27 de março de 2015

Ucrânia: Um museu criacionista?

Por que o Ocidente está perdendo a guerra da informação

Ivaylo Grouev

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Uma meia verdade é a mais covarde das mentiras. 
Mark Twain

Tradução / Quando acompanho a cobertura da crise ucraniana em alguns dos mais respeitáveis e principais órgãos da mídia ocidental, tenho o estranho sentimento de estar passeando num museu de história natural. Não em qualquer um, mas num museu de história natural bastante incomum – um museu criacionista. Para quem talvez não saiba, aqui vai uma notinha de causar escândalo, espalhafatosa: há mais de 30 museus criacionistas nos Estados Unidos e dois na província canadense de Alberta – berço do Partido da Reforma, hoje Partido Conservador Progressista, no poder desde 2006 (dois nomes bastante enganosos).

Um dos mais novos museus criacionistas dos Estados Unidos está em Petersburg, Kentucky, uma instalação com tecnologia de ponta, de 6.500 m². Uma verdadeira maravilha da robótica, comparável ao melhor que Hollywood possa oferecer: pterodátilos animatísticos em tamanho natural, sons realistas dos rugidos do “rei dos lagartos” — Tyrannosaurus rex — cercado por jubilosos e despreocupados robôs de filhos de Adão e Eva. Surpreendentemente, aquele empreendimento alucinado, de 27 milhões de dólares, não dá prejuízo, nem está atirado às traças; muito pelo contrário – o tal museu das obras de Deus, incluídos eu e você e tudo que existe, atraiu até agora mais de 715 mil visitantes de todo o mundo, cada um dos quais pagou de muito bom grado 30 dólares por ingresso. (1)

Mas que paralelo pode ser feito entre o tal museu dos feitos divinos e a cobertura da crise na Ucrânia? O primeiro paralelo está nos fatos, no empenho em mostrar fatos, a própria exposição. No geral, a impressionante exposição-comprovação da obra de Deus em Petersburg é consistente com as últimas descobertas da paleontologia moderna: estão corretos o tamanho e as dimensões dos fragmentos de ossos e esqueletos; e as representações dos majestosos dinossauros são bastante críveis; com certeza, todas essas peças poderiam ser orgulhosamente exibidas em qualquer museu de ciência natural. Além disso, os filhos de Adão e Eva parecem bastante realistas e teriam lugar assegurado numa ousada estratégia de curador de museu que quisesse representar os primórdios da sedentarização humana.

O único problema é que tudo isso é falsificação pura! É um fato bem conhecido que o mundo não tem 5000 anos de idade, mas 13,2 bilhões de anos de idade e os seres humanos, ameba, orcas e bactérias responsáveis pela disenteria não foram criados em seis dias antes do fim de semana bem merecido de Deus. Então, onde está a Ucrânia aqui?

Como devem saber alguns leitores, foi recentemente inaugurada no centro de Kiev uma verdadeira exposição, ao ar livre, mostrando tanques, veículos blindados, metralhadoras e veículos queimados ou parcialmente derretidos, exibidos como se fossem provas de uma invasão russa na Ucrânia Oriental. A autenticidade das peças expostas é inquestionável – de fato, os tanques são tanques, realmente blindados; as metralhadoras são realmente metralhadoras capazes de realmente metralhar; e os carros queimados, sim, são carros. Entretanto, exatamente como no museu criacionista, o contexto é fictício.

Com efeito, lemos, vemos, ouvimos e ficamos profundamente traumatizados por inúmeros fatos e evidências que nos são apresentadas na cobertura da crise ucraniana que a mídia-empresa ocidental está fazendo. Vemos fotos de homens armados, soldados, casas explodidas, carros destroçados e tanques, bem como escombros de um avião de passageiros, filas de refugiados, pessoas esfomeadas, idosos vivendo em porões sem comida nem eletricidade – diversas fotos horríveis de cadáveres inteiros ou em pedaços. Tudo isso é verdadeiro e representativo da desoladora tragédia humana que ora acontece na Ucrânia. Mas nessa narrativa geral – assim como na narrativa dos criacionistas, que expõem dinossauros provavelmente gentis como babás, posto que não havia violência no Jardim do Éden – tudo que é mostrado pela mídia-empresa ocidental é, sempre, imagem distorcida do contexto real. Seguindo a lógica da versão do “Gênesis” by Poroshenko, o regime dito democrático liberal pró-ocidental de Kiev vai resolver todas as questões sociais, econômicas e políticas do país atormentado pela corrupção. Portanto, segundo essa narrativa, todos os fatos e exposições devem ser cuidadosamente dispostos exatamente da mesma forma como faria o curador de um museu criacionista. E exatamente como no museu criacionista, essa exposição apresenta um insuperável desafio à lógica fundamental, que deixa sem resposta a maioria das perguntas, senão todas elas.

Vamos citar apenas alguns deles. Por que as Forças Ucranianas de Polícia, conhecidas como Berkut, mataram seus próprios soldados, no dia 20 de fevereiro de 2014? Os fatos estão aí: 18 oficiais foram mortalmente baleados e mais de uma dúzia ficaram feridos. (2) Essa pergunta foi apagada da metanarrativa, bem como todas as perguntas em torno do “incêndio acidental” em 2 de maio de 2014 em Odessa, em que 48 pessoas (outras fontes falam de um número ainda maior) foram queimadas vivas, enquanto outras, que conseguiram pular do prédio em chamas, foram mortas a pauladas por ativistas de Maidan, na frente da Polícia, que nada fez para impedir o massacre. Por que, quase um ano depois desses eventos, a mídia-empresa ocidental ainda não fez essas perguntas ao Procurador-Geral da República ucraniana? Por que o governo ucraniano recusou-se a permitir que o Tribunal Penal Internacional investigasse esses fatos? Por que tudo isso nunca foi questionado pelos bastiões do jornalismo ocidental?

E não é só isso: a mídia ocidental também prefere não cobrir fatos que contradigam a lógica desse “Gênesis” by Poroshenko. Permanecem cuidadosamente ocultados todos os nomes dos que ordenaram e admitiram e, pois, são responsáveis pelo bombardeio de grandes centros urbanos como Donesk, Luhansk, Mariopol, Kramatorsk, Slovyansk. Como também não se sabe quem autorizou o uso de armas proibidas pela Convenção de Genebra, como fósforo branco e bombas de fragmentação. A mídia-empresa ocidental mostra pouco interesse em fazer as perguntas necessárias sobre a natureza da famosa Operação Antiterrorista (ATO, acrônimo em inglês), que usou artilharia pesada, aviação e tanques contra a população civil de Donetsk e Luhansk – 6,8 milhões de pessoas, população maior que a população total dos três estados Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia). (3)

Em vez de saudável jornalismo investigativo e respectivas boas respostas, oferecem-nos imagens dramáticas. Seja como for, a técnica é a mesma, para o “jornalismo” ocidental e para os criacionistas do Kentucky: apagar o contexto. Não apenas se publicam fotos de inexistentes tanques russos cruzando a fronteira ucraniana, tão inverossímeis quantos Adão e Eva no paraíso de bondosos dinossauros, mas, também, as tais fotos são longamente discutidas no plenário do Congresso dos EUA (as fotos mostram tanques russos, mas quando cruzaram a fronteira com a Geórgia, em 2008). E o mesmo se vê sobre o avião holandês, mostrado em fotos em que Putin aparece ao lado de imagens das vítimas. Mas silêncio total, e a empresa-mídia ocidental completamente apática, em tudo que tenha a ver com as gravações da caixa preta do MH17, divulgadas cinco dias depois do desastre. Em todos os casos, a resposta é sempre a mesma, não importa qual seja a pergunta: a culpa é de Putin.

De fato, Putin se tornou o “queridinho” da mídia ocidental: nos EUA, foi tema de 5.771 matérias; 8.929 na Alemanha, e 5.209 no Reino Unido, só em 2014 (4). É grande cobertura, pela empresa-mídia. Nesse roteiro bíblico, o recentemente eleito presidente Poroshenko tem o papel do mocinho, e o presidente Putin é o bandido. De repente, Putin sofre da mais grave síndrome de múltipla personalidade jamais vista, reencarnando ao mesmo tempo Stálin, Hitler e o famoso “Jihad John” do ISIS (como se sabe, graças à CNN, o mistério foi esclarecido: o degolador máster é Putin) (5). Mas a demonização sem precedentes do Presidente da Federação Russa não é evento isolado, sendo consistente com a difamação de Saddam Hussein (“O carniceiro de Baghdad”), de Muammar Gaddafi (“Homem-cão raivoso”), de Slobodan Milosevic (“O carniceiro dos Bálcãs”). Todas essas campanhas de demonização foram lançadas pouco antes do início das campanhas militares dos EUA no Iraque, na Líbia e na Iugoslávia. Tanto para a empresa-mídia ocidental, apologista do Gênesis by Poroshenko, quanto para os criacionistas, espaço, tempo e lógica merecem pouca consideração. Os criacionistas comprimiram o Mesozoico, que começou há 252 milhões de anos e terminou 66 milhões de anos depois, em apenas alguns milhares de anos. A empresa-mídia serve-se da mesma técnica, para período muito mais curto. Em 2007, a personalidade do ano para a revista Timefoi Putin. Sete anos depois, o mesmo Putin virou Hitler. (6)

O que é notável na atual “Guerra de informação” é o quanto o contexto-zero da empresa-mídia ocidental vem-se tornando violento e implacável em sua sempre desmentida fabulosa inventividade. Para consolidar o mito–Putin, a mais recente manchete diabólica proclamando “Putin matou meu filho!” pode não ser suficientemente dramática. Logo inventarão algo mais espetacular, como “Putin matou o filho de Deus!”, plenamente aceitável no “ambiente criacionista” em que vegeta a empresa-mídia ocidental, quando longos períodos de tempo podem ser facilmente comprimidos sem nenhum questionamento. Com efeito, Putin pode muito bem viajar no tempo para a Palestina do Ano 0, ir até o Gólgota montado num amigável pterodátilo, perfurar o desidratado corpo de Cristo, e no caminho de volta fazer uma parada em Munique em 1938 para tomar café da manhã com Hitler. Exagero? Claro que sim. Como são exageros a história dos pterodátilos gentis e a lógica do curador do museu ao ar livre de Kiev, que exibe tanques “russos”, mas com NIV (números de identificação de veículos) ucranianos.

A mídia ocidental tem dito meias-verdades e mentiras descaradas, mostrando o novo regime de Kiev como “democrático” e os “rebeldes” como terroristas. A natureza dessa “propaganda” mais parece pregação de um tele-pastor evangélico de San Antonio, Texas, que reportagem publicada por veículos tidos como respeitáveis da empresa–mídia, alguns dos quais de reconhecida tradição. Esta é uma das razões pelas quais toda essa empresa–mídia está rapidamente perdendo credibilidade, além de fatias de mercado. Em contraste, a blogosfera vem bombando, quando o tema é a crise ucraniana, ao oferecer reportagens alternativas, vídeos, testemunhos do front e, mais importante ainda, análises de conteúdo alternativas e contexto.

Há um nítido apetite por reportagens diferenciadas e por fatos crus em primeira mão, bem como por análises críticas que contradigam a metanarrativa oficializada. Agências midiáticas como RT estão visando especificamente a esse tipo de audiência que não para de crescer no Ocidente, na Europa e nos EUA. Não surpreende que RT seja hoje o segundo canal estrangeiro mais visto nos Estados Unidos (depois da BBC World News) e a rede social número um nas maiores metrópoles como Nova Iorque, Los Angeles, Chicago e Washington. Sua difusão global alcança a impressionante marca de 700 milhões de telespectadores. (7)

Qual a razão para o repentino sucesso deste concorrente tão “jovem”? A explicação está na própria concepção da propaganda ocidental, que amiúde alcança níveis adequados para jovens e idosos infantilizados ou evangélicos autoiludidos. Claro está que nada aí augura qualquer glória, e o panorama não é nada otimista, para os tradicionais bastiões do jornalismo produzido pela mídia ocidental, cuja popularidade está caindo, sobretudo entre as pessoas de menos de 35 anos. Naturalmente, se algum dia alguns desses veículos e respectivas mídias forem extintas, como extintos foram os dinossauros, ninguém poderá culpar algum asteroide destrambelhado.

A razão para a sua morte é óbvia. A velha e escandalosa complacência com a Grande Mentira; a rejeição pervertida ao exercício de qualquer moralidade profissional e pessoal. Não esqueçamos que o mote propagandístico de Fox News “Fatos podem ser desmentidos. Opiniões não!” aplica-se a alguns, mas definitivamente não serve a todos. Por quê? Para usar uma famosa frase de Bertolt Brecht: porque “o homem tem um defeito básico: ele pensa”.

Notas:

(1) Creation Museum – Petersburg, Kentucky

[2] Katchanovski, Ivan. The “Snipers’ Massacre” on the Maidan in Ukraine – 20/2/2015.

[3] Rothoct, Andred. Ukraine Used Cluster Bombs, Evidence Indicates, New York Times, 20/10/2014.

[4] Khlebnikov, Alexey. Russia is now monitoring the world’s mass media for bias. Russia Direct. 25/2/2015.

[5] Jalil, Justin e J.A. Gross. Vlad the beheader: CNN apologizes for Putin gaffe, The Times of Israel, 1/3/2015.

[6] Stengel, Richard. Person of the Year 2007: Choosing Order Before Freedom, Time, 19/12/ 2007.

[7] RT reaches 700MN viewers worldwide. Rapid TV News. 11/9/2014.

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