meu tipo em todo o mundo. Vejam o que está acontecendo nos EUA. Terrível – tortura, pessoas sem teto, Guantánamo, pessoas encarceradas sem investigação, sem julgamento, sem culpa declarada. E na Europa? Violência contra cidadãos que se manifestam nas ruas, balas de borracha, bombas de gás contra cidadãos, usadas numa capital depois da outra, manifestantes mortos nas ruas... Eu não tenho com quem conversar, desde que Gandhi morreu."

Disse bem, Vladimir.

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