14 de abril de 2015

2044 ou fracasso

Missões militares atingiram níveis recorde após EUA permanecer na África por décadas

Nick Turse

Tom Dispatch

Tradução / Entre 13 e 15 de janeiro, representantes dos Estados Unidos e também da França, Noruega, Dinamarca, Alemanha e do Canadá – 13 nações ao todo – se reuniram na base norte-americana da Força Aérea dos EUA em Tampa (Flórida) para um exercício militar com o codinome de Silent Quest 15-1. O jogo de guerra centrou-se em um levante imaginário de um grupo apelidado de “Estado Islâmico da África” e a expansão de suas partes de “proto-califado” da Nigéria, Níger e Camarões.

O cenário fictício no qual eles se encontraram para brincar de guerra foi um amálgama real de uma política externa e desastres contraterrorismo da era pós 11 de Setembro: o crescimento do Boko Haram e do Estado Islâmico.

Silent Quest 15-1 foi apenas um de uma série de exercícios com nomes similares – o primeiro aconteceu em março de 2013 – concebidos para ajudar a traçar operações especiais de intervenções na próxima década. Foi uma versão fictícia de algo bastante real: a expansão das atividades militares dos Estados Unidos e seus aliados na África. Ao falar do continente, Matt Pascual, funcionário administrativo do Grupo de Apoio Euro-África do SOCOM (Comando de Operações Especiais dos EUA) e participante do Silent Quest, notou que os Estados Unidos e seus aliados já estavam lidando com uma “miríade de questões” na região e, talvez mais importante do que isso, que muitos dos países participantes “já estão lá”.

Nos últimos anos, os Estados Unidos estiveram envolvidos em uma série de intervenções multinacionais na África, incluindo uma na Líbia que envolveu uma “guerra secreta” e uma campanha convencional de mísseis e ataques aéreos, assistência às forças armadas francesas na República Centro-Africana e no Mali, treinamento e financiamento de oficiais africanos para enfrentar grupos como o Boko Haram na Nigéria, o al-Shabab na Somália e o Ansar al-Dine no Mali. Em 2014, os Estados Unidos realizaram 674 ações militares no continente africano, quase duas missões por dia. Um salto de quase 300% no número anual de operações, exercícios e treinamentos desde que o Comando Militar dos EUA na África (Africom) foi criado em 2008.

Apesar dos resultados negativos desde que a ação militar norte-americana começou a “rondar” a África depois do dia 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos assinaram recentemente um acordo concebido para manter suas tropas no continente até quase meados deste século.

Por anos, o Exército norte-americano insistiu publicamente que seus esforços na África eram insignificantes, deixando a população dos EUA e os próprios africanos sem consciência sobre o tamanho real, escala e escopo de suas operações no continente. Porta-vozes e generais do Africom têm alegado repetidas vezes que se trata apenas de uma “leve ação” no continente. Eles alegam ter apenas uma base na África: Camp Lemonier, no Djibouti. Eles não gostam de falar sobre operações militares. Eles somente fornecem informações sobre uma parte de seus exercícios de treinamento. Eles se recusam a divulgar os locais onde as tropas estão baseadas ou mesmo o número dos países envolvidos.

Durante uma entrevista, um porta-voz do Africom uma vez expressou que somente enumerar quantas ações o comando tem na África seria oferecer uma “imagem distorcida” dos esforços dos EUA no continente. A portas fechadas, no entanto, oficiais do Africom têm afirmado repetidamente que o continente é um “campo de batalha” norte-americano e que eles já estão envolvidos em uma “guerra” factual.

De acordo com cifras divulgadas pelo Comando Militar dos EUA na África, o escopo dessa “guerra” cresceu de forma dramática em 2014. Em sua Declaração de Operações, o Africom relata que conduziu 68 ações no ano passado, representando um aumento em relação às 55 do ano anterior. Esse número inclui as missões de auxílio às tropas francesas e intervenções africanas no Mali e na República Centro-Africana; a operação Observant Compass, um esforço para desmantelar o que resta do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês) na África Central; e a United Assistance, o envio de militares para combater a crise de ebola na África Ocidental.

No ano passado, foram realizados exercícios de militares norte-americanos em conjunto com exércitos africanos em países como Marrocos, Senegal, Camarões e Malaui. O Africom também realizou exercícios de segurança marítima, incluindo operações no Golfo da Guiné e na costa do Senegal, e três semanas de cenários de treinamento de segurança marítima, como parte da operação Phoenix Express 2014, com marinheiros de vários países, incluindo a Argélia, a Itália, a Líbia, o Malta, o Marrocos, a Tunísia e a Turquia.

O número de atividades cooperativas de segurança passou de 481, em 2013, para 595, no ano passado. Tais esforços incluíram treinamento militar em um “programa de parceria entre Estados”, que alia forças militares africanas a unidades da Guarda Nacional dos EUA e à Assistência e Treinamento para Operações de Contingência na África (ACOTA, na sigla em inglês), iniciativa financiada pelo Departamento de Estado dos EUA através da qual conselheiros militares norte-americanos e mentores providenciam equipamentos e treinamento para tropas africanas.

Em 2013, o total de ações norte-americanas combinadas no continente alcançou 546, uma média de mais de uma missão por dia. No ano passado, esse número saltou para 674. Em outras palavras, as tropas norte-americanas conduziram quase duas operações, exercícios ou atividades – de ataques de drones a instruções de contrainsurgência, coleta de inteligência e treinamento de pontaria – em algum lugar no continente a cada dia de 2014. Isso representa um significativo aumento das 172 “missões, atividades, programas e exercícios” que o Africom herdou de outros comandos quando começou suas operações em 2008.

Em 2000, um relatório preparado sob a supervisão do Instituto de Estudos Estratégicos da Faculdade de Guerra do Exército dos EUA analisou o “panorama de segurança africano”. Embora ele mencionasse “movimentos insurgentes e separatistas” em “estados frágeis”, não havia nenhuma menção ao extremismo islâmico ou a ameaças terroristas internacionais.

Antes de 2001, de fato, os Estados Unidos não reconheciam quaisquer organizações terroristas na África Subsaariana, e um militar sênior do Pentágono observou em 2002 que os militantes islâmicos do continente “não estavam envolvidos em atos terroristas fora da Somália”.

Na esteira do 11 de Setembro, antes mesmo de o Africom ser criado, os Estados Unidos começaram a intensificar operações pelo continente em um esforço para assegurar as capacidades dos aliados do país no combate ao terrorismo e isolar a África de grupos terroristas internacionais. O continente, em outras palavras, era visto como um campo de experimentos para prevenção ao terror.

Bilhões de dólares foram investidos para construir bases na África, armar aliados, reunir inteligência, assassinar supostos militantes e conduzir missões militares – e nada teve o efeito desejado. No ano passado, por exemplo, militantes somalis “tanto planejaram como executaram crescentes e complexos ataques mortais na Somália, no Quênia, em Uganda, em Djibouti e na Etiópia”, segundo o próprio Africom. Em março desse ano, esses mesmos militantes do al-Shabab assumiram a autoria de um atentado que matou 148 pessoas – a maioria estudantes – na universidade de Garissa, no Quênia.

A expansão do al-Shabab não foi a exceção à regra na África. Em depoimento concedido no fim de março diante do Comitê de Serviços Armados do Senado, o general David Rodriguez citou os nomes de vários grupos terroristas que surgiram e se expandiram nos anos de intervenção norte-americana no continente – Al-Qaeda, Ansar al-Sharia, al-Murabitun, Boko Haram, Estado Islâmico – desestabilizando vários países com quem os EUA têm tentado manter laços estreitos – Nigéria, Mali, Tunísia, Líbia, Camarões, Chade, República Centro-Africana e República Democrática do Congo .

Essa é a avaliação do próprio Africom no continente onde o órgão tem focado seus esforços há quase uma década. Nesse contexto, vale a pena enfatizar que, antes dos EUA aumentarem seus esforços, a África era – segundo Washington – relativamente livre de grupos terroristas islâmicos internacionais.

Apesar de o Boko Haram declarar aliança ao Estado Islâmico, não há atualmente nenhum Estado Islâmico na África. Mas o jogo de guerra ensaiado em janeiro nos EUA contra um grupo fictício está longe de ser fantasia, representando o próximo passo lógico em uma série de operações que estão ganhando força desde a fundação do Africom. E no depoimento do general está a sinalização da continuação dessa trajetória até os anos 2040.

Em maio de 2014, os Estados Unidos chegaram a um acordo com o governo de Djibouti que assegura sua presença no país até 2044. Oficiais do Africom estão discutindo sobre a possibilidade de construir uma série de postos avançados no norte do continente. Além disso, ao longo dos últimos anos, minibases e campos aéreos surgiram em vários países da região, como Senegal, Mali, Burkina Faso, Nigéria, República Centro-Africana, Sudão, Uganda, Quênia e Etiópia – e no Chade, onde o Africom recentemente construiu instalações temporárias para um exercício de operação especial.

O exercício Silent Quest 15-1 foi concebido como um modelo para demonstrar como Washington vai conduzir operações especiais de guerra na África. E o acordo com Djibouti indica que o Exército dos EUA está começando a planejar para além da metade deste século. Mas os últimos seis anos, marcados por um aumento de 300% nas missões dos EUA e pela expansão de grupos terroristas na África, indicam, de alguma forma, que os resultados desses esforços não tendem a agradar Washington.

O general David Rodriguez do Africom cita em seu depoimento “progresso em várias áreas através de cooperações estreitas com nossos aliados e parceiros”. Sua avaliação da situação, no entanto, não é otimista. “Onde nossos interesses nacionais nos obrigam a intensificar as operações para alcançar ganhos de segurança coletivos, nós teremos de fazer mais – seja capacitando nossos aliados e parceiros, seja atuando unilateralmente”, disse Rodriguez diante da Comissão do Senado.

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