22 de abril de 2015

A desastrosa guerra da Arábia Saudita no Iêmen

Tornando o Iêmen terreno fértil para a Al-Qaeda na Península Arábica

Michael Horton

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Nas três décadas de conflitos no Oriente Médio, a guerra da Arábia Saudita no Iêmen pode ser a mais insensata de todas. A “Operação Tempestade Decisiva”, nome irônico da campanha aérea da Arábia Saudita no Iêmen, não levou a qualquer alteração decisiva no país, para além de garantir que o Iêmen continue a ser um Estado fracassado e terreno fértil para organizações como a Al-Qaeda na Península Arábica. Muito antes do início da “Operação Tempestade Decisiva”, o Iêmen, o país mais pobre do Oriente Médio, debatia-se com um conjunto de problemas que vão da severa falta de água, da insegurança alimentar e de uma economia moribunda, a uma antiga insurgência em múltiplas frentes. A guerra desencadeada pelos sauditas no Iêmen exacerbou todos estes problemas e pode mesmo ter sido o golpe de misericórdia a um Iêmen unificado e relativamente estável.

Em 21 de abril, o governo da Arábia Saudita anunciou abruptamente que punha fim à “Operação Tempestade Decisiva” e retrocedia da campanha aérea no Iêmen. A “Operação Tempestade Decisiva” será substituída pela “Operação Restaurar a Esperança”, um nome infeliz para uma operação militar, porque foi também o nome da desastrada intervenção dos Estados Unidos na Somália. Não é claro o objetivo que visa a “Operação Restaurar a Esperança”; contudo, a primeira fase da guerra da Arábia Saudita no Iêmen teve muito maus resultados.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de 900 pessoas morreram no Iêmen desde que a campanha aérea começou em 25 de março. Além disso, 150 mil iemenitas tiveram de abandonar as suas casas e o número de pessoas em insegurança alimentar aumentou para mais de 12 milhões. Devido ao atual bloqueio dos portos – o Iêmen importa mais de 90% da sua comida – os preços dos produtos básicos da alimentação dispararam e há uma escassez generalizada. Em Aden, onde as temperaturas habitualmente são altíssimas, a maioria da cidade de mais de 500 mil habitantes não tem acesso à água. Pelo país, está esgotado o abastecimento de gasolina e de gás. Os hospitais, que já lutavam com a falta de medicamentos e de gêneros, têm agora pouco ou nenhum combustível para manter o funcionamento dos geradores. Os pacientes internados nas Unidades de Tratamentos Intensivos irão provavelmente morrer, porque os equipamentos de suporte à vida não funcionam por falta de eletricidade.

A Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) foi, até agora, a única beneficiária desta guerra. No sudoeste do país, na governadoria de Hadramawt, a Al-Qaeda na Península Arábica tomou a quinta maior cidade do país, Mukalla, e assumiu também o controle do aeroporto e do porto da cidade. A “Operação Tempestade Decisiva” tomou os houtis como alvo, uma milícia zaidista inimiga jurada da Al-Qaeda. Os bombardeamentos aéreos praticados pela Arábia Saudita também procuraram atingir os elementos das Forças Armadas iemenitas que são aliados dos houtis e do ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh. Estas mesmas unidades militares, incluindo a Força Aérea iemenita, que foi quase totalmente destruída, eram também decisivas para combater a AQPA e os seus aliados. A “Operação Tempestade Decisiva” neutralizou as duas forças responsáveis por impedir o avanço da AQPA através de amplas regiões do Iêmen oriental e do Sul.

Que esperavam conseguir os sauditas com a “Operação Tempestade Decisiva”? O governo da Arábia Saudita alegou que o objetivo da sua operação militar contra o Iêmen era restaurar o hoje exilado governo do presidente iemenita Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, que fugiu do Iêmen para a Arábia Saudita a 25 de março.

Porém, o regresso do governo de Hadi, que tinha pouco apoio antes de ter abertamente pedido aos sauditas e seus parceiros para bombardearem o seu próprio país, parece improvável. Hadi, durante muito tempo o vice-presidente de Saleh, foi escolhido para este cargo por uma razão: não tem base no Iêmen. É do Sul e não tem ligações com as poderosas tribos baseadas no Norte. Sendo do Sul, alinhou com Saleh e com o Norte na guerra civil de 1994, e é visto como um traidor por muitos no Sul.

Também é importante notar que os chamados apoiadores de Hadi que estão a combater as milícias houti e os seus aliados no Iêmen do Sul, lutam sob a bandeira da República Democrática Popular do Iêmen. A maioria dos que combatem em Aden e outras cidades do Sul não o fazem por Hadi, mas pela independência em relação ao Norte, devido a uma longa lista de queixas não resolvidas. Até uns poucos meses antes da sua partida para a Arábia Saudita, as forças de segurança sob o controle de Hadi perseguiam e prendiam militantes do al-Hirak, o Movimento Separatista do Sul.

O segundo objetivo da campanha aérea saudita era forçar o desarmamento dos houtis, tão improvável de alcançar quanto a restauração do governo de Hadi. Os houtis travaram seis guerras contra as Forças Armadas iemenitas desde 2004 e combateram com sucesso as forças sauditas em 2009-2010. Apesar de a guerra aérea saudita ter destruído algumas das capacidades militares houtis e de ter podido provocar a perda do apoio limitado, já de si discutível, que eles e os seus aliados tinham, de forma alguma os derrotou, pelo contrário.

Depois de bombardearem o Iêmen durante quase um mês, acendendo o que pode vir a ser uma guerra civil prolongada, o governo da Arábia Saudita pode finalmente ter chegado à conclusão de que a única forma de avançar é pelo diálogo e a negociação. Nenhuma facção ou partido iemenita é capaz de assumir o controle do país, mesmo com o apoio de uma potência regional, seja a Arábia Saudita ou o Irã. O ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh, mestre da política maquiavélica e com um enciclopédico conhecimento das tribos e clãs iemenitas, nunca foi capaz de exercer o controle total sobre o Iêmen. Durante grande parte dos 33 anos em que esteve no poder, Saleh era ironicamente chamado de “o presidente da câmara de Sana”, porque o exercício do seu mandato não ia muito além da capital iemenita. Sob muitos aspetos, o Iêmen pode ser descrito como um “asilo de liberdade”. Historicamente, o poder foi disperso por várias facções. Esta dispersão de poder milita contra a existência de uma autoridade forte e centralizada.

Numa entrevista à Russia Today em 19 de abril, Jamal Benomar, que renunciou ao cargo de conselheiro especial para o Iêmen três dias antes, afirmou que as negociações entre todos os partidos estavam em curso e aproximavam-se com êxito de uma conclusão interina antes que começasse o bombardeamento do Iêmen. Num discurso em 19 de abril, o líder houti, Abdul Malek al-Houthi, descartou a rendição mas disse que mantinha a abertura para negociações. O Congresso Geral do Povo, o partido que governara antes o país, e o seu ex-líder, Ali Abdullah Saleh, fizeram um apelo a que fossem retomadas as negociações.

O Iêmen tem um rico conjunto de tradições que, quando as deixam funcionar, podem limitar os conflitos e favorecer acordos negociados. Estas tradições foram postas em evidência durante o levantamento popular de 2011, o qual, apesar de violento, não levaram, na altura, ao tipo de guerras civis violentas e brutais que submergiram a Líbia e a Síria. A guerra da Arábia Saudita no Iêmen, se continuar, pode abalar muitas destas tradições e fazer do Iêmen a próxima Síria ou Líbia. No mínimo, a guerra já levou à morte de centenas de civis, destruiu importantes infraestruturas, empobreceu milhares de iemenitas e permitiu que a Al-Qaeda da Península Arábica expanda dramaticamente as áreas sob o seu controle.

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