8 de março de 2015

Racionalizar a loucura

O intelectual como servidor do Estado

Andrew J. Bacevich

Tom Dispatch

Tradução / Cientistas políticos e comentaristas políticos, – gente de ar esnobe que vive de “assessorar” os reles mortais que recebem votos dos eleitores – são uma praga da república. Como espécies invasivas, eles infestam a Washington de hoje, onde sua presença sufoca o bom-senso e levou à beira da extinção a simples capacidade de perceber a realidade. Sempre em ternos outailleurs & colarzinhos caros – aqueles almofadinhas dão aulas ao Congresso, pontificam na imprensa escrita e falada, e até já esquentam cadeira em posições chaves no Executivo, sempre com impacto maléfico. São como a carpa asiática jogada nos Grandes Lagos.

E tudo começou tão inocentemente. Nos idos de 1933, com o país nas garras da Grande Depressão, o presidente Franklin Delano Roosevelt foi o primeiro a atrair para o estado um punhado de cientistas sociais e políticos, ansiosos para incorporarem-se às fileiras de seu New Deal. Crise econômica sem precedentes exigia algum pensamento novo – pensou FDR. Se as contribuições desse “Brains Trust” tiveram qualquer impacto positivo ou se só ajudaram a retardar a recuperação econômica (e foram um total desperdício de tempo e dinheiro) é um tema que ainda se discute atualmente. No mínimo, contudo, a chegada de Adolph Berle, Raymond Moley, Rexford Tugwell e outros elevaram o cenário de uísque e charutos de Washington. Como membros beneméritos da “intelligentsia”, recebiam então uma espécie de cachê artístico, como pianistas de boate.

Então, veio a II Guerra Mundial, seguida imediatamente pela implantação da Guerra Fria. Esses eventos trouxeram a Washington uma segunda leva de “pensadores profundos”, cuja agenda cerebral estava agora integralmente dedicada à “segurança nacional”. Esse conceito elástico pela própria natureza – melhor seria identificar logo o problema e chamar a coisa, para sempre, de “insegurança nacional” – reunia simplesmente qualquer coisa que tivesse a ver com prontidão para fazer guerras, ou sobreviver a elas, incluindo economia, tecnologia, desenho de armas, tomada de decisões, estrutura das Forças Armadas e outros temas ditos de vital importância para a sobrevivência da nação. A insegurança nacional tornou-se, então – e assim permanece atualmente – a política mundial que é como um maná, presente que nunca para de cair dos céus.

Gente que se especializou em pensar sobre a insegurança nacional veio a ser conhecida como “intelectuais da defesa”. Os “especialistas” pioneiros nessa empreitada, lá nos anos 50, recebiam o cheque de pagamento semanal de think tanks como a prototípica Corporação RAND, e de instituições acadêmicas mais tradicionais. Entre essa gente havia figuras muito sinistras, como Herman Kahn, que se vangloriava por “pensar o impensável”; e Albert Wohlstetter, que distribuía“tutoriais” em Washington sobre as complexidades de manter-se “o delicado equilíbrio do terror”.

Nesse ensandecido mundo, a moeda em circulação era, e continua a ser, “relevância política”. Significa inventar produtos que possam sugerir alguma impressão de novidade, ao mesmo tempo em que sirvam, mesmo, para perpetuar a empreitada “oficial” que esteja em andamento. Um exemplo radical de “insight” de alta relevância política é a descoberta, pelo Dr. Fantástico (Dr. Strangelove) , de um “atraso no escavamento da mina” – antecessor do “atraso na construção do bombardeiro” e do “atraso na construção do míssil” os quais, nos anos 50, deixaram os EUA supostamente atrasados em relação aos soviéticos na corrida armamentista e precisando alucinadamente se igualarem a eles. Naquele momento, com uma troca de tiros de bombas termonucleares a um passo de destruir o planeta, os EUA estavam atrasados – diz o Dr. Fantástico. – Daquela vez, porque não cavaram suficientes abrigos subterrâneos para salvar pelo menos uma pequena parte da humanidade.

Num único brilhante meneio frasal, o Dr. Fantástico postula uma nova raison d'être para todo o aparelho de insegurança nacional, assegurando assim que o jogo possa prosseguir mais ou menos eternamente. A sequência do filme de Stanley Kubrick mostra o general “Buck” Turgidson e outros medalhados na Sala de Guerra, hoje, desenvolvendo planos para vedar o atraso no escavamento da mina, como se nada no mundo tivesse acontecido de lá até hoje.

A ascensão do Estado de Insegurança Nacional

Mas foi nos anos 60, bem quando o Dr. Strangelove foi visto pela primeira vez nos cinemas, que os intelectuais-na-mídia, cientistas sociais e politólogos realmente ganharam um palanque só deles. A imprensa nos EUA passou a chamá-los de “intelectuais de ação” sugerindo energia e atividade importante. Os “intelectuais de ação” eram pensadores, mas também fazedores, membros de um “corpo amplo e em crescimento, de homens que escolheram sair dos seus nichos silenciosos e tranquilos nas universidades e envolver-se nos problema complexos que a nação enfrenta” – como eles foram definidos pela revista “LIFE”, em 1967. Dentre os problemas, o mais complexo era o que fazer sobre o Vietnã – problema que vinha como de encomenda para que os intelectuais da ação partissem logo para cima dele e o cobrissem de tabefes.

Ao longo de um século e meio antes, os EUA haviam feito guerras por muitas razões, dentre as quais ganância, medo, pânico, ira arrogante e legítima autodefesa. Em diferentes ocasiões, cada uma dessas causas, isoladas ou em diferentes combinações, tinha empurrado os norte-americanos à luta. O Vietnã marcou a primeira vez que os EUA foram à guerra, pelo menos em grande parte, em resposta a um punhado de ideias perfeitamente imbecis, postas em circulação por pessoas metida a inteligentes que ocupava postos de influência. Ainda mais surpreendente, os intelectuais de ação continuaram a falar a favor de continuar em guerra, mesmo muito depois de ser perfeitamente evidente, até para membros do Congresso, que a causa era causa mal concebida, mal pensada, mal propagandeada e condenada a terminar em fracasso.

Em seu excelente livro American Reckoning: The Vietnã War and Our National Identity, Christian Appy, historiador que leciona na Universidade de Massachusetts, nos lembra de o quanto aquelas ideias eram perfeitamente imbecis.

Como “Prova 1”, o professor Appy apresenta McGeorge Bundy, conselheiro para segurança nacional, primeiro do Presidente John F. Kennedy, depois de Lyndon Johnson. Bundy é produto de estufa de Groton e Yale, e ganharia fama como o mais jovem reitor da Faculdade de Artes e Ciências de Harvard, premiado com o posto, mesmo sem ter nem diploma de graduação.

Como “Prova 2”, lá estava Walt Whitman Rostow, que sucedeu Bundy no cargo de conselheiro de segurança nacional. Rostow também era de Yale, e formou-se no mesmo ano no curso colegial e como PhD. Adiante, passou dois anos em Oxford, na cátedra Rhodes. Como professor de história econômica no MIT, Rostow chamou a atenção de Kennedy com seu livro de 1960, título modesto, “The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto”, no qual oferece uma grandiloquente teoria do desenvolvimento, de aplicabilidade ostensivamente universal. Kennedy trouxe Rostow para Washington, para testar suas teorias de “modernização” em locais como o Sudeste Asiático.

Por fim, como “Prova 3”, Appy discute rapidamente a contribuição do professor Samuel P. Huntington para a Guerra do Vietnã. Huntington frequentou também Yale, antes de obter seu PhD em Harvard, e depois voltou para lecionar, tornando-se dos mais famosos cientistas políticos do pós II Guerra Mundial.

Um traço que se observa nos três, além da suspeita “formação” adquirida em New Haven: rendição e comprometimento inabaláveis com as supostas verdades da Guerra Fria. A principal dessas supostas verdades era a seguinte: um monólito denominado “Comunismo”, controlado por um pequeno grupo de ideólogos fanáticos escondidos dentro do Kremlin, era uma ameaça existencial, não só contra os EUA e seus aliados, mas contra a própria liberdade em si. A ideia veio com o corolário essencial: a única esperança de se evitar esse resultado cataclísmico seria os EUA resistirem vigorosamente contra a ameaça comunista onde quer que ela erguesse a cabeça.

Compre essas hipóteses gêmeas, e você aceita o imperativo de que os EUA tinham de impedir a qualquer custo que a República Democrática do Vietnã, também chamada Vietnã do Norte, viesse a absorver a República do Vietnã, também chamada Vietnã do Sul, criando um país unificado; em outras palavras: o imperativo de que o Vietnã seria uma causa pela qual valia a pena matar e morrer. Bundy, Rostow e Huntington não só engoliram a hipótese com anzol, linha e carretel, como, além disso, passaram a dedicar-se a conseguir que outros em Washington também fossem igualmente fisgados.

Em 1965, quando clamava pela “americanização” da Guerra do Vietnã, Bundy começava a duvidar de que se fosse possível vencer aquela guerra. Mas, ninguém precisava se preocupar: ainda que o esforço terminasse em fracasso, como disse ele, aconselhando, ao presidente Johnson, “a política faz valer a pena”.

Como assim? “No mínimo” – escreveu Bundy – “esvaziaremos as críticas de que não fizemos tudo que poderíamos ter feito, e o que fizemos será importante em muitos países, inclusive no nosso”. Se os EUA acabaram por perder o Vietnã do Sul, pelo menos os norte-americanos morreram tentando impedir que perdessem – e essa, graças a uma lógica pervertida e na avaliação do mais jovem reitor de Harvard de todos os tempos, seria a garantia da salvação. Bundy acreditava que o ponto essencial seria impedir que outros vissem os EUA como um “tigre de papel”. Negar-se à guerra, mesmo que uma guerra perdida, implica(ria) perder credibilidade. Tinham de se dedicar, a qualquer custo, a “Não deixar que pensem que quando nos envolvemos, esquecemos de considerar algum grande perigo”. Esse o problema do qual tinham de fugir.

Rostow até superou Bundy em linha-dura. Além de defender incansavelmente os bombardeios coercitivos para influenciar os políticos do Vietnã do Norte, Rostow também foi o arquiteto-chefe de algo que ficou conhecido como Strategic Hamlet Program. A ideia era acelerar o processo Rostowiano de modernização, realocando à força os camponeses vietnamitas, de suas vilas ancestrais, para campos montados pelo governo de Saigon, onde encontrariam segurança, educação, assistência médica e para plantar. Assim se conquistariam corações-e-mentes. Os camponeses nunca mais teriam qualquer contato com os comunistas, e a derrota do levante comunista decorreria automaticamente, com o povo do Vietnã do Sul introduzido na “era do alto consumo de massas”, à qual toda a humanidade ascenderia como destino final.

Assim dizia a teoria. A realidade foi um pouco diferente. Os Hamlets Estratégicos que chegaram a ser tentados eram exatamente iguais a qualquer campo de concentração dos nazistas. O governo de Saigon revelou-se fraco demais, incompetente demais e corrupto demais para cumprir sua parte do trato. Em vez de ganhar corações-e-mentes, o programa gerou alienação em níveis altíssimos e, de fato, só conseguiu desestabilizar a sociedade camponesa nas áreas onde chegou a ser iniciado. Outro resultado da “ideia” foi que número crescente de camponeses arrancados de suas terras e casas afluiu para as cidades do Vietnã do Sul onde praticamente não havia trabalho além do serviço doméstico para a crescente população militar dos EUA – atividade que muito dificilmente levaria a algum tipo de desenvolvimento sustentável.

O fato é que mesmo depois de a Guerra do Vietnã ter terminado em uma derrota total para os EUA, Rostow ainda insistia que sua teoria teria sido “confirmada”. “Nós e os asiáticos do sudeste”, escreveu ele, usamos os anos de guerra “tão bem que nem houve pânico [quando Saigon caiu], que fatalmente teria havido se não tivéssemos intervindo”. Por incrível que pareça, contado hoje, o fato é que Rostow “comprovou” inúmeras boas notícias, todas atribuidas à guerra norte-americana.

“Desde 1975, houve uma expansão geral do comércio de outros países daquela mesma região com o Japão e o Ocidente. Na Tailândia, vimos surgir uma nova classe de empresários. Malásia e Singapura tornaram-se países de bens manufaturados diversificados para exportação. E vê-se hoje a emergência de uma classe muito mais densa de tecnocratas na Indonésia.

Pronto. Aí está. Você queria saber por que 58 mil norte-americanos (e um número vergonhosamente maior de vietnamitas) morreram na Guerra Americana? Morreram para estimular o surgimento de empresários, aumentar as exportações e fazer emergir muitos tecnocratas por todo o sudeste da Ásia.

Appy descreve o professor Huntington como outro intelectual de ação com grande facilidade para ver “o bom” de todas as catástrofes. Na visão de Huntington, o deslocamento interno de sul-vietnamitas causado pelo uso desproporcional do poder de fogo dos EUA, e o fracasso dos Hamlets Estratégicos de Rostow, na verdade, foram notícias boas. Estava agora muito fácil o processo de garantir aos norte-americanos, pleno domínio sobre os insurgentes.

A chave para a vitória final, Huntington escreveu, foi a “urbanização e modernização por alistamento forçado, que rapidamente tirou o país em questão da fase na qual um movimento revolucionário rural pode esperar gerar força suficiente para chegar ao poder”. Ao esvaziar o país rural, os EUA poderiam vencer a guerra nas cidades. “A favela urbana, que parece tão horrível aos olhos dos norte-americanos de classe média, muitas vezes se converte, para o camponês pobre, em portal para uma vida nova e muito melhor”. O fraseado pode ter sido sanitizado, mas a ideia continua clara e bem suja: os desafios da vida na cidade, em estado de miséria indescritível, transformariam como por milagre aqueles mesmos camponeses, em gente bem mais interessada em fazer um pé de meia, do que em se alistar em revoluções sociais.

Revisitadas décadas depois, essas ideias defendidas de modo público pelos Bundy-Rostow-Huntingtons – ação de primeira qualidade de intelectuais da ação! – parecem piores que obscenas e escandalosas. Elas insultam qualquer inteligência mediana e nos fazem pensar como é possível que alguém, algum dia, tenha levado a sério uma quantidade tão absoluta de besteiras.

Como aconteceu que, durante a Guerra do Vietnã, ideias tão ruins tenham tido tanta influência, tão perversa? Por que essas ideias foram tão impermeáveis a qualquer crítica? Por que não se as pôde desconstruir devidamente? Por que, em resumo, foi tão difícil para os norte-americanos, naquele momento, farejar a besteira que lhe era impingida como “pensamento”?

Criar um Vietnã em câmera lenta, para o século XXI

Essas perguntas absolutamente não interessam só por terem algum valor histórico. Elas são muito importantes atualmente, aplicadas ao trabalho de tecelagem da versão “século XXI”, dos cientistas sociais e politólogos que operam, atualmente, todos especializados em insegurança nacional, cuja besteira serve de “fundamento”, atualmente, para políticas que absolutamente não são mais coerentes que as políticas usadas para justificar o início e a continuação da Guerra do Vietnã.

Os sucessores dos Bundy-Rostow-Huntingtons subscrevem hoje as suas próprias pressupostas “verdades”. Dentre elas, a principal suposta “verdade” é que um fenômeno chamado “Terrorismo” ou “Radicalismo Islâmico”, inspirado por um pequeno grupo de fanáticos controlado por um pequeno grupo de ideólogos fanáticos escondidos em diferentes pontos no Oriente Médio Expandido é uma ameaça existencial, não só contra os EUA e seus aliados, mas – sim, a coisa ainda vive entre nós! – contra a própria liberdade considerada em si. E a ideia veio com o corolário essencial empoeirado e importado da Guerra Fria: a única esperança de se evitar esse resultado cataclísmico é os EUA resistirem vigorosamente contra a ameaça terrorista/islamista, onde quer que ela erga a cabeça.

Pelo menos desde o 11 de Setembro de 2001, e pode-se dizer que pelo menos ao longo das duas últimas décadas, sem faltar um dia, os políticos norte-americanos tomaram essas “ideias” como teorias fartamente confirmadas e sem erro possível. Acontece assim, em parte, porque poucos dos intelectuais especializados em insegurança nacional deram-se o trabalho de questionar as tais “ideias”.

A verdade é que esses especialistas impediram o Estado de ter o dever de tratar dessas questões e problemas. Pense nessa canalha toda como “intelectuais” devotados a fugir e renegar toda e qualquer atividade intelectual genuína. Mais ou menos como Herman Kahn e Albert Wohlstetter (ou o Dr. Fantástico), a função deles é perpetuar a empreitada em curso.

O fato de que a própria empresa tornou-se totalmente amorfa pode realmente facilitar esses esforços. Antes se falava de Guerra Global ao Terror, era uma “Global War on Terror, GWOT”. Hoje, é uma Guerra Sem Nome. É mais ou menos como aquela famosa sentença da Suprema Corte sobre pornografia: não sabemos definir; só sabemos que é quando vemos “a coisa”. É assim, também, com o “ISIL/ ISIS/ Daesh/ Estado Islâmico”, a mais recente manifestação etérea a capturar todas as atenções de Washington.

A única coisa que se pode dizer com certeza sobre a empreitada Sem Nome é que ela continua e não há fim à vista. Está convertida numa espécie de Vietnã em câmera lenta, favorecendo reflexão espantosamente rarefeita sobre o curso até agora e sobre rumos futuros. Se ainda há “Brains Trust” funcionando em Washington, foi esquecido lá, no piloto automático. Hoje, a segunda e terceira gerações bastardas da RAND que ocupam vastos andares na zona noroeste de Washington – Centro disso, Instituto daquilo – concentram-se dia e noite em discussões sobre os equivalentes atualizados para hoje dos “Strategic Hamlets”, sem nem um instante de dedicação a qualquer pensamento mais fundamental.

O que me empurrou para essas mal traçadas linhas foi a notícia de que Ashton Carter está de volta ao Pentágono, como 4º secretário de Defesa do presidente Obama. O próprio Carter foi um intelectual de ação do jeitão dos Bundy-Rostow-Huntingtons e fez carreira alternando períodos de “serviço” em Harvard com idem “lá” (no Pentágono). Carter também é “de Yale” e também foi “professor da cátedra Rhodes”, com um PhD de Oxford. “Ash” – porque em Washington, quando acontece de você ser identificado só pelo primeiro nome (“Henry,” “Zbig,” “Hillary”) é sinal de que você realmente chegou-lá – é autor de quatrilhões de livros e artigos, inclusive uma coluna co-assinada com o ex-secretário da Defesa William Perry em 2006 na qual a dupla “exige” uma guerra preventiva contra a Coreia do Norte. “Não há ação militar sem perigos” – reconheceu ele, valentemente, naquele momento. “Mas o perigo da inação continuada ante a corrida da Coreia do Norte para ameaçar nosso país é muito maior” – exatamente o mesmo tipo de lógica à qual periodicamente recorrem todos os Herman Kahn e Albert Wohlstetter.

Agora que Carter retomou as rédeas do Pentágono, está tendo muito trabalho, dia e noite, para dar a impressão de que é um verdadeiro neo-Aristóteles em matéria de pensamento. Como anunciava (ameaçava?) uma manchete do Wall Street Journal, “Ash Carter Quer Novos Olhos Contra as Ameaças Globais”. Claro que há uma pilha de ameaças globais. Claro também que o Secretário de Defesa dos EUA tem mandado divino para enfrentá-las todas, claro, todo mundo sabe! Seu predecessor, Chuck Hagel (sem título de Yale), era dado a andar com cautela. Carter, não. Carter é o contrário. Já chegou mostrando que vem para agitar o pedaço.

Com esse objetivo em mente, logo no segundo dia de trabalho no Pentágono, jantou com Kenneth Pollack, Michael O’Hanlon e Robert Kagan, todos intelectuais de alta patente na insegurança nacional, e velhos paus para toda obra em Washington. À parte o fato de os três prestarem serviços à Brookings Institution, os três orgulham-se de ter apoiado a Guerra do Iraque nos idos de 2003. Hoje, eles “exigem” redobrados esforços contra o ISIL/ ISIS/ Daesh. Para termos certeza, nós todos, de que a orientação fundamental da política exterior dos EUA é firme, sólida, confiável (só temos de tentar mais, com mais empenho), onde encontrar melhores conselheiros que Pollack, O’Hanlon e Kagan (qualquer Kagan)?

Será que Carter contava com receber novos “insights” dos seus parceiros de jantar? Ou estaria “sinalizando” para as redes de professores-adjuntos, professores-convidados, professores-doutores, professores-em-chefe e sociólogos-politólogos-comunicólogos que as verdades vigentes da insegurança nacional permanecerão sacrossantas? Decida você, amigo leitor.

Logo depois, a primeira viagem internacional de Carter ofereceu mais uma oportunidade para sinalizar suas intenções. No Kuwait, reuniu um conselho de guerra, de altos funcionários militares e civis para que o atualizassem sobre a guerra contra o ISIL/ ISIS/ Daesh. Em um ousado movimento que o rompeu crucialmente com as práticas padrão, o senhor do Pentágono proibiu relatórios em Power Point. Um dos participantes descreveu o evento como “seminário escolar de cinco horas” – todos puderam falar de coração aberto, lavar a alma. “Isso é revirar todos os paradigmas”, comentou, ainda tomado de assombro, um oficial sênior do Pentágono. Todos confirmaram que, sim, Carter desafiou seus subordinados a “olhar com outros olhos para esse problema”.

É claro que Carter pode ter dito: “Vamos olhar a coisa como se fosse outro problema”. Mas essa seria uma postura radical demais para ser levada a sério – seria o equivalente de ele sugerir, lá nos idos dos anos 60 que os pressupostos dos EUA para o Vietnã deveriam ser reexaminados.

Seja como for – e sem surpresas – o “olhar novo” não levou a qualquer conclusão diferente da velha. Em vez de revirar algum paradigma, Carter reafirmou a existência do mesmo velho paradigma: a atual abordagem que os EUA têm implantado para enfrentar o ISIL/ ISIS /Daesh é confiável. Só precisa de uns beliscões – a “deixa” para os Pollacks, O’Hanlons e Kagans escreverem qualquer besteira – só para manter a conversa fiada que tomou o lugar de debate sério.

E alguém precisa dessa conversa fiada “jornalística” “intelectual” “sociológica-politológica-histórica” de araque sem fim? Ela melhora de algum modo a qualidade das políticas norte-americanas? Se os intelectuais de ação/ de politologia/ de defesa calassem o bico, de vez, os EUA seriam menos seguros?

Permitam-me propor um experimento. Ponham todo esse pessoal em quarentena. Nada radical. Não é para sempre. Só até que a última neve do inverno degele na Nova Inglaterra. Mandem essa gente de volta para Yale para reeducação. E vamos ver se conseguimos sobreviver sem eles, por um mês, dois meses.

Enquanto isso, convidemos veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, para que ensinem ao país o melhor meio de enfrentar o ISIL/ ISIS/ Daesh. Turn the op-ed pages of major newspapers over to high school social studies teachers. Entrevistem, no horário nobre, domingo à noite, diretores de escolas públicas. Quem sabe a sabedoria que pode haver, escondida por aí?

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