25 de fevereiro de 2015

"Por que o senhor não pediu demissão, Presidente?"

O presidente do HSBC, Douglas Flint, e seu CEO, Stuart Gulliver, foram interrogados por uma comissão parlamentar britânica.

Eric Albert

Le Monde

Tradução / A sessão do Comitê Parlamentar britânico sobre o Tesouro, na última quarta-feira, 25 fevereiro, prometia faíscas e cumpriu, em grande parte, suas promessas. Os treze deputados-membros haviam convocado Douglas Flint e Stuart Gulliver, respectivamente o presidente e o diretor geral do HSBC, para cerca de duas horas um interrogatório público e acirrado.

Pouco mais de duas semanas desde as revelações do "Swissleaks", os responsáveis pelo banco britânico tiveram que se explicar sobre as práticas de evasão fiscal em grande escala. Mesmo sem ter trazido novas informações, a sessão permitiu importantes confrontações, como a que opôs o trabalhista John Mann a Douglas Flint. O deputado começou lembrando que o atual presidente era diretor financeiro do HSBC desde 1995, além de membro do conselho de administração, e, assim, havia aprovado a voracidade com que o banco realizava aquisições à época, inclusive as filiais suíças. Em seguida, com o olhar fixo em Douglas Flint, afirmou:

- Por que o senhor não demitiu o Sr. Gulliver?

- Porque acho que o Sr. Gulliver faz um excelente trabalho.

- Por que o senhor não pediu demissão então? Se ele não é o responsável, então é o senhor.

“Responsabilidade coletiva”

Diante deste ataque, repetido várias vezes por diferentes deputados, Douglas Flint apoiou-se na mesma linha de defesa utilizada na última segunda-feira na apresentação do resultado anual do banco. Primeiramente, ele aceita sua parte na “responsabilidade coletiva” do conselho de administração, mas recusa a responsabilidade individual direta. Em segundo lugar, afirma que desde que ele e Stuart Gulliver tomaram as rédeas do grupo, há quatro anos, o banco teria sido radicalmente reformado.

O HSBC Suíça reduziu o número de contas bancárias de 30 mil para 10 mil, e os valores depositados foram reduzidos em 42%. Apenas 30% dos gestores que trabalhavam em 2006, início do período coberto pelo Swissleaks, ainda estão no banco. Além disso, os clientes hoje precisam provar que estão em dia com o Fisco, e os saques em dinheiro são agora limitados a 10 mil dólares. A respeito da filial Suíça, mas também de outros escândalos financeiros que mancharam o banco, Douglas Flint acrescentou: “Espero sinceramente que não tenhamos mais esqueletos no armário”.

Contas sem correspondência

A sessão parlamentar ajudou a jogar mais luz sobre as práticas do HSBC Suíça durante a primeira década dos anos 2000. Sobre a prática das contas sem correspondência (hold mail accounts), por exemplo, o titular solicitava jamais receber qualquer correspondência ou comunicado diretamente em casa, para não deixar rastros. Entre 2006 e 2007, esta ainda era uma prática comum. “Então, se entendi bem – disse um deputado – era possível ter uma conta, e pedir ‘Antes de mais nada, nunca me escrevam’, e depois vir retirar pessoalmente enormes quantias em dinheiro. E isso não era considerado suspeito?”

A resposta lamentável de Douglas Flint foi: “não naquele momento”. E ele acrescenta que o HSBC Suíça não era um banco “anormal” neste sentido, e que seus concorrentes teriam então as mesmas práticas. “Era uma época diferente”.

Os deputados também se irritaram ao ouvir Douglas Flint repetir diversas vezes que os dados transferidos para as autoridades francesas por Hervé Falciani, ex-especialista em informática do HSBC Suíça, haviam sido “roubados”.

- Como se atreve a isso? - atacou John Mann

- Foram dados roubados.

- Mas isso não foi bom?

- Não. Não deveríamos ter um sistema que dependa do roubo de dados.

De fato.

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