1 de março de 2015

Tariq Ali: "É o momento certo para uma revolução palaciana"

Chris Hedges

Thruthdig

Tradução / Tariq Ali faz parte da realeza da esquerda. Seus mais de 20 livros sobre política e história, seus seis romances, suas peças e roteiros e seu jornalismo no jornal Black Dwarf, na New Left Review e outras publicações, fizeram dele um dos mais afiados críticos do capitalismo corporativo. Lança raios retóricos e críticas afiadíssimas contra os especuladores do petróleo e empresários oligarcas que manipulam a finança global e os os idiotas úteis na imprensa, no sistema político e na academia que os apoiam. A história da parte final do século XX e da primeira parte do século XXI provou que Tariq Ali, intelectual formado em Oxford e ativista há muito tempo incômodo, que certa vez apresentou-se como candidato trotskista ao Parlamento britânico, sempre foi muito surpreendentemente profético.

Ali, nascido no Paquistão, portador de dupla cidadania, britânica e paquistanesa, era ícone da esquerda durante as convulsões dos anos 1960. Mick Jagger escreveu Street Fighting Man depois de assistir a um comício antiguerra em Grosvenor Square no dia 17 de março de 1968, liderado por Ali, Vanessa Redgrave e outros à frente da Embaixada dos EUA em Londres. 8.000 manifestantes atiraram lama, pedras e bombas de fumaça contra a polícia de choque. A polícia montada atacou a multidão. Mais de 200 pessoas foram presas.

Semana passada, quando nos encontramos pouco antes de ele proferir a aula-homenagem a Edward W. Said na Princeton University, Ali elogiou as lutas de rua, e manifestações de protesto e o confronto aberto e sustentado contra o Estado que irromperam durante a Guerra do Vietnam. Lamentou o fim do radicalismo que foi nutrido pela contracultura dos anos 1960, dizendo que foi um evento “sem precedentes na história do império” e produziu o “período mais cheio de esperança” nos EUA, “intelectualmente, culturalmente e politicamente”.

“Não consigo pensar em exemplo de nenhuma outra guerra imperial na história, e não só na história do império norte-americano, mas também na história dos impérios britânico e francês, durante a qual dezenas de milhares de veteranos de guerra e muitos GIs que ainda estavam no serviço militar ativo, marcharam em frente ao Pentágono, dizendo que desejavam que os vietnamitas vencessem a guerra. Aquele foi um evento único nos anais do império. E foi o que assustou, atemorizou, fez tremer de pavor todos eles [os que estavam no poder]. Se o coração de nosso apparatus já foi contaminado [eles perguntaram] o que diabos é que vamos fazer?”

Esse desafio encontrou expressão até dentro dos muros do Establishment. Sessões e audiências pública da Comissão de Relações Exteriores do Senado desafiavam abertamente os que insistiam em orquestrar o banho de sangue da Guerra do Vietnã. “O modo como aquelas audiências públicas foram conduzidas educaram um segmento enorme da população”, disse Ali falando das audiências públicas conduzidas por liberais como J. William Fulbright. Ali, em seguida, acrescentou que, infelizmente, “aquelas audiências nunca vão acontecer novamente.”

“Aquele espírito foi, exatamente, o que a elite governante teve de atacar e fazer retroceder, e conseguiram que retrocedesse, com considerável sucesso”, disse ele. E esse retrocesso foi concluído com a implosão da União Soviética. Então a elite sentou e disse: ‘Ótimo. Agora podemos fazer o que bem entendermos. Nada mais existe do outro lado do mundo, e o que temos em casa - crianças protestando contra a Nicarágua e os Contras - é pouco. E aos poucos, a dissidência diminuiu.’ Até o início da Guerra do Iraque, manifestações, embora grandes, não passavam de um “assunto de 24 horas”.

“Antes, havia sido uma tentativa para parar a guerra. Quando não conseguiram pará-la, a manifestação acabou”, disse ele sobre as marchas de oposição à Guerra do Iraque. “Foi um espasmo. As autoridades conseguiram convencer o povo na rua de que eles não poderiam fazer nada; que fizesse a rua o que fizesse, os do poder sempre fariam o que bem entendessem. Foi a primeira constatação de que a própria democracia havia sido enfraquecida e estava sob ameaça.”

A volta do sistema político, trazendo com ele em profusão o dinheiro privado, a reformatação das leis e regulações para remover todos e quaisquer controles democráticos sobre o poder corporativo, a ocupação de toda a imprensa por um punhado corporações para silenciar qualquer dissidência, e a ascensão da vigilância total vendida no atacado, e o estado de vigilância “levaram à morte do sistema de partidos” e à emergência do que Ali chamou de “um extremo centro”. “Os trabalhadores estão sendo impiedosamente sacrificados no altar do lucro das empresas privadas - cenário que se vê em tonalidades dramáticas na Grécia. E não um há mecanismo ou instituição restante dentro das estruturas do sistema capitalista que seja capaz de pôr fim ou de mitigar a reconfiguração da economia global que a vai convertendo em um novo feudalismo impiedoso, em um mundo de senhores e servos.

“Esse extremo centro - não importa o partido que o constitua - efetivamente entra em colusão com as empresas privadas gigantes, incorpora os mesmos interesses e põe-se pelo mundo a fazer guerras”, disse Ali. Esse extremo centro estende-se por todo o mundo ocidental. Por isso é que cada vez mais e mais jovens afastam-se, lavando as mãos feito Pilatos, do sistema democrático como existe hoje. Tudo isso é resultado direto de se haver ensinado ao povo, depois do colapso da União Soviética, que “não há alternativa”.

Está se tornando cada dia mais volátil a batalha entre desejo popular e as demandas dos empresários oligarcas - que cada dia saqueiam maior número de pessoas pelo mundo, jogando-as na miséria e no desespero. Ali observou que mesmo os líderes que têm compreensão clara da força destrutiva do capitalismo sem controles - como o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, que é uma pessoa de esquerda - deixam-se intimidar pelo poder econômico e militar à disposição das elites empresariais. Por essa razão, principalmente, é que Tsipras e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acederam às demandas dos bancos europeus, em troca de uma prorrogação de quatro meses do atual processo de resgate da Grécia, por US$ 272 bilhões emprestados. Os líderes gregos foram forçados a se comprometer com manter reformas econômicas punitivas e a retroceder em suas promessas de campanha eleitoral, quando o partido de Tsipras, a SYRIZA, falava em cancelar grande parte da dívida da Grécia. A dívida grega chega a 175% do PIB grego. Esse negócio agora acertado, por quatro meses, como disse Ali, é uma tática de adiamento - mas ameaça enfraquecer todo o amplo apoio que a SYRIZA angariou entre os gregos. A Grécia não conseguirá pagar o serviço dessa dívida. Mais dia menos dia, as autoridades gregas e europeias terão de entrar em choque; e o choque, afinal, disparará uma quebradeira terminal e o derretimento financeiro na Grécia. Assim a Grécia se libertará da Eurozona, e disparará levantes populares na Espanha, Portugal e Itália.

O custo de desafio aberto, que, Ali assinalou, é a nossa única rota de fuga da tirania corporativa, irá, pelo menos a princípio ser doloroso. Nossos mestres corporativos não pretende liberar seu aperto de morte sem uma luta brutal.

O custo do desafio aberto, que, Ali enfatizou, é a nossa única rota de fuga da tirania corporativa, irá, pelo menos a princípio, ser doloroso. Nossos mestres não pretendem largar seu aperto de morte sem uma luta brutal.

Ali relembra o que lhe ensinava o seu valente, falecido e muito querido amigo, Hugo Chávez, presidente socialista da Venezuela, que tampouco conseguiu escapar sempre das forças de intimidação do Establishment. “Lembro-me das muitas conversas que tive com Chávez, e que eu dizia: ‘Comandante, por que parar aí?’, e ele sempre me dizia que não era realista tentar ir adiante, naquele momento. Podemos regular o capital, podemos fazer a vida mais difícil para o capitalismo, podemos usar o dinheiro do petróleo a favor dos pobres, mas não podemos derrubar o sistema.”

E, Ali acrescenta: “Os gregos e os espanhóis estão dizendo a mesma coisa.”

“Não sei o que a SYRIZA pensou", diz Ali. Se pensou “podemos dividir a elite europeia, podemos fazer uma vasta campanha de propaganda na Europa e eles serão obrigados a fazer concessões”... Isso seria loucura. A elite europeia, chefiada pelos alemães é dura na queda, não rachará assim tão facilmente. A elite europeia esmagou os gregos. Os líderes gregos deveriam ter dito ao próprio povo que “Vamos tentar arrancar as melhores condições possíveis - se não conseguirmos, o povo será informado sobre o que aconteceu e sobre o que os gregos teremos de fazer”. Não fizeram assim. Em vez disso, caíram na armadilha dos europeus. Os europeus praticamente não fizeram concessão alguma, que interessasse aos gregos.”

O choque entre os gregos e as elites empresariais que dominam a Europa, disse Ali, “não é econômico”.

“A União Europeia está pronta para “derramar bilhões contra os russos na Ucrânia”, Tariq Ali observa. “Não é uma questão de dinheiro. Eles podem derramar quanto dinheiro queiram, como estão preparados para fazer na Ucrânia. Com os gregos, a União Europeia finge que seria questão de dinheiro, mas é política. Temem que se os gregos conseguirem, a febre se dissemine. Em dezembro haverá eleições na Espanha. Se o partido Podemos [o partido da esquerda da Espanha] vencer, o segundo, depois do SYRIZA ter sido eleita na Grécia e seguindo avante, mesmo que os avanços sejam tímidos, e por via diferente, os espanhóis dirão que os gregos conseguiram. E há também os irlandeses, esperando pacientemente com seus países progressistas e dizendo 'Por que não poderíamos fazer o que a SYRIZA fez? Por que não podemos todos nos unir e agir diretamente contra nosso extremo centro?'”

Ali disse que sempre se sentiu “chocado e irritado por causa das muitas esperanças que a esquerda investiu em Obama.” Barack Obama, disse ele, “é um presidente imperial e se comporta como um, independentemente da cor da sua pele.” Ali, também, desacreditou das políticas de gênero que estão alimentando uma possível candidatura de Hilary Clinton para Casa Branca, que seria a primeira mulher presidente.

“Minha resposta é: ‘O que é isso?’”, disse ele. “Se ela vai bombardear o mundo e distribuir drones por todos os continentes, que diferença faz o gênero, se a política é a mesma? Aí está a chave: toda a política foi desvalorizada e rebaixada pelos “valores” do neoliberalismo. As pessoas degradaram as lutas, recolheram-se para lutas de identidade, lutas religiosas. Eu me pergunto se é mesmo possível criar algo em escala nacional nos Estados Unidos. Penso se o melhor não será concentrar-se nas grandes cidades e tratar de desenvolver alguns movimentos onde possam fazer diferença, em Los Angeles, New York ou em estados como Vermont. Pode ser mais inteligente concentrar-se em três ou quatro coisas e mostrar o que pode ser feito. Não consigo ver a velha sistemática, de reproduzir partidos políticos de esquerda cujo modelo é o mesmo dos partidos Republicano e Democrata, nos dar algum resultado avançado. Essas pessoas só trabalham com dinheiro. Às vezes eles nem veem gente do povo, há anos. É a democracia do cartão de crédito. A esquerda não pode copiar e nunca deveria ter copiado esse modelo. Os EUA são o osso mais duro de roer, mas se não roermos esse osso, estamos destruídos.”

Ali disse que teme que, se os estadunidenses algum dia se tornarem politicamente conscientes e decidirem resistir, o estado corporativo imporá diretamente as formas mais declaradas de repressão militarizada. A reação do governo dos Estados Unidos no caso das bombas na Maratona de Boston em 2013, o impressionou: “o Estado estadunidense fechou completamente uma cidade inteira, com o apoio da população.” Para Tariq Ali, a declaração virtual de lei marcial em Boston foi como “um ensaio geral”.

“Se conseguem fazer em Boston, conseguem fazer em outras cidades”, disse. Precisavam testar e testaram em Boston para ver se funcionaria. Isso me assustou.”

Para Tariq Ali, “quem fabrica ameaça fabrica medo. Criam-se cidadãos sonâmbulos. As autoridades estadunidenses nunca tentaram o que se vê atualmente, nessa escala, nem quando combatiam contra a União Soviética e o inimigo comunista, pressuposto o pior, o mais ameaçador, o mais perigoso de todos os tempos. Agora fazem exatamente o que se vê, em escala gigantesca, por causa de meia dúzia de terroristas sangrentos.”

Para ele, grupos como Black Lives Matter, trazem alguma esperança.

“Assim como os tradicionais partidos de esquerda foram esvaziados por todos os cantos do mundo, assim também os segmentos radicais da população afro-americana”, diz Ali. “Eles foram eliminados fisicamente. Martin Luther King e Malcolm X, alguns dos líderes mais talentosos, foram assassinados. Os Panteras Negras foram destruídos. Áreas onde os negros viviam na Costa Oeste foram inundadas com as drogas. Foi um ataque bem planejado. Mas os jovens que saíram às ruas no movimento Black Lives Matter parecem ter aquele velho espírito. Quando Jesse Jackson foi a Ferguson e tentou lá a sua demagogia, foi rechaçado. Aconteceu o mesmo na Costa Leste, com [Al] Sharpton. Esses líderes negros que se venderam estão sendo vistos, afinal, pelo que são.”

A principal preocupação de Ali é que essas organizações, como Black Lives Matter quase sempre só reagem aos eventos e “não se dão conta perfeitamente de que reagir a eventos não é suficiente para agir contra a continuada violência do Estado contra os cidadãos; que, para isso, é indispensável que os cidadãos contem com movimentos políticos.” Ele se preocupa com que os norte-americanos conheçam mal a própria história; poucos algum dia tiveram contato com a literatura da teoria revolucionária, de Karl Marx a Rosa Luxemburg. “Esse analfabetismo político”, diz ele, “significa que movimentos de oposição raramente são competentes para analisar efetivamente as estruturas e os mecanismo do poder capitalista; sem isso, não podem formular uma resposta política mais sofisticada.”

“Por que a classe trabalhadora nos EUA não produziu um Partido Trabalhista nem um Partido Comunista efetivo?” Ali pergunta. "Repressão. Se se considera o que aconteceu nos EUA nas primeiras décadas do século XX e na última década do século XIX, vê-se que muitos mercenários privados foram contratados para pôr fim a qualquer organização política democrática. É uma parte da história que raramente é focada. Esse amaldiçoado neoliberalismo degradou também os estudos de história. A história do morticínio entre os trabalhadores norte-americanos que tentavam organizar-se é um item que os historiadores norte-americanos realmente odeiam. Até se dedicam a alguns estudos de política, porque nesse campo podem usar seu anticomunismo: ensiná-lo e praticá-lo pelos jornais e televisões. Mas a história é problema mais amplo. Não se consegue entender a emergência dao SYRIZA sem compreender a II Guerra Mundial, o papel dos partisans, o papel do Partido Comunista que organizou os partisans e como, em dado ponto, 75% da Grécia era controlada por esses partisans comunistas. Então veio o ‘Ocidente” e fez uma nova guerra, obra de Churchill, com o apoio de Truman, para derrotar aquele povo.”

“Fui simpático ao movimento Occupy, mas Aquela conversa de não exigir nada, sem demandas, é inútil”, diz ele. Deveriam ter pauta de exigências. Que exigissem serviço público de assistência à saúde; fim das empresas que fabricam remédios e do controle das seguradoras sobre os planos de saúde. Que exigissem educação gratuita universal para todos os norte-americanos. A ideia promovida por anarquistas como John Holloway, de que se pode mudar o mundo sem tomar o poder é uma ideia inútil. Tenho um enorme respeito pelos anarquistas que mobilizam e lutam pelos direitos dos imigrantes. Mas critico muito os que constroem teorias de uma política sem política. É indispensável ter um programa político. Os anarquistas espanhóis, verdadeiros anarquistas, tinham um verdadeiro programa político. Esse novo anarquismo que temos visto não leva a lugar nenhum. E o mais provável é que metade dos grupos atualmente estejam infiltrados. Hoje sabemos quantos havia, de agentes do FBI, no Partido Comunista e no grupo dissidente trotskista. Eram muitos. Nas votações, quem votava eram agentes do FBI.”

Ali disse que “o fracasso dos cidadãos, que não conseguem construir movimentos de massa para desmontar o estado de total vigilância sobre os cidadãos logo depois de tudo que Edward Snowden revelou foi um exemplo de o quanto estamos todos mergulhados em uma mesma ilusão; e de nossa cumplicidade na opressão que se aplica contra nós mesmos. O culto do indivíduo e da autoimagem - que beira o autismo - produto da propaganda corporativa e do empreendedorismo neoliberal, infecta todos os aspectos da sociedade e da cultura, e leva à paralisia.

“Hollywood deu um prêmio Óscar a ‘Citizenfour’, e aí é o mais longe que vai”, diz Ali. Como se fosse importante. E aí está o mais assustador: não surgiu nenhum movimento por direitos civis, que unisse os cidadãos contra a vigilância em massa. O neoliberalismo realmente destruiu completamente a solidariedade e a empatia, auxiliado por novas tecnologias. É a cultura do narcisismo mais autista.”

Ali prediz que a atual onda de especulação global resultará em mais um crash financeiro. “Esse novo crash fará nascer movimentos, as pessoas dirão ‘Basta!’” Se esses movimentos derem origem a programas políticos radicais, com visão diferente, socialista, da sociedade, nosso “capitalismo autoritário” poderá ser enfrentado. Mas se não houver essa visão socialista, se a revolta for simplesmente reativa, as coisas ainda piorarão. O epicentro dessa luta, disse ele, será nos Estados Unidos.

“Se nada acontecer nos Estados Unidos, se nada de novo for criado para desafiar o império e seus excessos sistêmicos, será uma situação muito ruim para todos nós”, diz ele. “Será um problema para todos, se nada acontecer nos Estados Unidos.”

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