22 de março de 2015

Se Stephen Harper está falando sério sobre a criminalização de "práticas culturais bárbaras", então ele deveria prender a si mesmo

E enquanto ele o faz, ele deveria prender todos os outros líderes ocidentais que barbarizaram o mundo muçulmano também

Robert Fisk


Tradução / Stephen Harper perdeu a noção? Esqueça sua viagem a Jerusalém ano passado na qual o primeiro ministro canadense disse que as críticas à Israel eram uma “máscara” para o antissemitismo.

Ignore seu fracasso em trazer para o Canadá o jornalista do al-Jazeera Mohamed Fahmy, cujo novo julgamento foi estabelecido pelo governo Egípcio para dar a ele a chance de partir para seu país de adoção. Deixe de lado a afirmação “blairista” de que os assassinos Islâmicos de soldados canadenses não tiveram nada – absolutamente nada – a ver com sua decisão de enviar os jatos F-18 Canadenses contra o EI (Estado Islâmico).

Agora Harper, o homem de boa aparência cujas políticas pró-Israel podem fazê-lo ganhar um assento no Knesset (parlamente de Israel), está prestes a promover uma excêntrica peça de legislação no parlamento em Ottawa. É chamada – e eu alerto os leitores a repetirem as palavras ao menos que pensem que já é 1º de abril – “Ato de tolerância zero para práticas culturais bárbaras.”

Sim, quando li a frase pela primeira vez “Ato de práticas culturais bárbaras,” tive a certeza que era uma piada, uma frase do “Big Bang Theory” ou um drama do Canal 4 sobre o primeiro mandato de Nigel Farage.

Não, é tudo real. Mas me deixe explicar rapidamente que “as práticas culturais bárbaras” em questão são a poligamia, violência doméstica “de gênero”, “assassinatos por honra” e forçar crianças abaixo de 16 anos a deixarem o Canadá para se casarem no exterior. Não tenho nenhum problema com legislações contra isso, é claro. E nem muitos canadenses.

Também sou contra a invasão de países estrangeiros, colonizar as terras de outras pessoas, afogá-las com jatos de água e bombardear festas de casamento, ou atirar drones nas vilas do Vaziristão. Mas essas não são exatamente as “práticas culturais bárbaras” que o Sr. Harper tem em mente.

O que é estranho sobre a barbárie na qual ele está pensando – mesmo que o uso da palavra “cultura” seja intrigante agora que o EI determinou que “cultura” é um pecado depois do massacre do museu de Tunis – é que essas práticas já são proibidas pela Lei canadense.

Poligamia é ilegal no Canadá – mesmo que Mórmons polígamos em British Columbia pareçam estranhamente intocados pela nova legislação – e os canadenses ficaram um pouco perplexos ao ouvirem do seu governo semana passada que existem “centenas” de polígamos em seu país. Quanto às “mortes por honra”, assassinato é assassinato no Canadá, na Inglaterra e nos EUA e em quase todos os outros países do mundo.

Não, a pegada é que essa legislação única, que os membros parlamentares canadenses irão discutir novamente hoje, não vem do Peter MacKay, ministro da justiça canadense perfeitamente capaz, mas sim do ministro – sim você acertou – da cidadania e imigração. Isso não é estranho?

O sujeito encarregado das políticas de imigração canadense é Christopher Alexander, um político dito “cultural”, um homem de McGill e Balliol, ex-embaixador canadense no Afeganistão, onde há muita poligamia, “morte por honra”, casamento infantil, e, bom, não vamos nos aprofundar na corrupção do governo afegão, da tortura policial, drones e do resto.

Por que na realidade, a nova legislação canadense é sobre estrangeiros – ou melhor dizendo – muçulmanos. Por isso que os Mórmons de British Columbia não têm nada com o que se preocupar. Por que o Ato de tolerância zero para práticas culturais bárbaras (Lei S-7) – vamos continuar repetindo esse nome estranho – está jogando com o que o colunista Thomas Walkom chama de “cartão de barbárie estrangeira”.

Põe em primeiro plano, não o crime propriamente dito, mas o crime especificamente associado com os muçulmanos – por isso a ênfase legislativa do governo canadense de que o ato é contra “tradições” bárbaras. E os muçulmanos, como sabemos, por séculos têm sido conhecidos no ocidente pelos haréns, muitas mulheres e desrespeito pelas mesmas.

Existem, de fato, muitas coisas erradas com as sociedades muçulmanas. Escrevi extensivamente no The Independent sobre o tormento da “matança por honra” – o massacre de jovens mulheres que recusam casamentos arranjados ou adultério ou que viraram boatos por se comportarem supostamente de forma imoral (como ligar para um homem em um celular) no Curdistão, Afeganistão, Turquia, Paquistão, “Palestina”, Jordânia e Egito.

Vamos esquecer por um momento que as ONGS me disseram que por habitante, a “morte por honra” pode ser praticada ainda mais amplamente dentre Comunidades cristãs Egípcias e Jordanianas. Os cristãos, com certeza, não estão entre os alvos de Christopher Alexander.

É estranho também, que “bárbaro” seja parte do vocabulário do EI para os estrangeiros que bombardeiam predominantemente países muçulmanos – o bombardeio americano do Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano, Somália, Iêmen e Líbia vêm à mente nos últimos 42 anos – e pactuam com a ocupação e roubo de terra dos árabes muçulmanos pelo mesmo pais nos quais os críticos estão em perigo de serem chamadas de antissemitas por Stephen Harper.

E você pode ter certeza que esse mesmo primeiro-ministro, em seu espanto com as práticas bárbaras do EI – e muçulmanos canadenses – irá evitar conversar sobre um pequeno escândalo que deve o estar incomodando um pouco em particular: a acusação turca de que um operador da inteligência síria que ajudou três meninas britânicas a entrarem na Síria comandada pelo EI também estava trabalhando para os empregados da inteligência Canadense. De acordo com a Turquia, esses agentes operaram da embaixada canadense em Amman – onde o embaixador canadense foi escolhido a dedo por Stephen Harper depois de ter sido o principal guarda-costas do primeiro ministro em Ottawa.

Agora não vou tomar o lado da policia Turca – eles me deportaram de seu país em 1991 depois de eu ter descoberto tropas turcas roubando cobertores e comida dos iraquianos refugiados. Mas seus arquivos de computador mostram que o suposto espião do Canadá, um certo Sr. Rashed, entrou na Turquia 33 vezes com um passaporte Sírio e já tinha viajado para o Canadá.

O homem não trabalha para o Serviço de inteligência e Segurança do Canadá, o país espia roupas, de acordo com fontes do governo de Ottawa. Mas oficialmente, CSIS, a policia real canadense – os caras que sempre “pegam seus homens” – e o gabinete de Harper recusaram comentários. O cidadão de Ottawa tem destacado outra parte da legislação de Harper, Lei C-44 agora, a qual iria permitir que juízes canadenses autorizassem atividades do CSIS no exterior “para investigar uma ameaça à segurança” do país, “sem referencia a nenhuma outra lei, incluindo a de qualquer estado estrangeiro.”

Muito a pensar sobre isso. Mas não, são aqueles muçulmanos canadenses mesquinhos – ou muçulmanos residentes no Canadá – que são os culpados, aqueles que entram em “práticas culturais bárbaras”. Certamente diz muito sobre as práticas culturais políticas de Harper.

Nenhum comentário:

Postar um comentário