18 de março de 2015

Por que o drama grego pode salvar a Europa

Et si la crise actuelle du Vieux continent et de l’euro constituait une invite à dépasser la vision purement économique du monde?

Yannis Kiourtsakis

Le Monde

Foto: Petros Giannakouris / AP.

Tradução / Os Ministros da Economia da zona do euro, finalmente, terminaram firmando um compromisso com o novo governo grego. Dos males o menor, porque a "Grexit" (saída da Grécia da zona do euro) seria um fim catastrófico para todos. Mas será que o Eurogrupo - organismo que, sob a liderança da Alemanha, se torna cada vez mais tecnocrático - consegue medir o drama que, durante cinco anos, arruinou milhares de famílias gregas, esgarçou o tecido social, minou a legitimidade de partidos antes fortes, e expulsou do país grande parte da sua juventude produtiva? Poderia, sobretudo, entender que o resultado das eleições de 25 de janeiro não marcou, de forma alguma, a ascensão de extremistas nem representou um desvio populista, como apontam muitos líderes europeus? Foi, pelo contrário, um sinal de que o eleitorado se livrou do medo que havia marcado as eleições legislativas de 2012; em outras palavras, foi uma vitória da liberdade, da democracia e da política sobre a tirania do economicismo.

É mais do que preocupante ver o cuidado com os números substituir o cuidado com os homens. E isso, só uma Europa politicamente equilibrada, e empenhada em superar o déficit democrático poderá evitar. Sem essa resolução, passaremos de um acordo capenga ao próximo, em que, ao querer ganhar tempo diante do crescimento inexorável das dívidas, apenas perdemos tempo, por ter negligenciado a urgência de restabelecer a solidariedade efetiva entre nossos povos. Como não aprender a amarga lição dos últimos anos, que os gregos aprenderam melhor do que qualquer outro povo da Europa: nossa moeda supostamente comum aprofundou a cada dia o fosso econômico e social existente entre o Norte e o Sul, o oposto do objetivo proclamado pela UE, que era a sua convergência; que o tratamento administrado desde 2010 pelo diretório econômico que nos governava de fato, mostrou-se tão ineficaz quanto desastrosa, tornando impossível qualquer reforma profunda; e que a Europa de hoje, desprovida de visão política, continua a nutrir a incompreensão entre os povos, os egoísmos nacionais, o isolamento, a xenofobia, o fortalecimento da extrema-direita.

Naufrágio

Desde o início deste naufrágio, muitos gregos que se sentem profundamente europeus se questionam sobre este mal da Europa, como sobre os males próprios à sua sociedade. Eles remontam ao início do século XIX, quando a Grécia vinculou, para o bem e para o mal, seu destino ao do velho continente. Marco fundador sem o qual não podemos entender o que está acontecendo hoje. Imagine de um lado uma sociedade arcaica, mais perto do mundo de Homero que da modernidade industrial e capitalista da Europa, a qual queria integrar - o que nunca conseguiu de fato até hoje. E, do outro lado, uma Europa arrogante tratando muitas vezes a Grécia como um país semi-colonizado, com a cumplicidade, deve-se dizer, de muitos de nossos líderes - situação que revivemos com consternação nos últimos anos.

Esta história se repetiu ao longo dos séculos XIX e XX com a independência dos Bálcãs, e depois com todos os países colonizados pela Europa no mundo. É esta história que explica, em grande parte, os dramas atuais do nosso planeta. Hoje estamos todos no mesmo navio. Não há crise que não seja ao mesmo tempo interna e externa: veja a praga jihadista que nos ataca tanto de fora como de dentro; veja o crescente antissemitismo e islamofobia na Europa, que só pode alimentar o círculo vicioso da violência. É porque não podemos mais ignorar estas situações que chegamos ao resultado de 20 de fevereiro.

Mas, para enfrentar a crise de civilização que desafia a Europa, é preciso ir além da perspectiva financeira. Em um mundo que não para de encolher, tudo está ligado: a economia, a política, a justiça, a ética, a cultura. Se não encontrarmos formas de derrubar a ditadura de um sistema econômico que não tem outro propósito senão alimentar a si mesmo, em detrimento de todas as outras esferas da ação humana, estas acabarão completamente esvaziadas da substância que dá sentido às nossas vidas. No século XIX, a Europa ajudou os gregos a reencontrar a continuidade de uma civilização de vários milhares de anos, que havia sido obscurecida por séculos de ocupação otomana.

Curiosamente a crise atual tem um efeito semelhante: ela nos faz redescobrir o valor perene da nossa língua, ofuscada pela intoxicação consumista. Palavras como economia, política, democracia, tão familiares a todos os povos, conservam em nossos espíritos seu sentido primordial, etimológico: economia (palavra formada a partir de oïkos e nomos) significando a administração ou a lei que rege uma casa; política, atividade a serviço da polis (cidade); democracia, a soberania do démos (povo). Ora, de que precisamos todos hoje senão refundar a lei de nossa casa comum na política, entendida no sentido pleno do termo, além de refundar a própria política a partir da regeneração da democracia agonizante?

Isso talvez nos permitisse encontrar para além dos "mercados" - este lugar de especulação que conduz tantas vezes à destruição entre os homens - a ágora como o lugar privilegiado do diálogo e, portanto, da democracia. O renascimento deste seria, antes de tudo, a vitória do sentido das palavras, tão terrivelmente pervertida pelo discurso vazio de nossa tecnocracia pós-democrática? Pensemos nesta utopia. Sem ela como bússola, a visão de uma Europa unida não terá futuro. Se nossos parceiros europeus finalmente compreendessem o drama grego, poderiam compreender melhor a si mesmos, encontrar suas próprias raízes e dar nova legitimidade às nossas instituições.

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